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quinta-feira, 26 de junho de 2014

Materialismo

"[...] não existe  [algo] que não seja visto por meio de alguma forma [eideos]. Creio que os próprios nomes tenham sido atribuídos por meio das formas. É absurdo e impossível acreditar que as for­mas brotem dos nomes. Os nomes são estabelecidos pela convenção, enquanto a forma brota da natureza." Hipócrates de Cós,  Acerca da Arte (Peri Tékhne). 

Matéria e forma
Demócrito, o filósofo que ri.

A afirmação de que a substância gera suas formas é o que nos leva a nos considerar materialistas.

Ao contrário, os imaterialistas afirmam que as formas são impostas do alto e de fora (ou do passado, ou futuro) sobre uma substância inerte e informe. Assim, eles são dualistas, ou seja, dividem o universo em dois princípios distintos: ativo e passivo, comandante e comandado, espírito e matéria, alma e corpo, sujeito e substância, vontade e paixão...

O modelo imaterialista é antropomórfico: a escultura  é uma matéria que recebeu suas formas do escultor, assim como, analogamente, o universo "perfeito como um relógio" provaria que existe um ser exterior que impõe formas "perfeitas" sobre a matéria bruta.

Em contraste, no modelo materialista, todas as formas surgem pela própria matéria, imanentemente.  Por exemplo, a forma redonda, esférica, do planeta terra, é causada simplesmente por sua matéria e nela. Do mesmo modo, univocamente, é a matéria que causa, conforme o modo de sua disposição, todas as formas: corporais, espirituais, humanas, minerais, animais, ideais, técnicas, culturais..., isto é, tudo o que conhecemos. Mais precisamente: tudo surge, se mantém e age pela confluência de determinações simultâneas (sem finalidade e sem pré-determinação, que são apenas práticas humanas) e morre quando essa confluência se desfaz.

Não faz sentido acusar o materialismo de tentar "reduzir tudo" à  matéria, porque, segundo ele, a matéria é irredutível à mente, à representação - já que a matéria é infinitamente mais rica e complexa do que qualquer de suas formas. Nessa perspectiva, o espírito, por exemplo,  é uma forma da matéria e, enquanto matéria, irredutível e atuante. Ele tem certa autonomia (potência), embora  temporária e nunca absoluta, pois nenhuma forma é indiferente, incondicional, exceto se deixar de existir.


Forma indiferente e hierarquia

Supor a existência de uma ou várias formas indiferentes é supor a existência de um inacessível, de uma realidade oculta, incondicional, uma verdade escondida pelas aparências. A hierarquia se legitima na submissão àqueles que afirmam ter o privilégio de acessar o inacessível, secreto, sagrado (hierós, ἱερός). O imaterialismo legitima necessariamente a hierarquia, o poder, ou seja, a violência.

É certo que as pessoas devem acreditar no que acharem melhor, pois isto é um problema delas e que só diz respeito à elas. Mas quando um exército de seguidores erige uma hierarquia, uma relação social autoritária que se acredita representar uma forma incondicional (não só deus, universo oculto, mundo espiritual... mas igualmente o mito da pátria, da nação, do povo especial, da terra sagrada e da família, como também o da "mão invisível", econômica ou ecológica, e o das formas holísticas e vitalísticas), essas pessoas necessariamente tratam as demais como inferiores, indivíduos meramente relativos que devem se curvar ao "absoluto" ao qual o líder teria acesso. É sobretudo por esse motivo que vemos a necessidade premente de sair à público em defesa do materialismo, que é o antídoto cirurgicamente específico contra todas as tendências obscurantistas.

Forma e matéria das idéias
O Jovem Rembrandt como Demócrito

A tradição materialista (desde a antiguidade, por ex., Epicuro e sua aisthēsis) se caracteriza por afirmar que as aparências são sempre verdadeiras (detalhes aqui), mesmo que descubramos, depois, graças a novas aparências, que estávamos enganados. Somente as aparências dão os conteúdos,  os materiais,  que  confluindo com os dispostos pela imaginação e pela memória formam imanentemente idéias,  pensamentos, conceitos. As aparências cujo acesso não é individualmente exclusivo são chamadas evidências. Estas são verificáveis e comunicáveis entre os seres humanos, que, de diversos pontos de vista, compartilham suas diferentes impressões e podem assim fazer uma idéia mais ampla e potente daquilo que vêem, do que poderão fazer e de seus fins. 

Uma cultura materialista, baseada em evidências, é o único antídoto contra os boatos, notícias falsas, conspiranóias, desconfianças paranóicas, medos, fobia de bodes expiatórios ("estrangeiros", "judeus", "favelados criminosos", "financistas maléficos"...), que só são úteis para uma classe dominante legitimar seu poder enquanto os proletários (submetidos à condição de "classe média", isto é, vendedores-compradores "livres e iguais", como se, por livre e espontânea pressão, não se arrastassem para vender a si próprios no mercado de trabalho e reduzir suas capacidades de pensar e agir a meros objetos de consumo, para as empresas, particulares e estatais), desconfiando de si mesmos, são imbecilizados a ponto de atenderem instantaneamente ao comando de massacrarem a si mesmos.


Não é preciso recorrer a qualquer autoridade que reivindique um acesso privilegiado a uma verdade oculta.  As experiências comuns cotidianas (chamadas triviais, "banais") são suficientes. E esta é a base da própria filosofia. O campo da filosofia são as coisas que de tão comuns, rotineiras, óbvias e ululantes,  perdemos a consciência delas, e elas ficaram de fora do pensamento e se tornaram repetição mecânica, estereótipo. Filosofar é considerar o que todos achamos saber mas que nunca tínhamos parado para pensar.

