segunda-feira, 2 de julho de 2012

Joseph Déjacque: "A Humanisfera - Utopia Anárquica" (1857). Trechos sobre o comunismo futuro

Trechos de "A Humanisfera":
Introdução
Sobre o comunismo futuro
Sobre a transição revolucionária
Sobre as suas influências







Trechos de "L'HUMANISPHERE. UTOPIE ANARCHIQUE" (A Humanisfera - Utopia Anarquista), 1857,  sobre o comunismo libertário futuro:  



MOTIVO DA UTOPIA


"A ausência de ordens, eis a verdadeira ordem." LE LIBERTAIRE n°12: 7 de abril de 1859

"A ordem com a adaga ou o canhão, com a forca ou a guilhotina; (...) a ordem personificada na trindade homicida: ferro, ouro e água benta; a ordem à golpes de fuzil, à golpes de bíblias, à golpes de  notas bancárias (...) não é senão lei de bandidos, o código do roubo e do assassinato que preside a partilha do butim e o massacre das vítimas. É sobre esse pivô sangrento que gira o mundo civilizado.” LE LIBERTAIRE n°12: 7 de abril de 1859

“Invalidar a autoridade e criticar seus atos não basta. Uma negação, para ser absoluta, necessita de se completar com uma afirmação. É por isso que eu afirmo a liberdade, é por isso que deduzo as suas consequências. “ LE LIBERTAIRE n°1: 9 junho de 1858

“Para mim, a questão não é fazer discípulos, mas fazer homens, e alguém é homem apenas com a condição de ser ele mesmo. Incorporemos as idéias dos outros e encarnemos nossas idéias nos outros; nada melhor do que misturar nossos pensamentos; mas façamos desta mistura uma concepção nossa. Sejamos uma obra original e não uma cópia. O escravo se modela no seu mestre, ele imita. O homem livre não produz senão seu tipo, ele cria.


Meu plano é fazer um retrato da sociedade do modo como ela me parece no futuro: a liberdade individual fluindo anarquicamente na comunidade social e produzindo a harmonia.” LE LIBERTAIRE n°1: 9 junho de 1858


“Os pesquisadores da felicidade ideal, assim como os pesquisadores da pedra filosofal, não poderão talvez nunca realizar sua utopia de uma maneira absoluta, mas sua utopia será a causa do progresso humano.” LE LIBERTAIRE n°6: 21 de setembro de 1858


"Tenho apenas uma face, mas esta face é móvel como a fisionomia da onda; ao menor sopro, ela passa de uma expressão à outra, da calma à tempestade e da cólera à ternura.  É por isso que, como passionalidade múltipla, espero tratar da sociedade humana com alguma chance de sucesso, visto que, para tratá-la adequadamente, é preciso tanto conhecer as próprias paixões quando as dos outros."  LE LIBERTAIRE n°1 9 de junho de 1958




PAIXÕES,  ATRAÇÕES E INCLINAÇÕES: HOMEM, COSMO, ANARQUIA



“O homem é um ser essencialmente revolucionário. Ele não sabe se imobilizar num lugar. Ele não vive a vida dos limites, mas a vida dos astros.” LE LIBERTAIRE n°6: 21 de setembro de 1858


" [Os] globos circulam livremente no éter, ora atraídos gentilmente por um, ora repelidos com doçura por outro, todos obedecendo somente a sua paixão, e encontrando na sua paixão a lei de sua harmonia móvel e perpétua, (...)  e demonstram por uma argumentação sem réplica que (...) a ordem anárquica é a ordem universal.  (...) Do mesmo modo que as esferas circulam anarquicamente na universalidade, também os homens devem circular anarquicamente na humanidade, sob a única impulsão das simpatias e das antipatias, das atrações e das repulsões recíprocas. A harmonia não pode existir senão pela anarquia.”   LE LIBERTAIRE n°4: 2 de agosto de 1858


E NO ANO DE 2858...


“Dez séculos se passaram diante da Humanidade. Estamos no ano de 2858.” LE LIBERTAIRE n°6: 21 de setembro de 1858


"A utopia anarquista é para a civilização o que a civilização é para a selvageria." LE LIBERTAIRE n°6: 21 de setembro de 1858

“O ar, o fogo, a água, todos os elementos com instintos destruidores foram dominados. (...) O homem trona sobre as máquinas de trabalho, ele já não fertiliza mais o campo com o suor de seu corpo, mas com o suor da locomotiva. (...) As estradas de ferro, as pontes lançadas sobre os estreitos e os túneis submarinos, as construções subaquáticas e os aerostatos, movidos pela eletricidade, fizeram de todo o globo uma única cidade que se pode atravessar em menos de um dia. Os continentes são os bairros ou distritos da cidade universal.” LE LIBERTAIRE n°7: 25 de outubro de 1858


“A ciência destruiu o que é mais repugnante na produção, e são as máquinas a vapor ou elétricas que se encarregam de todas as tarefas grosseiras.” LE LIBERTAIRE n°10: 5 de fevereiro de 1859


“De agora em diante eu chamarei esse lugar ou falanstério de Humanisfera, por causa da analogia dessa constelação humana com o agrupamento e o movimento das estrelas, organização gravitacional, anarquia passional e harmônica. (...) Cem humanisferas simples (...) formam o primeiro elo da corrente serial e toma o nome de “Humanisfera Comunal”. Todas as humanisferas comunais de um mesmo continente formam a (...) “Humanisfera continental”. A reunião de todas as humanisferas continentais forma o complemento da corrente serial e tem o nome de “Humanisfera universal.” LE LIBERTAIRE n°9: 10 de janeiro de 1859


“[Ali, todos] sabem que a harmonia só pode existir pelo concurso das vontades individuais, que a lei natural das atrações é a lei tanto do infinitamente pequeno quanto do infinitamente grande, que nada que é social pode se mover sem ela, que ela é o pensamento universal, a unidade das unidades, a esfera das esferas, que ela é imanente e permanentemente em eterno movimento;” LE LIBERTAIRE n°7: 25 de outubro de 1858


NADA DE GOVERNO


“Na Humanisfera, nada de governo. Uma organização atrativa toma o lugar da legislação. A liberdade soberanamente individual preside a todas as decisões coletivas. A autoridade da anarquia, a ausência de toda ditadura do número ou da força substitui o arbítrio da autoridade,  o despotismo da espada e o despotismo da lei. A fé em si mesmo é toda a religião dos humanisferianos. Os deuses e os padres, as superstições religiosas levantam entre eles uma reprovação universal. Eles não conhecem nem teocracia nem aristocracia de nenhum tipo, mas apenas autonomia individual. Cada um se governa por suas próprias leis e é por esse governo de cada um por si mesmo que é formada a ordem social.” LE LIBERTAIRE n°12: 7 de abril de 1859



“Hoje em dia, uma multidão – mesmo aqueles que são partidários de grandes reformas – pensa que nada pode ser alcançado exceto por autoridade, enquanto que apenas o contrário é verdade. É a autoridade que faz obstáculo a tudo. O progresso nas idéias não é imposto por decretos, ele resulta do ensino livre e espontâneo dos homens e das coisas. O ensino obrigatório é um contrassenso. (...) os anarquistas querem a liberdade de ensino para ter o ensino da liberdade. A ignorância é o que há de mais antitético à natureza humana. O homem, em todos os momentos de sua vida, e sobretudo a criança, não quer nada mais do que aprender; isto é solicitado por todas as suas aspirações. Mas a sociedade civilizada, assim como a sociedade bárbara e a sociedade selvagem, longe de facilitar o desenvolvimento de suas aptidões só sabe cuidar de lhe reprimir. A manifestação de suas faculdades lhe é imputada como crime: para a criança, pela autoridade paterna; para o homem, pela autoridade governamental.”  LE LIBERTAIRE n°9: 10 de janeiro de 1859


"A coerção é a mãe de todos os vícios. Por isso, é banida pela razão do território da humanisfera. O egoísmo, naturalmente, o egoísmo inteligente é muito desenvolvido para que alguém pense em forçar seu próximo. É por egoísmo que eles trocam bons atos.” LE LIBERTAIRE n°11: 6 de março de 1859


COMUNISMO - PRODUÇÃO E CONSUMO LIVRES

“Ali, nessa sociedade anárquica, a família e a propriedade legais são instituições mortas, hieróglifos cujo sentido se perdeu. LE LIBERTAIRE n°8: 20 de novembro de 1858


"Tudo que é obra da mão e da inteligência, tudo que é objeto de produção e de consumo, capital comum, propriedade coletiva, PERTENCE A TODOS E A CADA UM. Tudo que é obra do coração, tudo que é da essência íntima, sensação e sentimento individuais, capital particular, propriedade corporal, tudo aquilo que é homem enfim, na sua acepção própria, seja qual for a sua idade ou sexo, PERTENCE A SI MESMO. Produtores e consumidores produzem e consomem como lhes apraz, quando lhes apraz e onde lhes apraz. “A liberdade é livre.” Ninguém pergunta: por que isto? Por que aquilo?” LE LIBERTAIRE n°8: 20 de novembro de 1858

“Na anarquia, o consumo alimenta a si mesmo pela produção. Um humanisferiano não compreenderia que se possa forçar um homem para trabalhar como não compreende que se possa forçar um homem a se alimentar.(...)
Os humanisferianos satisfazem naturalmente a necessidade de exercício do braço tanto como a necessidade do exercício do ventre. Não é mais possível racionar o apetite da produção, assim como também não é mais possível racionar o apetite do consumo. Cada um consome e produz conforme as suas capacidades, conforme as suas necessidades. Se todos os homens se curvassem sob uma retribuição uniforme, isso faria uns esfomearem e outros morrerem de indigestão. Somente o indivíduo é capaz de saber a dose de trabalho que sua barriga, seu cérebro e suas mãos podem digerir. Quando é dado ração a um cavalo num estábulo, o mestre dá ao animal doméstico esta ou aquela nutrição. Mas em liberdade, o animal raciona a si mesmo, e o instinto lhe diz melhor do que o mestre o que convém ao seu temperamento. Os animais indomados quase não conhecem doença. Tendo tudo em profusão, eles não brigam mais entre si para arrancar um broto de erva. Eles sabem que a pradaria selvagem produz mais pasto do que podem comer, e eles comem em paz uns ao lado dos outros. Por que os homens brigariam para consumir quando a produção, pelas forças mecânicas, fornece além de suas necessidades?”LE LIBERTAIRE n°12: 7 de abril de 1859


