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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Dissecando a metafísica da escassez


Anteriormente, criticamos a ideologia da escassez do ponto de vista da transformação da vida cotidiana [1], ou seja, na perspectiva concreta da práxis social-histórica; no entanto, alguns acreditam que, independentemente disso, a escassez continuaria válida como característica inerente ao tempo e ao espaço, como fundamento metafísico (geralmente usam o conceito termodinâmico de "entropia" para fundamentar essa ideia). Com isso, alguns supõem que, nesse universo entrópico, cada ser específico se pauta pela competição recíproca pela escasso, e, consequentemente, também os seres humanos e as sociedades, o que faria a forma social que a escassez toma, a propriedade privada (e, portanto, a sociedade de classes, o trabalho, o Estado e o capital), ter um fundamento eterno, cósmico e imutável. Neste texto, procuraremos criticar essa metafísica de um ponto de vista especificamente filosófico, físico e antropológico. 

ANAXIMANDRO E DEMÓCRITO


Anaximandro de Mileto
A primeira expressão filosófica da metafísica da escassez que conhecemos foi exposta por Anaximandro, que dizia que o nascimento dos seres é dívida, e que portanto a vida é paga com a morte: 

"Todas as coisas se dissipam onde tiveram a sua gênese, conforme a necessidade; pois pagam umas as outras o castigo e a expiação pela injustiça, conforme a determinação do tempo." (fragmento 1 de Anaximandro). 

[Obs.: É evidente que essa visão moralista da natureza é uma continuidade dos mitos gregos de Diké e Nêmesis, deusas que personificam a "justiça", a retribuição inelutável, a dívida inescapável, e que inexoravelmente "dá a cada um o que lhe é devido". Como veremos, a metafísica da escassez continua até os tempos atuais fundamentalmente religiosa, mítica ou mesmo animista.]

De Anaximandro até nós, a maioria das filosofias se baseou em alguma metafísica da dívida, da troca de equivalentes, das recompensas e punições. Nos tempos modernos, o representante talvez mais respeitado (por causa de suas pretensões científicas) dessa metafísica é o entropismo, ideologia que afirma que, sendo o aumento da entropia (portanto, a morte) a regra geral do universo, cada ser é explicado por estar energeticamente submetido a uma relação de austeridade e dívida energética a ser estritamente equilibrada, compensada, paga no futuro.

Porém, uma outra corrente, subterrânea na história da filosofia, também se expressou ao menos desde a Grécia antiga: Demócrito e os demais materialistas afirmavam, de modo geral, que, se existimos, é porque somos gratuitos, supérfluos, já que não haveria nenhum sentido anterior à própria existência: seríamos fruto do acaso (Diné de Demócrito, Clinamen de Lucrécio) - e a necessidade (e portanto, o tempo) é a consistência de cada existente pela qual ele dura, expressa e desdobra essa gratuidade de, em e além de cada ser singular, ou seja, é sua liberdade. [2] 


Demócrito de Abdera
Desse modo, reconhecendo que a "regra geral da natureza" é a decomposição, destruição, aumento da entropia (p. ex., o tempo -  verificado pela morte, a que tudo está mais cedo ou mais tarde submetido - e o espaço - os corpos não ocupam o mesmo lugar etc - esse primeiro esboço do conceito de entropia já era conhecido pelos materialistas antigos), os materialistas concluem, ao contrário do que pensava Anaximandro,  que isso significa que cada ser específico que surge e perdura nesse universo se fundamenta na gratuidade, desperdício, superfluidade, dissipação. 

Essa afirmação fica clara levando-se em conta o modo como os materialistas explicam o mundo: o tempo todo, no universo, incontáveis eventos ou composições (no caso, os atomistas pensavam nas combinações entre os átomos) acontecem simultaneamente, mas como a esmagadora maioria dessas composições não encontra consistência, elas não perduram, se decompõem e se dissipam rapidamente. Por esta razão, é improvável, raro, que algo singular exista além da decomposição praticamente instantânea. A improbabilidade de surgirem e existirem as exatas coisas singulares que percebemos perdurarem e se desenvolverem a nossa volta, assim como nós mesmos, é ainda maior, é praticamente infinita. É por isso que cada ser singular que surge e perdura no universo é gratuito, sem dívida, sem culpa, porque não possui nenhum sentido singular pré-escrito na "lei geral da natureza", que é destruição dissipativa. Ou seja, é pela gratuidade, é pela superfluidade que existimos, agimos e criamos. Não devendo nada a alguma lei transcendental de escassez geral, até porque, na verdade, o que é geral não é escassez, mas abundância destrutiva, superfluidade dissipativa, "lei geral" que é responsável pela destruição, ao fim inevitável, mas não pela geração nem pela duração e tampouco pelo desenvolvimento dos seres (como diziam Lucrécio e Epicuro, na prática, "a morte não é nada para nós"). [3] 

[Obs.: Não é difícil perceber que a ciência moderna, quando despida das intepretações que dão um viés escassista a ela, mostra que não é a austeridade contábil da troca de equivalentes, mas o desperdício e a dissipação é que é o fundamento de cada ser específico que surge e persiste. 
Um exemplo básico é o do fluxo termodinâmico sol-> planeta Terra->seres vivos [4]: o sol dissipa uma imensamente colossal quantidade de energia pra todo lado sob a forma de partículas e ondas eletromagnéticas (uma parte da qual é a luz). Quase tudo isso é desperdiçado em direção ao vazio espacial. Uma pequenina parte dessa energia desperdiçada do sol, mas ainda colossal, se dissipa por acaso na Terra. A Terra dissipa igualmente essa energia para todo lado, enquanto uma parte é desperdiçada nas bactérias e plantas que fazem fotossíntese. As bactérias e plantas também dissipam abundantemente "à toa", e parte dessa dissipação é desperdiçada nas outras bactérias, insetos e herbívoros que as devoram com superfluidade. Estes últimos são desperdiçados nos predadores, que também devoram uns aos outros avidamente, num gritantemente notório desperdício vão de energia. E parte da dissipação de todos esses seres, por sua vez, é desperdiçada nos humanos, que também desperdiçam essa energia "à toa", criando gratuitamente suas relações, a sociedade, a indústria, o conhecimento, a arte, a linguagem, cidades, imaginação, engenhosidade etc. 
Apesar de no modelo explicativo dos materialistas antigos não existir ainda essa visão termodinâmica, ela é em grande parte compatível. O sol, como tudo mais (inclusive nós), é considerado uma composição de átomos surgida fortuitamente em determinado momento, e que está se desintegrando continuamente, se dissipando para todo lado até morrer (sua luz é o resultado dessa desintegração). Porém, se quisermos deter o desperdício (acumulando,  "conservando"), o resultado é que o sol morreria mais rápido, ou até instantaneamente numa explosão, e não teria tempo para "sua natureza", suas ricas potencialidades qualitativas, se desenvolverem e se expressarem ao máximo.]

Contudo, essa visão global não é e nem pretende ser "reconfortante". Ela não fornece nenhum princípio ético e tampouco qualquer modelo para uma sociedade melhor. Dado que a "lei geral da natureza" é abundância destrutiva, desperdício dissipativo, a ideia de "ordem natural" (ou "equilíbrio natural"), ideia que pressupõe a crendice em alguma espécie de "mão invisível", é uma infeliz invenção da imaginação humana. Ela simplesmente não existe na natureza. 

O CREDO NA "MÃO INVISÍVEL"  (OU "ORDEM NATURAL", "EQUILÍBRIO NATURAL"): MORALISMO E TEODICEIA

O fato é que a natureza é incessante desequilíbrio cego e indiferente, um conjunto de forças completamente insensíveis ao sofrimento, assassinato, tortura, abundância, escassez, e à própria vida de todos os seres vivos. Além da história de catástrofes sem fim da geologia e atmosfera do planeta terra, assim como dos planetas, asteroides, sois e cometas, basta observar a notória superfluidade destrutiva da cadeia alimentar. Mais de 99,99% dos seres vivos vive de ferir e/ou devorar outros seres vivos, a tal ponto que nem sequer os seres mais inofensivos da cadeia alimentar, como as plantas, são "pacíficos", mas venenosos para outros (traduzindo: assassinos; aliás são dos venenos das plantas que vem todas as propriedades medicinais delas que usamos graças à nossa ciência, empiria e técnica), espinhentos (traduzindo: torturadores), monstros vorazes para muitos outros pequenos seres ingênuos que metem seus bedelhos neles (fungos e bactérias, por exemplo, atacados pelo sistema imunológico vegetal)  etc. Isso sem falar da interminável competição cega dos seres por nichos que extinguiu 99,99% de todas as espécies que já existiram na terra desde o surgimento da vida. Até mesmo uma das moléculas mais básicas necessária à nossa vida atual na terra, o oxigênio, um gás venenoso para os primeiros seres vivos, foi introduzida "artificialmente" na atmosfera (antes predominantemente de CO2) pelos primeiros seres a fazer fotossíntese (provavelmente cianobactérias), levando a uma extinção em massa colossal. 

Por outro lado, justamente porque o desperdício destrutivo é a regra geral da natureza, cada ser singular que existe e persiste necessariamente se pauta, ao contrário, pelo desperdício construtivo, criativo, afirmativo, pelo qual afirma sua existência [5]. Porém, a medida em que cada uma dessas abundâncias afirmativas singulares se expressa em um meio comum indiferente e cego, o resultado de suas expressões tende a se voltar contra elas mesmas, ou seja, nessas circunstâncias cegas ocorre o efeito colateral de a afirmação de cada uma tender a decompor e negar a afirmação das outras e, daí, cada uma nega a si mesma mediante as outras. Isso porque, se as expressões construtivas continuarem afirmando essas circunstâncias cegas e indiferentes para se expressarem, elas intensificam as condições que as obrigam a deter a expressão do dinamismo de sua riqueza, a conter a abundância de suas relações com os outros, a se embotar, acumular, competir, se privar e, por fim, a se engajar na destruição supérflua de si própria. 

A metafísica da escassez, no entanto, "naturaliza" essas circunstâncias, santifica esse estado de coisas cego, até o ponto de extrair dele todo um "moralismo da escassez" que busca justificar e exaltar o sofrimento, esgotamento, tortura e morte como "feedback negativo" (retroalimentação negativa) objetivamente necessário à conservação, preservação e regulação "holísticas" da natureza e da sociedade. É uma verdadeira teodiceia, uma autêntica religião, esse culto da "mão invisível".

