Mostrando postagens com marcador comunismo libertário. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador comunismo libertário. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 2 de março de 2018

Teoria comunista telegráfica


(English translation: Telegraphic communist theory)

Abaixo, uma apresentação telegráfica (i.e., concisa e direta) da teoria comunista, expondo conceitos básicos, como capital, proletariado, luta de classes, revolução e comunismo. 




teoria comunista telegráfica


1
 Temos capacidades e necessidades.


2
Sem separação entre nossas capacidades e nossas necessidades é impossível que ocorra compra e venda.


3
A compra e a venda pressupõem a privação dos meios pelos quais nossas necessidades são satisfeitas por nossas capacidades. Essa privação é a propriedade privada, que nos transforma em proletários.


4
A propriedade privada assegura (graças à força repressiva do Estado) uma situação de contínua escassez, tal que a compra e a venda ocorram continuamente e não tenham fim.


5
A separação entre nossas capacidades e nossas necessidades se torna uma relação na qual só nos resta vender a única coisa que ainda temos - nossas capacidades de pensar e de agir, a força de trabalho - aos donos da propriedade privada se quisermos receber dinheiro para pagar pelas coisas que necessitamos para sobreviver (salário). Mas nem tudo é tão sombrio, pois a propriedade privada oferece também a liberdade de escolher outra opção: se tornar mendigo, morar na rua, morrer de fome, prisão....


6
Quando vendemos nossas capacidades (isto é, quando nos vendemos no mercado de trabalho), o trabalho e tudo o que produzimos com nosso trabalho pertencem à propriedade privada. Quanto mais trabalhamos, mais aumentamos a propriedade privada, ou seja, maior o fosso entre nossas capacidades e nossas necessidades, mais somos privados de meios de vida e mais somos submetidos ao poder dos proprietários.


7
Trabalhando, cada vez mais transformamos todos os aspectos do mundo em propriedade privada. Cada vez mais privados do próprio mundo em que vivemos,  mais somos expulsos deste mundo, usados e lançados na rua, na sarjeta, para depois sermos consumidos novamente, descartados outra vez e assim por diante - somos o proletariado, a esmagadora maioria da população do mundo. A propriedade privada que graças ao nosso próprio trabalho se acumula crescentemente como um poder hostil cada vez mais poderoso e desumano contra nós chama-se capital.


8
Consumidos, usados, esgotados, estressados, irritados, mutilados. ansiosos, deprimidos, vivendo sempre por um fio, estamos continuamente em contraposição existencial e material ao capital, não importando qual a nossa vontade, opinião ou consciência. Ser privado de propriedade, ser proletário, não é uma condição que escolhemos, é uma condição imposta pela existência da propriedade privada, da mercadoria, do capital, do Estado. Essa contínua contraposição existencial ao capital é o conflito que está no cerne da sociedade capitalista em todo mundo: a luta de classes.


9
A classe dominante (o empresariado particular ou estatal, burocratas, gestores...) luta para desviar e canalizar as insatisfações dos proletários direcionando-as contra outros proletários (seja colegas de trabalho, desempregados, vizinhos, proletários de outra empresa, de outro país, outro bairro, outra cor de pele, opinião, formato do nariz, sexo, costumes, gênero, língua, gosto, time de futebol...), para que seja ilusoriamente atribuída a estes, como bodes expiatórios, a causa de seus sofrimentos (estresse, esgotamento, irritação, medo de ser descartado na competição, fome, depressão, violência, escravidão, desamparo), sofrimentos que são na realidade causados pela existência da propriedade privada, do trabalho, do capital. Na competição entre proletários por se submeterem à propriedade privada (isto é, à classe dominante e ao Estado) em troca da sobrevivência, eles encontram os outros proletários como inimigos de fato, competidores reais que estão atrapalhando seu difícil esforço de sobreviver no mundo cão da propriedade privada.


10
Como a classe dominante tem sido vitoriosa na luta de classes até hoje (caso contrário, a sociedade capitalista, o trabalho, a propriedade privada e o Estado já teriam sido superados), a situação descrita acima é a situação "normal" que necessariamente predomina com estardalhaço enquanto a sociedade capitalista se perpetua, uma situação em que não há classes, mas apenas "cidadãos" numa competição infernal pela sobrevivência, por propriedades, e por capital. No entanto, isso é só a aparência mais superficial: na realidade, os proletários, independentemente de sua vontade, consciência ou opinião, lutam incessantemente para trabalhar o mínimo e para que tudo o que necessitem seja o mais grátis possível, em oposição direta aos donos da propriedade privada, que lutam (também independentemente de sua vontade ou opinião) para que os proletários trabalhem ao máximo (aumentando a propriedade privada, isto é, a privação de propriedade, o capital, e seu poder de classe dominante) e para que tudo lhes seja o mais caro possível ao lhes pagar o mínimo salário que puder. Esse conflito, a luta de classes, constitui o cerne essencial da sociedade capitalista no mundo todo, um conflito que o capital se esforça de todas as maneiras para acabar (desde o "Estado de bem estar social" até a matança em massa) mas não pode.


11
Essa luta que os proletários já travam contra o capital continuamente em todos os lugares na sociedade capitalista só pode ter êxito se eles, na sua práxis concreta, conseguirem destruir o que separa suas capacidades de suas necessidades, ou seja, se abolirem a propriedade privada dos meios de vida e de produção, suprimindo o trabalho, a mercadoria, o Estado e o capital. Para isso, é necessário que se comuniquem e ajam associativamente em escala mundial, fraternizando entre si contra "suas" classes dominantes em todos os lugares, suprimindo rápida e simultaneamente todas as fronteiras, propriedades privadas, empresas, empregos, desempregos, Estados, nações, identidades (que nada mais são que estereótipos), em suma, que destruam todas as condições que os coagem, contra si mesmos, a se unir às propriedades privadas e aos Estados, que estão sempre em competição e guerra entre si para que os explorados se sacrifiquem e sacrifiquem uns aos outros para defender seus próprios exploradores.