É meramente por experiências triviais, comuns, que afirmamos que qualquer algo só surge entre outros algos, nunca num absoluto, que nada é indiferente e tudo se forma através de uma confluência  de determinações simultâneas, ou seja, que tudo é matéria. Se um dia encontrarmos uma evidência de uma forma indiferente, imaterial, poderemos dar o braço a torcer para os imaterialistas, mas só encontramos evidências de que uma diferença indiferente, incondicional, não passa de pura indiferença, ou seja, nada.

Essas evidências da experiência comum bastam para conceituarmos "matéria" de um ponto de vista filosófico e prático. Quanto à afirmação de que tudo são partículas subatômicas, ondas, unicórnios quânticos ou campos, esta não é uma questão filosófica, pois a verdade dessas afirmações não pode ser suficientemente confirmada por evidências de nossas experiências comuns e corriqueiras, mas apenas por experimentos caros e complexos acessíveis somente às autoridades científicas (comunidade científica). Não se trata de desprezar a ciência, que é valiosíssima, mas de saber reconhecer corretamente o seu campo de aplicação e validez.

La Mettrie

Contra o cientificismo e a tecnocracia

O cientificismo deixa de lado a experiência comum cotidiana considerando-a sem valor e pretende confiar apenas nas autoridades científicas (no veredito da comunidade científica). Criam assim uma outra forma de credo propenso a se conformar acriticamente a uma hierarquia tecnocrática. Além disso, o cientificismo faz a experiência cotidiana comum ficar de fora do pensamento, deixando um vazio que será ocupado por pseudo-explicações místicas, mágicas e religiosas. Assim, não causa surpresa ver o quão frequentemente o cientificismo se revela o outro lado da moeda místico-religiosa.

Mas o principal é que, por definição,  a ciência se ocupa de descrições da realidade e do aprimoramento de meios técnicos, não dos fins. Logo, a idéia de governo científico,  gestão eficiente, ou tecnocracia , é uma fraude, porque oculta as finalidades, confundindo-as com meros meios. O tecnocrata é portanto o alter ego do teocrata, cujos fins são ocultos, "mistérios".

Para as finalidades, ou temos a religião ("mandamentos", inclusive a superstição da "mão invisível" da economia e ecologia), o instinto (incluindo o hábito, inculcado pavlovianamente), ou o pensamento (ou seja, a filosofia). Defendemos que os melhores fins são os feitos com o pensamento, em especial o materialista, paixão-pensante-praxis que busca criar e submeter os fins à expansão da potência de agir e de pensar dos indivíduos e, portanto, da humanidade.


Humanaesfera, junho de 2014


Bibliografia 

  • Lucrécio - Da Natureza das Coisas (De Rerum Natura)
  • Baruch Espinoza - Ética
  •  Jean Meslier - Ateísmo e Revolta, os manuscritos do padre Jean Meslier (Paulo Jonas de Lima Piva)
  • La Mettrie - O Homem-máquina
  • Holbach - Sistema da Natureza
  • Hegel - Fenomenologia do Espírito
  • Marx - Manuscritos econômicos e filosóficosA Ideologia Alemã, Grundrisse
  • Joseph Déjacque - A humanisfera 
  • Bakunin - Deus e o Estado
  • Michel Serres - O Nascimento da Física no Texto de Lucrécio
  • Deleuze & Guattari - Capitalismo e esquizofrenia, volume I (O Anti Édipo) e II ( Mil Platôs)  

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Joseph Déjacque: "A Humanisfera - Utopia Anárquica" (1857). Trechos sobre o comunismo futuro

Trechos de "A Humanisfera":
Introdução
Sobre o comunismo futuro
Sobre a transição revolucionária
Sobre as suas influências







Trechos de "L'HUMANISPHERE. UTOPIE ANARCHIQUE" (A Humanisfera - Utopia Anarquista), 1857,  sobre o comunismo libertário futuro:  



MOTIVO DA UTOPIA


"A ausência de ordens, eis a verdadeira ordem." LE LIBERTAIRE n°12: 7 de abril de 1859

"A ordem com a adaga ou o canhão, com a forca ou a guilhotina; (...) a ordem personificada na trindade homicida: ferro, ouro e água benta; a ordem à golpes de fuzil, à golpes de bíblias, à golpes de  notas bancárias (...) não é senão lei de bandidos, o código do roubo e do assassinato que preside a partilha do butim e o massacre das vítimas. É sobre esse pivô sangrento que gira o mundo civilizado.” LE LIBERTAIRE n°12: 7 de abril de 1859

“Invalidar a autoridade e criticar seus atos não basta. Uma negação, para ser absoluta, necessita de se completar com uma afirmação. É por isso que eu afirmo a liberdade, é por isso que deduzo as suas consequências. “ LE LIBERTAIRE n°1: 9 junho de 1858

“Para mim, a questão não é fazer discípulos, mas fazer homens, e alguém é homem apenas com a condição de ser ele mesmo. Incorporemos as idéias dos outros e encarnemos nossas idéias nos outros; nada melhor do que misturar nossos pensamentos; mas façamos desta mistura uma concepção nossa. Sejamos uma obra original e não uma cópia. O escravo se modela no seu mestre, ele imita. O homem livre não produz senão seu tipo, ele cria.