Não é por nenhuma "regra geral da natureza", nenhum "holismo", mas apenas a partir das abundâncias afirmativas singulares que a espécie humana - cuja singularidade é que seus indivíduos são capazes de desejar, pensar, se comunicar e agir - pode desenvolver uma ética e, portanto, um projeto de transformação tanto das relações sociais quanto de suas condições naturais. Se somos supérfluos, então é completamente arbitrária qualquer ideia de dívida ou culpa, de justificativas, teodiceias, assim como qualquer remuneração por qualquer tipo de equivalência de "valor", pois não há qualquer ser transcendente que "retribua à cada um a sua parte". Pelo contrário, se os singulares são supérfluos é precisamente porque se justificam por si sós, pela sua simples existência, composição e expressão. 

Trata-se então, para os seres humanos, de transformar as circunstâncias de modo que, nelas, as capacidades e necessidades humanas possam se afirmar como válidas por si sós, e não mais como instrumentos, meios e objetos de julgamento e retribuição conforme uma maior ou menor obediência a um fim pré-determinado (valor, mercado, propriedade privada, Estado, religião, identidade, nacionalidade, gênero etc). A liberdade é a necessidade irretribuível de cada singular, porque eles e suas expressões valem por si mesmos, são fins em si. Portanto, liberdade é: "de cada um segundo suas capacidades, à cada um segundo suas necessidades". [6]

[Obs.: Isso contrasta com a ideia equivocada de que liberdade é livre-arbítrio. Livre-arbítrio nada mais é do que escolha de elementos em circunstâncias pré-estabelecidas, aceitando essas circunstâncias como imutáveis. Essa liberdade
é ilusória, já que a imposição do livre-arbítrio, da livre-escolha, é a base de
qualquer relação de dominação. Isso porque o único modo da classe dominante colocar-se como dominante é tendo o poder de retribuir, com prêmios ou reprimendas, a submissão maior ou menor dos dominados, o que só é possível se eles dão aos dominados a liberdade de escolher, entre duas ou mais coisas, caminhos ou ações predeterminadas, pré-fabricadas, pré-armadas pelos dominadores. Somente assim podem julgar quem é mais ou menos obediente (julgar o "livre arbítrio" ou "deliberação", "esforço", "mérito" deles), retribuindo a cada um em vistas a intensificar as circunstâncias de competição que levam os explorados a continuarem ou até aumentarem sua sujeição. Livre-arbítrio implica sempre em submissão às condições pré-estabelecidas de escolha. A verdadeira liberdade, pelo contrário, só começa pela transformação das circunstâncias, das condições de existência. Ou seja, liberdade pressupõe que essas condições deixem de ser propriedade privada (abolindo assim do poder dos dominadores) e se tornem as condições comuns da livre expressão prática dos indivíduos livremente associados sem fronteiras (comunismo).]

Como já expomos em outro texto uma ética imanente, materialista [7], trataremos agora das alegações pretensamente científicas dos adeptos da metafísica da escassez, em especial o entropismo.

FETICHISMO DA MERCADORIA, CIÊNCIA E CIENTIFICISMO NA IDEOLOGIA DA ESCASSEZ

Que os seres já surgidos comecem inevitavelmente a se desintegrar, a se dissipar até desaparecerem (entropia), não há dúvidas disso. Mas essa, como vimos, não é toda a história. Porque há também atividade, atuação: essa dissipação supérflua pode gerar (ou não) outros seres singulares (dentro e/ou fora de dele mesmo e/ou entre e/ou além) igualmente supérfluos, assim como aqueles seres que já tinham surgido também foram gerados pela dissipação supérflua de outros seres que confluíram nele e o compuseram. É nessa parte da história (e não na parte "status quo em perigo") que está tudo que conhecemos, fazemos, experimentamos e nós mesmos. A atual ideologia da escassez com pretensões científicas é míope, porque ela se ocupa exclusivamente da dimensão de dissipação estéril dos seres já surgidos, só enxergando formas pré-existentes, e generalizando isso na visão de um universo austero regulado pela troca de equivalentes, numa competição pela escassez que recompensa ou reprime conforme um padrão pré-estabelecido, transcendente. Com isso, essa ideologia é incapaz de se dar conta do surgimento, da atividade, do vir-a-ser, do devir, mas apenas do "status quo", do já existente.

Em que se baseia essa miopia? Ou melhor, epistemologicamente, em que situação material, a atividade, o devir, não podem aparecer, ficando ocultos? Isso só é imaginável numa circunstância material em que cada devir ou atividade singular é separado e isolado dos outros, de suas relações específicas, e unificados sob uma mesma forma geral pré-existente. 

É precisamente assim a sociedade capitalista: as múltiplas atividades singulares assumem a forma de "trabalho", em que cada devir é privado (propriedade privada) de suas relações para ser incessantemente remetido à comparação com outros (competição) conforme um mesmo padrão geral pré-estabelecido de equivalência quantitativa abstrata: o valor, a troca de mercadorias, o dinheiro, o Estado. Trata-se de uma sociedade em que, privada das condições materiais de atuação, a atividade produtiva humana só é permitida se for serviçal da reprodução ampliada do trabalho morto, do capital, do lucro; em que os produtos das atividades humanas simultâneas que abrangem o mundo inteiro, aparecem aos próprios seres humanos não como expressões de sua atividade associada em escala global, mas, pelo contrário, como se os produtos resultantes fossem dotados de uma existência independente, como propriedade privada, empresa, mercadoria, capital e Estado, em suma, como mercado mundial. Isso porque, privados de suas condições de existência, os seres humanos se tornam impotentes enquanto seres humanos, e, para sobreviver, são forçados a alienar (vender) suas capacidades de agir e de pensar à quem tem a propriedade privada dessas condições; consequentemente, as capacidades humanas são atribuídas às coisas, à propriedade privada, à classe proprietária (os capitalistas, i.e., o empresariado particular e estatal). Os seres humanos encontram suas próprias capacidades como atributos não deles mesmos, mas do dinheiro, da propriedade privada, da empresa e do Estado, personificados como um poder alheio, privado e hostil (o capital) na classe dominante. É uma determinada relação social entre os homens que assume, a seus olhos, a forma fantasmagórica de uma relação entre coisas (fetichismo da mercadoria). [8]

Então, em um ambiente onde todo devir é incessantemente remetido à reprodução ampliada do trabalho morto, os seres singulares não aparecem socialmente, publicamente, como atividades, mas como rastros, resultados, produtos, mercadorias, instrumentos, "serviços", "trabalhos".

E nesse ambiente também estão os que fazem ciência. Ninguém tem acesso "sobrenatural" à natureza (se alguém afirma isso, esse alguém é religioso, não cientista), porque inclusive os cientistas são seres naturais. Eles perscrutam a natureza tal como ela lhes aparece, e tal como eles a fazem aparecer mediante instrumentos, metodologias e experimentos. Alguns aspectos do que lhes aparece é realçado e destacado em detrimento de outros pela simples razão de que o que pode aparecer a eles passa inerentemente por suas relações sociais: um cientista pode ser um trabalhador assalariado (ao invés de fazer ciência em livre associação com outros no mundo inteiro que também desejam e fazem ciência como um fim em si, como atividade livre), seus instrumentos, componentes e insumos são comprados (ao invés de terem sido determinados livremente pela sua atividade em associação com outros que, no mundo, desejam produzi-los), e também a determinação e escolha de seus objetos de estudo exprimem necessidades e capacidades humanas formadas e desenvolvidas em específicas relações sociais.


Assim, por exemplo, os conceitos de "trabalho" e "energia" foram separados dos demais conceitos da física e cunhados com esses nomes próprios (tornando-se inclusive os conceitos centrais das ciências naturais) no preciso momento da revolução industrial (séculos XVIII-XIX), quando o capital (que então se tornou produtivo, industrial) colocava a questão de extrair o máximo de trabalho "útil" das forças naturais e humanas disponíveis, com o propósito de aumentar ao máximo a diferença entre os custos de produção e os preços de venda de seus produtos, ou seja, os lucros. Foi a partir do problema do "peso levantado até certa altura" no uso, por empresas mineradoras, dos primeiros motores à vapor para levantar baldes de água de minas alagadas, que, em 1826, Gaspard-Gustave Coriolis introduziu na física o conceito de "trabalho" e seu nome próprio. Já o de "energia", foi introduzido em 1807, por Thomas Young. Antes disso, os conceitos centrais da física eram os de "momento de inércia" e "força" (como em força da gravidade, força elétrica, força magnética etc) [9].


Isso não quer dizer, é claro, que, no século XIX, a ciência "tenha errado" e nem que esses novos conceitos sejam "falsos", mas sim que os cientistas perscrutam o mundo, com sua rigorosa metodologia, a partir das circunstâncias com que se deparam, a partir dos problemas e perspectivas que essas circunstâncias colocam. Desse modo, toda ciência que desde o século XIX se desenvolveu a partir dos conceitos de "energia" e "trabalho" (em especial o de "conservação de energia") realmente foi se tornando cada vez mais capaz de explicar de maneira inigualável e precisa as condições precedentes para qualquer evento. No entanto, é míope para os próprios eventos em questão, porque eles são tomados como formas já existentes, já conhecidas, e não enquanto devires, atividades. A razão disso é que, na sociedade capitalista, como vimos, os seres singulares, humanos e não-humanos, não aparecem socialmente, publicamente, como atividades, como atuações, como devires, mas como rastros, resultados, produtos, mercadorias, instrumentos, "serviços", "trabalhos"; então, qualquer análise científica objetiva dos seres nesse ambiente (sociedade capitalista) encontra-os apenas como seres privados de e subservientes às suas condições de existência precedentes que se acumulam como trabalho morto, propriedade privada, capital.

No entanto, ao contrário dos cientistas que permanecem rigorosamente objetivos, os adeptos da metafísica da escassez encontram esses conceitos científicos, que expressam objetivamente o que pode ser apreendido da natureza a partir das necessidades e capacidades humanas desenvolvidas na sociedade atual, e se apropriam deles para compor uma religião cientificista que naturaliza, justifica e exalta a (auto)repressão, a máxima coerção ao trabalho, a intensificação da competição, o ascetismo, o exclusivismo e o banimento. Tudo em nome da preservação de um "status quo" que teria sido fruto meritório de um árduo, esforçado, "complexo", "equilibrado" e sofrido passado cujo questionamento, na opinião deles, poria "tudo a perder".