12
Uma tal fraternização e associação sem fronteiras dos explorados que destrói a sociedade de classes simultaneamente em todo mundo é impossível e sem sentido se não for ao mesmo tempo a apaixonante criação universal (isto é, cosmopolita) das condições materiais em que a afirmação prática das necessidades e capacidades de cada um, isto é, a liberdade de cada um, não mais é coagida a limitar nem privar a liberdade dos outros (e de si mesmo) tal como é sob a propriedade privada (que por isso é sempre sinônimo de Estado, de polícia...), mas, pelo contrário, onde a liberdade de cada um se multiplica quanto maior for a afirmação prática das capacidades e necessidades de todos os outros, quanto maior for a liberdade de todos os outros, a imensa riqueza que é a existência de toda a humanidade, isto é, da comunidade humana mundial. O movimento mundial em que o proletariado afirma livremente as necessidades e capacidades humanas, impondo-as ditatorialmente contra a ditadura do capital, do dinheiro, da propriedade privada e do Estado, é o comunismo.

humanaesfera, março de 2018



Veja também essa série de textos que desenvolvem vários aspectos apresentados acima:

- Propriedade privada, escassez e democracia

- Contra a metafísica da escassez, copiosidade prática

- Condições de existência universalmente interconectadas/interdependentes

- Contra a estratégia

- Propriedade privada, substância do Estado



A seguir, uma bibliografia básica sobre teoria comunista (a teoria comunista verdadeira e não aquelas teorias, como o leninismo, que interpõe reformas capitalistas, isto é, a continuação do trabalho assalariado, da propriedade privada ["nacionalizada], do capital [concentrado no Estado] e do Estado, em suma, teorias que defendem a continuação da exploração em nome de um futuro distante onde supostamente exista o comunismo):

BIBLIOGRAFIA BÁSICA SOBRE A TEORIA COMUNISTA:

A reprodução da vida cotidiana (Fredy Perlman, 1969)

Capitalismo e comunismo (Jean Barrot/Gilles Dauvé, 1972)

Dois textos contra o trabalho (GCI, 1979 e 1982)

A recusa do trabalho (Comitato Operaio di Porto Marghera, 1970)

Abolição do trabalho e a questão do circuito produtivo global no comunismo (Joseph Kay / Libcom, 2008)

O mito do socialismo cubano (Kaos, 1997)


Quando as insurreições morrem (Gilles Dauvé, 1998)

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Brochura humanaesfera #5 - O mecanismo atrativo - extratos das obras de Charles Fourier e do Jornal L'Humanitaire


Saiu Humanaesfera #5Quinta brochura (livreto) com conteúdos deste site. Este número contém extratos das obras de Charles Fourier e também extratos da primeira publicação comunista libertária, o jornal L'Humanitaire


Neste link, está o PDF com a brochura, que consiste de 6 folhas A4 para serem impressas frente-e-verso (em impressoras que imprimem em frente-e-verso automaticamente, selecione "borda curta" ou "no sentido da borda menor", ou ainda "Frente e verso, orientação vertical"), dobradas e grampeadas no meio. Ela contém os textos:

Trechos de Charles Fourier sobre a teoria da atração apaixonada (1808-1858)

quarta-feira, 29 de março de 2017

L'Humanitaire (1841), a primeira publicação comunista libertária (trechos selecionados)

(English version: L'Humanitaire (1841), the first libertarian communist publication (excerpts))


Traduzimos as principais partes e alguns artigos completos do jornal L'Humanitaire, publicado em 1841, em Paris [1]. O jornal exprimia a tendência denominada communistes matérialistes, também chamados communistes immédiats ou humanitaires. Foi “a primeira publicação comunista libertária”, segundo o historiador Max Nettlau. Infelizmente, devido à forte repressão que se seguiu (em que 20 envolvidos foram presos), o jornal foi descontinuado após o segundo número. [2]


Os textos dos dois números do jornal (publicados, respectivamente, em julho e agosto de 1841) defendiam: 

- a criação imediata de uma sociedade “onde toda dominação do homem pelo homem seja inteiramente abolida”; 

- a abolição das fronteiras nacionais (obs.: a palavra humanitaire, humanitário, não existia no dicionário. Era então um neologismo para se referir à ideia de comunidade humana mundial, ao universalismo, internacionalismo, cosmopolitismo etc, ou seja, tinha um sentido diferente de hoje, que se restringe à filantropia estatal, bélica ou burguesa [3]);

- a abolição da coerção ao trabalho, assim como da divisão do trabalho, através da instauração do trabalho atrativo (ideia inspirada em Charles Fourier), numa situação em que os seres humanos viajariam livre e continuamente pelo mundo, deixando “livre curso ao desenvolvimento da fraternidade ao livrar o homem do contato perpétuo com os mesmos seres, o que engendra o apego individual que é positivamente a negação da lei da atração, una e universal” e em que ninguém faria o mesmo trabalho por mais de um dia. E

- coerentemente com a superação da divisão do trabalho, a abolição tanto da venda quanto da troca, numa sociedade que se organiza em função da livre satisfação de todas as necessidades humanas e do livre desenvolvimento de todas as faculdades.

O jornal causou escândalo, sendo fortemente criticado e combatido pelas demais tendências socialistas de então, como os icarianos (seguidores de Étienne Cabet, defensor de um comunismo cristão 
autoritário, pacifista, a-classista,  autor da utopia Viagem à Icária, e fundador do jornal Le Populaire) e os socialistas reformistas com tendências espiritualistas e nacionalistas (como os jornais L´Atelier, Le Travail e La Fraternité) [4]. 
Gabriel Charavay, em 1878

Os redatores de L'Humanitaire eram: Gabriel Charavay (camiseiro, depois jornalista iniciante e livreiro), Jean Joseph May (agrônomo), Julien Gaillard (encanador), Pierre Antoine Nicolas Page (joalheiro). Sabemos os nomes dos outros participantes por causa da forte repressão policial que se abateu sobre eles: a feminista Louise Dauriat, os camiseiros Jean Charavay e Donatien Dauvergne, os joalheiros Anselme Mugnier e Augustin Noël, os tipógrafos François Garde e Claude Chassard, os sapateiros Antoine Fombertaux e Jean Sans, o telhadista Désiré Gaillard, os alfaiates Alexis Trottier e Théodore Ber, o contador Corneille Homberg, o pedreiro Silvain Mourlon, o marceneiro Quéré, o curtidor Auguste Sauvaitre, o secretário de negócios Hyppolite Loudier e o vendedor de vinhos Etienne Rousseau [5]. 

