Joseph Déjacque: "A Humanisfera - Utopia Anárquica" (1857) - Trechos


Trechos de "L'HUMANISPHERE. UTOPIE ANARCHIQUE" (A Humanisfera - Utopia Anarquista), 1857. Tradução feita em julho de 2012 por humanaesfera, a partir do francês e inglês. Joseph Déjacque foi o inventor da palavra libertário, palavra que durante 150 anos significou comunista anarquista. Infelizmente essa palavra está sendo hoje pilhada, falsificada e distorcida por milionários e burocratas particulares e estatais, que inventaram o "libertarianismo" para tentar nos impor a crendice absurda de que "liberdade" é a tirania totalitária deles chamada empresa e mercado. 



1-TRECHOS DA INTRODUÇÃO:


"O QUE É ESTE LIVRO?

Este livro não é uma obra literária, é uma obra infernal, o grito de um escravo rebelde.
(...)

Este livro não é feito de tinta; suas páginas não são folhas de papel.

Este livro é aço dobrado in octavo e carregado com fulminato de idéias. É um projétil autoricida que lanço em milhares de exemplares sobre o pavimento dos civilizados. É capaz de fazer voar seus fragmentos ao longe e romper mortalmente as fileiras dos preconceituosos. Capaz de quebrar a velha sociedade em seus fundamentos.

Privilegiados! – para quem semeou a escravidão chegou a hora de colher a rebelião. Não há trabalhador que, sob os lambris de seu cérebro, não tenha confeccionado clandestinamente alguns pensamentos de destruição. Vocês têm, vocês, a baioneta e o código penal, o catecismo e a guilhotina; nós temos, nós, a barricada e a utopia, o sarcasmo e a bomba. Vocês, vocês são a compressão; nós, nós somos o explosivo: uma única fagulha basta para vos fazer saltar!
(...)

Este livro não é um escrito, é um ato. Ele não foi traçado pela mão enluvada de um fantasista;  é composto de coração e  lógica, de sangue e febre. É um grito de insurreição, é um alarme soado com o martelo da idéia ao ouvido das paixões populares. Além disso, é um canto de vitória, uma salva triunfal, a proclamação da soberania individual, o advento da liberdade universal; é a anistia plena e total das penas autoritárias do passado pelo decreto anárquico do porvir humanitário.

Este é um livro de raiva e é um livro de amor!” LE LIBERTAIRE n°1: 9 junho de 1858



2-TRECHOS SOBRE O COMUNISMO FUTURO:


MOTIVO DA UTOPIA

"A ausência de ordens, eis a verdadeira ordem." LE LIBERTAIRE n°12: 7 de abril de 1859

"A ordem com a adaga ou o canhão, com a forca ou a guilhotina; (...) a ordem personificada na trindade homicida: ferro, ouro e água benta; a ordem à golpes de fuzil, à golpes de bíblias, à golpes de  notas bancárias (...) não é senão lei de bandidos, o código do roubo e do assassinato que preside a partilha do butim e o massacre das vítimas. É sobre esse pivô sangrento que gira o mundo civilizado.” LE LIBERTAIRE n°12: 7 de abril de 1859

“Invalidar a autoridade e criticar seus atos não basta. Uma negação, para ser absoluta, necessita de se completar com uma afirmação. É por isso que eu afirmo a liberdade, é por isso que deduzo as suas consequências. “ LE LIBERTAIRE n°1: 9 junho de 1858
“Para mim, a questão não é fazer discípulos, mas fazer homens, e alguém é homem apenas com a condição de ser ele mesmo. Incorporemos as idéias dos outros e encarnemos nossas idéias nos outros; nada melhor do que misturar nossos pensamentos; mas façamos desta mistura uma concepção nossa. Sejamos uma obra original e não uma cópia. O escravo se modela no seu mestre, ele imita. O homem livre não produz senão seu tipo, ele cria.

Meu plano é fazer um retrato da sociedade do modo como ela me parece no futuro: a liberdade individual fluindo anarquicamente na comunidade social e produzindo a harmonia.” LE LIBERTAIRE n°1: 9 junho de 1858

“Os pesquisadores da felicidade ideal, assim como os pesquisadores da pedra filosofal, não poderão talvez nunca realizar sua utopia de uma maneira absoluta, mas sua utopia será a causa do progresso humano.” LE LIBERTAIRE n°6: 21 de setembro de 1858

"Tenho apenas uma face, mas esta face é móvel como a fisionomia da onda; ao menor sopro, ela passa de uma expressão à outra, da calma à tempestade e da cólera à ternura.  É por isso que, como passionalidade múltipla, espero tratar da sociedade humana com alguma chance de sucesso, visto que, para tratá-la adequadamente, é preciso tanto conhecer as próprias paixões quando as dos outros."  LE LIBERTAIRE n°1 9 de junho de 1958

PAIXÕES,  ATRAÇÕES E INCLINAÇÕES: HOMEM, COSMO, ANARQUIA


“O homem é um ser essencialmente revolucionário. Ele não sabe se imobilizar num lugar. Ele não vive a vida dos limites, mas a vida dos astros.” LE LIBERTAIRE n°6: 21 de setembro de 1858

" [Os] globos circulam livremente no éter, ora atraídos gentilmente por um, ora repelidos com doçura por outro, todos obedecendo somente a sua paixão, e encontrando na sua paixão a lei de sua harmonia móvel e perpétua, (...)  e demonstram por uma argumentação sem réplica que (...) a ordem anárquica é a ordem universal.  (...) Do mesmo modo que as esferas circulam anarquicamente na universalidade, também os homens devem circular anarquicamente na humanidade, sob a única impulsão das simpatias e das antipatias, das atrações e das repulsões recíprocas. A harmonia não pode existir senão pela anarquia.”   LE LIBERTAIRE n°4: 2 de agosto de 1858

E NO ANO DE 2858...