Meu plano é fazer um retrato da sociedade do modo como ela me parece no futuro: a liberdade individual fluindo anarquicamente na comunidade social e produzindo a harmonia.” LE LIBERTAIRE n°1: 9 junho de 1858


“Os pesquisadores da felicidade ideal, assim como os pesquisadores da pedra filosofal, não poderão talvez nunca realizar sua utopia de uma maneira absoluta, mas sua utopia será a causa do progresso humano.” LE LIBERTAIRE n°6: 21 de setembro de 1858


"Tenho apenas uma face, mas esta face é móvel como a fisionomia da onda; ao menor sopro, ela passa de uma expressão à outra, da calma à tempestade e da cólera à ternura.  É por isso que, como passionalidade múltipla, espero tratar da sociedade humana com alguma chance de sucesso, visto que, para tratá-la adequadamente, é preciso tanto conhecer as próprias paixões quando as dos outros."  LE LIBERTAIRE n°1 9 de junho de 1958




PAIXÕES,  ATRAÇÕES E INCLINAÇÕES: HOMEM, COSMO, ANARQUIA



“O homem é um ser essencialmente revolucionário. Ele não sabe se imobilizar num lugar. Ele não vive a vida dos limites, mas a vida dos astros.” LE LIBERTAIRE n°6: 21 de setembro de 1858


" [Os] globos circulam livremente no éter, ora atraídos gentilmente por um, ora repelidos com doçura por outro, todos obedecendo somente a sua paixão, e encontrando na sua paixão a lei de sua harmonia móvel e perpétua, (...)  e demonstram por uma argumentação sem réplica que (...) a ordem anárquica é a ordem universal.  (...) Do mesmo modo que as esferas circulam anarquicamente na universalidade, também os homens devem circular anarquicamente na humanidade, sob a única impulsão das simpatias e das antipatias, das atrações e das repulsões recíprocas. A harmonia não pode existir senão pela anarquia.”   LE LIBERTAIRE n°4: 2 de agosto de 1858


E NO ANO DE 2858...


“Dez séculos se passaram diante da Humanidade. Estamos no ano de 2858.” LE LIBERTAIRE n°6: 21 de setembro de 1858


"A utopia anarquista é para a civilização o que a civilização é para a selvageria." LE LIBERTAIRE n°6: 21 de setembro de 1858

“O ar, o fogo, a água, todos os elementos com instintos destruidores foram dominados. (...) O homem trona sobre as máquinas de trabalho, ele já não fertiliza mais o campo com o suor de seu corpo, mas com o suor da locomotiva. (...) As estradas de ferro, as pontes lançadas sobre os estreitos e os túneis submarinos, as construções subaquáticas e os aerostatos, movidos pela eletricidade, fizeram de todo o globo uma única cidade que se pode atravessar em menos de um dia. Os continentes são os bairros ou distritos da cidade universal.” LE LIBERTAIRE n°7: 25 de outubro de 1858


“A ciência destruiu o que é mais repugnante na produção, e são as máquinas a vapor ou elétricas que se encarregam de todas as tarefas grosseiras.” LE LIBERTAIRE n°10: 5 de fevereiro de 1859


“De agora em diante eu chamarei esse lugar ou falanstério de Humanisfera, por causa da analogia dessa constelação humana com o agrupamento e o movimento das estrelas, organização gravitacional, anarquia passional e harmônica. (...) Cem humanisferas simples (...) formam o primeiro elo da corrente serial e toma o nome de “Humanisfera Comunal”. Todas as humanisferas comunais de um mesmo continente formam a (...) “Humanisfera continental”. A reunião de todas as humanisferas continentais forma o complemento da corrente serial e tem o nome de “Humanisfera universal.” LE LIBERTAIRE n°9: 10 de janeiro de 1859


“[Ali, todos] sabem que a harmonia só pode existir pelo concurso das vontades individuais, que a lei natural das atrações é a lei tanto do infinitamente pequeno quanto do infinitamente grande, que nada que é social pode se mover sem ela, que ela é o pensamento universal, a unidade das unidades, a esfera das esferas, que ela é imanente e permanentemente em eterno movimento;” LE LIBERTAIRE n°7: 25 de outubro de 1858


NADA DE GOVERNO


“Na Humanisfera, nada de governo. Uma organização atrativa toma o lugar da legislação. A liberdade soberanamente individual preside a todas as decisões coletivas. A autoridade da anarquia, a ausência de toda ditadura do número ou da força substitui o arbítrio da autoridade,  o despotismo da espada e o despotismo da lei. A fé em si mesmo é toda a religião dos humanisferianos. Os deuses e os padres, as superstições religiosas levantam entre eles uma reprovação universal. Eles não conhecem nem teocracia nem aristocracia de nenhum tipo, mas apenas autonomia individual. Cada um se governa por suas próprias leis e é por esse governo de cada um por si mesmo que é formada a ordem social.” LE LIBERTAIRE n°12: 7 de abril de 1859



“Hoje em dia, uma multidão – mesmo aqueles que são partidários de grandes reformas – pensa que nada pode ser alcançado exceto por autoridade, enquanto que apenas o contrário é verdade. É a autoridade que faz obstáculo a tudo. O progresso nas idéias não é imposto por decretos, ele resulta do ensino livre e espontâneo dos homens e das coisas. O ensino obrigatório é um contrassenso. (...) os anarquistas querem a liberdade de ensino para ter o ensino da liberdade. A ignorância é o que há de mais antitético à natureza humana. O homem, em todos os momentos de sua vida, e sobretudo a criança, não quer nada mais do que aprender; isto é solicitado por todas as suas aspirações. Mas a sociedade civilizada, assim como a sociedade bárbara e a sociedade selvagem, longe de facilitar o desenvolvimento de suas aptidões só sabe cuidar de lhe reprimir. A manifestação de suas faculdades lhe é imputada como crime: para a criança, pela autoridade paterna; para o homem, pela autoridade governamental.”  LE LIBERTAIRE n°9: 10 de janeiro de 1859