Muitos temas que apareceram em L'Humanitaire, como o das viagens contínuas, reapareceram amplamente desenvolvidos depois, em 1857, em A Humanisfera - utopia anárquica, de Joseph Déjacque. Também em Karl Marx, especialmente em A Ideologia Alemã, de 1846 e nos Manuscritos de Paris, de 1844. Por exemplo, a questão da superação da divisão do trabalho por uma livre associação de indivíduos em escala mundial, culminando no tema da abolição do trabalho em si. Nessas obras de Marx, há inclusive frases que parecem quase que transcritas de L'Humanitaire, por exemplo: “O que é a vida senão atividade?” No entanto, não há provas de que eles tenham lido o jornal. É possível que tenham sido influenciados através do contato direto com as ideias circulantes no meio proletário parisiense da década de 1840, ou que tenham desenvolvidos essas ideia por si mesmos, uma vez que os problemas concretos que levam a tratar dessas questões são comuns aos proletários do mundo inteiro, inclusive hoje.

O jornal também publicou uma biografia de  Sylvain Maréchal (que não traduzimos), com quem se identificavam por suas ideias "anti-políticas ou anarquistas".

Aliás, um dos redatores de L'HumanitaireJean Joseph May, é citado pelo espião Lucien de La Hodde, que relatou: “O Sr. Jean Joseph May, que está morto – o Deus da comunidade guarde a sua alma! – não era um homem ordinário, visto que o Sr. Proudhon se dignou a tomar suas ideias. O famoso sistema de governo an-árquico, isto é, do governo sem governantes nem governados, não é nem mais nem menos que a propriedade do falecido Sr. May” [6].

humanaesfera, março de 2017

Notas:
[1] Os dois números de L'Humanitaire em francês podem ser acessado neste link da Gallica da Biblioteca Nacional da França. 
[2] Prehistory of the Idea - Nick Heath



L'HUMANITAIRE, 
 Organe de la Science Sociale 
(trechos seletos)

Abaixo, por razões de espaço, selecionamos apenas alguns trechos, organizados por temas, de nossa tradução mais completa, que publicamos neste link.


[FACULDADES HUMANAS, RAZÃO E UTILIDADE]

"O desenvolvimento completo de todas as faculdades humanas será a garantia da utilidade (*) de todos os seus atos. Assim, o mal, ou seja, o ato pelo qual o homem é nocivo a si mesmo, ou nocivo a um ser de sua espécie, deve se tornar impossível em uma organização social baseada na natureza humana. [...]  Do desenvolvimento completo das faculdades deve resultar a razão, ou o conhecimento exato, preciso, do útil e do nocivo [...]Alguém nos dirá: “não é verdade, portanto, que o homem é mau, já que pretendeis lhe retirar até mesmo a possibilidade de fazer mal?” Não, certamente que não, os homens não são maus; eles são tolos e ignorantes. Uma ordem social em evidente oposição às leis eternas da matéria e às necessidades da natureza humana falsificou todos os nossos conhecimentos, obstruiu o desenvolvimento da ciência e impeliu o homem, ignorante e embrutecido, a cometer atos nocivos à sua conservação. Para remediar o mal, é preciso desenvolver no homem essa faculdade preciosa que ele recebeu da natureza, a razão, fazer dela a medida da satisfação de suas necessidades materiais, uma vez que ela é a única regra que ele pode consultar em cada um de seus atos. Com esse desenvolvimento da razão, se retira do homem toda possibilidade de fazer o mal, pois seria odiosamente absurdo pretender que um homem sensato, que não age nunca fora da razão, possa ser nocivo a si mesmo.

[(*) {Nota de L'Humanitaire:} "Entendemos por esta palavra {utilidade} tudo aquilo que contribui à saúde, à conservação e, portanto, à felicidade do homem; nós chamamos de nocivo tudo que é o contrário disso."]

[...]

Após estudar e pesquisar por muito tempo a solução de todos esses problemas, adquirimos a certeza de que a situação igualitária pode, sozinha, resolver todos eles; nosso jornal provará isso de uma maneira evidente e irrefutável.

A consequência primeira desse princípio sendo a unidade, a indivisibilidade não pode admitir nenhuma divisão, nenhum particionamento do solo. Queremos portanto a comunidade de bens.


[ALGUMAS CRÍTICAS Á L'HUMANITAIRE]

Mas que tempestade de recriminações e objeções essas duas palavras, igualdade e comunidade, não levantam?! “A igualdade, lei absoluta, não existe em lugar nenhum. Sua realização será a negação do ser intelectual e moral! Será a destruição da ciência e das artes, o retorno ao embrutecimento e ao estado selvagem! E a atividade, essa nobre e preciosa faculdade do homem, é aniquilada pela igualdade! E que langor, que monotonia, que coerção na comunidade de bens! Além disso, quanta dissidência entre os comunistas! Cada um entende a comunidade à sua maneira! De onde vem essa falta de unidade? Por que então esse novo jornal comunista, quando já existem dois em Paris?