IDEOLOGIA APLICADA DA ESCASSEZ: ECONOMIA E ECOLOGIA 

Por fim, vale a pena se deter nas peripécias da palavra e do conceito de "economia", que são muito curiosas. Ela chegou até nós, da Grécia antiga, através da teologia. 


Inicialmente, na Grécia, oikonomia era como se designava o comando, a administração (nomos, em grego), pelo pai/senhor (despotes, kyrios), dos escravos/servos de sua propriedade (oikos). Essa propriedade era ao mesmo tempo residencial, agrícola e escravista. Já fora da oikonomia, na polis, a relação entre os proprietários de escravos era chamada polítika, em que os senhores se consideravam iguais (isonomia, isegoria, isokratia). Em contraste, na propriedade escravocrata, no oikos, se constituia a família (oikogéneia), composta por aqueles sobre os quais o despotes tinha poder de vida e de morte: os escravos e servos, entre os quais se incluíam sua mulher e os filhos, além dos fâmulos adquiridos. Este foi o primeiro sentido da palavra. [10]


Pantocrator 
A seguir, quando o cristianismo se impôs (séculos III-XV) nas regiões em torno do mar Mediterrâneo e depois em toda Europa, o mundo e a humanidade passaram a ser considerados uma propriedade doméstica (oikos) comandada (nomos) por deus (providência). O governo de deus sobre o mundo, a execução pelos homens do comando de deus mediante o poder da igreja, dos reis e dos senhores feudais, a teodiceia (justificação dos sofrimentos e do mal), o gênesis, o plano de salvação e julgamento da humanidade no apocalipse, tudo isso tinha um nome: economia, economia da salvação, economia divina. E este foi o segundo sentido. [11]

Depois, na época do mercantilismo (séculos XV-XVIII), quando o capitalistas começaram a se impor e a transformar o mundo inteiro (colonização de quase todos os continentes etc) através dos Estados mercantilistas (que foram os primeiros Estados no sentido moderno do termo, o de ser uma entidade distinta das castas, da "sociedade civil") que eles financiaram para impor pela força das armas o comércio e o monopólio de rotas comerciais em todo planeta, as categorias do pensamento religioso, inclusive "economia", começaram a ser secularizadas. Nesse período, "economia" era como se chamava a administração governamental dos Estados mencantilistas, que eram monarquias absolutistas e que se acreditava serem fundadas por "direito divino" ou pelas bençãos do papa. Tal foi o terceiro sentido. [12]

Por fim, o quarto e último: na revolução industrial, no fim do século XVIII, quando o capital assumiu a produção (que antes era pré-capitalista, enquanto capitalista era apenas o comércio dos produtos), sugindo o capital industrial (graças à imposição do trabalho assalariado, só possível mediante a sistemática separação dos componeses e artesãos de seus antigos meios de vida, formando o proletariado), as categorias do pensamento religioso cristão foram plenamente transcritas para uma "religião secular objetivista", em que uma curiosa "mão invisível", por vias indiretas e misteriosas, governaria tanto mais para melhor quanto maiores os sofrimentos, sacrifícios e esgotamentos dos seres humanos privados de meios de produção (proletários) na concorrência desesperada por conseguir sobreviver vendendo a única coisa que ainda possuem, ou seja, a si mesmos, no mercado de trabalho, aos proprietários privados desses meios (capitalistas), em troca do salário. Essa entidade misteriosa (a economia) promoveria tanto maior prosperidade quando mais os proletários se engalfinhassem por obedecer e se sacrificar à classe proprietária. 

Então, a palavra "economia", do berço escravocrata passando por suas vestes teocráticas adultas, desembocou na designação de um tipo de entidade religiosa que não é mais identificada como religiosa, mas como a própria "verdade absoluta", "a realidade tal como ela é de fato e à qual é dever se curvar". É uma espécie de neo-animismo [13]. A economia, em suma, é o próprio fetichismo da mercadoria, que surgiu com o domínio do capital sobre a sociedade mundial. Esse domínio se caracteriza pela ditadura da produção pela produção que é o trabalho assalariado, em que, como vimos, os produtos das atividades humanas aparecem aos próprios homens não como resultados de sua atuação associada, mas como uma força independente, autônoma, como se se produzissem, se movessem e se distribuíssem mediante uma lógica própria e misteriosa: "sistema de preços", "oferta e procura", "mão invisível", "destruição criadora", "demanda agregada" etc. 

Por outro lado, se a economia é uma teodiceia, justificando os sofrimentos, sacrifícios e males em nome de algo imaginário que por vias misteriosas promoveria o bem geral, não menos pior é a ecologia.

O movimento ecológico moderno se baseia em conceitos da "cibernética", "holística" e "teoria de sistemas" (todos eles variantes da metafísica da escassez) visando reestabelecer politicamente o "equilíbrio natural", a "sustentabilidade", a "homeostase" do organismo holístico que seria a natureza como um todo. O processo homeostático em questão englobaria todos os seres, os quais, nas suas interações, estabelecem "feedbacks negativos" (mortes, escassez e catástrofes) responsáveis por manter a sustentabilidade do sistema ao longo do tempo ao contrabalançar os 
"feedbacks positivos" (por exemplo, reprodução sem freio de uma espécie) que de outro modo se acumulariam, levando ao colapso do sistema. O erro dos seres humanos, segundo eles, foi interferir no processo holístico da natureza, que seria tão complexo que seria impossível de ser compreendido pelos humanos (cuja atuação pressupõe sempre um conhecimento inerentemente "reducionista"), de tal modo que quando estes interferem, o resultado seria sempre catastrófico.

Mas já vimos que a natureza é, de fato, incessante desequilíbrio, um conjunto de forças cegas e indiferentes, e a ideia de uma "ordem natural" não passa de invenção da imaginação humana. Se a humanidade quiser por em prática a ficção ecológica de uma "ordem natural" independente dela, ela terá que se entregar a esses processos cegos, violentos e indiferentes, "naturalizá-los" e aceitar agir do mesmo modo. Quando se faz isso, a morte e o sofrimento de cada um passam a ser considerados uma prática aceitável (como "feedback negativo" necessário à "homeostase") para que o suposto todo, o sistema holístico, seja sustentável. Trata-se de uma teodiceia tão mitológica que é praticamente uma recriação dos ritos sacrificiais de "restauração da ordem cósmica" do antigo paganismo. Mas, como toda mitologia, teologia e religião, isso não existe na natureza, é uma invenção delirante especificamente humana. Nenhum outro ser vivo age mediante uma "percepção imaginária extraterrena" (holística) de si mesmo no mundo, indiferente ao seu próprio sofrimento e morte, em nome da uma imaginação demente em sua cabeça. 

[Obs.: Ainda mais perturbadora é a história da ecologia [14]. A palavra e o conceito de "ecologia" foram introduzidas por Ernst Haeckel (1834-1919), que pregava que a natureza é um organismo unificado e equilibrado (oikos), e que a sociedade humana deve ser reorganizada de acordo com a lógica da natureza (daí,com oikos e logos, cunhou a palavra ecologia). Anti-iluminista, nacionalista e eugenista, ele foi o primeiro a usar a teoria da evolução das espécies para propor uma classificação hierárquica das raças humanas. Segundo ele, "a política é biologia aplicada". Sua teoria ecológica, através da esotérica e espiritualista Sociedade Thule, na qual participava, se vinculou diretamente às origens da ideologia nazista. Esta última afirmava, baseando-se também nas teorias da competição do economista liberal Herbert Spencer (darwinismo social) e no misticismo racista de Madame Blavatsky (teosofia), que o equilíbrio orgânico da ordem natural primordial (ao mesmo tempo biológica, divina e mística) decorreria da competição sem tréguas de cada um (cada indivíduo, cada nação, cada raça) por ocupar nichos na "ordem natural". O primeiro governo que colocou a ecologia como meta principal foi o nazista, criando as primeiras reservas naturais, leis de proteção dos animais e inclusive tentando se basear na agricultura orgânica, além, é claro, dos campos de extermínio.]

Evidentemente, criticar a ecologia não significa que defendemos a destruição do meio ambiente. O que afirmamos é que, como não existe nenhum ponto referencial "superior" (como a fantasia mitológica/teológica de uma providência chamada "natureza", "gaia", "ordem natural") fora das necessidades e capacidades dos próprios seres humanos para eles mesmos decidirem suas vidas e suas ações, a questão de não destruir o ambiente natural em que vivemos e os demais seres vivos só pode ser levantada e assumida por nós mesmos, pelos seres humanos, a partir do que considerarmos (mediante conhecimento, ciência, ética, técnica, desejo etc) necessário fazer e capacitados para fazer. Simplesmente porque, para agirmos, só temos as nossas próprias capacidades e necessidades, com as ideias, ciência e práticas que criamos a partir delas, e com as quais pensamos e agimos com algum êxito ou não.

humanaesfera, fevereiro de 2017


POST SCRIPTUM: CURIOSIDADE: O EPITÁFIO DE SÍCILO




Este é o mais antigo exemplo encontrado de uma composição musical completa, o Epitáfio de SíciloA música, cuja melodia foi registrada junto com a letra, foi encontrada gravada em uma lápide, perto de Aidin, na Turquia (não muito longe de Éfeso). A descoberta foi datada de entre 200 aC e 100 dC.

Letra:

Enquanto viver, brilhe
Não te entristeças por nada
A vida dura um breve instante
E o tempo cobra seu tributo

A lápide continha o seguinte escrito: "Eu sou um túmulo, um ícone. Sícilo me pôs aqui como um símbolo eterno da lembrança imortal". 

A letra pode ser interpretada como expressando a ideia de vida como gratuidade, delicada, frágil e alegre, enquanto o tempo, que destruirá tudo cegamente (entropia),  confirma nela sua abundância supérflua e irretribuível.

ADENDO: A ILUSÃO DA "DÁDIVA" PRÉ-CAPITALISTA


Potlatch
Conhecer o passado ajuda a saber que nem a sociedade capitalista, nem a troca de mercadorias, nem a família nuclear e nem o Estado são eternos e que a humanidade viveu por muito mais tempo de outra maneira. Porém, alguns perscrutam o passado acreditando que antes da sociedade capitalista, vivíamos "naturalmente" (conforme uma suposta "ordem natural") enquanto que agora viveríamos "artificialmente". Um dos temas prediletos e mais exaltados por quem assim pensa é o da "dádiva", "dom" ou "troca de presentes" (cujo exemplo mais conhecido é o potlatch), um modo de distribuição dos produtos que contrasta com a troca de mercadorias generalizada que caracteriza a sociedade capitalista. Eles chegam ao ponto de considerar a "dádiva" pré-capitalista como o modelo "natural" para uma nova sociedade após a atual. Acreditam que a "dádiva" expressaria abundância em uma ordem social supostamente natural que querem restaurar, enquanto que, na verdade ela era um mero sistema de alianças por dívidas. Aqui queremos brevemente mostrar que as condições pré-capitalistas que faziam a "dádiva" fazer sentido não só são sem retorno, como também são absolutamente indesejáveis por qualquer um em sã consciência hoje.