“O maior gozo do homem, o trabalho, se tornou uma série de atrações pela  liberdade e diversidade deles, e repercutem um no outro numa imensa e incessante harmonia.” LE LIBERTAIRE n°10: 5 de fevereiro de 1859


 “A variedade de gozos exclui a saciedade. Para eles, a felicidade está em todos os instantes.” LE LIBERTAIRE n°11: 6 de março de 1859


“O homem propõe e o homem dispõe. Da diversidade dos desejos resulta a harmonia.” LE LIBERTAIRE n°11: 6 de março de 1859


“Falta num canto da Europa os produtos de outro continente? Os jornais da Humanisfera o mencionam, é inserido no boletim de publicidade, esse monitor da universalidade anárquica; e as Humanisferas da Ásia, da África, da América ou da Oceania expedem o produto solicitado. É, pelo contrário, um produto europeu que está faltando na Ásia, na África, na América ou na Oceania? As Humanisferas da Europa o expedem. A troca ocorre naturalmente e não arbitrariamente. Assim, se tal Humanisfera doa mais um dia e recebe menos, qual o problema? Amanhã é ela sem dúvida que receberá mais e doará menos. Tudo pertence à todos, e como cada um pode se mudar de Humanisfera como muda de apartamento, se na circulação universal uma coisa estiver aqui ou ali, para que mesquinharia? Cada um não é livre para fazê-la transportar para onde lhe parecer melhor do mesmo modo que cada um é livre para transportar a si mesmo para onde lhe parecer melhor? “ LE LIBERTAIRE n°12: 7 de abril de 1859


“Um humanisferiano não somente pensa e age simultaneamente, mas também exerce  diferentes atividades num mesmo dia.(...)
Quando ele é um operário inferior nisto, ele é operário superior naquilo. Ele tem uma especialidade em que ele é excelente. É justamente esta inferioridade e esta superioridade de uns para os outros e vice versa que produz harmonia. Não custa nada se submeter à uma tal superioridade, que não é oficial, mas reconhecida num ofício, quando num outro momento e num outro instante da produção, esta superioridade se torna a tua inferioridade. Isso cria uma emulação salutar, uma reciprocidade benevolente, que destrói rivalidades invejosas. Então, por esses trabalhos diversos, o homem adquire a posse de, mais do que objetos de comparação, de sua inteligência, que se multiplica assim como as suas aptidões; trata-se de um estudo perpétuo e diversificado que desenvolve neles todas as faculdades físicas e intelectuais, e do qual se beneficiam ao se aperfeiçoar na sua atividade predileta.” LE LIBERTAIRE n°13: 12 de maio de 1859



MATERIALISMO  ESPINOSISTA 


"[...] o corpo social, assim como o corpo humano, não é um escravo inerte do pensamento, muito pelo contrário, é uma espécie de alambique animado cuja livre função dos órgãos produz o pensamento; o pensamento nada mais é do que a quintessência dessa anarquia da evolução cuja unidade é causada somente por suas forças atrativas."  LE LIBERTAIRE n°4: 2 de agosto de 1858

"Para eles, toda matéria é animada; eles não crêem na dualidade da alma e do corpo, eles não reconhecem senão a unidade da substância; simplesmente, esta substância adquire mil e uma formas; ela pode ser mais ou menos grosseira, mais ou menos apurada, mais ou menos sólida ou mais ou menos volátil. Mesmo que se admita, dizem eles, que a alma seja algo distinto do corpo – o que tudo nega -, seria ainda absurdo crer na sua imortalidade individual, na sua personalidade eternamente compacta, na sua imobilização indestrutível. A lei de composição e decomposição que rege os corpos, e que é a lei universal, também é a lei das almas."   LE LIBERTAIRE n°15: 27 de julho de 1859

“Ao contrário de Gall e de Lavater, que tomaram o efeito pela causa, eles [os humanisferianos] não crêem que o homem nasça com as aptidões absolutamente marcadas.(...)

Nós todos nascemos com o germe de todas as faculdades (salvo raras exceções: há os doentes mentais e físicos, mas as monstruosidades são fadadas a desaparecer na Harmonia), as circunstâncias exteriores agem diretamente sobre nós. Conforme nossas faculdades são ou foram expostas a sua influência, elas adquirem um desenvolvimento maior ou menor e se formam de uma ou de outra maneira. O aspecto do homem reflete suas inclinações, mas esse aspecto é geralmente muito diferente daquele que ele tinha quando criança."  LE LIBERTAIRE n°13: 12 de maio de 1859


"O meio onde nós vivemos e a diversidade de pontos de vista onde se colocam os homens e que faz com que ninguém possa ver as coisas sob o mesmo aspecto, explicam (...) a diversidade de suas paixões e aptidões.” LE LIBERTAIRE n°13: 12 de maio de 1859


Não existe ser que não seja joguete das circunstâncias, e o homem é como os outros seres. Ele é dependente de sua natureza e da natureza dos objetos ao seu redor, ou melhor, dos seres ao seu redor, pois todos esses objetos tem vozes que falam e modificam constantemente sua educação. Toda a liberdade do homem consiste em satisfazer a sua natureza, em ceder à suas atrações [inclinações].” LE LIBERTAIRE n°3: 16 julho de 1858


"A criança  é um diamante bruto. É polida pela fricção com seus semelhantes, que a talha e a forma como uma jóia social. É, em todas as idades, uma gema cuja pedra de polir é a sociedade e cujo egoísmo é o lapidário. Quanto mais ela está em contato com os outros, mais recebe impressões que multiplicam em seu rosto e em seu coração as facetas da paixão, das quais jorram as  centelhas de sentimento e da inteligência."  LE LIBERTAIRE nº9 10 de janeiro de 1859

MAS COMO SE ASSOCIAM E SE ORGANIZAM?


“Enfim há o lugar onde se encontram para tratar da organização social. É o pequeno cyclideon, clube ou fórum peculiar à Humanisfera. Neste parlamento da anarquia, cada um é o representante de si mesmo e o par dos outros. Ó! É muito diferente do que é entre os civilizados; ali, ninguém perora, ninguém disputa, ninguém vota, ninguém legisla, mas todos, jovens ou velhos, homens ou mulheres, conferem em comum as necessidades da humanisfera. A iniciativa individual concorda ou recusa sua própria palavra, conforme se considere útil ou não falar.  Neste lugar, há um escritório, naturalmente. Com a diferença de que neste escritório não há nenhuma autoridade exceto o livro de estatísticas. Os humanisferianos acham que este é um presidente eminentemente imparcial e de um laconismo extremamente eloquente. É por isso que não querem nenhum outro.” LE LIBERTAIRE n°9: 10 de janeiro de 1859


“O homem propõe e o homem dispõe. Da diversidade dos desejos resulta a harmonia.” LE LIBERTAIRE n°11: 6 de março de 1859


“Mais ou menos a cada semana, se for necessário, há uma reunião na sala de conferências, isto é, no pequeno cyclideon interno. Em razão das grandes obras a executar. Aqueles mais versados nos conhecimentos especificamente em questão tomam a iniciativa da palavra. As estatísticas, os projetos, os planos já tinham aparecido em folhas impressas, nos jornais; e já foram comentados em pequenos grupos; a urgência foi geralmente reconhecida ou recusada por cada um individualmente. Frequentemente há somente uma voz,  voz unânime, de aclamação ou rejeição. Ninguém vota; nunca  a maioria  e nem a minoria fazem a lei. Se esta ou aquela proposta reúne um número suficiente de trabalhadores para executá-la, quer sejam esses trabalhadores a maioria ou a minoria, então a proposta será executada, se for esta a vontade daqueles que aderem a ela. E com frequência acontece que a maioria se une à minoria, ou a minoria à maioria. Como num passeio no campo, alguns propõem ir a Saint-Germain, outros à Meudon, outros ainda à Sceaux, e ainda outros, à Fontainebleau;  as jornadas se dividem; mas no fim das contas cada um cede à atração de se reunir com outros. E todos juntos tomam de comum acordo a mesma rota, sem que nenhuma autoridade exceto o prazer os governe. A atração é toda a lei de sua harmonia. Mas, tanto na partida quanto na jornada, cada um é livre para se abandonar à seu capricho e  deixar o grupo se isso lhe convém,  parar no caminho, se está fatigado, ou retornar, se está com tédio. A coerção é a mãe de todos os vícios. Por isso, é banida pela razão do território da humanisfera. O egoísmo, naturalmente, o egoísmo inteligente é muito desenvolvido para que alguém pense em forçar seu próximo. É por egoísmo que eles trocam bons atos.” LE LIBERTAIRE n°11: 6 de março de 1859


VIVA O EGOÍSMO!


“O homem é o egoísmo; sem egoísmo, o homem não existiria. O egoísmo é o móbil de todas as suas ações, o motor de todos os seus pensamentos.(...)
É para crescer, para aumentar o círculo de sua influência que o homem leva alto a sua face e atira ao longe o seu olhar; é em vista de satisfações pessoais que ele caminha para a conquista de satisfações coletivas. É para si mesmo, como indivíduo, que ele quer participar da efervescência viva da felicidade geral; é para si mesmo que ele fica aflito pelo sofrimento dos outros. Seu egoísmo, sem cessar exigido pelo instinto de sua conservação progressiva e pelo sentimento de solidariedade que o liga a seus semelhantes – seu egoísmo solicita as perpétuas emanações de sua existência na existência dos outros. É isto que a velha sociedade chama impropriamente de devotamento e que não é senão espelhamento [spéculation], espelhamento que é tanto mais humanitário quanto é mais inteligente, que é tanto mais humanicida quanto mais é imbecil.(...)
Humanamente, não é possível fazer um movimento, um gesto da mão, do coração ou do cérebro, sem que a sensação se repercuta de uma pessoa para outra como um choque elétrico. E isso tem lugar no estado de comunidade anárquica, no estado de natureza livre e inteligente.“ LE LIBERTAIRE n°12: 7 de abril de 1859


E OS TRABALHOS MAIS DESAGRADÁVEIS?