[FACULDADES INTELECTUAIS E MORAIS]

Os fisiologistas reconhecem no homem três naturezas bem distintas, em outros termos, três ordens de fatos. Há três tipos de necessidade: as necessidades físicas, as necessidades intelectuais e as necessidades morais. Longe de querer contestar essa trindade do organismo humano, de cuja existência estamos perfeitamente convencidos, o que afirmamos é que a sociedade deve satisfazer por inteiro todas as necessidades humanas. Assim, visto que reconhecemos no homem as necessidades intelectuais e morais, cuja satisfação, para nós, é tão imperiosa quanto as necessidades físicas, então estamos longe de querer aniquilar o ser intelectual e moral. Nós demostraremos, pelo contrário, que a organização igualitária permite por si só o desenvolvimento completo de todas as faculdades humanas. Essa é, além do mais, a consequência implicada na fórmula que usamos para anunciar o problema social. De fato, ao colocar como princípio que o objetivo da ciência social é garantir a conservação da espécie humana, com isso implicamos também que ela deve garantir ao homem o desenvolvimento de todas as suas faculdades intelectuais, visto que só esta última indica os meios para chegar a esse objetivo. Desse modo, está aniquilada essa objeção tola de que a igualdade é a negação do ser intelectual.

Assim, cai também aquela outra objeção segundo a qual a lei igualitária destruiria a ciência e as artes.


[ATIVIDADE HUMANA, ATRAÇÃO, UTILIDADE]

Mas a igualdade esmaga, sufoca e aniquila a atividade humana.” Ah! Se fosse assim, nós seríamos bem criminosos, e a igualdade seria uma lei horrivelmente atroz! Mas sabemos que viver é ser ativo. Longe então de querer negar no homem essa necessidade de conhecer, de raciocinar, de agir, e, consequentes com o princípio que expomos, queremos que essa necessidade tenha uma satisfação completa. Provaremos que a situação igualitária pode garantir por si só essa satisfação. Mas não basta que a atividade humana tenha uma satisfação completa para que tudo possa ser melhor quanto a isso. A ciência social, que busca todos os meios que são úteis à humanidade, deve também encontrar o de atrair sem cessar essa faculdade aos objetos úteis, ao invés de deixá-la se perder na aberração ou em futilidades. Cremos que atingir esse resultado é chegar ao último termo da perfectibilidade.


[A QUESTÃO DO LANGOR, DA MONOTONIA E DA COERÇÃO]

Quanto à acusação de monotonia, de langor, que se dirige à comunidade, ela só pode ser feita por quem não tem nenhuma ideia da organização comunista. Veja, com efeito, como essa organização é monótona! O homem, sob esse regime, fará apenas quatro ou cinco vezes a volta ao mundo. A organização do trabalho, ordenada de acordo com o princípio de comunidade, não é menos acomodatícia; nunca, nessa ordem social, alguém ficará ligado por mais de um dia ao mesmo trabalho. Que langor, portanto, nesse estado de coisas onde o homem viajará continuamente. E isso, com o objetivo de operar a mistura a mais íntima da raça humana; de estimular sem cessar sua atividade ao lhe oferecer sempre fatos novos a estudar; de deixar livre curso ao desenvolvimento da fraternidade ao livrar o homem do contato perpétuo com os mesmos seres, o que engendra o apego individual que é positivamente a negação da lei da atração, una e universal. Ó sim! Em uma organização social combinada assim deve existir uma monotonia e um langor insuportáveis. Leitores, não penseis que tudo isso seja um sonho, nós provaremos que é uma realidade.

Após isso que foi dito, cremos ser inútil responder a essa outra objeção: a comunidade impõe ao homem uma coerção insuportável. Certamente, nenhum daqueles que nos fazem essa objeção leva mais alto do que nós o amor pela liberdade. Todos eles ficariam muito embaraçados se pedíssemos a eles o plano de uma organização social onde toda dominação do homem pelo homem seja inteiramente abolida: nós daremos esse plano neste jornal.


[SOBRE AS DISSIDÊNCIAS]

Enfim, responderemos à terceira e última objeção: “os comunistas são divididos; cada um entende a comunidade à sua maneira”. Respondemos: isso é verdade. Mas qual a causa principal das dissidências? Não é preciso procurar por muito tempo; ela se encontra na ausência de uma obra que formule a doutrina de um modo claro e completo. Todas as que foram publicadas até hoje não atingiram o objetivo que propuseram. As obras antigas, bem como as novas, seja por ignorância de seus autores, ou por medo de ferir alguns preconceitos, estão cheias de ideias falsas, de inconsequências e contradições, que, ao invés de reunir, só fazem dividir. Assim, uma obra, ou uma publicação, que exponha claramente e contundentemente a organização comunista é indispensável para restabelecer a unidade na doutrina, e entre os homens que a professam. Nó viemos para realizar essa tarefa. Que não nos acusem de vir para semear a cizânia, buscar e querer a desunião. Todos os nossos esforços tenderão, ao contrário, à reunir os homens de boa fé sob a bandeira da verdade. Somos profundamente convencidos de que a verdade é o mais poderoso elo para reunir os homens, assim como somos igualmente convencidos de que o erro e a mentira são causas eternas de divisão. Não recuaremos nunca diante da verdade, e nos engalfinharemos com os preconceitos que nos impedem de chegar à ela. Guerra mortal a todos os erros, a todos os preconceitos! A mentira já treme ao aspecto da verdade que avança: viva a verdade!(L'Humanitaire, Nº 1)


[LIBERDADE E TIRANIA]

"Dirão que retirando assim do homem a possibilidade de fazer o mal, nós aniquilamos o eu, assassinamos a liberdade humana, constituindo uma tirania de tipo novo, mas não menos odiosa que a que existia? Já declaramos que ninguém é amigo mais ardente da liberdade do que nós, que ninguém abomina mais todas as tiranias; se a objeção fosse verdadeira, nossa doutrina estaria em contradição com a declaração que fizemos. Examinemo-la. Primeiramente, o que é liberdade? O que é a tirania? A liberdade é uma situação em que o homem não obedece a nenhuma autoridade que não a razão; a tirania é o oposto, ou uma situação em que ele é forçado a cometer atos outros que aquele que sua razão lhe dita. O que é então a razão? É a ciência, ou o conhecimento do que é útil e do que é nocivo. Ora, esse conhecimento é fácil de adquirir. Admitindo que o erro tome o lugar da verdade, ele não poderá durar muito; os fatos virão prontamente para desmascará-lo. Portanto, não há tirania na nossa organização, porque o homem não obedece a qualquer autoridade que não a razão; ela por si só possui todas as condições da verdadeira liberdade." (Sobre a ciência social, L'Humanitaire, Nº 2)