"A coerção é a mãe de todos os vícios. Por isso, é banida pela razão do território da humanisfera. O egoísmo, naturalmente, o egoísmo inteligente é muito desenvolvido para que alguém pense em forçar seu próximo. É por egoísmo que eles trocam bons atos.” LE LIBERTAIRE n°11: 6 de março de 1859


COMUNISMO - PRODUÇÃO E CONSUMO LIVRES

“Ali, nessa sociedade anárquica, a família e a propriedade legais são instituições mortas, hieróglifos cujo sentido se perdeu. LE LIBERTAIRE n°8: 20 de novembro de 1858


"Tudo que é obra da mão e da inteligência, tudo que é objeto de produção e de consumo, capital comum, propriedade coletiva, PERTENCE A TODOS E A CADA UM. Tudo que é obra do coração, tudo que é da essência íntima, sensação e sentimento individuais, capital particular, propriedade corporal, tudo aquilo que é homem enfim, na sua acepção própria, seja qual for a sua idade ou sexo, PERTENCE A SI MESMO. Produtores e consumidores produzem e consomem como lhes apraz, quando lhes apraz e onde lhes apraz. “A liberdade é livre.” Ninguém pergunta: por que isto? Por que aquilo?” LE LIBERTAIRE n°8: 20 de novembro de 1858

“Na anarquia, o consumo alimenta a si mesmo pela produção. Um humanisferiano não compreenderia que se possa forçar um homem para trabalhar como não compreende que se possa forçar um homem a se alimentar.(...)
Os humanisferianos satisfazem naturalmente a necessidade de exercício do braço tanto como a necessidade do exercício do ventre. Não é mais possível racionar o apetite da produção, assim como também não é mais possível racionar o apetite do consumo. Cada um consome e produz conforme as suas capacidades, conforme as suas necessidades. Se todos os homens se curvassem sob uma retribuição uniforme, isso faria uns esfomearem e outros morrerem de indigestão. Somente o indivíduo é capaz de saber a dose de trabalho que sua barriga, seu cérebro e suas mãos podem digerir. Quando é dado ração a um cavalo num estábulo, o mestre dá ao animal doméstico esta ou aquela nutrição. Mas em liberdade, o animal raciona a si mesmo, e o instinto lhe diz melhor do que o mestre o que convém ao seu temperamento. Os animais indomados quase não conhecem doença. Tendo tudo em profusão, eles não brigam mais entre si para arrancar um broto de erva. Eles sabem que a pradaria selvagem produz mais pasto do que podem comer, e eles comem em paz uns ao lado dos outros. Por que os homens brigariam para consumir quando a produção, pelas forças mecânicas, fornece além de suas necessidades?”LE LIBERTAIRE n°12: 7 de abril de 1859


“O maior gozo do homem, o trabalho, se tornou uma série de atrações pela  liberdade e diversidade deles, e repercutem um no outro numa imensa e incessante harmonia.” LE LIBERTAIRE n°10: 5 de fevereiro de 1859


 “A variedade de gozos exclui a saciedade. Para eles, a felicidade está em todos os instantes.” LE LIBERTAIRE n°11: 6 de março de 1859


“O homem propõe e o homem dispõe. Da diversidade dos desejos resulta a harmonia.” LE LIBERTAIRE n°11: 6 de março de 1859


“Falta num canto da Europa os produtos de outro continente? Os jornais da Humanisfera o mencionam, é inserido no boletim de publicidade, esse monitor da universalidade anárquica; e as Humanisferas da Ásia, da África, da América ou da Oceania expedem o produto solicitado. É, pelo contrário, um produto europeu que está faltando na Ásia, na África, na América ou na Oceania? As Humanisferas da Europa o expedem. A troca ocorre naturalmente e não arbitrariamente. Assim, se tal Humanisfera doa mais um dia e recebe menos, qual o problema? Amanhã é ela sem dúvida que receberá mais e doará menos. Tudo pertence à todos, e como cada um pode se mudar de Humanisfera como muda de apartamento, se na circulação universal uma coisa estiver aqui ou ali, para que mesquinharia? Cada um não é livre para fazê-la transportar para onde lhe parecer melhor do mesmo modo que cada um é livre para transportar a si mesmo para onde lhe parecer melhor? “ LE LIBERTAIRE n°12: 7 de abril de 1859


“Um humanisferiano não somente pensa e age simultaneamente, mas também exerce  diferentes atividades num mesmo dia.(...)
Quando ele é um operário inferior nisto, ele é operário superior naquilo. Ele tem uma especialidade em que ele é excelente. É justamente esta inferioridade e esta superioridade de uns para os outros e vice versa que produz harmonia. Não custa nada se submeter à uma tal superioridade, que não é oficial, mas reconhecida num ofício, quando num outro momento e num outro instante da produção, esta superioridade se torna a tua inferioridade. Isso cria uma emulação salutar, uma reciprocidade benevolente, que destrói rivalidades invejosas. Então, por esses trabalhos diversos, o homem adquire a posse de, mais do que objetos de comparação, de sua inteligência, que se multiplica assim como as suas aptidões; trata-se de um estudo perpétuo e diversificado que desenvolve neles todas as faculdades físicas e intelectuais, e do qual se beneficiam ao se aperfeiçoar na sua atividade predileta.” LE LIBERTAIRE n°13: 12 de maio de 1859