“Dez séculos se passaram diante da Humanidade. Estamos no ano de 2858.” LE LIBERTAIRE n°6: 21 de setembro de 1858

"A utopia anarquista é para a civilização o que a civilização é para a selvageria." LE LIBERTAIRE n°6: 21 de setembro de 1858

“O ar, o fogo, a água, todos os elementos com instintos destruidores foram dominados. (...) O homem trona sobre as máquinas de trabalho, ele já não fertiliza mais o campo com o suor de seu corpo, mas com o suor da locomotiva. (...) As estradas de ferro, as pontes lançadas sobre os estreitos e os túneis submarinos, as construções subaquáticas e os aerostatos, movidos pela eletricidade, fizeram de todo o globo uma única cidade que se pode atravessar em menos de um dia. Os continentes são os bairros ou distritos da cidade universal.” LE LIBERTAIRE n°7: 25 de outubro de 1858

“A ciência destruiu o que é mais repugnante na produção, e são as máquinas a vapor ou elétricas que se encarregam de todas as tarefas grosseiras.” LE LIBERTAIRE n°10: 5 de fevereiro de 1859

“De agora em diante eu chamarei esse lugar ou falanstério de Humanisfera, por causa da analogia dessa constelação humana com o agrupamento e o movimento das estrelas, organização gravitacional, anarquia passional e harmônica. (...) Cem humanisferas simples (...) formam o primeiro elo da corrente serial e toma o nome de “Humanisfera Comunal”. Todas as humanisferas comunais de um mesmo continente formam a (...) “Humanisfera continental”. A reunião de todas as humanisferas continentais forma o complemento da corrente serial e tem o nome de “Humanisfera universal.” LE LIBERTAIRE n°9: 10 de janeiro de 1859

“[Ali, todos] sabem que a harmonia só pode existir pelo concurso das vontades individuais, que a lei natural das atrações é a lei tanto do infinitamente pequeno quanto do infinitamente grande, que nada que é social pode se mover sem ela, que ela é o pensamento universal, a unidade das unidades, a esfera das esferas, que ela é imanente e permanentemente em eterno movimento;” LE LIBERTAIRE n°7: 25 de outubro de 1858

NADA DE GOVERNO

“Na Humanisfera, nada de governo. Uma organização atrativa toma o lugar da legislação. A liberdade soberanamente individual preside a todas as decisões coletivas. A autoridade da anarquia, a ausência de toda ditadura do número ou da força substitui o arbítrio da autoridade,  o despotismo da espada e o despotismo da lei. A fé em si mesmo é toda a religião dos humanisferianos. Os deuses e os padres, as superstições religiosas levantam entre eles uma reprovação universal. Eles não conhecem nem teocracia nem aristocracia de nenhum tipo, mas apenas autonomia individual. Cada um se governa por suas próprias leis e é por esse governo de cada um por si mesmo que é formada a ordem social.” LE LIBERTAIRE n°12: 7 de abril de 1859 

“Hoje em dia, uma multidão – mesmo aqueles que são partidários de grandes reformas – pensa que nada pode ser alcançado exceto por autoridade, enquanto que apenas o contrário é verdade. É a autoridade que faz obstáculo a tudo. O progresso nas idéias não é imposto por decretos, ele resulta do ensino livre e espontâneo dos homens e das coisas. O ensino obrigatório é um contrassenso. (...) os anarquistas querem a liberdade de ensino para ter o ensino da liberdade. A ignorância é o que há de mais antitético à natureza humana. O homem, em todos os momentos de sua vida, e sobretudo a criança, não quer nada mais do que aprender; isto é solicitado por todas as suas aspirações. Mas a sociedade civilizada, assim como a sociedade bárbara e a sociedade selvagem, longe de facilitar o desenvolvimento de suas aptidões só sabe cuidar de lhe reprimir. A manifestação de suas faculdades lhe é imputada como crime: para a criança, pela autoridade paterna; para o homem, pela autoridade governamental.”  LE LIBERTAIRE n°9: 10 de janeiro de 1859

"A coerção é a mãe de todos os vícios. Por isso, é banida pela razão do território da humanisfera. O egoísmo, naturalmente, o egoísmo inteligente é muito desenvolvido para que alguém pense em forçar seu próximo. É por egoísmo que eles trocam bons atos.” LE LIBERTAIRE n°11: 6 de março de 1859