Antes de tudo, como Mauss e Malinowski mostraram, a dádiva das sociedades tribais era um sistema de coerção endividada, inclusive, muitas vezes, um sistema de dominação brutal de alguns clãs sobre outros [15]. 

Em sociedades tribais em que os clãs não se hierarquizavam, o "dom" consistia  em laços coercitivos resultantes da desconfiança entre tribos sempre à beira da guerra entre si (segundo Pierre Clastres, era esse estado de guerra generalizada que impedia o surgimento do Estado, o surgimento das castas [16]). O "dom" era o rito de uma guerra invertida, em que cada lado, sempre extremamente desconfiado, tinha que provar sua confiança no outro clã através da concorrência de dar mais no futuro do que recebeu de presentes. O fato de não dar imediatamente quando se recebia era considerado uma prova de que não se desconfiava do outro clã, e que os laços entre eles seriam mantidos. Mas caso algum lado, por qualquer razão, fosse considerado apressado em retribuir ou se passasse a retribuir com menos (ou mesmo se achasse antecipadamente que o outro ai achar qualquer dessas coisas), isso era considerado prova definitiva de desconfiança, de quebra de laços. E então declarava-se guerra. A guerra era fundamental, porque se não fosse declarada guerra, formar-se-ia uma relação em que um clã se sobrepõe a outro (castas). Sem guerra nas sociedades tribais, o dom se torna dívida "infinita" de um clã (o que dá menos) para outro (o que dá mais), a ser paga como sujeição de castas, fazendo surgir o Estado (no sentido pré-capitalista de domínio de uma casta sobre outras). Na antropologia, esse é o caso mais clássico de todas as "dádivas", o potlatch, praticado por uma sociedade de castas da América do Norte [17].  

O que é evidente é que a dádiva tribal não parece de nenhuma maneira servir como modelo para nós hoje. A própria possibilidade do "dom" pressupõe a propriedade coletiva tribal sobre objetos produzidos por ela privadamente diante de outra propriedade coletiva tribal de outros objetos produzidos privadamente frente àquela e vice-versa. Pressupõe portanto, a troca entre propriedades privadas (propriedades que eram pré-capitalistas, mas ainda assim, de fato, coletivamente privadas reciprocamente), que é "dom" (laços de dívida) enquanto não é guerra e que se torna mercado (por exemplo, escambo) durante a guerra declarada, quando cada lado exigia uma retribuição imediata, rápida, de bens, "com valor equivalente", "justo", porque então já não confiavam absolutamente um no outro. 

Hoje, os meios de produção são materialmente comuns em escala mundial (nada, nem em termos físicos nem intelectuais, é produzido privadamente), e, consequentemente, na perspectiva atual de um mundo libertário (ou seja, comunista), o desfrute das forças produtivas não pode ser nem "dom" nem troca de mercadorias, mas uma auto-realização autônoma e gratuita propiciada pelo livre acesso por todos às forças produtivas comuns, que são as condições de existência (meios de produção) mundialmente interconectadas.

Mas voltemos às sociedade pré-capitalistas para ter uma noção melhor das condições concretas nas quais se encontravam e reproduziam suas relações sociais. Para cada tribo, todos os outros humanos eram  bestas, não-humanos ou falsos humanos (e eram assim denominados), contra os quais, como vimos, se estava em estado de guerra constante ou latente. Para marcar o pertencimento à essa suposta única tribo dos "verdadeiros humanos" (cada uma se considerava assim), que seriam os mais fortes e superiores, cada nova geração era submetida a ritos de passagem como provação do "merecimento" de pertencer à seu clã em exclusão de toda humanidade. Esses ritos escreviam literalmente na carne e na alma as marcas de pertencimento: mutilações, humilhações, várias provas de resistência à dor, provas de que não se é "frouxo" ao assassinar inimigos sem hesitação, adquirindo cicatrizes de guerra etc. Evidentemente, as novas gerações eram forçadas a se submeter porque não havia meio de satisfazerem suas necessidades fora da tribo, exceto se desejassem a solidão da natureza inclemente, vulneráveis às tribos e feras inimigas. E se se juntassem para criar uma outra tribo independente, eles seriam obrigados a recriar as mesmas provações dos ritos de passagem e as mesmas violências para com as outras tribos. Porque isso não depende só da vontade, mas das condições de existência materiais, ou seja, da capacidade humana de, com as forças produtivas existentes, transformar a natureza, a circunstâncias, as condições concretas das relações humanas. Eram as condições com que se deparavam que materialmente os obrigava a adotar todas essas coerções, se agrupando na forma social de tribos.

Assim como explicamos antes sobre o meio ambiente quando criticamos a ecologia, criticar as condições de existência das sociedades pré-capitalistas não quer dizer que defendamos que as tribos que ainda hoje existem não devam existir e nem que os que sentem atração pelo modo de vida delas devam "se reprimir". Na verdade, essas tribos, queiram ou não, há muito tempo não estão mais naquelas condições antigas (exceto, talvez, algumas, raríssimas, isoladas, na América do Sul e na Papua Nova Guiné). E seus mitos e ritos são recriados e modificados a cada geração conforme as condições em que elas se encontram e se reproduzem, que são hoje as da sociedade capitalista. É compreensível que, nesta sociedade (capitalista) onde a condição para sobreviver é se submeter à competição infernal da propriedade privada com a propriedade privada, os seres humanos dessas tribos remanescentes também busquem uma propriedade privada que garanta sua sobrevivência em exclusão de todos os demais humanos que competem igualmente pela sobrevivência. Então, para isso, o que geralmente tentam é fazer de seu passado um signo de propriedade a ser protegido pelo Estado (ou, como ocorre em alguns lugares do México, por suas próprias milícias). Porém, isso certamente nada tem de realmente libertário, nada tem a ver com superar a sociedade capitalista, porque é uma mera adição de uma propriedade privada a mais na competição generalizada que a condiciona. 

Apenas se transformarmos nossas condições de existência (o que pressupõe abolir a privação dessas condições, a propriedade privada, em escala mundial) de modo a superar as condições de existência da sociedade capitalista, os seres humanos podem se emancipar e transformar livremente a si mesmos, indo além da coação de ter que assumir papeis, funções e identidades pré-estabelecidas (etnia, raça, gênero, nação, emprego, família, cultura, classe etc), se associando conforme seus desejos para satisfazer livremente suas necessidades e capacidades.

humanaesfera, fevereiro de 2017



NOTAS:

[1] Trata-se do texto Contra a metafísica da escassez, copiosidade prática.

[2] Sobre tudo isso, ver os livros Os Filósofos Pré-socráticos, de Gerd Bornheim, Da Natureza das Coisas, de Lucrécio, e O nascimento da física no texto de Lucrécio, de Michel Serres. E sobre uma interessante análise do fragmento de Anaximandro citado, ver A Filosofia na Idade Trágica dos Gregos, de F. Nietzche, segundo o qual teria sido Heráclito de Éfeso o primeiro a romper com essa visão endividada da existência.

[3] Cf. O nascimento da física no texto de Lucrécio, de Michel Serres.

[4] Esse exemplo é exposto no texto A noção de dispêndio de Georges Bataille. Ver também Post-scriptum: contra a ecologia. 5) Georgescu-Roegen e o decrescimento económico, de João Bernardo

[5] Cf. Ética, de Baruch Espinosa e os dois volumes de Capitalismo e Esquizofrenia, de Deleuze e Guattari.

[6] Cf. os textos Propriedade privada, escassez e democracia,  assim como
Contra as recompensas e punições (contra a meritocracia, contra a coerção), também Abolição do trabalho e a questão do circuito produtivo global no comunismo, e, numa perspectiva prática, Contra a estratégia e Greve e produção livre.

[7] O texto Autonomia e cotidiano - Espinosa e o imperativo de Kant: ´Tratar os outros e a si mesmo como fins, jamais como meios.

[8] Sobre tudo isso, ver o texto Marx comunista individualista! (trechos sobre o indivíduo em Marx)

[9] Anteriormente, de uma forma descompromissada, provisória e muito rudimentar, tentamos desenvolver de um ponto de vista prático-cotidiano uma física que poderia ajudar a compreender a atuação, a atividade, o vir-a-ser, o surgimento. Nessa física, os conceitos de "inércia" e "força" são compreendidos imanentemente, na ideia de "engatilhamento de inércias qualitativamente heterogêneas" pelo qual os eventos, os surgimentos, os devires se dão. Em resumo, inércias desproporcionais (qualitativamente heterogêneas) interagem tangencialmente (engatilhamento) exibindo forças e, assim, eventos, novos seres, enquanto os conceitos de "energia", "troca de energia", "conservação de energia" e "trabalho" são secundários, por serem estimativas intelectuais sobre o já surgido, o já atuado. Quem tiver curiosidade, veja os textos Uma arkhé Acidental?Conceito qualitativo de energia, força e inércia e O engatilhamento das inércias está na raiz da força? 

[10] Cf. o livro O Reino e a Glória - Uma Genealogia Teológica da Economia e do Governo, de Giorgio Agamben.

[11] idem. Note que Carolus Linnaeus (Carlos Lineu, conhecido como o "pai da taxonomia moderna") ainda usava palavra "economia" nesse sentido teológico cristão. O seu livro  Oeconomia naturae [economia da natureza], publicado em 1749,  defende que a natureza é a execução do comando de deus, sendo que as catástrofes, a competição e os sofrimentos entre os seres vivos realiza os desígnios da providência (a ideia de que "Deus escreve certo por linhas tortas") ao compensar e equilibrar os nascimentos com as mortes, efetuando a ordem natural divino.

[12] Ver o  verbete "Economia" da Enciclopédia de 1772. 

[13] Ver o livro O capitalismo como religião, de Walter Benjamin.

[14] Sobre isso, ver a primeira e a segunda partes do texto A História que os ecologistas não querem contar, de Marilene Nunes. Também o livro Natureza e nazismo, de João Bernardo e a série de textos Post-scriptum: contra a ecologia, o lugar comum dos nossos dias, também de João Bernardo. 