MATERIALISMO  ESPINOSISTA 


"[...] o corpo social, assim como o corpo humano, não é um escravo inerte do pensamento, muito pelo contrário, é uma espécie de alambique animado cuja livre função dos órgãos produz o pensamento; o pensamento nada mais é do que a quintessência dessa anarquia da evolução cuja unidade é causada somente por suas forças atrativas."  LE LIBERTAIRE n°4: 2 de agosto de 1858

"Para eles, toda matéria é animada; eles não crêem na dualidade da alma e do corpo, eles não reconhecem senão a unidade da substância; simplesmente, esta substância adquire mil e uma formas; ela pode ser mais ou menos grosseira, mais ou menos apurada, mais ou menos sólida ou mais ou menos volátil. Mesmo que se admita, dizem eles, que a alma seja algo distinto do corpo – o que tudo nega -, seria ainda absurdo crer na sua imortalidade individual, na sua personalidade eternamente compacta, na sua imobilização indestrutível. A lei de composição e decomposição que rege os corpos, e que é a lei universal, também é a lei das almas."   LE LIBERTAIRE n°15: 27 de julho de 1859

“Ao contrário de Gall e de Lavater, que tomaram o efeito pela causa, eles [os humanisferianos] não crêem que o homem nasça com as aptidões absolutamente marcadas.(...)

Nós todos nascemos com o germe de todas as faculdades (salvo raras exceções: há os doentes mentais e físicos, mas as monstruosidades são fadadas a desaparecer na Harmonia), as circunstâncias exteriores agem diretamente sobre nós. Conforme nossas faculdades são ou foram expostas a sua influência, elas adquirem um desenvolvimento maior ou menor e se formam de uma ou de outra maneira. O aspecto do homem reflete suas inclinações, mas esse aspecto é geralmente muito diferente daquele que ele tinha quando criança."  LE LIBERTAIRE n°13: 12 de maio de 1859


"O meio onde nós vivemos e a diversidade de pontos de vista onde se colocam os homens e que faz com que ninguém possa ver as coisas sob o mesmo aspecto, explicam (...) a diversidade de suas paixões e aptidões.” LE LIBERTAIRE n°13: 12 de maio de 1859


Não existe ser que não seja joguete das circunstâncias, e o homem é como os outros seres. Ele é dependente de sua natureza e da natureza dos objetos ao seu redor, ou melhor, dos seres ao seu redor, pois todos esses objetos tem vozes que falam e modificam constantemente sua educação. Toda a liberdade do homem consiste em satisfazer a sua natureza, em ceder à suas atrações [inclinações].” LE LIBERTAIRE n°3: 16 julho de 1858


"A criança  é um diamante bruto. É polida pela fricção com seus semelhantes, que a talha e a forma como uma jóia social. É, em todas as idades, uma gema cuja pedra de polir é a sociedade e cujo egoísmo é o lapidário. Quanto mais ela está em contato com os outros, mais recebe impressões que multiplicam em seu rosto e em seu coração as facetas da paixão, das quais jorram as  centelhas de sentimento e da inteligência."  LE LIBERTAIRE nº9 10 de janeiro de 1859

MAS COMO SE ASSOCIAM E SE ORGANIZAM?


“Enfim há o lugar onde se encontram para tratar da organização social. É o pequeno cyclideon, clube ou fórum peculiar à Humanisfera. Neste parlamento da anarquia, cada um é o representante de si mesmo e o par dos outros. Ó! É muito diferente do que é entre os civilizados; ali, ninguém perora, ninguém disputa, ninguém vota, ninguém legisla, mas todos, jovens ou velhos, homens ou mulheres, conferem em comum as necessidades da humanisfera. A iniciativa individual concorda ou recusa sua própria palavra, conforme se considere útil ou não falar.  Neste lugar, há um escritório, naturalmente. Com a diferença de que neste escritório não há nenhuma autoridade exceto o livro de estatísticas. Os humanisferianos acham que este é um presidente eminentemente imparcial e de um laconismo extremamente eloquente. É por isso que não querem nenhum outro.” LE LIBERTAIRE n°9: 10 de janeiro de 1859


“O homem propõe e o homem dispõe. Da diversidade dos desejos resulta a harmonia.” LE LIBERTAIRE n°11: 6 de março de 1859


“Mais ou menos a cada semana, se for necessário, há uma reunião na sala de conferências, isto é, no pequeno cyclideon interno. Em razão das grandes obras a executar. Aqueles mais versados nos conhecimentos especificamente em questão tomam a iniciativa da palavra. As estatísticas, os projetos, os planos já tinham aparecido em folhas impressas, nos jornais; e já foram comentados em pequenos grupos; a urgência foi geralmente reconhecida ou recusada por cada um individualmente. Frequentemente há somente uma voz,  voz unânime, de aclamação ou rejeição. Ninguém vota; nunca  a maioria  e nem a minoria fazem a lei. Se esta ou aquela proposta reúne um número suficiente de trabalhadores para executá-la, quer sejam esses trabalhadores a maioria ou a minoria, então a proposta será executada, se for esta a vontade daqueles que aderem a ela. E com frequência acontece que a maioria se une à minoria, ou a minoria à maioria. Como num passeio no campo, alguns propõem ir a Saint-Germain, outros à Meudon, outros ainda à Sceaux, e ainda outros, à Fontainebleau;  as jornadas se dividem; mas no fim das contas cada um cede à atração de se reunir com outros. E todos juntos tomam de comum acordo a mesma rota, sem que nenhuma autoridade exceto o prazer os governe. A atração é toda a lei de sua harmonia. Mas, tanto na partida quanto na jornada, cada um é livre para se abandonar à seu capricho e  deixar o grupo se isso lhe convém,  parar no caminho, se está fatigado, ou retornar, se está com tédio. A coerção é a mãe de todos os vícios. Por isso, é banida pela razão do território da humanisfera. O egoísmo, naturalmente, o egoísmo inteligente é muito desenvolvido para que alguém pense em forçar seu próximo. É por egoísmo que eles trocam bons atos.” LE LIBERTAIRE n°11: 6 de março de 1859


VIVA O EGOÍSMO!