COMUNISMO - PRODUÇÃO E CONSUMO LIVRES

“Ali, nessa sociedade anárquica, a família e a propriedade legais são instituições mortas, hieróglifos cujo sentido se perdeu. ” LE LIBERTAIRE n°8: 20 de novembro de 1858

"Tudo que é obra da mão e da inteligência, tudo que é objeto de produção e de consumo, capital comum, propriedade coletiva, PERTENCE A TODOS E A CADA UM. Tudo que é obra do coração, tudo que é da essência íntima, sensação e sentimento individuais, capital particular, propriedade corporal, tudo aquilo que é homem enfim, na sua acepção própria, seja qual for a sua idade ou sexo, PERTENCE A SI MESMO. Produtores e consumidores produzem e consomem como lhes apraz, quando lhes apraz e onde lhes apraz. “A liberdade é livre.” Ninguém pergunta: por que isto? Por que aquilo?” LE LIBERTAIRE n°8: 20 de novembro de 1858

“Na anarquia, o consumo alimenta a si mesmo pela produção. Um humanisferiano não compreenderia que se possa forçar um homem para trabalhar como não compreende que se possa forçar um homem a se alimentar.(...)
Os humanisferianos satisfazem naturalmente a necessidade de exercício do braço tanto como a necessidade do exercício do ventre. Não é mais possível racionar o apetite da produção, assim como também não é mais possível racionar o apetite do consumo. Cada um consome e produz conforme as suas capacidades, conforme as suas necessidades. Se todos os homens se curvassem sob uma retribuição uniforme, isso faria uns esfomearem e outros morrerem de indigestão. Somente o indivíduo é capaz de saber a dose de trabalho que sua barriga, seu cérebro e suas mãos podem digerir. Quando é dado ração a um cavalo num estábulo, o mestre dá ao animal doméstico esta ou aquela nutrição. Mas em liberdade, o animal raciona a si mesmo, e o instinto lhe diz melhor do que o mestre o que convém ao seu temperamento. Os animais indomados quase não conhecem doença. Tendo tudo em profusão, eles não brigam mais entre si para arrancar um broto de erva. Eles sabem que a pradaria selvagem produz mais pasto do que podem comer, e eles comem em paz uns ao lado dos outros. Por que os homens brigariam para consumir quando a produção, pelas forças mecânicas, fornece além de suas necessidades?”LE LIBERTAIRE n°12: 7 de abril de 1859

“O maior gozo do homem, o trabalho, se tornou uma série de atrações pela  liberdade e diversidade deles, e repercutem um no outro numa imensa e incessante harmonia.” LE LIBERTAIRE n°10: 5 de fevereiro de 1859

 “A variedade de gozos exclui a saciedade. Para eles, a felicidade está em todos os instantes.” LE LIBERTAIRE n°11: 6 de março de 1859

“O homem propõe e o homem dispõe. Da diversidade dos desejos resulta a harmonia.” LE LIBERTAIRE n°11: 6 de março de 1859

“Falta num canto da Europa os produtos de outro continente? Os jornais da Humanisfera o mencionam, é inserido no boletim de publicidade, esse monitor da universalidade anárquica; e as Humanisferas da Ásia, da África, da América ou da Oceania expedem o produto solicitado. É, pelo contrário, um produto europeu que está faltando na Ásia, na África, na América ou na Oceania? As Humanisferas da Europa o expedem. A troca ocorre naturalmente e não arbitrariamente. Assim, se tal Humanisfera doa mais um dia e recebe menos, qual o problema? Amanhã é ela sem dúvida que receberá mais e doará menos. Tudo pertence à todos, e como cada um pode se mudar de Humanisfera como muda de apartamento, se na circulação universal uma coisa estiver aqui ou ali, para que mesquinharia? Cada um não é livre para fazê-la transportar para onde lhe parecer melhor do mesmo modo que cada um é livre para transportar a si mesmo para onde lhe parecer melhor? “ LE LIBERTAIRE n°12: 7 de abril de 1859
“Um humanisferiano não somente pensa e age simultaneamente, mas também exerce  diferentes atividades num mesmo dia.(...)
Quando ele é um operário inferior nisto, ele é operário superior naquilo. Ele tem uma especialidade em que ele é excelente. É justamente esta inferioridade e esta superioridade de uns para os outros e vice versa que produz harmonia. Não custa nada se submeter à uma tal superioridade, que não é oficial, mas reconhecida num ofício, quando num outro momento e num outro instante da produção, esta superioridade se torna a tua inferioridade. Isso cria uma emulação salutar, uma reciprocidade benevolente, que destrói rivalidades invejosas. Então, por esses trabalhos diversos, o homem adquire a posse de, mais do que objetos de comparação, de sua inteligência, que se multiplica assim como as suas aptidões; trata-se de um estudo perpétuo e diversificado que desenvolve neles todas as faculdades físicas e intelectuais, e do qual se beneficiam ao se aperfeiçoar na sua atividade predileta.” LE LIBERTAIRE n°13: 12 de maio de 1859

MATERIALISMO  ESPINOSISTA 

"[...] o corpo social, assim como o corpo humano, não é um escravo inerte do pensamento, muito pelo contrário, é uma espécie de alambique animado cuja livre função dos órgãos produz o pensamento; o pensamento nada mais é do que a quintessência dessa anarquia da evolução cuja unidade é causada somente por suas forças atrativas."  LE LIBERTAIRE n°4: 2 de agosto de 1858