“Embora na Humanisfera as máquinas façam todos os trabalhos mais grosseiros, eu penso que ainda há trabalhos mais desagradáveis do que outros, me parece inclusive que há alguns que não são do gosto de ninguém. Porém, estes trabalhos são executados sem nenhuma lei nem regulamento que constranja quem o faz. Como assim?, pergunto eu, que ainda não vê as coisas senão com meus olhos de civilizado. No entanto é bem simples. O que é que torna o trabalho atraente? Nem sempre é a natureza do trabalho mas a condição na qual ele é exercido e a condição do resultado a obter.” LE LIBERTAIRE n°14: 15 de junho de 1859



"Na Humanisfera, alguns trabalhos que por sua natureza me parecem repugnantes encontram porém operários para executá-los com prazer. E a causa disso é a condição na qual são executados. As diferentes séries de trabalhadores são convocadas voluntariamente, como são convocados os homens de uma barricada, e são totalmente livres para permanecer o tempo que quiserem ou para passar a uma outra série ou para outra barricada. Não há chefe apontado nem intitulado. Aqueles que tem mais conhecimento ou aptidão nesse trabalho dirigem naturalmente os outros. Cada um toma a iniciativa mutuamente, conforme se reconheça suas capacidades. Por outro lado, cada um dá sua opinião e recebe a do outro. Há entendimento amigável, não autoridade. Ademais, é raro que não haja mistura de homens e mulheres entre os trabalhadores de uma série.  E o trabalho se dá em condições muito atraentes para que, mesmo que fosse repugnante por si mesmo, não se encontre um certo encanto em cumpri-lo. Em seguida, há a natureza do resultado a obter. Se um trabalho é com efeito indispensável, aqueles à quem ele mais repugna e que se abstém ficarão encantados que outros se encarreguem dele, e  retornarão em afabilidade a esses últimos, com grandes consideração, que é a compensação do serviço que os outros lhe retornaram. Não se pense que os trabalhos mais grosseiros pertençam, entre os humanisferianos, às inteligências inferiores, muito pelo contrário, são as sumidades nas ciências e nas artes que geralmente  se aprazem em fazer esse trabalho penoso. Quanto mais a delicadeza é refinada entre os homens, mais ela torna-os aptos, em certos momentos, aos trabalhos rudes e difíceis, sobretudo quando eles são um sacrifício oferecido em amor à humanidade.(...) O egoísmo é a fonte de todas as virtudes.” LE LIBERTAIRE n°14: 15 de junho de 1859


UMA ÚNICA HUMANIDADE


“Atravessei todos os continente, Europa, Ásia, África, Oceania. Vi muitas fisionomias diferentes, mas vi por toda parte somente uma raça. O cruzamento universal das populações asiáticas, européias, africanas e americanas (os pele-vermelhas); a multiplicação de todos por todos nivelou todas as asperezas de cor e de linguagem. A humanidade é una. No olhar de todo humanisferiano há uma mistura de gentileza e orgulho que tem um estranho encanto. Algo como uma nuvem de fluído magnético envolve toda sua pessoa e ilumina sua face com uma auréola fosforescente.  Sente-se uma inclinação para eles graças a uma atração irresistível. A graça de seus movimentos se soma ainda à beleza de suas formas. A palavra que sai de seus lábios, cada marca de seus suaves pensamentos, é como um perfume que emana. A estatuária não saberia modelar os contornos animados de seus corpos e de seu rosto, e que dão encantos sempre novos a essa vivacidade.” LIBERTAIRE n°15: 27 de julho de 1859


A COMPETIÇÃO COMUNISTA ANÁRQUICA


“(...) havia uma exibição universal dos produtos do gênio humano.(...)

Nesse círculo de obras poéticas da mão e da inteligência foi exposto todo um museu de maravilhas. A agricultura para ali levou suas colheitas, a horticultura, seus frutos, a indústria, seus tecidos, seus móveis, seus adereços, e a ciência levou todas as suas engrenagens, seus mecanismos, suas estatísticas, suas teorias. A arquitetura para ali levou suas plantas, a pintura, os seus quadros, a escultura e a estatuária seus ornamentos e estátuas, a música e a poesia, os mais puros de seus cantos.  Tanto as artes como as ciências puseram ali suas jóias mais ricas.

 Não era um concurso como os nossos concursos. Não tinha nem júri de admissão e nem júri para recompensar com base na voz da sorte ou do voto, nem prêmio [grand prix] garantido por juízes oficiais, nem coroas, nem patentes, nem laureados, nem medalhas. A livre e grande voz pública é o único juiz soberano.  É por prazer a esse poder da opinião que cada um expõe a ela suas obras, e é ela que, passando diante dos produtos de uns e de outros, lhes premia segundo suas aptidões especiais, não com palmas de distinção, mas com admirações mais ou menos vivas, exames mais ou menos atentos, mais ou menos desdenhosos. Assim, seus julgamentos são sempre justos, sempre condenando os menos bravos, sempre louvando os mais valentes, sempre estimulando a emulação, tanto para os frágeis quanto para os fortes. É o grande retificador dos tortos; ela evidencia a todos individualmente se eles seguiram mais ou menos o caminho de sua vocação, se elas são mais ou menos postas de lado; e o futuro se encarrega de confirmar suas observações maternais.  E todas os suas linhas crescem para se superar nessa educação mútua, porque todos têm a orgulhosa ambição de se distinguir igualmente nas suas diversas obras. “ LE LIBERTAIRE n°7: 25 de outubro de 1858


“(...) [N]a Humanisfera, (...) há somente oficinas de prazer e exposições de trabalho, armazéns de ciência e de artes e museus de todas as produções: após ter admirado essas máquinas de ferro cujo móbil é o vapor ou a eletricidade, multidões de engrenagens laboriosas que são para os humanisferianos aquilo que as multidões de proletários ou de escravos são para os civilizados; após ter assistido o movimento não menos admirável daquela engrenagem humana, dessa multidão de trabalhadores livres, mecanismo serial  cujo único móbil é a atração; após ter constatado as maravilhas dessa organização igualitária cuja evolução anárquica produz a harmonia; (...) [depois de tudo isso] como se poderia, diga-me, retornar aos civilizados, como se poderia voltar a viver sob a Lei, esse chicote da autoridade, quando a anarquia, essa lei da liberdade, tem costumes tão puros e doces? Como se poderia considerar como uma coisa tão incomum aquela fraternidade inteligente, e  considerar como normal essa imbecilidade fratricida?” LE LIBERTAIRE n°14: 15 de junho de 1859




Tradução por Humana Esfera, a partir de http://joseph.dejacque.free.fr/libertaire/n01/n01.htm e https://we.riseup.net/jessecohn/experimental-translation-wiki-2. Julho de 2012.

Veja trechos de  Le Humanisphère sobre a transição revolucionária
Veja os trechos de Le Humanisphère onde Déjacque relata suas influências



Outros clássicos que traduzimos:

Sobre a troca (1858) - Joseph Déjacque


Abaixo, "memes" publicados na página Joseph Déjacque, o libertário:














Joseph Déjacque: A Humanisfera - Utopia Anárquica (1857). Trechos sobre a transição revolucionária


Trechos de "A Humanisfera":
Introdução
Sobre o comunismo futuro
Sobre a transição revolucionária
Sobre as suas influências


Trechos de "L'HUMANISPHERE. UTOPIE ANARCHIQUE."  (A Humanisfera - Utopia Anarquista), 1857, sobre a luta do proletariado, o internacionalismo e a transição revolucionária,

“Como o progresso se realizará? Que meios prevalecerão? Qual será a rota escolhida? É isto que é difícil de determinar de uma maneira absoluta.” LIBERTAIRE n°16: 18 de agosto de 1859


“Tudo o que se torna grande e forte inicialmente foi pequeno e frágil. (...) Tudo o que começa com dimensões monstruosas não é um nascimento viável. As enormidades fósseis precederam o nascimento do homem do mesmo modo como as sociedades civilizadas precedem a criação das sociedades harmônicas.” LIBERTAIRE n°16: 18 de agosto de 1859


“Ernest Coeurderoy e Octave Vauthier (...) profetizam a regeneração da sociedade pela invasão dos cossacos das estepes. Para formular esse julgamento, eles se baseiam na analogia que eles vêem entre a nossa sociedade em decadência e a decadência do império romano. (...) Mas não. As condições não são as mesmas. (...)  É dos campos arados, é do fundo das fábricas, é levando, nessas enchentes de homens e de mulheres, a foice e a tocha, o martelo e o fuzil;  é vestido com a roupa do camponês e com a blusa do operário; é com a fome no ventre e a febre no coração, mas sob a condução da Idéia, esse Átila da invasão moderna; é sob o nome genérico de proletariado, rolando suas massas ávidas para os centros luminosos da Cidade utópica; é Paris, Londres, Viena, Berlin, Madrid, Lisboa, Roma, Nápoles que, sublevando em ondas enormes que, estimuladas por seu crescimento insurrecional, irromperão com a torrente devastadora. É com o barulho dessa tempestade social, é na corrente dessa inundação renegeratriz que a Civilização desmoronará em decadência. (...) O que esses bárbaros levarão ao mundo dessa vez é a luz, não as trevas [da idade média]. (....) Onde forem capazes de encontrar um pedaço de terra social, eles plantarão ali a árvore da liberdade. Ali instalarão suas tendas, a nascente tribo dos homens livres. (...) Eles invadirão, passo à passo, ideia com idéia, toda a Europa, do Cáucaso ao vulcão Hekla e de Gilbratar aos montes Urais. Os tiranos lutarão em vão. A Civilização oligárquica deve ceder o terreno para a Anarquia Social. Estando a Europa conquistada e livremente organizada, a América, por sua vez, terá que se socializar. (....) Então, a República Social dos Estados Unidos da Europa atravessará a Oceania e tomará posse dessa nova conquista. Negros e brancos, crioulos e pele-vermelhas então fraternizarão e formarão uma única e mesma raça. Os negricidas e os proletaricidas, os anfíbios do liberalismo e os carnívoros do privilégio vão recuar como crocodilos e ursos diante do progresso da liberdade social.” LIBERTAIRE n°16: 18 de agosto de 1859


“Assim,  o socialismo, inicialmente individual, então comunal, depois nacional, depois Europeu, de ramificação em ramificação e de invasão em invasão, tornar-se-á socialismo universal. E um dia, não se tratará nem da pequena República da França, nem da pequena União Americana, nem mesmo do pequeno Estados Unidos da Europa, mas da verdadeira, da grande  República Social humana, una e indivisível, a República dos homens em estado livre, a República das individualidades unidas do globo.” LIBERTAIRE n°16: 18 de agosto de 1859

Tradução por Humana Esfera, a partir de http://joseph.dejacque.free.fr/libertaire/n01/n01.htm e https://we.riseup.net/jessecohn/experimental-translation-wiki-2. Julho de 2012.