“O homem é o egoísmo; sem egoísmo, o homem não existiria. O egoísmo é o móbil de todas as suas ações, o motor de todos os seus pensamentos.(...)
É para crescer, para aumentar o círculo de sua influência que o homem leva alto a sua face e atira ao longe o seu olhar; é em vista de satisfações pessoais que ele caminha para a conquista de satisfações coletivas. É para si mesmo, como indivíduo, que ele quer participar da efervescência viva da felicidade geral; é para si mesmo que ele fica aflito pelo sofrimento dos outros. Seu egoísmo, sem cessar exigido pelo instinto de sua conservação progressiva e pelo sentimento de solidariedade que o liga a seus semelhantes – seu egoísmo solicita as perpétuas emanações de sua existência na existência dos outros. É isto que a velha sociedade chama impropriamente de devotamento e que não é senão espelhamento [spéculation], espelhamento que é tanto mais humanitário quanto é mais inteligente, que é tanto mais humanicida quanto mais é imbecil.(...)
Humanamente, não é possível fazer um movimento, um gesto da mão, do coração ou do cérebro, sem que a sensação se repercuta de uma pessoa para outra como um choque elétrico. E isso tem lugar no estado de comunidade anárquica, no estado de natureza livre e inteligente.“ LE LIBERTAIRE n°12: 7 de abril de 1859


E OS TRABALHOS MAIS DESAGRADÁVEIS?


“Embora na Humanisfera as máquinas façam todos os trabalhos mais grosseiros, eu penso que ainda há trabalhos mais desagradáveis do que outros, me parece inclusive que há alguns que não são do gosto de ninguém. Porém, estes trabalhos são executados sem nenhuma lei nem regulamento que constranja quem o faz. Como assim?, pergunto eu, que ainda não vê as coisas senão com meus olhos de civilizado. No entanto é bem simples. O que é que torna o trabalho atraente? Nem sempre é a natureza do trabalho mas a condição na qual ele é exercido e a condição do resultado a obter.” LE LIBERTAIRE n°14: 15 de junho de 1859



"Na Humanisfera, alguns trabalhos que por sua natureza me parecem repugnantes encontram porém operários para executá-los com prazer. E a causa disso é a condição na qual são executados. As diferentes séries de trabalhadores são convocadas voluntariamente, como são convocados os homens de uma barricada, e são totalmente livres para permanecer o tempo que quiserem ou para passar a uma outra série ou para outra barricada. Não há chefe apontado nem intitulado. Aqueles que tem mais conhecimento ou aptidão nesse trabalho dirigem naturalmente os outros. Cada um toma a iniciativa mutuamente, conforme se reconheça suas capacidades. Por outro lado, cada um dá sua opinião e recebe a do outro. Há entendimento amigável, não autoridade. Ademais, é raro que não haja mistura de homens e mulheres entre os trabalhadores de uma série.  E o trabalho se dá em condições muito atraentes para que, mesmo que fosse repugnante por si mesmo, não se encontre um certo encanto em cumpri-lo. Em seguida, há a natureza do resultado a obter. Se um trabalho é com efeito indispensável, aqueles à quem ele mais repugna e que se abstém ficarão encantados que outros se encarreguem dele, e  retornarão em afabilidade a esses últimos, com grandes consideração, que é a compensação do serviço que os outros lhe retornaram. Não se pense que os trabalhos mais grosseiros pertençam, entre os humanisferianos, às inteligências inferiores, muito pelo contrário, são as sumidades nas ciências e nas artes que geralmente  se aprazem em fazer esse trabalho penoso. Quanto mais a delicadeza é refinada entre os homens, mais ela torna-os aptos, em certos momentos, aos trabalhos rudes e difíceis, sobretudo quando eles são um sacrifício oferecido em amor à humanidade.(...) O egoísmo é a fonte de todas as virtudes.” LE LIBERTAIRE n°14: 15 de junho de 1859


UMA ÚNICA HUMANIDADE


“Atravessei todos os continente, Europa, Ásia, África, Oceania. Vi muitas fisionomias diferentes, mas vi por toda parte somente uma raça. O cruzamento universal das populações asiáticas, européias, africanas e americanas (os pele-vermelhas); a multiplicação de todos por todos nivelou todas as asperezas de cor e de linguagem. A humanidade é una. No olhar de todo humanisferiano há uma mistura de gentileza e orgulho que tem um estranho encanto. Algo como uma nuvem de fluído magnético envolve toda sua pessoa e ilumina sua face com uma auréola fosforescente.  Sente-se uma inclinação para eles graças a uma atração irresistível. A graça de seus movimentos se soma ainda à beleza de suas formas. A palavra que sai de seus lábios, cada marca de seus suaves pensamentos, é como um perfume que emana. A estatuária não saberia modelar os contornos animados de seus corpos e de seu rosto, e que dão encantos sempre novos a essa vivacidade.” LIBERTAIRE n°15: 27 de julho de 1859


A COMPETIÇÃO COMUNISTA ANÁRQUICA


“(...) havia uma exibição universal dos produtos do gênio humano.(...)