[15] Ver os livros Ensaio sobre a dádiva, de Marcel Mauss, Os Argonautas do Pacífico Ocidental e Crime e Costume na Sociedade Selvagem, de Bronisław Malinowski, além de A Grande Transformação - as Origens da Nossa Época, de Karl Polanyi‎.

[16] Ver o livro A sociedade contra o Estado, de Pierre Clastres.

[17] Uma curiosidade sobre o "dom" pré-capitalista é a estória que originou a expressão "elefante branco". No Sião, os elefantes brancos eram raríssimos, e os cuidados requeridos eram tão custosos que só um rei poderoso poderia arcar com eles. Por isso eles eram considerados os maiores sinais de riqueza e poder, que nesse tempo significavam opulência dispendiosa, dádiva, beneficiência. Um rei que quisesse derrubar um aliado menos poderoso, ao invés de declarar guerra a ele, presenteava-o com um elefante branco. Se o aliado, para cuidar do elefante, perdesse suas riquezas, ele se arruinaria e perderia o poder. Mas se ele, para não perder suas riquezas, não cuidasse do elefante branco, isso seria considerado uma grave "desfeita" diante do presente dado, e então o rei, alegando estar "com a razão ao seu lado", poderia declarar guerra e destruir o antigo aliado. Outra ilustração da importância do "dom" nas sociedades pré-capitalista é o cavalo de Tróia.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

A questão da "corrupção" e a vergonha do proletariado de seus próprios interesses humanos

Estamos vivendo uma época de profunda derrota do proletariado. Hoje, os explorados sentem vergonha de seus próprios interesses materiais e, para disfarçá-los, tentam afirmá-los defendendo o interesse do empresariado, do "empreendedorismo", da "competitividade",  que é apresentado a eles como o único "honesto" e "universal", como uma espécie de "imperativo categórico kantiano". Os interesses deles como simples seres humanos de carne e osso lhes causam vergonha porque são considerados por eles próprios como "corrupção", enquanto os interesses mercantis, empresariais, financeiros parecem encarnar liberdade, igualdade, justiça, etc. Por exemplo, vergonha de afirmar claramente que querem uma vida fácil e com tudo de bom sem ter que se submeter aos  "vencedores do mercado", vergonha do interesse de não trabalhar a vida toda e cada vez mais intensamente etc etc. Todos esse desejos, diz-se quase unanimemente, são "corrupção", "jeitinho brasileiro". Para eles, os interesses são sempre corruptos, e os únicos não-corruptos, os "desinteressados", porque respeitam as "regras do jogo", são os "vencedores no mercado", os "empreendedores" etc. 

O que é interessante é que a maior parte do tempo, essa competição declarada pela obediência é "da boca para fora". A maioria está sempre lutando tacitamente para trabalhar o mínimo possível e por fazer ao máximo o que gostam de fazer, contra o mando dos chefes e proprietários. Mas como a confiança uns nos outros é esmagadoramente superada pela confiança em quem paga ou pode pagar os seus salários  (Estado ou empresa), eles evitam falar abertamente de seus interesses uns com os outros (que veem como competidores que ameaçam sua sobrevivência, seu emprego). Desse modo, não conseguem criar uma linguagem que expresse seus interesses humanos, porque tem medo de expressar-los uns aos outros. Eles tem vergonha de seus interesses, que é, como vimos, confundidos com "corrupção". Por exemplo, a maioria se revolta com essas PECs (como a do aumento do tempo da aposentadoria, terceirização etc), porém, como não desenvolvem uma linguagem própria, assumem a linguagem da classe dominante para expressar essa revolta, que então se converte em "revolta na ordem" (aliás, clássica definição de fascismo pelo João Bernardo), uma revolta expressa na linguagem e na forma da classe dominante, a linguagem daqueles que não seriam "corruptos", dos que tem a propriedade privada dos meios de vida e produção, e a quem, na prática cotidiana de guerra de todos contra todos pela sobrevivência, confiam materialmente que, se obedecerem, garantirá sua sobrevivência contra os concorrentes, ao contrário de seus iguais que querem "tomar seu trabalho". Daí a revolta deles se expressa como apelo a uma "força maior" (por exemplo, Trump, Bolsonaro, ou pedidos para que haja chefes que punam e recompensem com mais força e rigor) que resolva todos os problemas através da repressão e matança, para defendê-os contra seus iguais, que são vistos como "inimigos" (tanto os ainda mais pobres quanto estrangeiros, migrantes etc).

Para que os proletários criem uma linguagem autônoma, pode ser útil retomar e aperfeiçoar a ética de Hipócrates, que apresenta uma interessante contraposição ao conceito de "corrupção" incessantemente usado pela classe dominante. Afinal, em seu sentido essencial, corrupção é fazer algo em troca de outro algo (em busca de recompensas e por medo de punições), ao invés de fazê-lo como algo que vale por si só, algo de cuja necessidade, humanidade e ética a atividade de produzi-lo se justifica por si só...

Assim, compartilhamos esse resumo da ética de Hipócrates que encontramos neste blog

"Salvar vidas, a arte da medicina, está acima do poder, do dinheiro e das leis dos reinos em que se passa exercendo a medicina. O verdadeiro significado de corrupção não é quebrar as regras, mas exercer a arte como se não fosse válida por si só, exercendo-a, pelo contrário, por outra coisa alheia, como o dinheiro e as promessas e ameaças de quem tem poder e faz as leis. Se o médico não ama o que faz, ele vai se vender e causará dano, porque seu interesse será ganhar mais, buscando enganar e agradar quem lhe paga; em troca, torna-se escravo de quem tem dinheiro. O médico deve ser livre, autônomo, formando com outros uma comunidade que compartilha livremente as descobertas da medicina, sem se submeter a reinos, cidades ou povos, para servir a humanidade." (Resumo da ética hipocrática baseado nos textos “Acerca da arte”, “Epístolas”, “Preceitos” e outros. Resumo feito a partir de várias fontes, principalmente as contidas no livro "Textos Hipocráticos: o doente, o médico e a doença". Henrique F. Cairus, Wilson A. Ribeiro Jr.)


humanaesfera, janeiro de 2017


Veja também outros textos sobre ética:





sábado, 4 de junho de 2016

O maquinismo atrativo - a teoria da atração apaixonada de Charles Fourier (trechos)



Trechos de diversas obras [*] de Charles Fourier (1772–1837) que expõem suas ideias principais sobre a ordem combinada das séries apaixonadas, as 12 paixões, glutonaria, trabalho atrativo, a educação, a crítica do livre arbítrio e da civilização. Apesar de diversos equívocos quanto aos meios que propunha, tais como a manutenção do sistema salarial (e, portanto, das classes, da mercadoria e do Estado), e a ilusão sobre a possibilidade de uma economia alternativa paralela ao capitalismo, e também certa fantasia teleológica naturalista, as ideias fundamentais permanecem extremamente perspicazes e impressionantes. Tradução por humanaesfera a partir do inglês e do francês.


O CÍRCULO VICIOSO DA CIVILIZAÇÃO

“[Na civilização,] cada pessoa engajada numa indústria está em guerra com as massas, e malevolente para com elas por interesse pessoal. Um médico deseja de seus semelhantes bons casos de febres, e um advogado, bons processos em cada família. Um arquiteto necessita de um bom incêndio que reduza um quarto da cidade às cinzas, e o vidreiro deseja uma boa tempestade de granizo que quebre todas as vidraças. Um alfaiate, um sapateiro quer que o público use somente coisas mal pintadas e sapatos feitos de couro fajuto, de modo a triplicar a quantidade consumida – para o benefício do comércio; é isso que os preocupa. Uma corte de justiça considera oportuno que a França continue a cometer 120.000 crimes e danos reclamáveis, número necessário para manter as cortes criminais. É assim que na indústria civilizada cada indivíduo está em guerra proposital com as massas; é o resultado necessário da indústria anti-associativa ou de um mundo invertido. [...]

Esse círculo vicioso da indústria é tão claramente percebido que por toda parte o povo está começando a suspeitar dele e a sentir, estupefato, que, na civilização, a pobreza nasce da própria abundância. [...]

Portanto, a indústria civilizada, eu repito, só pode criar os elementos da felicidade, mas não a própria felicidade. Pelo contrário, será mostrado que o excesso de indústria leva a civilização a grandes infortúnios, se os métodos do progresso real na escala social não forem descobertos.” (Q.M.)

A SERVIDÃO DO LIVRE ARBÍTRIO



“A servidão do Civilizado [...] é tão facilmente constatada que seria supérfluo demonstrá-la; mas ela continua orgulhosa numa trincheira na qual ainda resiste, e, por causa da falta de liberdades políticas e materiais, ela se agarra a algumas liberdades espirituais, principalmente o Livre Arbítrio [...].

Se existe uma questão à qual se deve aplicar o preceito de Bacon, “refazer o entendimento humano e esquecer tudo que foi aprendido”, é a do Livre Arbítrio. É preciso toda a insolência de nossos sofistas para pretender que o homem é livre para optar entre o bem e o mal quando o persuadem que, se ele opta pelo que chamam de mal, ele será torturado neste mundo pelos carrascos ou assassinos filosóficos; e no outro mundo pelos demônios ou assassinos teológicos. Até mesmo um animal, embora desprovido de razão, não ousaria optar pelo suposto mal numa situação desse tipo.

Posicione um cão esfomeado perto da comida e seu primeiro pensamento será cometer o mal, roubar e devorar o objeto cobiçado; mas faça-o ver o açoite suspenso sobre sua cabeça e o pobre animal se encolherá e parecerá vos dizer: se eu fosse livre, eu comeria a comida, mas como tu me espancarás, eu prefiro morrer de fome.