[FAMÍLIA, VENDA E TROCA]

"Perguntais [o jornal L´Atelier] se nós entendemos ´por comunidade, essa vida mais íntima onde, no que respeita ao casamento e à família, alguém se associa voluntariamente tanto por necessidade de economia quanto por sentimento de fraternidade, e onde todos os meios de existência seriam comuns´. Nós respondemos que não é assim que entendemos a comunidade, cuja organização, além do mais, não tem nenhuma relação com a associação que nos apresentais. A julgar por essa associação que vosso jornal apresenta, nós estamos muito distantes de vós. [...] Ora, se entre dois homens se encontra um mais forte que um outro, que produz menos, e que, entretanto, tem tantas necessidades quanto aquele (o que não chega a ser tão incomum), então o menos forte será mais infeliz. Mas esse ainda não é o melhor lado da medalha. Suponhamos (o que não é impossível) que o fraco tenha, diferente do forte, uma família a alimentar com o módico trabalho de seus braços. No que se torna a vossa pretensa comunidade de meios de existência? Não é ela uma piada amarga? Uma piada atroz? E isso não é também exatamente a ordem de coisas atual que mudais apenas o nome? Não faleis então de fraternidade, pois ela não faria nenhum sentido em uma associação semelhante.


Quanto ao sistema de venda, não mais que aquele de troca que quereis substituir e que consideramos como uma engrenagem igualmente inútil, eles não figuram nem um pouco na nossa teoria. Cada comuna será suprida abundantemente, pelas vias de transporte, sem a intervenção de vendedores, nem trocadores, dos objetos necessários a todos os seus membros. Basta que a necessidade seja revelada por cada uma para ser satisfeita instantaneamente e com as mesmas condições.

[AS MÁQUINAS, OS PREGUIÇOSOS E A ATIVIDADE HUMANA]

Até agora, estaríeis [o jornal L´Atelier] de acordo conosco, se nós abundássemos no vosso sentido, mas vós vos apiedais se nossas ideias de comunidade forem mais longe; se nós sonharmos ´com essa era de ouro onde o trabalho não passa de uma agradável distração, onde os frutos da terra são tão numerosos que não se poderá recusar inclusive ao preguiçoso que se sente no banquete´. Então, apiedai-vos à vontade, pois a era de ouro que pintastes como um erro é o objetivo constante a que tendemos. Sim, o trabalho, para o homem, não passará de uma agradável distração. E se não tivesse que ser assim, o que significam então essas máquinas que fazem, sozinhas, o trabalho de uma grande quantidade de braços? Por que se inventaria essa multidão inumerável de mecanismos, uns mais engenhosos do que outros, se não fosse para centuplicar o produto do trabalho, abreviar sua duração, e torná-lo atraente suprimindo o que é penoso? Não perguntaremos se sois contra as mecânicas, isso seria vos fazer injúria, pois sabeis tanto quanto nós que, se elas são hoje um grande mal, elas serão um grande bem quando a sociedade for organizada tal como deve ser, e o homem não precisar mais do que conduzi-las e descobrir novas. Mas então queremos saber por que sois tão excitados em favor da reforma industrial? Seguramente não é para deixar o trabalho tão desagradável quanto já é hoje em dia, nem para torná-lo pior.

A palavra preguiçoso não terá nenhum significado na língua da comunidade, assim como ela já não tem na língua atual. O homem é um ser essencialmente ativo; ele tem uma soma de atividade a exprimir; o objetivo da ciência social é dar a essa atividade uma direção boa e não má; útil e não nociva, nem inútil. Hoje ocorre o contrário. Os indivíduos exercem sua atividade em pura perda, em coisas fúteis, insignificantes, de resultados estéreis. Por quê? Porque foram dados maus exemplos de atividades, porque elas são mal direcionadas, porque, enfim, elas se encontram em um meio social vicioso, ao invés de um meio social bom, um meio em que não se teria que fazer e nem se teria visto fazerem senão coisas úteis, e que nada poderia extraviá-las. Desse modo, as palavras preguiça, vagabundagem e ociosidade são vazias de sentido, a menos que se negue o movimento incessante que se manifesta na natureza e, por consequência, no homem, que não é senão uma maneira de ser dessa natureza. Logo, não existem preguiçosos, vagabundos e nem ociosos, mas seres ativos que os vícios da organização social fazem com que se consumam em atos inúteis, e que uma boa sociedade os deixaria se exprimirem em atos úteis.(Resposta ao jornal L´Atelier, publicado em duas partes, nos números 1 e 2 de L'Humanitaire)

[UMA CRÍTICA DO JORNAL LA FRATERNITÉ AO  L'HUMANITAIRE]

Apesar de suas boas intensões”, diz [o jornal La Fraternité], “os redatores desse jornal [L'Humanitaire] concluem diretamente contra os princípios da igualdade, da liberdade e da fraternidade que eles querem, como nós, propagar.

Se cada homem consiste no organismo material, como pretende o jornal, esse organismo deve ser tomado como medida do homem e marcar seu lugar entre seus semelhantes. Ora, vemos os homens divididos em grandes e pequenos, em fortes e fracos, materialmente falando. E se tomarmos as demonstrações palpáveis e visíveis que L'Humanitaire crê serem as únicas demonstrações rigorosas, então os homens são desiguais entre si.

´Com que direito´, o gigante e o atleta questionarão, ´quereis nos fazer crer que estamos no mesmo nível do anão e do doente, nos rebaixando a sua pequenez e fragilidade, uma vez que a natureza visível fez de nós seres grandes e fortes? Nós fomos criados para ser senhores, e eles, escravos. É a lei de nosso organismo.´

L'Humanitaire não poderá contradizê-los, visto que o organismo é sua regra.

Porém, L'Humanitaire , cheio de boas intenções, provavelmente responderá: ´a fraternidade quer que façais, em favor dos frágeis e pequenos, o sacrifício de vossa grandeza e de vossa força´.