Veja os trechos de Le Humanisphère onde Déjacque relata suas influências



Outros clássicos que traduzimos:

Sobre a troca (1858) - Joseph Déjacque

Joseph Déjacque sobre suas influências: Fourier, 1848 e Proudhon


Dias de Junho, Paris, 1848

Joseph Déjacque foi um proletário que participou da revolução de 1848 em Paris, que foi a primeira tentativa do proletariado de transformação da sociedade. Buscava-se instaurar uma "República Social" (em contraposição à "república política"). Foi preso. Se exilou nos Estados Unidos, em Nova Orleans e Nova Yorque, onde publicou o  jornal Le Libertaire - Journal du Mouvement Social, de 1858 a 1861 (nota: este foi o primeiro registro da palavra libertário, palavra hoje pilhada, falsificada e distorcida  pelos anarco-capitalistas, que inventaram o "libertarianismo" para dizer que a empresa, essa tirania, é "a" liberdade).

Neste jornal ele expôs como série o que é considerado o seu magnum opus "L´Humanisphère. Utopia Anarchique" (A Humanisfera - Utopia Anarquista) . Nele, defende uma utopia que apresenta pela primeira vez em forma escrita inúmeros temas  (mas que certamente eram temas já comuns na fala daqueles que participaram da efervescência de Paris da década de 1840, da qual certamente Marx sofreu influências quando lá esteve em 1844, e cujas semelhanças de temas podem ser vistas nos Manuscritos de Paris) que foram mais tarde essenciais para diversas correntes revolucionárias anarquistas e comunistas (dos anarco-comunistas até a Internacional Situacionista).

A obra  L´Humanisphère é considerada o primeiro texto a sistematizar uma concepção anarquista comunista, em ruptura com o proudhonismo. A diferença entre o anarco-comunismo e  proudhonismo (que, junto com o bakuninismo, mais tarde foi chamado de anarquismo coletivista) é que este último defende a manutenção de alguma forma de assalariamento (remuneração conforme a quantidade de trabalho, o chamado bônus de trabalho, ou remuneração igual para todos), enquanto que os comunistas criticam isso dizendo que qualquer forma de salário (isto é, de mercado) implicaria necessariamente um Estado ou classe que se coloca numa posição acima da população para medir, comparar e remunerar o trabalho de cada um. Numa sociedade sem Estado e sem classes, não pode haver salário (e, portanto, nem dinheiro e nem mercado), porque ninguém poderá estar numa posição acima das relações sociais que lhe permita medir o trabalho dos outros e nem compará-lo. Toda produção será realizada por seu valor intrínseco (sua necessidade ou sua capacidade de satisfazer os desejos humanos) e não mais pela régua alienante da comparação quantitativa (de dinheiro ou de trabalho incorporado nos produtos)  no mercado

O anarco-comunismo, a partir da década de 1880  foi desenvolvido e difundido por, entre outros, Carlo Cafiero, Piotr Kropotkin, Elisée Reclus e Errico Malatesta, se tornando a teoria social predominante no movimento operário de muitos países (Brasil, Argentina, Espanha, por exemplo) até os anos 1920.

No seguinte trecho,  Déjacque expõe as influências que recebeu:


“A astronomia, a física, a química, todas as ciências progrediram. Unicamente a ciência social permaneceu estacionária. Depois de Sócrates, que bebeu a cicuta, e Jesus, que foi crucificado, ela não teve nenhuma luz. Então, das regiões mais imundas da sociedade, em algo muito mais abjeto do que um estábulo, num comércio, nasceu um grande reformador. Fourier acabava de descobrir um novo mundo onde todas as individualidades tinham um valor necessário para a harmonia coletiva. As paixões são os instrumentos desse concerto vivo que tem por arco a fibra das atrações. Dificilmente teria sido possível que Fourier rejeitasse o hábito [froc] por inteiro; pois apesar de tudo, ele conservou de sua educação comercial a tradição burguesa os preconceitos da autoridade e da servidão que o fez desviar da liberdade e da igualdade absolutas, da anarquia.  Porém, é diante desse burguês que descubro a mim mesmo, e eu saúdo nele um inovador, um revolucionário. Enquanto outros burgueses são anões, ele é um gigante. Seu nome permanecerá inscrito na memória da humanidade.

Veio então 1848, e a Europa revolucionária pegou fogo como uma trilha de pólvora. Junho, essa rebelião do século XIX, protestou contra os modernos abusos do novo senhor. A violação do direito ao trabalho e do direito ao amor, a exploração do homem e da mulher pelo ouro sublevou o proletariado e o deixou com armas na mão. A feudalidade do capital treme nas bases. Os altos barões da usura e os baronetes do pequeno comércio se debateram em seus balcões, e do alto de sua plataforma lançaram sobre a insurreição enormes destacamentos militares, enchentes escaldantes de guardas móveis. Numa tática  jesuítica, eles conseguiram esmagar a revolta. Mais de trinta mil rebeldes, homens, mulheres e crianças foram jogados nas masmorras dos quartéis e das casamatas. Inumeráveis prisioneiros foram fuzilados, graças ao engodo de um aviso colocado em todos os ângulos das ruas, aviso que convidava os insurgentes a depor as armas e declarava que não haveria nem vencedores nem vencidos, mas irmãos – irmãos inimigos, queriam dizer! As ruas ficaram repletas de pedaços de cérebros. Os proletários desarmados foram empilhados nas catacumbas de Tuileries, do Hôtel de Ville, da Ecole Militaire, nos estábulos das casernas, nas pedreiras de Ivry, nas fossas do Champ-de-Mars, em todos os esgotos da capital do mundo civilizado, e lá foram massacrados com todos os refinamentos da crueldade!  Os tiros choveram em todas as janelas das ruas, o chumbo caiu nos valões onde – entre os gemidos dos moribundos, os estilhaços de riso da loucura – os proletários eram atolados em urina e sangue, asfixiados pela falta de ar e torturados pela sede e a fome. Os subúrbios foram tratados como na idade média, um lugar tomado de assalto. Os arqueiros da civilização se posicionaram sobre as casas, desceram nos porões, vasculharam todos os cantos e recantos, passando pelo fio da baioneta todos que lhe pareciam suspeitos. Entre as barricadas desmanteladas e no lugar de cada paralelepípedo das ruas era possível colocar uma cabeça de cadáver... Jamais, desde que o mundo é mundo, viu-se semelhante carnificina. (...)

Eles pensaram que afogaram o Socialismo em sangue. Muito pelo contrário! O que lhe deram foi o batismo de fogo! Esmagado em praça pública, ele se refugia nos clubes, nas fábricas, como o cristianismo nas catacumbas, recrutando por toda parte prosélitos.(...)

1848 também teve Proudhon, um outro espírito rebelde, que em seu livro cuspiu a conclusão mortal no rosto da burguesia: “A propriedade é um roubo!” Sem 1848, esta verdade teria permanecido por muito tempo ignorada no fundo de alguma biblioteca privilegiada. 1848 iluminou-a, e lhe deu por quadro a publicidade da imprensa cotidiana, a multiplicidade de clubes a todo o vapor: ela foi gravada no pensamento de cada trabalhador. O grande mérito de Proudhon não é ser sempre lógico, longe disso, mas ter provocado os outros a buscar a lógica. Porém, o homem que disse também: “Deus é o mal, a escravidão é assassinato, a caridade é uma mistificação” e assim por diante; o homem que reivindicou com tanta força a liberdade do homem; esse mesmo homem, ai!, também atacou a liberdade da mulher: ele a baniu da sociedade, ele a decretou fora da humanidade. Proudhon é apenas uma fração do gênio revolucionário;  metade de seu ser está paralisada e, infelizmente, é o lado do coração. Proudhon tem tendências anárquicas, mas não é um anarquista; ele não é humanidade, é masculinidade. Apesar disso, se como reformador há falhas no seu diamante, como agitador ele tem ofuscantes centelhas. De fato, é alguma coisa. E o Mirabeau do Proletariado não tem nada a invejar ao Mirabeau da Burguesia. Ele o ultrapassa de toda a altura de sua inteligência inovadora. Enquanto um só teve um impulso de rebelião, um lampejo, uma chispa que se extingue rapidamente nas trevas da corrupção. O outro fez ressoar golpes de trovão sobre golpes de trovão. Ele não somente ameaçou, ele explodiu a velha ordem social. Nunca homem algum jamais  pulverizou, a sua passagem, tantos séculos de abuso, tantas superstições supostas legítimas.” LE LIBERTAIRE n°5: 31 de agosto de 1858


Tradução por Humana Esfera, a partir de http://joseph.dejacque.free.fr/libertaire/n01/n01.htm e https://we.riseup.net/jessecohn/experimental-translation-wiki-2. Julho de 2012.







Outros clássicos que traduzimos:

Sobre a troca (1858) - Joseph Déjacque





segunda-feira, 11 de junho de 2012

A determinação do acaso e o acaso determinista

O materialismo afirma que tudo consiste em diferenciações em que nada é indiferente a nada. Se existisse  diferença indiferente, os imaterialistas (espiritualistas, idealistas, dualistas, etc.) poderiam estar certos.  No entanto, a única coisa que sabemos é que apenas o nada é indiferente, todo o resto são diferenças diferentes - em suma,  o mundo consiste em diferenciações diferenciantes.