"Para eles, toda matéria é animada; eles não crêem na dualidade da alma e do corpo, eles não reconhecem senão a unidade da substância; simplesmente, esta substância adquire mil e uma formas; ela pode ser mais ou menos grosseira, mais ou menos apurada, mais ou menos sólida ou mais ou menos volátil. Mesmo que se admita, dizem eles, que a alma seja algo distinto do corpo – o que tudo nega -, seria ainda absurdo crer na sua imortalidade individual, na sua personalidade eternamente compacta, na sua imobilização indestrutível. A lei de composição e decomposição que rege os corpos, e que é a lei universal, também é a lei das almas."   LE LIBERTAIRE n°15: 27 de julho de 1859

“Ao contrário de Gall e de Lavater, que tomaram o efeito pela causa, eles [os humanisferianos] não crêem que o homem nasça com as aptidões absolutamente marcadas.(...)

Nós todos nascemos com o germe de todas as faculdades (salvo raras exceções: há os doentes mentais e físicos, mas as monstruosidades são fadadas a desaparecer na Harmonia), as circunstâncias exteriores agem diretamente sobre nós. Conforme nossas faculdades são ou foram expostas a sua influência, elas adquirem um desenvolvimento maior ou menor e se formam de uma ou de outra maneira. O aspecto do homem reflete suas inclinações, mas esse aspecto é geralmente muito diferente daquele que ele tinha quando criança."  LE LIBERTAIRE n°13: 12 de maio de 1859

"O meio onde nós vivemos e a diversidade de pontos de vista onde se colocam os homens e que faz com que ninguém possa ver as coisas sob o mesmo aspecto, explicam (...) a diversidade de suas paixões e aptidões.” LE LIBERTAIRE n°13: 12 de maio de 1859

Não existe ser que não seja joguete das circunstâncias, e o homem é como os outros seres. Ele é dependente de sua natureza e da natureza dos objetos ao seu redor, ou melhor, dos seres ao seu redor, pois todos esses objetos tem vozes que falam e modificam constantemente sua educação. Toda a liberdade do homem consiste em satisfazer a sua natureza, em ceder à suas atrações [inclinações].” LE LIBERTAIRE n°3: 16 julho de 1858


"A criança  é um diamante bruto. É polida pela fricção com seus semelhantes, que a talha e a forma como uma jóia social. É, em todas as idades, uma gema cuja pedra de polir é a sociedade e cujo egoísmo é o lapidário. Quanto mais ela está em contato com os outros, mais recebe impressões que multiplicam em seu rosto e em seu coração as facetas da paixão, das quais jorram as  centelhas de sentimento e da inteligência."  LE LIBERTAIRE nº9 10 de janeiro de 1859

MAS COMO SE ASSOCIAM E SE ORGANIZAM?

“Enfim há o lugar onde se encontram para tratar da organização social. É o pequeno cyclideon, clube ou fórum peculiar à Humanisfera. Neste parlamento da anarquia, cada um é o representante de si mesmo e o par dos outros. Ó! É muito diferente do que é entre os civilizados; ali, ninguém perora, ninguém disputa, ninguém vota, ninguém legisla, mas todos, jovens ou velhos, homens ou mulheres, conferem em comum as necessidades da humanisfera. A iniciativa individual concorda ou recusa sua própria palavra, conforme se considere útil ou não falar.  Neste lugar, há um escritório, naturalmente. Com a diferença de que neste escritório não há nenhuma autoridade exceto o livro de estatísticas. Os humanisferianos acham que este é um presidente eminentemente imparcial e de um laconismo extremamente eloquente. É por isso que não querem nenhum outro.” LE LIBERTAIRE n°9: 10 de janeiro de 1859

“O homem propõe e o homem dispõe. Da diversidade dos desejos resulta a harmonia.” LE LIBERTAIRE n°11: 6 de março de 1859 

“Mais ou menos a cada semana, se for necessário, há uma reunião na sala de conferências, isto é, no pequeno cyclideon interno. Em razão das grandes obras a executar. Aqueles mais versados nos conhecimentos especificamente em questão tomam a iniciativa da palavra. As estatísticas, os projetos, os planos já tinham aparecido em folhas impressas, nos jornais; e já foram comentados em pequenos grupos; a urgência foi geralmente reconhecida ou recusada por cada um individualmente. Frequentemente há somente uma voz,  voz unânime, de aclamação ou rejeição. Ninguém vota; nunca  a maioria  e nem a minoria fazem a lei. Se esta ou aquela proposta reúne um número suficiente de trabalhadores para executá-la, quer sejam esses trabalhadores a maioria ou a minoria, então a proposta será executada, se for esta a vontade daqueles que aderem a ela. E com frequência acontece que a maioria se une à minoria, ou a minoria à maioria. Como num passeio no campo, alguns propõem ir a Saint-Germain, outros à Meudon, outros ainda à Sceaux, e ainda outros, à Fontainebleau;  as jornadas se dividem; mas no fim das contas cada um cede à atração de se reunir com outros. E todos juntos tomam de comum acordo a mesma rota, sem que nenhuma autoridade exceto o prazer os governe. A atração é toda a lei de sua harmonia. Mas, tanto na partida quanto na jornada, cada um é livre para se abandonar à seu capricho e  deixar o grupo se isso lhe convém,  parar no caminho, se está fatigado, ou retornar, se está com tédio. A coerção é a mãe de todos os vícios. Por isso, é banida pela razão do território da humanisfera. O egoísmo, naturalmente, o egoísmo inteligente é muito desenvolvido para que alguém pense em forçar seu próximo. É por egoísmo que eles trocam bons atos.” LE LIBERTAIRE n°11: 6 de março de 1859

VIVA O EGOÍSMO!