Nesse círculo de obras poéticas da mão e da inteligência foi exposto todo um museu de maravilhas. A agricultura para ali levou suas colheitas, a horticultura, seus frutos, a indústria, seus tecidos, seus móveis, seus adereços, e a ciência levou todas as suas engrenagens, seus mecanismos, suas estatísticas, suas teorias. A arquitetura para ali levou suas plantas, a pintura, os seus quadros, a escultura e a estatuária seus ornamentos e estátuas, a música e a poesia, os mais puros de seus cantos.  Tanto as artes como as ciências puseram ali suas jóias mais ricas.

 Não era um concurso como os nossos concursos. Não tinha nem júri de admissão e nem júri para recompensar com base na voz da sorte ou do voto, nem prêmio [grand prix] garantido por juízes oficiais, nem coroas, nem patentes, nem laureados, nem medalhas. A livre e grande voz pública é o único juiz soberano.  É por prazer a esse poder da opinião que cada um expõe a ela suas obras, e é ela que, passando diante dos produtos de uns e de outros, lhes premia segundo suas aptidões especiais, não com palmas de distinção, mas com admirações mais ou menos vivas, exames mais ou menos atentos, mais ou menos desdenhosos. Assim, seus julgamentos são sempre justos, sempre condenando os menos bravos, sempre louvando os mais valentes, sempre estimulando a emulação, tanto para os frágeis quanto para os fortes. É o grande retificador dos tortos; ela evidencia a todos individualmente se eles seguiram mais ou menos o caminho de sua vocação, se elas são mais ou menos postas de lado; e o futuro se encarrega de confirmar suas observações maternais.  E todas os suas linhas crescem para se superar nessa educação mútua, porque todos têm a orgulhosa ambição de se distinguir igualmente nas suas diversas obras. “ LE LIBERTAIRE n°7: 25 de outubro de 1858


“(...) [N]a Humanisfera, (...) há somente oficinas de prazer e exposições de trabalho, armazéns de ciência e de artes e museus de todas as produções: após ter admirado essas máquinas de ferro cujo móbil é o vapor ou a eletricidade, multidões de engrenagens laboriosas que são para os humanisferianos aquilo que as multidões de proletários ou de escravos são para os civilizados; após ter assistido o movimento não menos admirável daquela engrenagem humana, dessa multidão de trabalhadores livres, mecanismo serial  cujo único móbil é a atração; após ter constatado as maravilhas dessa organização igualitária cuja evolução anárquica produz a harmonia; (...) [depois de tudo isso] como se poderia, diga-me, retornar aos civilizados, como se poderia voltar a viver sob a Lei, esse chicote da autoridade, quando a anarquia, essa lei da liberdade, tem costumes tão puros e doces? Como se poderia considerar como uma coisa tão incomum aquela fraternidade inteligente, e  considerar como normal essa imbecilidade fratricida?” LE LIBERTAIRE n°14: 15 de junho de 1859




Tradução por Humana Esfera, a partir de http://joseph.dejacque.free.fr/libertaire/n01/n01.htm e https://we.riseup.net/jessecohn/experimental-translation-wiki-2. Julho de 2012.

Veja trechos de  Le Humanisphère sobre a transição revolucionária
Veja os trechos de Le Humanisphère onde Déjacque relata suas influências



Outros clássicos que traduzimos:

Sobre a troca (1858) - Joseph Déjacque


Abaixo, "memes" publicados na página Joseph Déjacque, o libertário:














segunda-feira, 11 de junho de 2012

A determinação do acaso e o acaso determinista

O materialismo afirma que tudo consiste em diferenciações em que nada é indiferente a nada. Se existisse  diferença indiferente, os imaterialistas (espiritualistas, idealistas, dualistas, etc.) poderiam estar certos.  No entanto, a única coisa que sabemos é que apenas o nada é indiferente, todo o resto são diferenças diferentes - em suma,  o mundo consiste em diferenciações diferenciantes.

Dizer que as diferenças diferem significa dizer que algo só existe em relação com outros algos, nunca num absoluto. Então, vejamos o que são "relações". A primeira aparência, a mais superficial, das relações é o limite (algo só é algo porque se limita com outros algos, quer dizer, é separado deles), mas esta é sua aparência imediata. O essencial é saber como  algo vem a ser, isto é, saber como e por quê algo existe ao invés de nada, como algo se separa transitoriamente de todo o resto e se torna algo. Em outras palavras, a relação essencial que importa investigar é a determinação.

Além disso, nem toda relação entre algo e outro algo é de limite. O pão não se limita com o trigo que o compõe,  o cérebro não se limita com as células nervosas, como também a mente não se limita com o cérebro, e nem as idéias se limitam com a mente, por exemplo. E no entanto, têm relações e unicamente mediante essas relações eles são diferentes.

Por que algo existe ao invés de nada?

A condição para que algo exista ao invés do nada é não apenas que esse algo seja causado por outro algo, mas que o efeito (algo) influencie a causação (o outro algo) e se torne causa de sua própria sua manutenção, de sua permanência. É o que Baruch Espinosa chamava de conatus.

Exemplo: Uma pedra é um efeito dos minerais que a compõe, mas ela só existe porque o efeito (a própria pedra em sua relação a outras coisas, inclusive outras pedras) afeta suas causas de modo que os minerais continuam mantendo uma certa disposição entre si que impede o esfarelamento da pedra durante o tempo em que existe. A pedra enquanto pedra (efeito) torna-se causa da permanência de suas próprias causas (aglutinação dos minerais) devido à relação dessa pedra com outras pedras e materiais a sua volta, que estão dispostos no lugar de modo a não esfarelá-la.