Dizer que as diferenças diferem significa dizer que algo só existe em relação com outros algos, nunca num absoluto. Então, vejamos o que são "relações". A primeira aparência, a mais superficial, das relações é o limite (algo só é algo porque se limita com outros algos, quer dizer, é separado deles), mas esta é sua aparência imediata. O essencial é saber como  algo vem a ser, isto é, saber como e por quê algo existe ao invés de nada, como algo se separa transitoriamente de todo o resto e se torna algo. Em outras palavras, a relação essencial que importa investigar é a determinação.

Além disso, nem toda relação entre algo e outro algo é de limite. O pão não se limita com o trigo que o compõe,  o cérebro não se limita com as células nervosas, como também a mente não se limita com o cérebro, e nem as idéias se limitam com a mente, por exemplo. E no entanto, têm relações e unicamente mediante essas relações eles são diferentes.

Por que algo existe ao invés de nada?

A condição para que algo exista ao invés do nada é não apenas que esse algo seja causado por outro algo, mas que o efeito (algo) influencie a causação (o outro algo) e se torne causa de sua própria sua manutenção, de sua permanência. É o que Baruch Espinosa chamava de conatus.

Exemplo: Uma pedra é um efeito dos minerais que a compõe, mas ela só existe porque o efeito (a própria pedra em sua relação a outras coisas, inclusive outras pedras) afeta suas causas de modo que os minerais continuam mantendo uma certa disposição entre si que impede o esfarelamento da pedra durante o tempo em que existe. A pedra enquanto pedra (efeito) torna-se causa da permanência de suas próprias causas (aglutinação dos minerais) devido à relação dessa pedra com outras pedras e materiais a sua volta, que estão dispostos no lugar de modo a não esfarelá-la.

Assim, em última instância, a determinação de algo é puro acaso. Acaso não significa sem causa e nem indiferença, mas sim que a determinação não é predeterminada, mas, pelo contrário, que ela surge da confluência de diversas determinações simultâneas puramente contingentes e heterogêneas.

Uma "supermente" (o "demônio de Laplace"), dizem, poderia saber todos os encadeamentos causais e prever todos os resultados. Para essa supermente, o acaso não existiria. Mas essa concepção de uma super-alma, ao negar o acaso, não é determinista, mas predeterminista. E também não é materialista, mas dualista, já que supõe a existência de uma super-alma fora e acima do universo causal, isto é, uma diferença indiferente absoluta. Ou seja, é fantasia.

Tudo o que podemos saber só sabemos unicamente através de nossa determinação singular no universo material e nunca por uma mente flutuando indiferentemente acima da matéria que saberia tudo do universo. Desse modo, acaso e determinação engendram-se mutuamente no materialismo.

O novo e sua permanência (surgimento e continuidade / gênese e reprodução)

Quando o acaso gera algo, surge a necessidade, que é a duração desse algo.

Muitas vezes, as causações originais de algo (as causas de sua gênese, de seu surgimento) diferem das causações de sua manutenção (as causas de sua continuidade, de sua reprodução, de sua permanência).

O mundo pulula de causações simultâneas acontecendo a todo instante, mas algo novo só surge quando, por simples coincidência, algumas causações confluem e se sustentam mutuamente nessa confluência, gerando algo diferente. É essa sustentação mútua das determinações que as separa das demais determinações  e as limita com outros algos, dando surgimento a algo novo.

Esse algo novo pode ser tão fortemente mantido separado dos demais algos através dessas determinações mútuas que ele pode continuar se sustentando por causações diferentes das originais (diferentes das causações originais dessas determinações mútuas desse algo).

Exemplos: O surgimento dos seres vivos é um caso paradigmático deste caso (surgimento da separação do meio interno do externo através da vesícula celular e reprodução mediante genes). Também é o caso da acumulação primitiva do capital (a barbárie da separação sangrenta da população dos meios de produção confluiu com o comércio, causando o capital industrial) com relação à reprodução do capital (igualdade e liberdade entre mercadores "civilizados" causa a sujeição do trabalho vivo ao trabalho morto, isto é, o capital). Do mesmo modo, uma nova idéia (um conhecimento, uma percepção ou um desejo) na mente pode se sustentar por razões diferentes das razões que lhe deram origem.

Crescimento e morte

As coisas, se desdobram, e enquanto permanecem, vão se tornando determinação entre outras de um conjunto de determinações mútuas internas de outros algos e assim por diante, através do mundo.

Inevitavelmente, a separação de algo com relação a todo o resto não permanece para sempre. Se permacesse eternamente, seria o caso mais próximo da diferença indiferente defendida pelo imaterialismo. Mas não é o caso.

Algo morre quando  suas determinações mútuas internas tornam-se insuficientes para manter a unidade desse algo  Há dois modos de algo morrer: por crescimento exagerado e por determinações externas agressivas. O crescimento exagerado faz com que o peso da unidade desmorone sobre suas próprias determinações mútuas internas que se tornaram insuficientes. Já no outro modo de morte, as determinações externas agressivas entram em relação com as determinações mútuas internas desagregando-as, fazendo a unidade desmoronar devido aos seus pilares serem puxados por todos os lados.

As determinações externas destrutivas, além disso, podem ser o próprio resultado da ação das determinações mútuas internas, que assim destroem suas próprias condições de existência. Por exemplo, a destruição pelo homem do ecossistema que é a condição de sua prória vida.

Pode ocorrer que um dos produtos das determinações mútuas internas de algo cause o desmoronamento da unidade, sobreviva e lance as bases para que novas determinações mútuas sejam reunidas e formem uma nova unidade diferente da anterior. Exemplos: A morte do comunismo tribal dando lugar à sociedade de castas, assim como a morte desta última dando lugar à sociedade de classes (capitalismo). Também é o caso dos seres vivos (genes, sementes, reprodução), e também dos programas de computadores (que pode ser transferidos para vários computadores).  Mas certamente até esse tipo de continuidade também não dura para sempre.

Conclusão

Não há necessidade da imaterialidade para explicar o acaso e, daí, a liberdade. Como vimos, o acaso é a própria determinação. Logo, pode ser explicado de modo plenamente materialista, isto é, sem precisar recorrer a nenhuma diferença indiferente imaginária.



Humana Esfera, 6/2012



Bibliografia 

  • Lucrécio - Da Natureza das Coisas (De Rerum Natura)
  • Baruch Espinoza - Ética
  •  Jean Meslier - Ateísmo e Revolta, os manuscritos do padre Jean Meslier (Paulo Jonas de Lima Piva)
  • La Mettrie - O Homem-máquina
  • Holbach - Sistema da Natureza
  • Hegel - Fenomenologia do Espírito
  • Marx - Manuscritos econômicos e filosóficos, A Ideologia Alemã, Grundrisse
  • Joseph Déjacque - A humanisfera 
  • Bakunin - Deus e o Estado
  • Michel Serres - O Nascimento da Física no Texto de Lucrécio
  • Deleuze & Guattari - Capitalismo e esquizofrenia, volume I (O Anti Édipo) e II ( Mil Platôs)  

sábado, 12 de maio de 2012

A ética imanente de Protágoras de Abdera


Protágoras : "o homem é a medida de todas as coisas".

então: todo discurso, toda opinião é verdadeira, nenhuma é falsa.

Impossível usar um critério de verdade que não seja nós mesmos, individualmente - as experiências de toda uma vida.

Há então alguma diferença de valor entre discursos, entre opiniões?

Não enquanto discurso "mais verdadeiro" do que outro,

mas

na medida em que a busca por uma vida melhor (seja lá o que se quiser entender por isso) vale por si mesma, e é uma busca universal (ninguém busca uma vida pior para si mesmo),

um discurso que contribui para uma vida melhor ou para vislumbrá-la tem mais valor do que outro que não.

Todos as demais discussões são gastos inúteis de energia.

Apenas as questões "o que é uma vida melhor?" e "como é uma vida melhor"? fazem sentido.

Humana Esfera, 5/2012


quinta-feira, 15 de março de 2012

"Classe média": moralismo paranóico repressivo masoquista


É na praxis que criamos aquilo em que nossos sentidos, habilidades, pensamentos, potencialidades e desejos são descobertos e desfrutados.

Em outras palavras: é ao transformarmos nossas condições materiais de existência que criamos e encontramos a nós mesmos e nossas relações com os outros - nossas potencialidades/desejos e nossas associações.

Porém, quando nossas condições de existência nos são privadas (isto é, são propriedade privada), somos forçados, para existir, a transformar essas condições como algo separado, alienado, - o capital. A praxis se torna um esforço anódino e abstrato (trabalho assalariado), que se submete ao fim sem fim do capital, que é o de se acumular indefinidamente como um poder hostil.

Separados de nossas condições materiais de existência (tornadas capital), produzimos e encontramos os nossos sentidos, habilidades, pensamentos, potencialidades e desejos de modo que adquirem a aparência de serem algo também separado, algo puramente imaterial, incondicionado, dado. A matéria que nós somos (desejos, pensamentos, sensações etc) e a matéria a nossa volta (inclusive as outras pessoas) parecem desvincularem-se, enquanto são reunidos, pelas costas, pelo capital.

Privados desse modo da possibilidade material de compreendermos a nós mesmos como praxis (isto é, nossa individualidade como a confluência ativa de nossas condições de existência), tendemos a atribuir aos indivíduos uma incondicionalidade que tende a levar à paranóia, ao rancor, à competição, ao autoritarismo e à busca de "culpados" para tudo, sem falar do conspiracionismo.

Essa mentalidade reacionária predomina durante a perpetuação do capital, pois é inerente à alienação da população de suas condições materiais, ou seja, inerente à perpetuação do proletariado inerte, que se reconhece apenas como "classe média", um conjunto de compradores e vendedores, pseudo-proprietários que se creem protegidos pelo Estado.

O desejo desvinculado de suas condições materiais, incapaz de produzir seu próprio mundo material e social, investe passivamente a libido em qualquer coisa apresentada pelo capital: a pátria, a família, os objetos de consumo, o salário, o time de futebol, o posto de chefia, o automóvel, a "raça", o "empreendedorismo", a tropa de elite, o exército. É a maneira da "classe média" acreditar-se tão proprietária quanto os capitalistas e também a maneira de distinguirem-se como "superiores" ao extrangeiro, minorias e aos que ganham um salário menor ou que estão na miséria absoluta.