“O homem é o egoísmo; sem egoísmo, o homem não existiria. O egoísmo é o móbil de todas as suas ações, o motor de todos os seus pensamentos.(...)
É para crescer, para aumentar o círculo de sua influência que o homem leva alto a sua face e atira ao longe o seu olhar; é em vista de satisfações pessoais que ele caminha para a conquista de satisfações coletivas. É para si mesmo, como indivíduo, que ele quer participar da efervescência viva da felicidade geral; é para si mesmo que ele fica aflito pelo sofrimento dos outros. Seu egoísmo, sem cessar exigido pelo instinto de sua conservação progressiva e pelo sentimento de solidariedade que o liga a seus semelhantes – seu egoísmo solicita as perpétuas emanações de sua existência na existência dos outros. É isto que a velha sociedade chama impropriamente de devotamento e que não é senão espelhamento [spéculation], espelhamento que é tanto mais humanitário quanto é mais inteligente, que é tanto mais humanicida quanto mais é imbecil.(...)
Humanamente, não é possível fazer um movimento, um gesto da mão, do coração ou do cérebro, sem que a sensação se repercuta de uma pessoa para outra como um choque elétrico. E isso tem lugar no estado de comunidade anárquica, no estado de natureza livre e inteligente.“ LE LIBERTAIRE n°12: 7 de abril de 1859

E OS TRABALHOS MAIS DESAGRADÁVEIS?

“Embora na Humanisfera as máquinas façam todos os trabalhos mais grosseiros, eu penso que ainda há trabalhos mais desagradáveis do que outros, me parece inclusive que há alguns que não são do gosto de ninguém. Porém, estes trabalhos são executados sem nenhuma lei nem regulamento que constranja quem o faz. Como assim?, pergunto eu, que ainda não vê as coisas senão com meus olhos de civilizado. No entanto é bem simples. O que é que torna o trabalho atraente? Nem sempre é a natureza do trabalho mas a condição na qual ele é exercido e a condição do resultado a obter.” LE LIBERTAIRE n°14: 15 de junho de 1859


"Na Humanisfera, alguns trabalhos que por sua natureza me parecem repugnantes encontram porém operários para executá-los com prazer. E a causa disso é a condição na qual são executados. As diferentes séries de trabalhadores são convocadas voluntariamente, como são convocados os homens de uma barricada, e são totalmente livres para permanecer o tempo que quiserem ou para passar a uma outra série ou para outra barricada. Não há chefe apontado nem intitulado. Aqueles que tem mais conhecimento ou aptidão nesse trabalho dirigem naturalmente os outros. Cada um toma a iniciativa mutuamente, conforme se reconheça suas capacidades. Por outro lado, cada um dá sua opinião e recebe a do outro. Há entendimento amigável, não autoridade. Ademais, é raro que não haja mistura de homens e mulheres entre os trabalhadores de uma série.  E o trabalho se dá em condições muito atraentes para que, mesmo que fosse repugnante por si mesmo, não se encontre um certo encanto em cumpri-lo. Em seguida, há a natureza do resultado a obter. Se um trabalho é com efeito indispensável, aqueles à quem ele mais repugna e que se abstém ficarão encantados que outros se encarreguem dele, e  retornarão em afabilidade a esses últimos, com grandes consideração, que é a compensação do serviço que os outros lhe retornaram. Não se pense que os trabalhos mais grosseiros pertençam, entre os humanisferianos, às inteligências inferiores, muito pelo contrário, são as sumidades nas ciências e nas artes que geralmente  se aprazem em fazer esse trabalho penoso. Quanto mais a delicadeza é refinada entre os homens, mais ela torna-os aptos, em certos momentos, aos trabalhos rudes e difíceis, sobretudo quando eles são um sacrifício oferecido em amor à humanidade.(...) O egoísmo é a fonte de todas as virtudes.” LE LIBERTAIRE n°14: 15 de junho de 1859

UMA ÚNICA HUMANIDADE

“Atravessei todos os continente, Europa, Ásia, África, Oceania. Vi muitas fisionomias diferentes, mas vi por toda parte somente uma raça. O cruzamento universal das populações asiáticas, européias, africanas e americanas (os pele-vermelhas); a multiplicação de todos por todos nivelou todas as asperezas de cor e de linguagem. A humanidade é una. No olhar de todo humanisferiano há uma mistura de gentileza e orgulho que tem um estranho encanto. Algo como uma nuvem de fluído magnético envolve toda sua pessoa e ilumina sua face com uma auréola fosforescente.  Sente-se uma inclinação para eles graças a uma atração irresistível. A graça de seus movimentos se soma ainda à beleza de suas formas. A palavra que sai de seus lábios, cada marca de seus suaves pensamentos, é como um perfume que emana. A estatuária não saberia modelar os contornos animados de seus corpos e de seu rosto, e que dão encantos sempre novos a essa vivacidade.” LIBERTAIRE n°15: 27 de julho de 1859

A COMPETIÇÃO COMUNISTA ANÁRQUICA

“(...) havia uma exibição universal dos produtos do gênio humano.(...)