Assim é o Livre Arbítrio de que gozam o homem civilizado e o bárbaro: ele é livre para optar por mais ou por menos privações e suplícios, mas não é livre para o bem-estar considerando os fatores [éléments] ao seu redor. Se ele não estiver disposto a ser enforcado, ele pode optar pelo pequeno inconveniente de morrer de fome, segundo os princípios do aperfeiçoamento social que condena o pobre ao cadafalso quando ele ousa demandar trabalho, pão e um mínimo social.” (U.U., I)

“Temos que demonstrar que o Livre Arbítrio, no estado civilizado, é enganoso, passivo e subordinado aos impulsos da intriga e do preconceito, em suma, tão perigoso para as massas quanto para os indivíduos, porque ele em geral nada mais é do que uma sugestão mais ou menos enganosa, salvo exceções tão raras que confirmam a regra e reduzem o pretenso Livre Arbítrio dos Civilizados à privação real.” (U.U., I)

“[Na civilização, o livre arbítrio] não é senão o exercício da irracionalidade, do arbitrário em oposição à arbitragem. Precisamos pensar na extirpação da arbitrariedade e (na instauração) da arbitragem ou livre determinação, fundada teoricamente na evidência da justiça, e praticamente na utilidade da aplicação. Eis a faculdade de que o homem civilizado é privado por uma dupla causa, pela ignorância das regras da justiça ou leis da natureza e pela influência de duas ciências fraudulentas, a filosofia e a teologia, com suas insinuações arbitrárias no lugar da justiça e da natureza.” (U.U., I)



“Passemos ao papel ativo ou exercício direto do Livre Arbítrio, que supõe independência frente aos preconceitos, e conhecimentos exatos da sorte [destinée]. Qual regra o homem provido dessas novas luzes deverá seguir? A regra de seguir as leis da natureza desenvolvendo as cinco paixões sensitivas e as quatro afetivas, segundo a ordem indicada pelas três paixões distributivas. É impossível haver felicidade coletiva ou individual sem esse método, nenhum ser pode ser feliz positivamente sem a expansão da sua natureza ou desenvolvimento de suas atrações. Só podemos nos satisfazer no conhecimento da natureza apaixonada quando tivermos descoberto um meio de desenvolver nessa ordem nossas doze paixões, e não podemos descobrir isso exceto esquecendo os dogmas de nossos 600.000 volumes filosóficos e teológicos, mais ou menos contrários à expansão das paixões.”(U.U., I)

DEVER E ATRAÇÃO

“Todos aqueles caprichos filosóficos chamados deveres não têm nenhuma relação com a Natureza; o dever procede dos homens, a Atração procede de Deus; agora, se desejamos conhecer os desígnios de Deus, devemos estudar a Atração, a Natureza simplesmente, sem qualquer consideração pelo dever, que varia em cada era, enquanto a natureza das paixões foi e permanecerá invariável em todas as nações dos homens.” (Q.M.)

“O mundo instruído é totalmente imbuído com uma doutrina chamada MORAL, que é inimiga mortal da atração passional.

A moral ensina o homem a ser inimigo de si mesmo, a resistir a suas paixões, reprimi-las, a acreditar que Deus foi incapaz de organizar sabiamente nossas almas, nossas paixões; que é necessário o ensino de Platão e Sêneca para saber como distribuir os caracteres e os instintos. Imbuídos com esses preconceitos sobre a imperícia de Deus, o mundo instruído foi incapaz de calcular os impulsos naturais ou atrações passionais, que a moral proscreve e reduz ao estado de vícios.

É verdade que esses impulsos apenas nos arrastarão ao mal caso os tratemos isoladamente; mas devemos calcular seu jogo sobre uma massa de dez mil pessoas societariamente reunidas, e não sobre famílias ou indivíduos isolados: é isso que o mundo instruído não refletiu; reconheceremos neste estudo que, desde que se alcance um número de 1600 societários, os impulsos naturais chamados atrações tendem a formar séries de grupos contrastados, nos quais tudo leva à indústria tornada atrativa e à virtude tornada lucrativa.” (N.M.)

“As paixões, que se acredita serem inimigas da concórdia, na realidade conduzem àquela unidade da qual se supõe que elas são muito distantes. Mas fora do mecanismo chamado séries “exaltadas”, emulativas e engatadas, elas são tigres soltos, enigmas incompreensíveis. Foi isso que levou os filósofos a dizerem que nós devemos reprimi-las; uma opinião absurda, na medida em que só podemos reprimir nossas paixões pela violência ou pela substituição absorvente, substituição que não é repressão. Por outro lado, se fossem eficientemente reprimidas, a ordem civilizada rapidamente declinaria recaindo em um estado nômade, onde as paixões ainda seriam malevolentes como hoje. A virtude dos pastores é tão duvidosa quanto a de seus apologistas, e nossos fazedores de utopia, ao atribuir assim virtudes à povos imaginários, apenas são exitosos em provar a impossibilidade de introduzir a virtude na civilização.” (U.U., III)

AS PAIXÕES

“Uma objeção [à ideia de mecanismo societário] e que precisa ser refutada mais de uma vez, é aquela da discórdia social. Como conciliar as paixões, os interesses conflitantes, os caráteres incompatíveis, em suma, as inúmeras disparidades que engendram tanta discórdia?

Pode-se facilmente pensar que farei uso de uma alavanca totalmente desconhecida, e cujas propriedades não podem ser julgadas até que eu as tenha explicado. As séries passionais contrastantes se alimentam unicamente dessas disparidades que desconcertam a política civilizada; elas agem como o lavrador que de uma massa de sujeira retira os germes da abundância; o refugo, a matéria imunda e impura que serve apenas para sujar nossas habitações é para ele fonte de riquezas.” (U.U., II)

“Somos familiares com as cinco paixões sensuais tendentes à Luxúria, com as quatro paixões afetivas tendentes aos Grupos; apenas nos resta aprender sobre as três paixões distributivas cujo impulso combinado introduz a Série, um método social cujo segredo foi perdido desde a época da humanidade primitiva, que foi incapaz de manter as Séries por mais do que cerca de 300 anos.” (Q.M.)

“As quatro paixões afetivas tendentes a formar os quatro grupos - amizade, amor, ambição, paternidade ou consanguinidade - são bastante familiares; mas ainda não foi feita delas nenhuma análise, paralelo ou escala.

As três outras, chamadas distributivas, são totalmente mal-entendidas, e são apenas intituladas de vícios, embora sejam infinitamente preciosas; pois essas três possuem a propriedade de formar e dirigir as séries de grupos, a fonte da harmonia social. Dado que essas séries não se formam na ordem civilizada, as três paixões distributivas causam apenas desordem. Vamos defini-las.” (U.U., I)

“10ª - A CABALISTA é a paixão que, como o amor, tem a propriedade de confundir postos, puxar superiores e inferiores juntos uns dos outros. Todo mundo deve lembrar de ocasiões quando se é arrastado em algum Caminho com completo sucesso.

Por exemplo: a cabala eleitoral para eleger um certo candidato; cabala sobre agiotagem; cabala de dois pares de amantes, planejando um quarteto sem o conhecimento do pai; cabala familiar para assegurar uma conquista desejada. Se essas intrigas são coroadas de sucesso, os participantes se tornam amigos; apesar de algumas inquietações, eles passaram momentos felizes juntos enquanto conduziram a intriga; as agitações que ela excita são necessidades da alma.


Muito distante da calma insípida cujas doçuras são exaltadas pela moral, o espírito cabalístico é o verdadeiro caminho do homem. Intrigar dobra seus recursos, amplia suas faculdades. Compare o tom de uma reunião social formal, seu jargão moral, forçado, lânguido, com o tom dessa mesma gente unida na cabala: eles aparecerão metamorfoseados; admiraremos sua expressão, sua animação, o jogo rápido de ideias, a presteza das ações, da decisão; em suma, a rapidez do movimento espiritual ou material. Esse magnífico desenvolvimento das faculdades humanas é fruto da décima paixão, a cabalista, que prevalece constantemente nos trabalhos e encontros das séries apaixonadas.

Como sempre resulta de certo modo em sucesso, e como seus grupos são todos preciosos uns para os outros, o encanto das cabalas se torna um poderoso laço de amizade entre todos os sectários, mesmo os mais desiguais.” (U.U. IV)

“A perfeição geral da indústria então surgirá da paixão mais condenada pelos filósofos; a cabalista ou dissidente, que nunca conseguiu obter entre nós o status de uma paixão, embora seja tão fortemente enraizada até nos próprios filósofos, que são os maiores intrigantes do mundo social.

A cabalista é a paixão favorita das mulheres; elas são excessivamente apreciadoras da intriga, das rivalidades e de todas as brigas maiores e menores de uma cabala. É uma prova de sua eminente aptidão para a nova ordem social, onde inúmeras cabalas serão necessárias em todas as séries, discórdias periódicas para manter um movimento de ir e vir entre os sectários dos diferentes grupos. [...]

12ª – A COMPÓSITA. Essa paixão requer em cada ação uma sedução ou prazer composto dos sentidos e da alma, e consequentemente o entusiasmo cego que nasce somente da mistura de dois tipos de prazer. Essas condições são tudo menos compatíveis com o trabalho civilizado, que, longe de oferecer qualquer sedução para os sentidos ou a alma, é somente um duplo tormento mesmo nas mais louvadas oficinas, tal como as fábricas de fiação da Inglaterra onde o povo, mesmo a criança, trabalha quinze horas por dia, sob ameaça, em locais desprovidos de ar.

A compósita é a mais linda das doze paixões, a única que melhora o valor de todas as outras. Um amor não é lindo a menos que seja um amor composto, combinando o encanto dos sentidos e da alma. Ele se torna insignificante ou enganoso se se limita a uma dessas fontes. Uma ambição não é veemente exceto se pôr em jogo duas fontes: glória e interesse. Então, ela se torna capaz de esforços brilhantes.

A paixão compósita traz um respeito tão grande que todos concordam em desprezar alguém inclinado ao prazer simples. Imagine um homem que se guarnece de finas comidas, vinhos finos, com a intensão de desfrutá-los sozinho, de dar a si mesmo para se empanturrar, e ele se expõe a um bem merecido escárnio. Mas se esse homem reúne uma companhia seleta em sua casa, onde se pode desfrutar ao mesmo tempo o prazer dos sentidos com regozijo e o prazer da alma por companheirismo, ele será celebrado, porque esses banquetes serão um prazer composto e não simples.

Se a opinião geral despreza o prazer material simples, o mesmo vale para o prazer espiritual simples, de reuniões onde não há nem frescor, nem dança, nem amor, nem nada para os sentidos, onde se goza apenas na imaginação. Uma tal reunião, desprovida da compósita ou prazer dos sentidos e da alma, torna-se insípida para seus participantes, não muito antes que “o tédio cresça e ela se dissolva”.