Tudo isso leva a classe média a tender a manifestar seu desejo ativamente apenas como um ódio patológico crônico, um ódio que está sempre em busca de algo para se justificar (moralismo). Uma perturbação qualquer e lá estão eles excretando sua libido sado-masoquista defendendo a tortura, a pena de morte, as câmaras de gás, a demissão do companheiro de trabalho e a expulsão do vizinho que não pagou a prestação da casa. São adeptos ferrenhos da doutrina do livre-arbítrio, a doutrina da culpabilização absoluta dos que eles supõem ter a alma incondicionalmente "má".

A classe média tende a achar que por trás das aparências todos são uns "filhos da puta", bestas feras cujas inter-relações sempre descambarão para o assassinato mútuo, o estupro e o canibalismo se não houver um policial controlando cada ponto do planeta onde uma pessoa encontra outra. A classe média, imaginando que todos são apriori monstros, acha que o melhor a fazer é sempre pisar nos outros e ficar "por cima". Tudo isso em nome da defesa da imaculada família, da proteção da sua suposta propriedade privada mais preciosa, os filhos, contra o mundo cão, razão pela qual idolatram a repressão do estado ou defendem qualquer bando que imponha o terror em nome de alguma suposta "ordem".

A dita classe média parece mais capitalista do que os capitalistas, mais repressora do que o Estado, mais obediente do que o mando do chefe, mais adepta da coerção da concorrência do que o próprio mercado. Mas todo esse exagero doentio não passa de uma compensação imaginária do fato de que seus "integrantes" não possuem nenhum meio de produção, nenhuma propriedade privada, nenhum capital, mas apenas propriedades fictícias: automóvel que depois de pouco tempo não vale mais nada, emprego que logo será perdido, casa que se desgasta a cada dia, objetos de consumo totalmente indesejáveis após sair de moda, filhos que crescem e levam sua própria vida, isso sem falar das ficções no sentido literal da palavra, como a pátria. Na ausência da perspectiva revolucionária de retomar as condições de existêcia numa revolução social mundial, não lhes resta perspectiva senão se agarrar a essas ficções patológicas para manter viva sua libido e não se matar.

Como podemos responder a isso? Evidentemente que a psicoterapia que defendemos consiste em investir o desejo na produção das próprias condições de existência, isto é, a afirmação prática e material de nossos desejos em livre associação com outros, o que implica a supressão da propriedade privada dos meios de produção (abolição do capital, do dinheiro, do Estado, etc.) pela comunidade dos indivíduos livremente associados a nível mundial.

Infelizmente, é preciso reconhecer, essa nossa proposta psicoterápica parece ela mesma também um desejo desvinculado de suas condições materiais, portanto fictícia, já que essa retomada das condições de existência não ocorreu até agora. Mas esta nossa contradição talvez expresse a contradição das próprias condições de existência que o capital produziu e tendem a ultrapassá-lo - essas condições confluem na nossa individualidade comunista e nos permite defender o que defendemos como algo pelo que vale a pena viver e lutar.

humanaesfera, março de 2012

Bibliografia

- A Sociedade do Espetáculo - Guy Debord

Marx comunista individualista! (trechos sobre o indivíduo em Marx)

- Manuscritos econômicos e filosóficos - Marx

- Teses sobre Feuerbach - Marx

- O maquinismo atrativo - a teoria da atração apaixonada (trechos) - Charles Fourier

- O Anti-Édipo - Capitalismo e Esquizofrenia - Deleuze e Guattari

- Autonomia e cotidiano - Espinosa e o imperativo de Kant: "Tratar os outros e a si mesmo como fins, jamais como meios" - humanaesfera




segunda-feira, 21 de novembro de 2011

A Ideologia do status quo

condições de existência coisificadas
A ideologia predominante em nossa sociedade, o "senso comum" (a ideologia do status quo), considera como naturais e neutras as condições de existência, as supõe como uma coisa, um dado coisificado, cujo pensamento ou entendimento é inútil porque as condições são supostas fora da intervenção humana, como algo imutável e incondicionado. Assim, o fato de sermos forçados a vender como uma mercadoria as nossas capacidades de nos manifestamos no mundo, o fato de termos que vender nossa própria potência vital, isto é, o fato de nos vendermos no mercado de trabalho, de sermos forçados a nos exprimir materialmente apenas se formos um objeto sob o ditame do capital, é considerado um fato natural, dado e imutável.

liberdade zumbi e vida morta
A única liberdade concebível pela ideologia do status quo é, por isso, a liberdade que vacila entre dados predeterminados, já que essa é a única liberdade que sempre encontra suas condições como algo dado e imutável. Assim, a máxima liberdade concebível no status quo é a liberdade de livre escolha ou livre arbítrio: a escolha entre dados pré-existentes, escolha entre mercadorias (objetos predefinidos pelo capital), escolha entre o "bem" e o "mal" (conceitos predefinidos por supostas autoridades sobrenaturais ou divinas), escolha entre candidatos numa eleição (pré-escolhidos pela "política")...

A liberdade no senso comum é, desse modo, uma estranha liberdade passiva, consequência do fato de que, em nossa dimensão ativa, a dimensão em que nos manifestamos materialmente no mundo, em que produzimos nossas condições de existência, não somos livres, mas sim uma mercadoria, a força de trabalho, um objeto de consumo do capital.

o rebanho da justa medida
Além disso, há uma dimensão pseudo-prática na ideologia do status quo. Trata-se da ideologia da média, que afirma que o justo meio entre supostos extremos é sempre o ideal: "o melhor é nem ser muito gastador nem muito avarento", "o melhor é nem ser muito religioso e nem muito pecador", "o melhor é nem ser muito extremista e nem muito frouxo" e assim por diante. O vazio flagrante desses "conselhos práticos" repousa no fato de que eles não propõem nenhuma prática, nenhuma transformação, mas apenas um posicionamento passivo num quadro predeterminado de opostos, que na realidade são sempre dois lados da mesma moeda. E, pior ainda, como a "justa medida" é totalmente indeterminada e vazia em termos práticos, o único critério para decidir o que é médio é seguir a média, a mediocridade, o rebanho, a massa amorfa e obediente, em suma, é "fazer o que todo mundo faz".


praxis comunista
Contra a prática zumbi e liberdade escrava do status quo, defendemos a liberdade que abrange suas próprias condições, a liberdade prática e material, isto é, a libertação de nossas condições de existência (os meios de produção e a natureza) das garras do capital, abolindo a propriedade privada para estabelecer uma livre associação de indivíduos que se unem ou desunem conformem seus desejos e necessidades produzidas ao produzirem livremente suas condições de existência.

Humana Esfera, 11/2011

e também:
e

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

O futuro ainda está nas mãos dos proles!

O mercado mundial, desde o século XVIII, liberta de fato a humanidade das relações de sujeição pessoal (senhores/escravos, mestres/servos,  relações de vassalagem etc.),  que eram baseadas na suposta origem divina, ancestral ou hereditária das pessoas.

Antes, as castas, a servidão, a escravidão, as guerras entre tribos, eram mantidas imaginando-se que tivessem origem divina ou cósmica, e do mesmo modo, determinados povos e pessoas eram tratados como destinados à sujeição por motivos míticos, religiosos, hereditários, ou eram supostos serem naturalmente inimigos por ancestralidade (como entre os indígenas sul-americanos).

O mercado mundial emancipa a humanidade desse seu passado horrendo. Isso porque, na troca de mercadorias, não interessa para as partes a origem das pessoas que vendem e compram, o que interessa é o valor da mercadoria que elas negociam. Logo, as relações entre vendedores e compradores minam e destroem as relações de desigualdade e sujeição pessoal que caracterizavam a humanidade em seu passado e as substitui por relações de liberdade e igualdade.

Nossa sociedade, isto é, o mercado mundial, nos faz de fato livres e iguais, mas, evidentemente, não como nós mesmos, não como indivíduos, mas apenas como vendedores e compradores livres e iguais de mercadorias. Se não vendermos nenhuma mercadoria, não conseguiremos dinheiro e, sem dinheiro, não conseguiremos acesso ao que nos permite sobreviver.

Tudo isso parece muito natural. Mas acontece que a quase totalidade da população mundial (e de todos os países) não tem nenhuma mercadoria, nenhuma coisa para oferecer. Eles são os proletários. Sem nenhum objeto para vender e trocar por dinheiro para sobreviver, só lhes resta vender a única coisa que ainda possuem, ou seja, a disposição de seu corpo, com seus atos e pensamentos, para fazer o que o comprador determinar, quer dizer, transformar em uma coisa vendável as suas capacidades humanas, sua potência de pensar e agir no mundo, sua força de trabalho. Em troca, receberão dinheiro - salário -, que, em tese, lhes permitirá sobreviver.

Trocadas por salário, as capacidades humanas compradas são um objeto de consumo ímpar, um objeto que tem a poderosa capacidade de, ao ser consumido, transformar criativamente a natureza. Desse modo, a força de trabalho é uma mercadoria cujo consumo, cujo gasto, dá ao seu comprador a própria potência criativa humana, a própria capacidade humana de mudar o mundo, o mundo em que vivemos, a natureza, em todos os aspectos.

Assim, as capacidades humanas tornam-se uma coisa, e só podem ser exercidas quando alienadas, vendidas, ou seja, apenas quando trocadas por uma dada soma de dinheiro. O dinheiro se torna equivalente à potência humana, enquanto os seres humanos se tornam impotentes como simples seres humanos, impotentes como indivíduos. Portanto, aqueles que mais tiverem dinheiro mais terão sob seu ditame a potência criativa da população, e poderão consumi-la, pô-la para trabalhar, para gerar ainda mais dinheiro, lucro, num círculo de acumulação constante e sem limite. Surge assim o capital - uma relação social que  impulsiona a si mesma a se reproduzir numa expansão sem limites, como se fosse um fato natural, involuntário, coisal, para os indivíduos envolvidos, pois estes pensam estarem apenas se relacionando entre si como pessoas livres e iguais que trocam as coisas entre si. Historicamente, o ponto de partida da expansão foi a Inglaterra do séc. XVIII, e a partir de então, parecendo uma catástrofe natural inevitável, o vírus da ditadura do dinheiro se replicou por toda parte e já na metade do séc. XIX abrangia o mundo inteiro. Eis a gênese do mercado mundial.