O que dizer? Deixemos o gigante e o atleta responderem: ´não nos ensinais que o único motor das ações humanas é a utilidade? Ora, seria útil para nós nos sacrificar em benefício dos mais fracos do que nós? O que receberíamos em troca disso que daríamos a eles? O que é fraternidade? Os homens não são mais irmãos entre si do que são irmãos das árvores e das pedras. Assim como as árvores e as pedras, o homem é uma agregação de moléculas materiais, e tudo que não é ele, tudo que está fora de seu organismo, separado de seu corpo, é estranho para ele. O homem corta as pedras e come as frutas. Ele pode, do mesmo modo, sem escrúpulos, explorar os seres com rosto humano que estão à sua volta. E não digais que nossas necessidades morais não estariam satisfeitas quando tornarmos infelizes aqueles que vós chamais de semelhantes. Nossa moral é, repetimos convosco, a utilidade, e se nos for útil comer os homens, nós comeremos.´

L'Humanitaire, assustado com essa linguagem, tentará murmurar ainda: ´mas o homem é um ser fatalmente social´. Se vós assumis a fatalidade como princípio, ouçamos novamente esses homens fortes e vigorosos que nós supomos que deixais à vontade: ´a fatalidade quer que dominemos, pilhemos, queimemos, devoremos, e se somos os mais fortes, a nossa própria força é uma prova de nosso direito. Se fazemos, com isso, coisas que vos desagradam, não nos culpais, nós não somos livres, mas instrumentos da fatalidade.´

Essas poucas linhas indicam algumas das tristes consequências do sistema materialista, utilitário e fatal em que L'Humanitaire  se baseia.”

[RESPOSTA DE L'HUMANITAIRE AO JORNAL LA FRATERNITÉ]

“O que significam esse gigante e esse atleta? Os atos que vós os fazeis cometer tem alguma relação com aqueles do homem razoável? De um homem que tem o mínimo de bom senso? Eles têm todas as características do selvagem esfomeado, ou de um louco delirante. Como vós vos deixais acompanhar de seres tão singulares? E aonde pretendeis conduzi-los? Se não para casinhas, é certamente para uma selva. Como não somos nada desejosos de nos acompanhar com gente que entende tão pouco de brincadeiras, e nem de ir a um país que, a julgar por seus habitantes, deve ser mais perigoso do que recreativo, vos deixaremos partirdes sozinhos, e apenas pediremos de vós uma descrição quando retornarem. Quanto a nós, nos transportaremos, por um momento, para a sociedade futura, da qual nós desenvolvemos a teoria, e ali colocaremos o gigante, o atleta, o anão e o doente, aos quais devolvemos a razão que tínheis retirado deles tão impropriamente. Vejamos se nós não seremos mais felizes do que vós na nossa observação, e se nós não obteremos melhores resultados. Primeiramente, devemos notar que os quatro homens, cujas faculdades receberam um desenvolvimento completo, são perfeitamente iguais, não iguais em altura e em força, mas iguais quanto à satisfação de suas necessidades e no exercício de suas faculdades, pois cada um consome segundo os seus apetites, e trabalha segundo as suas forças. Estando igualmente satisfeitos os órgãos tanto dos fortes quanto dos fracos, segue-se a mais perfeita igualdade na satisfação normal dos órgãos de cada um. Logo, nossos quatro personagens são consequentemente iguais sem serem igualmente altos nem igualmente fortes entre si. Portanto, eles são livres sem presumir que a natureza teria criado uns senhores e outros escravos. Eles praticam a fraternidade no sentido mais amplo da palavra. E ainda que eles saibam que “assim como as árvores, o homem é uma agregação de moléculas materiais”, não lhes ocorre a ideia de fratenizar com as árvores e as pedras, e por mais tolos que se suponha que sejam, eles reconhecem as funções, as relações, as propriedades específicas dos diferentes modos de ser da natureza. Eles não confundem o reino mineral ou o reino vegetal com o reino animal. Em cada um desses três reinos, eles descobrem também diferentes maneiras de ser. [...]

[RESPOSTA À CRÍTICA DE LA FRATERNITÉ À IDEIA DE VIAGENS CONTÍNUAS PELO PLANETA]

Ele [o jornal La Fraternité] não quer que desejemos ´uma era em que o homem viajará continuamente para operar a mais íntima mistura da raça humana´. Depois do que, La Fraternité acrescenta: ´O que é essa pretensa mistura senão a promiscuidade mais brutal, a mais luxuriante negação da família! O que é uma viagem perpétua que deve livrar o homem do contato diário com os mesmos seres senão a negação da fraternidade, que L'Humanitaire  invoca, e a realização dessa lamentável balada do judeu errante, que nos representa a apavorante tristeza de um homem condenado a correr eternamente pelo mundo, sem poder pousar sua cabeça sob um teto amigo, apertar a mão de um irmão, nem descansar das fadigas da vida no seio de uma família querida! Quem de nós, ao ouvir em sua infância essa estória lúgubre, não choraria pelo isolamento desse viajante forçado, que atravessa as eras como se atravessasse um vasto deserto?! Quem não se lamentaria de não ter nenhuma companhia nem um amigo?! E é essa balada, a mais desoladora idealização do isolamento no qual os homens tem passado até nossos dias, que L'Humanitaire quer nos fazer considerar como modelo de felicidade e perfeição.´

Há nessa passagem muita poesia, alguns termos cuja aplicação é pouco fraternal e, sobretudo, ignorância completa de nossa doutrina. O que significam essas palavras: a promiscuidade mais brutal, a mais luxuriante negação da família, senão que o jornal La Fraternité inventa ele próprio monstros para se dar o prazer de combater? [...]

O jornal a que estamos respondendo pretende que as viagens contínuas, que tem por objetivo preservar o homem do contato perpétuo dos mesmos seres, são a negação da fraternidade. Se tivesse lido a frase completa de L'Humanitaire, teria visto que, longe de destruir a fraternidade, as viagens a consagram em toda a sua plenitude, tornando impossível o apego individual que é positivamente a negação da lei da atração uma e universal.