11ª A PAPILONNE (borboleta) ou Alternante. Embora décima primeira conforme a escala, ela deve ser examinada depois da 12ª, porque ela serve como um elo entre as outras duas, a 10ª e a 12ª. Se o propósito das séries fosse prolongar as sessões por doze ou quinze horas como aquelas dos trabalhadores civilizados, que, da manhã à noite, se estupefazem engajados em deveres insípidos sem qualquer diversão, Deus teria nos dado um gosto pela monotonia, uma aversão à variedade. Mas como as sessões das séries são bastante curtas, e o entusiasmo inspirado pela compósita é incapaz de ser prolongado além de um hora e meia, Deus, em conformidade a essa ordem industrial, tinha que nos brindar com a paixão da papillonnage, a inquietude pela variedade periódica nas fases da vida, e pela frequente variação de nossas ocupações. Ao invés de trabalhar doze horas com um intervalo escasso para uma pobre e embotada refeição, o estado societário nunca estende suas sessões de trabalho além de uma hora e meia ou duas no máximo; além disso, ele difundirá uma multidão de prazeres, encontros dos dois sexos terminando em banquetes, dos quais se procederá a novas diversões, com diferentes companhias e cabalas.

Sem esta hipótese do trabalho associativo, arranjado na ordem que eu descrevi, seria impossível conceber por que Deus deveria ter nos dado três paixões tão antagônicas à monotonia experimentada na civilização, tão irracional que, no estado existente, elas nem mesmo foram consideradas paixões, mas são chamadas apenas vícios.

Uma série, pelo contrário, não poderia ser organizada sem a permanente cooperação dessas três paixões. Elas são obrigadas a intervir constantemente e simultaneamente no jogo serial da intriga. Daí decorre que essas três paixões não podiam ser discernidas até que o mecanismo serial fosse inventado, e que até então elas fossem consideradas vícios. Quando a ordem social para a qual Deus nos destinou for conhecida em detalhe, veremos que esses pretensos vícios, a Cabalista, a Papillonne e a Compósita tornam-se as três garantias da virtude e da riqueza; que Deus de fato soube como criar paixões tais como elas são demandadas pela unidade social; que Ele estaria errado em mudá-las para agradar Sêneca e Platão; que, pelo contrário, a razão humana deve buscar descobrir uma condição social que esteja em afinidade com essas paixões. Nenhuma teoria moral jamais as mudará e, conforme as regras da dualidade de tendência, elas intervirão sempre para levar AO MAL no estado desconjuntado ou limbo social, e AO BEM no regime de associação ou trabalho serial.” (U.U, III)

“As sete paixões “afetivas” e “distributivas” dependem mais do espírito do que da matéria; são classificadas como PRIMITIVAS. Sua ação combinada engendra uma paixão coletiva ou uma formada pela união das sete, como o branco é formado pela união das sete cores de um raio de luz; devo chamar essa 13ª paixão de Harmonismo ou Unitarismo; é ainda menos conhecida do que a 10ª, a 11ª e a 12ª, e dela ainda não falei.

O Unitarismo é a inclinação do indivíduo para reconciliar sua própria felicidade com a de tudo que o circunda e de todo o gênero humano, até hoje tão odioso. É uma filantropia irrestrita, uma boa vontade universal que só pode ser desenvolvida quando a humanidade inteira for rica, livre e justa.” (Q.M.)

EXEMPLO: A GLUTONARIA (SOBRE A GASTROSOFIA)


“Eu devo, para preparar outros para compartilhar minha confiança, explicar o objeto de um desses impulsos considerados viciosos.

Eu seleciono uma propensão que é a mais comum e a mais refreada pela educação: é a glutonaria das crianças, a sua predileção por guloseimas, e, diante do conselho dos pedagogos para que gostem de pão, a opor-se comendo mais pão do que o permitido.

A natureza é muito desastrada por dotar as crianças com gostos tão opostos à sã doutrina! Toda criança considera um desjejum com pão seco uma punição; ela gosta de cremes açucarados, laticínios adocicados e doces, marmeladas e compotas, frutas cristalizadas e cruas, limonadas e laranjadas, vinho branco suave. Observe atentamente esses gostos que prevalecem em todas as crianças; sobre isso um grande caso deve ser julgado: a questão a ser determinada é quem está errado, Deus ou a moralidade? [...]

Deus dotou as crianças com o gosto pelas substâncias que serão as menos custosas na ordem societária.  Quando o globo inteiro for habitado e cultivado, gozando a livre circulação [libre circulation], sem nenhuma barreira, as doces iguarias que mencionei antes serão muito menos custosas do que o pão; os víveres abundantes serão as frutas, laticínios e o açúcar, mas não o pão, cujo custo se elevará muito, porque os trabalhos de cultivo do trigo e preparação diária de pão são penosos e pouco atrativos; é preciso pagar bem mais que aqueles nos pomares ou confeitarias.” (N.M.)

“No estado civilizado, a gulodice não se alia à indústria, porque o produtor trabalhador não desfruta dos bens que foram cultivados ou fabricados. Essa paixão, portanto, se torna um atributo do ocioso; e é apenas por isso que ela é viciosa, sem falar dos desperdícios e excessos que ocasiona.

No estado societário, a gulodice tem um papel totalmente oposto: não é mais a recompensa da ociosidade, mas da indústria, pois até o mais pobre cultivador participa no consumo dos preciosos bens. Além disso, sua única influência será nos preservar do excesso, devido à variedade, e estimular o trabalho ao aliar as intrigas do consumo com aquelas da produção, preparação e distribuição. A produção, sendo a mais importante dessas quatro, coloca de início o princípio que deve nos guiar; é a generalização do epicurismo. Com efeito:

Se pudéssemos elevar toda a humanidade aos refinamentos da gastronomia, mesmo nos pratos mais comuns, tais como o repolho e rabanete, e dar a cada um uma afluência que lhe permita recusar toda comida de qualidade ou preparação medíocre, o resultado seria que cada país cultivado seria, depois de alguns anos, coberto com deliciosas produções; pois não haveria nenhum lugar para as medíocres, tais como os melões amargos e pêssegos amargos, que nascem em certos solos onde não mais se cultiva melões nem pêssegos: cada lugar se dedicaria às produções que seu solo pode elevar à perfeição; o solo pobre seria deixado aos esportes, ou talvez às florestas, campinas  artificiais ou outro emprego que pudesse dar um produto de boa qualidade. Não é que as Séries apaixonadas não consumam comidas e coisas comuns, mas elas desejam, mesmo nas coisas comuns, tais como feijões e pano grosso, a qualidade mais perfeita possível, em conformidade com as proporções que a natureza estabeleceu na atração industrial.

O princípio do qual é preciso partir é que se chegue a uma perfeição geral da indústria, pela exigência e refinamento universal dos consumidores sobre as comidas e as roupas, as mobílias e os prazeres.” (N.M.)

“Minha teoria se resume a utilizar as paixões hoje condenadas, tal como a Natureza nos deu e sem de nenhum modo mudá-las. Eis todo o mistério, todo o segredo do cálculo da Atração apaixonada. Não se argumenta aqui se Deus estava certo ou errado ao dar à humanidade estas ou aquelas paixões; a ordem societária se beneficia delas sem mudá-las.” (U.U., IV)

“Seu mecanismo produz em todos os aspectos a coincidência entre o interesse do indivíduo e o interesse coletivo, sempre divergentes na civilização.” (F.I)

TRABALHO ATRATIVO

Aviso aos civilizados a respeito da próxima metamorfose social
“No mecanismo civilizado, encontramos por toda parte a infelicidade composta no lugar do encanto composto. Julguemos pelo caso do trabalho. Ele é, dizem as Escrituras muito justamente, uma punição do homem: Adão e sua prole são condenados a ganhar o pão com o suor de seu rosto. Isso já é uma aflição; mas esse trabalho, esse trabalho ingrato, do qual depende o ganho de nosso miserável pão, nós sequer podemos tê-lo! Falta ao trabalhador o trabalho do qual seu sustento depende – e ele suplica em vão por essa tribulação! Ele sofre ainda uma segunda vez, para obter trabalho numa era cujos frutos são de seu chefe e não dele, ou de ser empregado em obrigações nas quais ele é totalmente estranho... O trabalhador civilizado sofre ainda uma terceira aflição através das doenças com que ele é geralmente golpeado pelo excesso de trabalho demandado por seu chefe... ele sofre também uma quinta aflição, a de ser desprezado e tratado como indigente porque lhe faltam as coisas necessárias que ele precisa comprar pela angústia do trabalho repugnante. Ele sofre, finalmente, uma sexta aflição, a de que ele não vai obter nem progresso e nem salário suficiente, e que ao tormento do sofrimento presente se acrescenta a perspectiva do sofrimento futuro, e de ser enviado ao cadafalso se demandar esse trabalho que ele pode perder amanhã.” (Man.)

“Porém, o trabalho é o deleite de várias criaturas, tais como os castores, abelhas, vespas e formigas, que tem completa liberdade para preferir a inércia: mas Deus lhes proveu com um mecanismo social que atrai à indústria, e faz a felicidade ser encontrada na indústria. Por que ele não nos concederia o mesmo favor como o desses animais? Que diferença entre a sua condição industrial e a nossa! Um russo, um argelino trabalham por medo do açoite e da paulada; um inglês, um francês, por medo da fome que espreita sua pobre família; os gregos e romanos, cuja liberdade foi louvada por nós, trabalhavam como escravos e por medo de punição, como os negros nas colônias atuais.” (U.U., II)

“No trabalho, como no prazer, a variedade é evidentemente o desejo da natureza. Qualquer gozo prolongado sem interrupção além de duas horas conduz à saciedade, ao abuso, embota nossas faculdades, e esgota o prazer. Uma refeição de quatro horas não vai passar sem excesso; uma ópera de quatro horas vai acabar enfastiando o espectador. A variedade periódica é uma necessidade do corpo e da alma, uma necessidade de toda natureza; até o solo requer alternância de sementes, e a semente, alternância de solo. O estômago vai logo recusar o melhor dos pratos se ele é oferecido todos os dias, e a alma será logo embotada no exercício de alguma virtude se ela não é socorrida por alguma outra virtude.” (U.U., I)

“A principal fonte de serenidade entre os Harmonianos é a frequente mudança de encontros. A vida é um tormento perpétuo para nossos trabalhadores atuais, que são obrigados a gastar doze, frequentemente quinze horas em algum trabalho tedioso. Nem os ministros são isentos; encontramos alguns deles se queixando de ter passado um dia inteiro na tarefa maçante de pôr assinaturas em milhares de documentos oficiais. Tais responsabilidades fatigantes são desconhecidas na ordem societária; os Harmonianos, que devotam uma hora e meia ou no máximo duas às diferentes sessões, e que, nessas curtas sessões, são sustentados por impulsos cabalistas e pela união amigável com associados seletos, não falham em levar alegria e encontra-la por toda parte.” (N.M.)