Nesse círculo de obras poéticas da mão e da inteligência foi exposto todo um museu de maravilhas. A agricultura para ali levou suas colheitas, a horticultura, seus frutos, a indústria, seus tecidos, seus móveis, seus adereços, e a ciência levou todas as suas engrenagens, seus mecanismos, suas estatísticas, suas teorias. A arquitetura para ali levou suas plantas, a pintura, os seus quadros, a escultura e a estatuária seus ornamentos e estátuas, a música e a poesia, os mais puros de seus cantos.  Tanto as artes como as ciências puseram ali suas jóias mais ricas.

 Não era um concurso como os nossos concursos. Não tinha nem júri de admissão e nem júri para recompensar com base na voz da sorte ou do voto, nem prêmio [grand prix] garantido por juízes oficiais, nem coroas, nem patentes, nem laureados, nem medalhas. A livre e grande voz pública é o único juiz soberano.  É por prazer a esse poder da opinião que cada um expõe a ela suas obras, e é ela que, passando diante dos produtos de uns e de outros, lhes premia segundo suas aptidões especiais, não com palmas de distinção, mas com admirações mais ou menos vivas, exames mais ou menos atentos, mais ou menos desdenhosos. Assim, seus julgamentos são sempre justos, sempre condenando os menos bravos, sempre louvando os mais valentes, sempre estimulando a emulação, tanto para os frágeis quanto para os fortes. É o grande retificador dos tortos; ela evidencia a todos individualmente se eles seguiram mais ou menos o caminho de sua vocação, se elas são mais ou menos postas de lado; e o futuro se encarrega de confirmar suas observações maternais.  E todas os suas linhas crescem para se superar nessa educação mútua, porque todos têm a orgulhosa ambição de se distinguir igualmente nas suas diversas obras. “ LE LIBERTAIRE n°7: 25 de outubro de 1858

“(...) [N]a Humanisfera, (...) há somente oficinas de prazer e exposições de trabalho, armazéns de ciência e de artes e museus de todas as produções: após ter admirado essas máquinas de ferro cujo móbil é o vapor ou a eletricidade, multidões de engrenagens laboriosas que são para os humanisferianos aquilo que as multidões de proletários ou de escravos são para os civilizados; após ter assistido o movimento não menos admirável daquela engrenagem humana, dessa multidão de trabalhadores livres, mecanismo serial  cujo único móbil é a atração; após ter constatado as maravilhas dessa organização igualitária cuja evolução anárquica produz a harmonia; (...) [depois de tudo isso] como se poderia, diga-me, retornar aos civilizados, como se poderia voltar a viver sob a Lei, esse chicote da autoridade, quando a anarquia, essa lei da liberdade, tem costumes tão puros e doces? Como se poderia considerar como uma coisa tão incomum aquela fraternidade inteligente, e  considerar como normal essa imbecilidade fratricida?” LE LIBERTAIRE n°14: 15 de junho de 1859



3-TRECHOS SOBRE A TRANSIÇÃO REVOLUCIONÁRIA

“Como o progresso se realizará? Que meios prevalecerão? Qual será a rota escolhida? É isto que é difícil de determinar de uma maneira absoluta.” LIBERTAIRE n°16: 18 de agosto de 1859

“Tudo o que se torna grande e forte inicialmente foi pequeno e frágil. (...) Tudo o que começa com dimensões monstruosas não é um nascimento viável. As enormidades fósseis precederam o nascimento do homem do mesmo modo como as sociedades civilizadas precedem a criação das sociedades harmônicas.” LIBERTAIRE n°16: 18 de agosto de 1859