[...] Não aceitando as viagens contínuas, vós particionais o princípio [de fraternidade] e, sem se darem conta, vós os dividis em muitas partes: fraternidade doméstica, fraternidade da cidade, fraternidade de todos os homens, o que o reduz a quase nada quando se passa por todas essas etapas. A fraternidade não tem graus, não mais do que a unidade, ela não pode ser separada de si própria. Assim, onde quer que se pratique esse princípio, não percebeis a possibilidade de que o judeu errante repouse sua cabeça sob um teto amigo, aperte a mão de um irmão? Perceba que fazeis o judeu errante não se sair melhor do que o gigante e o atleta. Então, deixai em paz esses seres singulares.(Resposta ao jornal La Fraternité, L'Humanitaire, Nº 2)

Tradução do francês por humanaesfera, a partir da versão disponibilizada pela biblioteca digital Gallica, da Biblioteca Nacional da França.

Estes são apenas trechos seletos, para a tradução mais completa, ver: 
L'Humanitaire (1841), a primeira publicação comunista libertária (tradução ampla).



Outros clássicos que traduzimos:

domingo, 1 de maio de 2016

Anarquia e Comunismo (1880) – Carlo Cafiero


Traduzimos Anarquia e Comunismo, outro grande clássico comunista libertário, escrito por Carlo Cafiero, autor também de um famoso compêndio de O Capital - Crítica da Economia Política, de Marx. Abaixo, alguns trechos da tradução:



"O comunismo é a tomada de posse, em nome de toda humanidade, de toda riqueza existente no mundo. O comunismo será o gozo de toda riqueza existente por todos os homens e segundo o princípio: de cada um segundo suas faculdades, para cada um segundo suas necessidades, quer dizer: de cada um e para cada um de acordo com sua vontade.
[...] nós queremos que toda a riqueza existente seja tomada diretamente pelo próprio povo, que ela seja mantida por suas mãos possantes, e que ele próprio decida a melhor maneira de gozá-la, seja pela produção, seja pelo consumo.
Mas nos perguntam: o comunismo é praticável? Teremos produtos suficientes para possibilitar à cada um o direito de usá-los à vontade, sem exigir dos indivíduos mais trabalho do que eles gostariam de fazer?
E respondemos: sim. Certamente será possível aplicar esse princípio: de cada um e à cada um conforme sua vontade, porque, na sociedade futura, a produção será tão abundante que não haverá qualquer necessidade de limitar o consumo, nem de exigir dos homens mais trabalho do que eles podem ou querem fazer."
"[...] é preciso ter em conta a imensa economia que será feita dos três elementos do trabalho: a força de trabalho, os instrumentos e as matérias primas, que são terrivelmente desperdiçados hoje, porque são empregados na produção de coisas absolutamente inúteis, sem falar das que são nocivas à humanidade."
"A concorrência, a luta, é um dos princípios fundamentais da produção capitalista, que tem por lema: mors tua vita mea, tua morte é minha vida. A ruína de um faz a fortuna de outro. E essa luta encarniçada se dá de país contra país, de região contra região, de indivíduo contra indivíduo, entre trabalhadores assim como entre capitalistas. É uma guerra mortal, um combate sob todas as formas: corpo à corpo, bandos, esquadrões, regimentos, exércitos. Um operário encontra trabalho onde outro o perde; uma ou várias indústrias prosperam enquanto outras perecem.
Pois bem, imagine quando, na sociedade futura, esse princípio individualista da produção capitalista, cada um por si e contra todos e todos contra cada um, for substituído pelo verdadeiro princípio da sociabilidade humana: cada um por todos e todos por cada um. Que imensa mudança obteríamos nos resultados da produção! Imagine o aumento da produção quando cada homem, ao invés de ter que lutar contra todos os outros, for apoiado por eles, que serão tratados não como inimigos, mas como cooperadores. Se o trabalho coletivo de dez homens alcança resultados absolutamente impossíveis para um homem isolado, quão grandes serão os resultados obtidos pela imensa cooperação de todos os homens que, hoje, trabalham hostilmente uns contra os outros? [...]"
"E é graças a essa abundância que o trabalho perderá o caráter servil para ter somente o atrativo de uma necessidade moral e física, tal como a de estudar, de viver com a natureza."
"Desse modo, nós podemos afirmar que o comunismo não só é possível, mas necessário. Não só podemos ser comunistas, mas é preciso que sejamos sob pena de perder o objetivo da revolução.
Com efeito, depois de pôr em comum os instrumentos de trabalho e as matérias primas, caso conservemos a apropriação individual dos produtos do trabalho, seríamos forçados a conservar a moeda e, portanto, uma acumulação maior ou menor de riqueza segundo um maior ou menor mérito - ou melhor, habilidade - dos indivíduos. A igualdade assim desapareceria, pois aqueles que conseguirem adquirir mais riquezas seriam por isso mesmo elevados acima do nível dos outros. [...].
Mas a atribuição individual dos produtos restabeleceria não só a desigualdade entre os homens, ela restabeleceria ainda a desigualdade entre os diferentes tipos de trabalho. Veríamos reaparecer imediatamente o trabalho “limpo” e o trabalho “sujo”, o trabalho “superior” e o trabalho “inferior”: o primeiro seria feito pelos mais ricos, e o segundo seria destinado aos mais pobres. Então, não seria mais a vocação e o gosto pessoal que determinariam alguém a se dedicar a um tipo de atividade ao invés de outro: seria o interesse, a esperança de ter vantagens em tal profissão. Assim, renasceriam a indolência e a diligência, o mérito e o demérito, o bem e o mal, o vício e a virtude e, por consequência, de um lado a recompensa e de outro a punição - a lei, o juiz, a polícia e a prisão.
Há socialistas que persistem em defender a ideia de atribuição individual dos produtos do trabalho alegando valorizar o sentimento de justiça.
Que estranha ilusão! Com o trabalho coletivo, que nos coloca a necessidade de produzir em massa e aplicar máquinas em grande escala, e com o sempre crescente fato de o trabalho moderno se basear no trabalho acumulado das gerações passadas, como poderíamos distinguir qual a parte do produto que cabe à uma pessoa da parte que cabe à outra pessoa? É absolutamente impossível, e nossos adversários reconhecem isso tão bem que eles terminam dizendo: “Tudo bem, nós tomaremos como base para a repartição as horas de trabalho”; mas, ao mesmo tempo, eles próprios admitem que isso seria injusto, porque três horas de trabalho de Pedro podem valer cinco horas de trabalho de Paulo."
"Não se pode ser anarquista sem ser comunista. De fato, a mínima ideia de limitação já contém em si os germes do autoritarismo. Ela não pode se manifestar sem engendrar imediatamente a lei, o juiz, a polícia."