EDUCAÇÃO


“Não há problema sobre o qual se tenha errado mais do que o da instrução pública e seus métodos. A Natureza, nesse ramo da política social, sofreu um prazer maligno em todas as épocas, ao confundirem as teorias e seus expoentes, desde o tempo da desgraça incorrida por Sêneca, o instrutor de Nero, até o dos fracassos de Condillac e Rousseau, dos quais o primeiro constituiu apenas um idiota político e o segundo sequer ousou se responsabilizar da educação de suas próprias crianças.” (U.U., IV)

“Será observado que, na Harmonia, a única função paterna é se render a seus impulsos naturais, estragar a criança, mimar todos os seus caprichos.

A criança mimada será suficiente reprovada e ridicularizada pelos seus pares. Quando uma criança passa o dia com meia dúzia de tais grupos e sofre suas piadas, ela fica completamente imbuída com um sentimento de sua insuficiência, e fica muito disposta a ouvir os conselhos dos patriarcas e veneráveis que são bons o bastante para lhes oferecer instrução.

Depois disso, terá pouca consequência que os pais se comprazam em mimar a criança na hora de dormir, dizendo que ela foi tratada muito severamente, que ela é realmente encantadora, muito inteligente; essas efusões apenas vão raspar a superfície, elas não irão convencer. A impressão foi feita. Ela está humilhada pelos zombarias dos  sete ou oito grupos de pequenos que ela visitou durante o dia. Será em vão que o pai e a mãe expliquem que as crianças que as repeliram são bárbaros, inimigos do intercurso social, da gentileza e bondade; todas essas platitudes dos pais não terão efeito, e a criança, ao retornar os seristérios infantis no dia seguinte, só vai lembrar das afrontas do dia anterior; na realidade é ela que vai curar o pai do hábito de mimar, redobrando seus esforços e provando que ela é consciente de sua inferioridade.” (U.U., IV)

“A Natureza concede a toda criança um grande número de instintos industriais, cerca de trinta, dos quais alguns são primários ou diretores e conduzem aos que são secundários.

A questão é descobrir antes de tudo os instintos primários: a criança morde a isca assim que se apresenta; desse modo, tão logo ela aprende a andar, deixando o seristério infantil, o cuidador ou cuidadora que se responsabiliza por ela rapidamente a conduz a todas as oficinas e comparece aos encontros industriais próximos dali; e como a criança vê por toda parte ferramentas diminutas, uma indústria em miniatura, na qual crianças de dois anos e meio até três já estão engajadas, e com quem ela está ávida por se associar, bisbilhotar, futucar, no fim de duas semanas podem ser discernidas quais oficinas a atraem, quais os seus instintos industriais.

Havendo uma variedade excessivamente grande de ocupações na falange, é impossível que a criança não encontre oportunidades de satisfazer vários de seus instintos dominantes; estes se exibirão à vista de pequenas ferramentas manipuladas por outras crianças alguns meses mais velhas do que ela.

Segundo os pais e professores civilizados, as crianças são pequenos preguiçosos; nada é mais errôneo; as crianças de dois e três anos são muito industriosas, mas nós devemos conhecer os móveis que a Natureza deseja pôr em ação para atraí-las à indústria nas séries apaixonadas e não na civilização. Os gostos predominantes em todas as crianças são:

1. Bisbilhotice ou inclinação a futucar tudo, examinar tudo, olhar dentro de tudo, e mudar constantemente as acupações.
2. Comoção industrial, o gosto por ocupações barulhentas.
3. Macaquice ou mania imitativa.
4. Miniatura industrial, o gosto por oficinas em miniatura.
5. Atração progressiva do fraco para o forte.

Há muitas outras; limito-me a enumerar essas cinco primeiras, que são bastante familiares ao civilizado. Examinemos o método a ser seguido para aplicá-las à indústria desde cedo.

O homem ou a mulher que cuida dela inicialmente vai explorar a mania de bisbilhotar, tão dominante nas crianças de dois anos. Ela quer mexer em tudo, manusear e examinar tudo que vê. Hoje, ela é separada, colocada numa sala vazia, pois de outro modo ela destruiria tudo.

Essa propensão a manusear tudo é uma isca da indústria; para atraí-la, a criança será conduzida para as pequenas oficinas; ali, ela verá crianças de dois e meio a três anos usando pequenas ferramentas, pequenos martelos. Ela desejará exercitar sua mania imitativa chamada MACAQUICE; serão lhe dadas algumas ferramentas, mas ela vai querer ser admitida entre as crianças de vinte e seis e vinte sete meses que sabem como trabalhar, e que vão rejeitá-la.

Ela vai insistir se o trabalho coincidir com qualquer de seus instintos: o cuidador ou patriarca ensinará alguma parte do trabalho, e ela vai rapidamente ter sucesso se mostrando útil em algumas coisas frívolas que lhe servirão como introdução; examinemos esse efeito com relação a um tipo de trabalho sem importância, dentro do alcance das menores crianças – descascar e escolher ervilhas. Esse trabalho, que conosco ocupa as mãos de pessoas de trinta, será confiado a crianças de dois, três, quatro anos: o salão é guarnecido de mesas inclinadas contendo vários ocos; duas crianças estão sentadas no lado elevado; elas tiram as ervilhas da vagem, a inclinação da mesa faz os grãos rolarem para o lado mais baixo onde três crianças menores são posicionadas, de vinte e cinco, trinta e trinta e cinco meses, encarregadas da tarefa de escolher, e mobiliada com implementos especiais.

A tarefa é separar as menores ervilhas para o guisado adocicado, as medianas para o guisado de toucinho, e as maiores para a sopa. A criança de trinta e cinco meses primeiro seleciona as pequenas que são as mais difíceis de pegar; ela envia todas as grandes e medianas para o próximo oco, onde a criança de trinta meses empurram aquelas que parecem grandes para o terceiro oco, retorna as pequenas para o primeiro, e coloca os grãos medianos na cesta. A criança de trinta e cinco meses, posicionada no terceiro oco, tem uma tarefa fácil; ela retorna alguns grãos medianos para o segundo, e reúne as grandes em sua cesta.

É nessa terceira posição que a criança iniciante será colocada; ela vai se misturar orgulhosamente com os outros no lançamento dos grãos grandes na cesta; é um trabalho bem bobo, mas ela sentirá como se ela tivesse realizado tanto quanto seus companheiros; ela ficará entusiasmada e será tomada por um espírito de emulação, e na terceira sessão ela será capaz de substituir a criança de trinta e cinco meses, retornar os grãos do segundo tamanho no segundo compartimento, e reunir somente os maiores, que são facilmente distinguidos.” (N.M.)

“Se a educação civilizada desenvolvesse em cada criança suas inclinações naturais, veríamos quase todas as crianças ricas se enamorarem com várias ocupações muito plebeias, tais como aquela do pedreiro, do carpinteiro, do ferreiro, do seleiro. Exemplifiquei Luiz XVI, que amava o negócio do serralheiro; uma infanta da Espanha preferia aquele do sapateiro; um certo rei da Dinamarca se satisfazia fabricando seringas; a anterior rei de Nápoles amava vender ele mesmo o peixe que ele tinha pescado na feira; o príncipe de Parma, que Condillac tinha treinado em sutilizas metafísicas, no entendimento da intuição, da cognição, só tinha gosto pela ocupação dos representantes de igreja e a dos irmãos leigos.

A grande maioria das crianças ricas seguiria esses gostos plebeus, se a educação civilizada não se opusesse ao desenvolvimento deles; e se a sujeira das oficinas e a grosseria dos trabalhadores não levantasse uma repugnância mais forte do que a atração. Que filho de príncipe existe que não gosta de uma das quatro ocupações que mencionei, aquela do pedreiro, do carpinteiro, ferreiro e do seleiro, e quem não avançaria nelas se ela contemplasse desde tenra idade o trabalho feito em bonitas oficinas, por gente refinada, que sempre arranjaria oficinas em miniatura para as crianças, com poucas complicações e trabalho leve?” (U.U., III)


Nenhuma tentativa será feita, como no caso da educação atual, de criar pequenos sábios precoces, escolas primárias intelectuais iniciantes, introduzindo desde os seis anos em sutilezas científicas; o propósito será de preferência assegurar a precocidade mecânica; capacidade na indústria corporal, que, longe de retardar o crescimento da mente, o acelera.

Se quisermos observar a inclinação geral das crianças de quatro anos e meio a nove anos de idade, veremos que elas são fortemente atraídas para todos os exercícios materiais, e muito pouco aos estudos; é certo então que, de acordo com o desejo da natureza ou atração, o cultivo material deve predominar nessa idade.

Por que esse impulso da infância para os exercícios materiais? Porque a Natureza quer, sobretudo, fazer do homem um lavrador e um fabricante, para levá-lo à riqueza antes de conduzi-lo à ciência.” (U.U., IV)

[Trechos traduzidos por humanaesfera a partir do inglês e francês]

Nota:
[*] Siglas usadas para obras de Charles Fourier:
Q.M. - Théorie des quatre mouvements et des destinées générales (1808).
U.U. - Théorie de l'unité universelle (1822-1823).
N.M. - Le Nouveau monde industriel et sociétaire ou invention du procédé d'industrie attrayante et naturelle, distribuée en séries passionnées (1829).
F.I. - La fausse industrie morcelée répugnante et mensongère et l'antidote, l'industrie naturelle, combinée, attrayante, véridique donnant quadruple produit (1835).
Man. - Manuscrits de Fourier (1845-1858)

(obs.: todas essas obras podem ser encontradas online em http://gallica.bnf.fr , da Biblioteca Nacional da França)






PARA IMPRIMIR: BROCHURA HUMANAESFERA #5



Humanaesfera #5 é a quinta brochura (livreto) com conteúdos deste site. Este número contém extratos das obras de Charles Fourier e também extratos da primeira publicação comunista libertária, o jornal L'Humanitaire


Neste link, está o PDF com a brochura, que consiste de 6 folhas A4 para serem impressas frente-e-verso (em impressoras que imprimem em frente-e-verso automaticamente, selecione "borda curta" ou "no sentido da borda menor", ou ainda "Frente e verso, orientação vertical"), dobradas e grampeadas no meio. 

Para ler como e-book, baixe a versão EPUB ou esta versão PDF.







Outros clássicos que traduzimos:

Anarquia e Comunismo (1880) – Carlo Cafiero


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