“Ernest Coeurderoy e Octave Vauthier (...) profetizam a regeneração da sociedade pela invasão dos cossacos das estepes. Para formular esse julgamento, eles se baseiam na analogia que eles vêem entre a nossa sociedade em decadência e a decadência do império romano. (...) Mas não. As condições não são as mesmas. (...)  É dos campos arados, é do fundo das fábricas, é levando, nessas enchentes de homens e de mulheres, a foice e a tocha, o martelo e o fuzil;  é vestido com a roupa do camponês e com a blusa do operário; é com a fome no ventre e a febre no coração, mas sob a condução da Idéia, esse Átila da invasão moderna; é sob o nome genérico de proletariado, rolando suas massas ávidas para os centros luminosos da Cidade utópica; é Paris, Londres, Viena, Berlin, Madrid, Lisboa, Roma, Nápoles que, sublevando em ondas enormes que, estimuladas por seu crescimento insurrecional, irromperão com a torrente devastadora. É com o barulho dessa tempestade social, é na corrente dessa inundação renegeratriz que a Civilização desmoronará em decadência. (...) O que esses bárbaros levarão ao mundo dessa vez é a luz, não as trevas [da idade média]. (....) Onde forem capazes de encontrar um pedaço de terra social, eles plantarão ali a árvore da liberdade. Ali instalarão suas tendas, a nascente tribo dos homens livres. (...) Eles invadirão, passo à passo, ideia com idéia, toda a Europa, do Cáucaso ao vulcão Hekla e de Gilbratar aos montes Urais. Os tiranos lutarão em vão. A Civilização oligárquica deve ceder o terreno para a Anarquia Social. Estando a Europa conquistada e livremente organizada, a América, por sua vez, terá que se socializar. (....) Então, a República Social dos Estados Unidos da Europa atravessará a Oceania e tomará posse dessa nova conquista. Negros e brancos, crioulos e pele-vermelhas então fraternizarão e formarão uma única e mesma raça. Os negricidas e os proletaricidas, os anfíbios do liberalismo e os carnívoros do privilégio vão recuar como crocodilos e ursos diante do progresso da liberdade social.” LIBERTAIRE n°16: 18 de agosto de 1859


“Assim, o socialismo, inicialmente individual, então comunal, depois nacional, depois Europeu, de ramificação em ramificação e de invasão em invasão, tornar-se-á socialismo universal. E um dia, não se tratará nem da pequena República da França, nem da pequena União Americana, nem mesmo do pequeno Estados Unidos da Europa, mas da verdadeira, da grande República Social humana, una e indivisível, a República dos homens em estado livre, a República das individualidades unidas do globo.” LIBERTAIRE n°16: 18 de agosto de 1859

4-TRECHO EM QUE DÉJACQUE EXPLICA SUAS INFLUÊNCIAS


Dias de Junho, Paris, 1848

No seguinte trecho,  Déjacque expõe as influências que recebeu:

“A astronomia, a física, a química, todas as ciências progrediram. Unicamente a ciência social permaneceu estacionária. Depois de Sócrates, que bebeu a cicuta, e Jesus, que foi crucificado, ela não teve nenhuma luz. Então, das regiões mais imundas da sociedade, em algo muito mais abjeto do que um estábulo, num comércio, nasceu um grande reformador. Fourier acabava de descobrir um novo mundo onde todas as individualidades tinham um valor necessário para a harmonia coletiva. As paixões são os instrumentos desse concerto vivo que tem por arco a fibra das atrações. Dificilmente teria sido possível que Fourier rejeitasse o hábito [froc] por inteiro; pois apesar de tudo, ele conservou de sua educação comercial a tradição burguesa os preconceitos da autoridade e da servidão que o fez desviar da liberdade e da igualdade absolutas, da anarquia.  Porém, é diante desse burguês que descubro a mim mesmo, e eu saúdo nele um inovador, um revolucionário. Enquanto outros burgueses são anões, ele é um gigante. Seu nome permanecerá inscrito na memória da humanidade.

Veio então 1848, e a Europa revolucionária pegou fogo como uma trilha de pólvora. Junho, essa rebelião do século XIX, protestou contra os modernos abusos do novo senhor. A violação do direito ao trabalho e do direito ao amor, a exploração do homem e da mulher pelo ouro sublevou o proletariado e o deixou com armas na mão. A feudalidade do capital treme nas bases. Os altos barões da usura e os baronetes do pequeno comércio se debateram em seus balcões, e do alto de sua plataforma lançaram sobre a insurreição enormes destacamentos militares, enchentes escaldantes de guardas móveis. Numa tática  jesuítica, eles conseguiram esmagar a revolta. Mais de trinta mil rebeldes, homens, mulheres e crianças foram jogados nas masmorras dos quartéis e das casamatas. Inumeráveis prisioneiros foram fuzilados, graças ao engodo de um aviso colocado em todos os ângulos das ruas, aviso que convidava os insurgentes a depor as armas e declarava que não haveria nem vencedores nem vencidos, mas irmãos – irmãos inimigos, queriam dizer! As ruas ficaram repletas de pedaços de cérebros. Os proletários desarmados foram empilhados nas catacumbas de Tuileries, do Hôtel de Ville, da Ecole Militaire, nos estábulos das casernas, nas pedreiras de Ivry, nas fossas do Champ-de-Mars, em todos os esgotos da capital do mundo civilizado, e lá foram massacrados com todos os refinamentos da crueldade!  Os tiros choveram em todas as janelas das ruas, o chumbo caiu nos valões onde – entre os gemidos dos moribundos, os estilhaços de riso da loucura – os proletários eram atolados em urina e sangue, asfixiados pela falta de ar e torturados pela sede e a fome. Os subúrbios foram tratados como na idade média, um lugar tomado de assalto. Os arqueiros da civilização se posicionaram sobre as casas, desceram nos porões, vasculharam todos os cantos e recantos, passando pelo fio da baioneta todos que lhe pareciam suspeitos. Entre as barricadas desmanteladas e no lugar de cada paralelepípedo das ruas era possível colocar uma cabeça de cadáver... Jamais, desde que o mundo é mundo, viu-se semelhante carnificina. (...) 