domingo, 24 de abril de 2016

Sobre a troca (1858) - Joseph Déjacque

Traduzimos Sobre a troca, um clássico comunista libertário, escrito por Joseph Déjacque, o criador da própria palavra "libertário" (palavra que sempre foi sinônimo de comunista anarquista até que a classe proprietária - milionários e burocratas particulares e estatais -, começou a tentar roubá-la para nos impor a crendice absurda de que "liberdade" é a tirania totalitária chamada empresa e mercado)

Alguns trechos:

"[...] Na comunidade anárquica, [...] cada um é livre para produzir e consumir à vontade e segundo suas fantasias sem controlar nem ser controlado por ninguém, e o equilíbrio entre a produção e o consumo se estabelece naturalmente, não mais pela detenção preventiva e arbitrária por uns ou por outros, mas pela livre circulação das capacidades e das necessidades de cada um. Os fluxos humanos não necessitam de diques; deixemos as marés passarem livres: a cada dia, elas reencontram o seu nível!"


"Primeiramente, em princípio, o trabalhador tem direito ao produto de seu trabalho?[...]


Por exemplo, suponha que há um alfaiate, ou um sapateiro. Ele produz muitas roupas e muitos pares de sapato. Ele não pode consumi-los todos de uma vez. Talvez, além disso, não sejam do seu tamanho e nem conformes a seu gosto. Evidentemente, ele só os fez porque é sua profissão fazê-los, e em vistas de trocar por outros produtos de que ele sente a necessidade; e assim é com todos os trabalhadores. As roupas e sapatos que ele produz não são posses dele, porque para ele não tem nenhum uso pessoal;mas são uma propriedade, um valor que ele monopoliza e que ele dispõe conforme seus caprichos, que ele pode à rigor destruir se lhe apraz, que ele pode no mínimo usar e abusar se assim quiser; seja como for, é uma arma para atacar a propriedade dos outros, nessa luta de interesses divididos e antagônicos, onde cada um é entregue a todas as sortes e azares da guerra. 

Além disso, esse trabalhador, em termos de direito e justiça, é bem justificado para se declarar o único produtor do trabalho feito por suas mãos?  Ele criou algo do nada? Ele é onipotente? Ele possui o conhecimento manual e intelectual de toda a eternidade? Sua arte e profissão lhe é inata? Operário, ele saiu totalmente equipado do ventre de sua mãe? É unicamente filho de suas obras? Ele não é em parte obra de seus predecessores e obra de seus contemporâneos? Todos aqueles que lhe mostraram como manusear a agulha e a tesoura, a faca e o furador, que o iniciaram de aprendizagem em aprendizagem até o grau de habilidade que alcançou, todos eles não tem algum direito à uma parte de seu produto? As sucessivas inovações das gerações anteriores também não tiveram parte nessa produção que ele fez? Ele não deve nada à geração atual? Ele não deve nada à geração futura? É justo que ele acumule então em suas mãos os títulos de todos esses trabalhos acumulados e se aproprie exclusivamente dos benefícios?"

"Se se admite o princípio da propriedade do produto pelo trabalhador [...], conforme um certo produto seja mais ou menos procurado, um certo produtor será mais ou menos lesado, mais ou menos beneficiado. A propriedade de um não pode aumentar senão em detrimento da propriedade de outro - a propriedade necessita de exploradores e explorados. Com a propriedade do produto do trabalho, a propriedade democratizada, isso não será mais a exploração da maioria pela minoria, como é com a propriedade do trabalho pelo capital, a propriedade monarquizada; mas ainda assim será exploração da minoria pela maioria. Será sempre a iniquidade, a divisão dos interesses, a concorrência inimiga, com desastres para uns e sucessos para outros. [...]"

"[...] No dia em que se compreender que o organismo social deve ser transformado não sobrecarregando com complicações, mas o simplificando; no dia em que não se buscar mais demolir uma coisa para a substituir por outra similar, renomeando e multiplicando, nesse dia ter-se-á destruído da base ao topo o velho mecanismo autoritário e proprietário, e ter-se-á reconhecido a insuficiência e a nocividade tanto do contrato individual quanto do contrato social. Então o governo natural e a troca natural – o governo natural, isto é, o governo do indivíduo pelo indivíduo, de si mesmo por si mesmo, o individualismo universal, o si-humano [moi-humain] se movendo livremente no todo-humanidade [tout-humanité]; e a troca natural, quer dizer, o indivíduo trocando de si mesmo consigo mesmo, sendo ao mesmo tempo produtor e consumidor, co-operário e co-herdeiro do capital social, a liberdade humana, a liberdade infinitamente divisível na comunidade dos bens, na indivisível propriedade – então, vos digo, o governo natural, a troca natural, organismo movido pela atração e pela solidariedade, se elevarão majestosos e benéficos no coração da humanidade regenerada. Então, o governo autoritário e proprietário, a troca autoritária e proprietária, maquinação sobrecarregada de intermediários e de signos representativos cairá solitária e abandonada no leito seco da antiga arbitrariedade."

Link para o texto completo:  
Sobre a troca (1858) - Joseph Déjacque 




Outros clássicos que traduzimos:


.