Com isso, as relações de sujeição pessoal foram substituídas por relações de sujeição coisal (e até mesmo de um ponto de vista puramente mercantil, com a expansão do mercado mundial, o uso de mão de obra de escravos logo revelou-se incapaz de concorrer frente ao uso de mão de obra proletária, pois o escravo é uma mercadoria cara, cuja propriedade demanda muitos cuidados  e custos que não são necessários quando se emprega proletários, que, se doentes e incapacitados de trabalhar, podem ser demitidos, ao contrário do escravo, que é um patrimônio do senhor e cujo descarte acarretaria grandes prejuízos para ele. Então, em termos de mercado, a compra de força de trabalho, o comércio de capacidades humanas, é incomparavelmente mais lucrativo do que a compra de escravos.)

Para a vida dos proletários, a acumulação do capital é a transformação da natureza por eles mesmos (por seu trabalho) em um mundo cada vez mais alienado deles, um mundo que acumula cada vez mais cercas, muros, um espaço cada vez mais intrincadamente privativo, policiado, isto é, que priva cada vez mais a população de liberdade, fazendo ser cada vez mais obrigatório ter dinheiro para satisfazer o menor desejo humano. É certo que, se fosse possível (felizmente ainda não é), o capital buscaria cercar o próprio ar que respiramos para que tenhamos de trabalhar para ele e pagar pela nossa simples respiração.

Sendo o capital a propriedade privada das condições de existência da população contra a própria população, de modo a fazê-la pagar por existir, o capital precisa de uma imponente instituição repressiva. Trata-se do Estado.

O Estado representa, reconhece, garante e protege a liberdade e a igualdade dos cidadãos, mas, evidentemente, não enquanto eles são simples seres humanos, mas como vendedores e compradores de mercadorias (e isso não muda se o Estado é denominado democrático ou ditatorial, fascista ou socialista). Daí que, para o Estado, há apenas "classes médias".

Foi apenas na década de 1920, sob a ameaça contundente de lutas proletárias internacionalistas (em todos os países industrializados: greves gerais, insurreições de trabalhadores etc.), isto é, sob a ameaça das lutas da própria potência humana mundial contra o capital, que, em cada país, o Estado viu-se forçado, nos anos 1930 aos 1950, a reconhecer os trabalhadores (e os despossuídos em geral) como categoria com direitos próprios, por meio de leis trabalhistas e sistemas de bem estar social (por exemplo, a previdência social, programas alimentares, de saúde universal, educação pública etc.). Naquele momento, conceder esses direitos em todos os países industrializados foi o único meio de acalmar a luta e salvar o capital, que é a razão do Estado. E essa estratégia funcionou. Mas como?

Funcionou porque o proletariado é um ser ambíguo: os proletários são (a) vendedores de uma mercadoria (força de trabalho), tanto como os capitalistas (empresas) vendem mercadorias, e, ao mesmo tempo, (b) eles são a própria potência humana criativa mundial, que o capital, que é a propriedade privada das condições de atuação dessa potência, volta contra os próprios seres humanos como uma força hostil e opressiva que se acumula indefinidamente.

Portanto, a luta dos proletários ocorre sempre na tensão dessa ambiguidade:

a) enquanto vendedores de uma mercadoria determinada - a força de trabalho -, os proletários têm interesse em vender (isto é, conseguir emprego) e valorizar sua mercadoria (isto é, aumentar seu salário e reduzir a carga de trabalho), quer dizer, reduzir proporcionalmente os lucros do capital, que, inversamente, por definição busca aumentar seus lucros, valorizar-se com menos custos. Os trabalhadores, enquanto vendedores concorrentes de força de trabalho, estão sempre em desvantagem frente ao capital, mas a medida que eles percebem que a força de trabalho é a mercadoria por excelência - a mercadoria que gera todas as demais mercadorias -, e à medida que se esforçam por reduzir a concorrência entre si, associando-se e lutando, eles conseguem valorizar sua mercadoria. Mas, como meros vendedores, essa valorização não deve ultrapassar o limite que levaria o comprador, o capital que os paga, à falência ao não ter mais lucros, já que isso tornaria os proletários impossibilitados de vender força de trabalho. Assim eles perpetuam-se como proletários ao afirmarem-se como mercadores, como vendedores de uma mercadoria e compradores/consumidores de outras, como "classe média".

b) enquanto expressão em escala planetária da própria capacidade criativa humana, como potência de pensar e agir internacional, potência de transformar o mundo, os proletários lutam por libertar sua potência humana da sujeição de ter de ser vendida e de ter de exercê-la contra si próprios. Ou seja, lutam por suprimir o capital, a propriedade privada, com o fito de tornar gratuitas as condições da existência humana (suprimindo o totalitarismo do dinheiro, da mercadoria). Buscam pôr livres as condições de atuação de nossas capacidades criativas, para que todos, como indivíduos, como simples seres humanos, possamos nos associar livremente enquanto tais e assim produzir o que nossos desejos, necessidades e sonhos precisam. Neste caso, o proletariado não busca se perpetuar, ele busca se auto-abolir (ao abolir o capital e seu aparato repressivo, o Estado), afirmando-se como uma associação de indivíduos que se relacionam livremente sem fronteiras por todo o planeta.

No funcionamento "normal" de nossa sociedade, o lado dominante da ambiguidade proletária é o de serem mercadores livres e iguais; se tal lado não predominasse, essa sociedade não se sustentaria. Mas, como vimos desde o início, essa igualdade e liberdade de vendedores e compradores é solapada desde o princípio, e o capital busca sempre consumir a mercadoria força de trabalho ao máximo, explorando o proletário até o limite, e se este não se associar e lutar de algum modo, verá seu salário diminuir (p.ex., inflação) e a carga de trabalho aumentar (por ex., concorrendo entre si para ser o mais puxa-saco). A luta só pode ocorrer, portanto, fora da pura relação mercantil de concorrentes, e é na luta que os proletários vão, pouco a pouco, descobrindo que eles mesmos são a força por trás do capital e que, portanto, o capital depende deles, enquanto que, como potência humana, eles não dependem do capital. A organização da luta proletária é invariável: assembléias horizontais e conselhos, cujos representantes são eleitos e revogáveis a qualquer momento nas assembléias de todos os proletários em luta.

Mas tudo depende da correlação de forças. O capital tem a seu lado todas as polícias, todos os exércitos, todas as prisões, todos os tanques, mísseis e porta-aviões, em suma, o capital tem a seu lado todos os Estados da terra; pois o Estado nada mais é do que a propriedade privada armada (não só a propriedade privativa particular como inclusive mesmo a propriedade privativa do próprio Estado, como as empresas estatais), e ele edifica-se e enche-se de políticos e legisladores graças ao financiamento do capital (o Estado deve garantir a infra-estrutura urbana, de transportes, educacional, policial e militar que condiciona a ótima acumulação do capital num território), isto sem falar dos casos em que o próprio Estado incorpora o capital e torna-se ele próprio uma empresa colossal, uma mega propriedade privada do tamanho de um país, como na URSS e Cuba.

Assim, a correlação de forças é esmagadoramente desfavorável para os proletários. Mas há alguma situação em que ela pode ser favorável? Por incrível que pareça, sim, já que o funcionamento do Estado e de seu aparato repressivo também depende de seres humanos que são assalariados, proletários. Nas primeiras décadas do século XX, soldados e marinheiros volta e meia se juntavam à população em luta e davam-lhe armamentos cantando com ela a famosa canção internacionalista que diz:

"Paz entre nós guerra aos senhores
Façamos greve de soldados
Somos irmãos trabalhadores.
Se a corja vil cheia de galas
Nos quer à força canibais
Logo verá que nossas balas
São para os nossos generais."

Todos os direitos democráticos fundamentais que ainda temos hoje (direito de voto universal, educação pública, saúde universal, programas sociais, leis trabalhistas) devemos à luta internacional dos proletários do fim do século XIX e das duas primeiras décadas do século XX, que conseguiram, em diversos momentos, fazer a correlação de forças tornar-se favorável para eles, a ponto de fazer o capital e o Estado perigarem tão intensamente que tiveram de fazer concessões antes consideradas inimagináveis. O Estado, que, por essência é uma tirania implacável sobre a população, isto é, polícia e forças armadas, em suma, defesa sanguinária da propriedade privada, teve que se enfeitar com aparências cada vez mais "democráticas" e "sociais" para manter o capital (seja sob a forma "socialista" ou "particular").


Mas a história não acaba aí. Não nos enganemos com o papo furado das "classes médias". Hoje numa escala muito maior do que no passado, a privação das condições de existência dos seres humanos para eles mesmos continua forçando-os, sob a ameaça de não ter como sobreviver, a ter que vender as capacidades criativas humanas como uma coisa e exercê-las transformando o mundo contra si mesmos. A luta por retomarmos nossas condições de existência, a luta por efetuarmos nossas capacidades como nós mesmos, como indivíduos livres em associação através do mundo, ou seja, a luta pelo fim da propriedade privada (pelo fim do capital e do Estado), continua o projeto social mínimo chamado anarquia, comunismo, livre associação dos produtores. Se ainda podemos imaginar que o mundo tem futuro, o futuro ainda está na mão dos proles!

Humana Esfera, 8/2011



E também:

sábado, 20 de agosto de 2011

O engatilhamento das inércias está na raiz da força?

Anteriormente, no texto Conceito qualitativo de energia, força e inércia, vimos que a interação entre inércias é que determina o que chamamos de força e que o conceito de energia é simplesmente uma estimativa da capacidade de exibir força de um conjunto de inércias numa duração de tempo, isto é, da capacidade das inércias passarem a interagirem entre si a partir de algum instante até outro instante.

Assim, uma bateria elétrica, quando está com seus dois terminais abertos (chave desligada), está impedida de exibir força, ou seja, impedida de iniciar a interação de suas duas inércias químicas internas (íons e cátions, cargas negativas e positivas, perseveram enquanto tais, logo, possuem inércia), mas quando os terminais forem curto-circuitados, as duas inércias se cruzam, interagem, exibindo força e alterando suas inércias reciprocamente, e interagem também com a inércia do metal condutor que causou o curto-circuito, alterando-a, fazendo o metal se aquecer e, talvez até explodir, alterando a seguir as inércias mecânicas de outras coisas em volta da bateria em curto que foram atingida pela explosão.