Eles pensaram que afogaram o Socialismo em sangue. Muito pelo contrário! O que lhe deram foi o batismo de fogo! Esmagado em praça pública, ele se refugia nos clubes, nas fábricas, como o cristianismo nas catacumbas, recrutando por toda parte prosélitos.(...)


1848 também teve Proudhon, um outro espírito rebelde, que em seu livro cuspiu a conclusão mortal no rosto da burguesia: “A propriedade é um roubo!” Sem 1848, esta verdade teria permanecido por muito tempo ignorada no fundo de alguma biblioteca privilegiada. 1848 iluminou-a, e lhe deu por quadro a publicidade da imprensa cotidiana, a multiplicidade de clubes a todo o vapor: ela foi gravada no pensamento de cada trabalhador. O grande mérito de Proudhon não é ser sempre lógico, longe disso, mas ter provocado os outros a buscar a lógica. Porém, o homem que disse também: “Deus é o mal, a escravidão é assassinato, a caridade é uma mistificação” e assim por diante; o homem que reivindicou com tanta força a liberdade do homem; esse mesmo homem, ai!, também atacou a liberdade da mulher: ele a baniu da sociedade, ele a decretou fora da humanidade. Proudhon é apenas uma fração do gênio revolucionário;  metade de seu ser está paralisada e, infelizmente, é o lado do coração. Proudhon tem tendências anárquicas, mas não é um anarquista; ele não é humanidade, é masculinidade. Apesar disso, se como reformador há falhas no seu diamante, como agitador ele tem ofuscantes centelhas. De fato, é alguma coisa. E o Mirabeau do Proletariado não tem nada a invejar ao Mirabeau da Burguesia. Ele o ultrapassa de toda a altura de sua inteligência inovadora. Enquanto um só teve um impulso de rebelião, um lampejo, uma chispa que se extingue rapidamente nas trevas da corrupção. O outro fez ressoar golpes de trovão sobre golpes de trovão. Ele não somente ameaçou, ele explodiu a velha ordem social. Nunca homem algum jamais  pulverizou, a sua passagem, tantos séculos de abuso, tantas superstições supostas legítimas.” LE LIBERTAIRE n°5: 31 de agosto de 1858


5-BREVE BIOGRAFIA

Joseph Déjacque foi um proletário que participou da revolução de 1848 em Paris, que foi a primeira tentativa do proletariado de transformação da sociedade. Buscava-se instaurar uma "República Social" (em contraposição à "república política"). Foi preso. Se exilou nos Estados Unidos, em Nova Orleans e Nova Yorque, onde publicou o  jornal Le Libertaire - Journal du Mouvement Social, de 1858 a 1861 (nota: este foi o primeiro registro da palavra libertário, palavra hoje pilhada, falsificada e distorcida  pelos anarco-capitalistas, que inventaram o "libertarianismo" para dizer que a empresa, essa tirania, é "a" liberdade).

Neste jornal ele expôs como série o que é considerado o seu magnum opus "L´Humanisphère. Utopia Anarchique" (A Humanisfera - Utopia Anarquista) . Nele, defende uma utopia que apresenta pela primeira vez em forma escrita inúmeros temas  (mas que certamente eram temas já comuns na fala daqueles que participaram da efervescência de Paris da década de 1840, da qual certamente Marx sofreu influências quando lá esteve em 1844, e cujas semelhanças de temas podem ser vistas nos Manuscritos de Paris) que foram mais tarde essenciais para diversas correntes revolucionárias anarquistas e comunistas (dos anarco-comunistas até a Internacional Situacionista).

A obra  L´Humanisphère é considerada o primeiro texto a sistematizar uma concepção anarquista comunista, em ruptura com o proudhonismo. A diferença entre o anarco-comunismo e  proudhonismo (que, junto com o bakuninismo, mais tarde foi chamado de anarquismo coletivista) é que este último defende a manutenção de alguma forma de assalariamento (remuneração conforme a quantidade de trabalho, o chamado bônus de trabalho, ou remuneração igual para todos), enquanto que os comunistas criticam isso dizendo que qualquer forma de salário (isto é, de mercado) implicaria necessariamente um Estado ou classe que se coloca numa posição acima da população para medir, comparar e remunerar o trabalho de cada um. Numa sociedade sem Estado e sem classes, não pode haver salário (e, portanto, nem dinheiro e nem mercado), porque ninguém poderá estar numa posição acima das relações sociais que lhe permita medir o trabalho dos outros e nem compará-lo. Toda produção será realizada por seu valor intrínseco (sua necessidade ou sua capacidade de satisfazer os desejos humanos) e não mais pela régua alienante da comparação quantitativa (de dinheiro ou de trabalho incorporado nos produtos)  no mercado


O anarco-comunismo, a partir da década de 1880  foi desenvolvido e difundido por, entre outros, Carlo Cafiero, Piotr Kropotkin, Elisée Reclus e Errico Malatesta, se tornando a teoria social predominante no movimento operário de muitos países (Brasil, Argentina, Espanha, por exemplo) até os anos 1920.


Outros clássicos que traduzimos:




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