Assim, em última instância, a determinação de algo é puro acaso. Acaso não significa sem causa e nem indiferença, mas sim que a determinação não é predeterminada, mas, pelo contrário, que ela surge da confluência de diversas determinações simultâneas puramente contingentes e heterogêneas.

Uma "supermente" (o "demônio de Laplace"), dizem, poderia saber todos os encadeamentos causais e prever todos os resultados. Para essa supermente, o acaso não existiria. Mas essa concepção de uma super-alma, ao negar o acaso, não é determinista, mas predeterminista. E também não é materialista, mas dualista, já que supõe a existência de uma super-alma fora e acima do universo causal, isto é, uma diferença indiferente absoluta. Ou seja, é fantasia.

Tudo o que podemos saber só sabemos unicamente através de nossa determinação singular no universo material e nunca por uma mente flutuando indiferentemente acima da matéria que saberia tudo do universo. Desse modo, acaso e determinação engendram-se mutuamente no materialismo.

O novo e sua permanência (surgimento e continuidade / gênese e reprodução)

Quando o acaso gera algo, surge a necessidade, que é a duração desse algo.

Muitas vezes, as causações originais de algo (as causas de sua gênese, de seu surgimento) diferem das causações de sua manutenção (as causas de sua continuidade, de sua reprodução, de sua permanência).

O mundo pulula de causações simultâneas acontecendo a todo instante, mas algo novo só surge quando, por simples coincidência, algumas causações confluem e se sustentam mutuamente nessa confluência, gerando algo diferente. É essa sustentação mútua das determinações que as separa das demais determinações  e as limita com outros algos, dando surgimento a algo novo.

Esse algo novo pode ser tão fortemente mantido separado dos demais algos através dessas determinações mútuas que ele pode continuar se sustentando por causações diferentes das originais (diferentes das causações originais dessas determinações mútuas desse algo).

Exemplos: O surgimento dos seres vivos é um caso paradigmático deste caso (surgimento da separação do meio interno do externo através da vesícula celular e reprodução mediante genes). Também é o caso da acumulação primitiva do capital (a barbárie da separação sangrenta da população dos meios de produção confluiu com o comércio, causando o capital industrial) com relação à reprodução do capital (igualdade e liberdade entre mercadores "civilizados" causa a sujeição do trabalho vivo ao trabalho morto, isto é, o capital). Do mesmo modo, uma nova idéia (um conhecimento, uma percepção ou um desejo) na mente pode se sustentar por razões diferentes das razões que lhe deram origem.

Crescimento e morte

As coisas, se desdobram, e enquanto permanecem, vão se tornando determinação entre outras de um conjunto de determinações mútuas internas de outros algos e assim por diante, através do mundo.

Inevitavelmente, a separação de algo com relação a todo o resto não permanece para sempre. Se permacesse eternamente, seria o caso mais próximo da diferença indiferente defendida pelo imaterialismo. Mas não é o caso.

Algo morre quando  suas determinações mútuas internas tornam-se insuficientes para manter a unidade desse algo  Há dois modos de algo morrer: por crescimento exagerado e por determinações externas agressivas. O crescimento exagerado faz com que o peso da unidade desmorone sobre suas próprias determinações mútuas internas que se tornaram insuficientes. Já no outro modo de morte, as determinações externas agressivas entram em relação com as determinações mútuas internas desagregando-as, fazendo a unidade desmoronar devido aos seus pilares serem puxados por todos os lados.

As determinações externas destrutivas, além disso, podem ser o próprio resultado da ação das determinações mútuas internas, que assim destroem suas próprias condições de existência. Por exemplo, a destruição pelo homem do ecossistema que é a condição de sua prória vida.

Pode ocorrer que um dos produtos das determinações mútuas internas de algo cause o desmoronamento da unidade, sobreviva e lance as bases para que novas determinações mútuas sejam reunidas e formem uma nova unidade diferente da anterior. Exemplos: A morte do comunismo tribal dando lugar à sociedade de castas, assim como a morte desta última dando lugar à sociedade de classes (capitalismo). Também é o caso dos seres vivos (genes, sementes, reprodução), e também dos programas de computadores (que pode ser transferidos para vários computadores).  Mas certamente até esse tipo de continuidade também não dura para sempre.

Conclusão

Não há necessidade da imaterialidade para explicar o acaso e, daí, a liberdade. Como vimos, o acaso é a própria determinação. Logo, pode ser explicado de modo plenamente materialista, isto é, sem precisar recorrer a nenhuma diferença indiferente imaginária.



Humana Esfera, 6/2012



Bibliografia 

  • Lucrécio - Da Natureza das Coisas (De Rerum Natura)
  • Baruch Espinoza - Ética
  •  Jean Meslier - Ateísmo e Revolta, os manuscritos do padre Jean Meslier (Paulo Jonas de Lima Piva)
  • La Mettrie - O Homem-máquina
  • Holbach - Sistema da Natureza
  • Hegel - Fenomenologia do Espírito
  • Marx - Manuscritos econômicos e filosóficos, A Ideologia Alemã, Grundrisse
  • Joseph Déjacque - A humanisfera 
  • Bakunin - Deus e o Estado
  • Michel Serres - O Nascimento da Física no Texto de Lucrécio
  • Deleuze & Guattari - Capitalismo e esquizofrenia, volume I (O Anti Édipo) e II ( Mil Platôs)  

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