Mas percebemos que nem todas as inércias interagem indiscriminadamente entre si. Por exemplo, se empurrarmos uma bateria, alteraremos sua inércia mecânica (no vácuo, ela perseverar-se-ia nesse movimento indefinidamente), mas não alteraremos as inércias elétricas que a bateria contém. Parece então que a bateria possui dois "planos" de inércia, o plano das inércias químicas e o plano das inércias mecânicas, que só passam a interagir em situações muito específicas - quando a inércia mecânica de um metal condutor ( ou seja, que também apresenta a inércia química de se perseverar como um metal) leva o próprio metal ao encontro dos terminais da bateria.

Isso nos leva de volta ao caso da mosca que destrói um carro que falamos há quase um ano, no texto Uma arkhé Acidental?. A interação discriminada (isto é, não indiscriminada) entre inércias de planos diferentes parece explicar o "efeito gatilho" ou "efeito fagulha", isto é, a existência de causas que acarretam efeitos desproporcionais, quer dizer, uma causa de pouca força gerar um efeito de grande força na mesma duração de tempo (logo, energia maior), como na explosão da bateria no exemplo anterior que, para ser causada, bastou encostar um metal nos terminais. Não-linearidade causal.

Mas, para que o "efeito gatilho" ocorra, os planos de inércias não precisam ser diferentes entre si (como no exemplo dos planos químico e mecânico). Por exemplo, no próprio plano das inércias mecânicas, o "trombamento" delas (a oportunidade de exibir força) sempre é não-linear, já que duas inércias mecânicas podem trombar ou não, interagir ou não:  uma inércia pode passar "raspando sem encostar" em outra inércia e essa mera diferença espacial "de uma raspinha infinitesimal" impede o choque de acontecer. Perceba: Um infinitésimo de milímetros de distância. É  desproporcional a energia necessária para uma infinitesimal inércia-gatilho tangente poder deslocar uma inércia "só uma raspinha infinitesimal pro lado", ajeitando-a para ir de encontro com outra inércia, em comparação com a energia do choque resultante. E a "raspinha", esse infinitesimal, pode ser também no tempo: um infinitésimo de segundos de atraso determina um choque ou não. Parece que num mesmo plano de inércias, há vários planos internos, angulados, parelos, tangentes, etc, mas o plano máximo dos gatilhos são tangentes. Na realidade, onde quer que passe a haver interação entre inércias em seja qual plano for (mecânico, químico, gravitacional...), a interação, que é a força, ocorre graças ao "efeito gatilho", como não-linearidade. 

E os próprios planos mecânico, químico, gravitacional, etc., formam certamente um mesmo plano universal de inércias, pois só poderiam ser planos independentes se não pudessem  interagir entre si, e consequentemente nem mesmo interagir  com nossos sentidos, o que acarretaria que nunca saberíamos a existência deles, o que seria absurdo, já que só sabemos deles porque sabemos que eles interagem com nossos sentidos.

Talvez a não-linearidade que condiciona toda oportunidade de ocorrência de força seja uma "disposição intrínseca"  do próprio espaço e do tempo, do mesmo modo como a inércia é uma "disposição intrínseca" de perseverar das coisas.


Conclusão: talvez gatilho e inércia sejam os dois fundamentos de tudo o que existe. É o engatilhamento das inércias por si mesmas que produz força, energia e, consequentemente, tudo o mais que existe no universo. O esquema básico, mínimo, para um evento no universo, portanto, envolve, ao menos, três inércias: uma inércia é o gatilho (idealmente tangente) que permite ou impede que outras duas inércias, de proporções totalmente diferentes do gatilho,  venham interagir entre si e exibir força e energia.

Parece que temos agora elementos mais básicos para pensar o que seria a determinação do acaso ou o acaso da determinação, ou acaso necessário.  E talvez eles expliquem o que chamamos de "causalidade" ou "determinação", que é, aliás, o próprio campo sobre o que se aplica o pensamento, já que só pensamos quando buscamos apreender a maneira específica na qual os eventos, coisas, etc. se relacionam e surgem. Um pensamento que não busca a determinação daquilo que pensa pode ser tudo menos um pensamento.

Humana Esfera, 8/2011

    terça-feira, 16 de agosto de 2011

    Algumas implicações epistemológicas e éticas do materialismo

    Axioma básico do materialismo: A matéria é irredutivel à mente.

    Um materialista consequente sabe que suas idéias nunca são correlatos da realidade, pelo contrário, sabendo que seu pensamento é uma matéria, ele sabe que só pode ver o mundo a partir de sua determinação material no universo de matérias, e nunca de um ponto de vista "extraterreno" (como no caso da idéia do demônio de Laplace, como também no caso do racionalismo e dualismo). Se chega a saber, por exemplo, que a terra gira em torno do sol,  ele sabe também que conhece isso porque suas determinações materiais (no caso, novos instrumentos, clima cultural da época...) o capacitam a alcançar esse saber, e não como uma realidade dada "em si" para a mente pensando com seus botões. Todo saber é produzido, materialmente produzido. O saber nunca é um reflexo, nunca é espelho da realidade. O saber é inseparável da praxis.

    Com isso, um materialismo coerente afirma necessariamente que toda posição é fundamentada e verdadeira, na medida em que não existe nada que não seja resultado de determinações. Assim, quaquer idéia, mesmo a idéia de "fantasma" ou de "mula sem cabeça", nunca é resultado de uma mente decidindo livremente escolher o "erro" frente ao "acerto", como ocorreria caso o "livre arbítrio" existisse.

    Em outras palavras: quem afirma qualquer coisa sobre a realidade, por mais absurda ou quimérica que nos pareça essa afirmação, nunca afirma isso por livre arbítrio, mas como um resultado da matéria que essa pessoa é. Consequentemente, se um materialista encontra essa pessoa, esse materialista seria incoerente se ele trata ela como se ela tivesse livre arbítrio, isto é, como se pudesse escolher deliberadamente errar ao invés de acertar, como pareceria para racionalistas/dualistas/religiosos. Ao invés, o materialista, a priori, entende que a pessoa pensa de certo modo porque ela tem razões subjetivas suficientes para pensar assim e, mais ainda, que essas razões não são independentes de razões objetivas suficientes (mesmo inconscientes, pois, se somos matéria, somos também corpo, ação, sensações, desejos e não só consciência) para pensar assim.

    Esse materialismo implica toda uma peculiar prática do conhecimento e debate; o materialista informa seu saber para outros mostrando que ele é materialmente produzido por ele, ao invés de informar a outros seu conhecimento como se fosse um correlato na mente de uma realidade em si dada ao livre arbítrio para livre escolha. Desse modo, ele convida os outros a também produzirem materialmente seus conhecimentos em conjunto, e, nesse encontro, comunicam suas determinações reciprocamente, que podem produzir em ambos razões subjetivas e objetivas suficientes (inclusive inconscientes)  para assumirem outra posição, ou não assumirem, se as razões forem insuficientes.

    A matéria é irredutível à mente. As experiências formam nossas posições e idéias perante a vida. E enquanto nossa mente, sempre limitada, jamais vai abranger com suas idéias a malha infinita de forças materiais que nos determina a sermos o que somos, menos ainda uma pessoa poderá abranger com suas idéias a experiência material que formou as posições e idéias de outras pessoas perante a vida. O materialismo, se for coerente, é humilde e compreensivo.

    humanaesfera, 07/2011

    Conceito qualitativo de energia, força e inércia

    Definições:

    - Inércia é aquilo que faz uma coisa qualquer perseverar em sua velocidade, direção, formato etc.

    - Força é aquilo que altera a inércia (muda velocidade, direção, formato de alguma coisa).

    - Energia é a capacidade de uma força para alterar a inércia.

    Dadas essas definições, e tendo em vista construir uma concepção filosófica/física imanente (i.e. que não recorre a algo fora da física, fora da matéria), fica claro que a inércia é que é "substancial", pois é perseverando em sua velocidade, direção, formato etc. que as coisas são levadas a se cruzarem acidentalmente no espaço e tempo, quando então, nesse cruzamento, as coisas alteram reciprocamente sua velocidade, direção, formato, etc., manifestando assim o que chamamos de força. A inércia é a "causa substancial", enquanto a força é um "efeito acidental".

    Enquanto a inércia é o que faz as coisas perseverarem (em sua velocidade, direção, formato etc.), a energia é a capacidade das coisas (que se perseveram) para se cruzarem acidentalmente e se alterarem reciprocamente, manifestando o que chamamos de força. Como capacidade de exibir força, a energia é apenas um constructo teórico, uma expectativa, a energia não é algo com realidade própria.

    Na troca de energia, a conservação de energia significa apenas que a "capacidade de cruzamento" das coisas, no total, se persevera: ou seja é apenas outra expressão da inércia.

    Resumo/conclusão: 

    Só há força quando há o "cruzamento ao acaso" das inércias das próprias coisas. A força não é algo "intrínseco" a nada, mas relativo, ela é um "acidente", já que as coisas só mostram força quando se encontram com outras coisas, ou seja, quando se "trombam" no espaço graças à própria inércia de cada uma. Em suma: a força só existe quando as inércias se "trombam". Do mesmo modo, a energia não possui substância própria, e não só é relativa, como também é teórica, já que ela é a a nossa expectativa teórica ou estimativa da capacidade maior ou menor para que a inércia de uma coisa qualquer "trombe" com a inércia de outra coisa qualquer. Ao trocar energia, as coisas alteram sua disposição espacial, isto é, mudam sua capacidade de se "trombarem"; algumas ganham mais capacidade e outras perdem, mas no somatória total, a capacidade de se trombarem é conservada, e isso explicaria o princípio de conservação de energia, que seria então mais uma consequência da inércia.

    A inércia é que é fundamental.

    Assim, surgem novos elementos para repensar o que foi dito anteriormente no texto "Uma arkhé Acidental?" . Tarefa futura.

    Humana Esfera, 8/2011

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