1- A SOCIEDADE CAPITALISTA COMO SISTEMA TOTAL
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quarta-feira, 2 de janeiro de 2019
Sobre "transição"
Resposta ao texto Notes on the transition to communism, do coletivo Kontraklasa, da Croácia, que foi publicada na revista Intransigence número 2. A resposta a seguir foi publicada originalmente em inglês na revista Intransigence número 3.
SOBRE "TRANSIÇÃO"
1- A SOCIEDADE CAPITALISTA COMO SISTEMA TOTAL
O texto de Kontraklasa começa muito bem, criticando “a concepção aguada de comunismo”, exemplificada com as concepções leninista e conselhista (“capitalismo de Estado posto para servir todo o povo”, e “um comunismo em que locais de trabalho autônomos calculam o ´tempo de trabalho absorvido em cada produto´ de modo a cada trabalhador receber a ´sua´ parte”, respectivamente).
A seguir, ele mostra como a maioria das correntes subestimam o capitalismo enquanto sistema total, “isto é, um todo cujo caráter geral e leis de movimento imbuem cada parte, sem nada acidental ou externo.”
Essa subestimação do capitalismo acarreta que: “O capitalismo é retratado como impotente e incoerente, uma pálida sombra que pode coexistir com um socialismo incipiente e lentamente dar passagem a ele, e cujas partes podem ser isoladas e instrumentalizadas pela sociedade transitória ou até mesmo comunista”.
Mas, visto que o capitalismo é um sistema total, ocorre que: “Do trabalho assalariado até a política parlamentar, cada aspecto da sociedade capitalista é capitalista, e permanece assim quando é traduzido em uma situação ambígua. Isso, assim como as imensas pressões do apoio quase universal ao capitalismo e a simples inércia social agindo em seu favor, significa que qualquer situação ambígua ou passageira, no fim das contas, será resolvida de uma maneira capitalista”.
E o argumento conclui muito bem, colocando a questão crucial da revolução:
“A única esperança que resta para a espécie, assim, é que um ataque infligido conscientemente, severo e rápido o suficiente contra a sociedade da troca seria capaz de fazer justamente isso [isto é, sair desse sistema total]”
2 - MAS... TERRITÓRIO?
A questão crucial está claramente posta. E no entanto, a partir deste ponto, o texto inexplicavelmente parece ignorar as implicações básicas da própria questão levantada e assume a estranha pressuposição de que a revolução mundial será um processo de conquistas territoriais:
“Naqueles territórios isolados do resto do mundo, não há dúvidas em impor imediatamente o comunismo. Tais áreas não mais existem, porém, excetuando a ilha Sentinela do Norte e algumas faixas da Amazônia que ainda não receberam as bênçãos da civilização moderna. Em todos os outros lugares, processos de produção cruciais, inclusive os necessários para a provisão de comida, abrigo, medicina e infraestrutura, requerem produtos que vêm de fora da área em questão. Excetuando as circunstâncias mais excepcionais, em todas as outras, esses produtos terão de ser comercializados por outros.”
Assim, a revolução é vista como conquista territorial, e um território é obrigado a trocar mercadorias com o exterior. Isso porque tal território é privado dos materiais necessários que estão no resto do mundo. Mas, de fato, essa privação o define exatamente como uma nova propriedade privada.
O que o artigo parece subestimar é que toda propriedade privada é necessariamente parte interessada na competição universal (militar, comercial, industrial...), porque é obrigada a conseguir trocar vantajosamente mercadorias contra outras propriedades (empresas ou Estados), sob pena de não conseguir nem mesmo trocar e, assim, não conseguir sequer sobreviver, devido à falta dos materiais necessários (o que acarretaria subjugar a população a um regime paranoico e letal). Essa competição por conseguir impor que os outros comprem do território o mais caro possível e que os outros vendam para território o mais barato possível só é realizável como competição por impor sobre o proletariado a máxima dominação e exploração, direta ou indiretamente, tanto no exterior quanto no seu interior. [1] É uma dinâmica material que se impõe independentemente da vontade, das ideias, da consciência, dos planos ou formas organizativas (tudo isso está fadado a se tornar apenas novas ideologias para mascarar e justificar a exploração).
Mas o artigo continua na equivocada premissa da propriedade privada territorial como base fundante da revolução, e sugere a possibilidade de um curto período em que essa troca de mercadorias com o exterior ocorre sem produção para venda, mediante uma “abordagem extrativa” (“a venda de objetos já existentes e bens mais abstratos”, por exemplo, itens de luxo, objetos culturais caros, propriedade intelectual, dinheiro e poupanças). E aponta que mais cedo ou mais tarde será preciso produzir mercadorias para trocar com os territórios exteriores.
Porém, diz que, ainda que haja produção de mercadorias para o exterior, no interior do território “não existe razão para que a produção e distribuição não deva ser imediatamente organizada de modo que um plano social científico baseado nas necessidades humanas as regule.” Esse “sistema de provisionamento planejado” é então apresentado como se fosse sinônimo de comunismo, “embora deformado pela necessidade de participar no mercado mundial”.
O fato de não existir troca de mercadorias no interior dessa propriedade territorial não significa nada intrinsecamente comunista, visto que toda propriedade privada e toda empresa funciona assim em seu interior. É com um “sistema de provisionamento planejado” que a burocracia administrativa e os patrões dirigem o funcionamento interno de cada empresa. Mesmo se a intenção ideológica oficial for satisfazer as necessidades humanas (e não faltam empresas e Estados que propagandeiam que seu objetivo não é o lucro, mas satisfazer as necessidades), a única maneira de satisfazer essas necessidades numa propriedade privada territorial é se submeter à competição por trocar vantajosamente no mercado mundial, como vimos.
3 - CONSOLIDAÇÃO TERRITORIAL E CONTRARREVOLUÇÃO
O texto não parece dar-se conta suficientemente de que, se uma revolução se estabelece como um território particular consolidado e tenta se reproduzir, a medida que os estoques de produtos se esgotam e consequentemente a troca de mercadorias com os territórios exteriores se torna obrigatória para essa reprodução, a revolução se entrega imediatamente à contrarrevolução. O poder estabelecido no território é materialmente forçado a recorrer à repressão, dominação e exploração do proletariado para que as mercadorias que produz o coloque pelo menos no mesmo patamar dos competidores, i.e., que compita, como eles, para absorver e acumular o máximo de valor, a máxima imposição direta ou indireta do sobre-trabalho sobre os trabalhadores, tanto do resto do mundo quanto no interior da propriedade territorial.
O artigo espera que isso seja contornado a medida que a propriedade privada administrativa territorial se expanda para mais territórios: “Nem é preciso dizer, essas distorções não serão insignificantes. Mas a medida que a zona revolucionária se expande e traz mais recursos sob seu controle administrativo direto, elas se tornarão menos significativas, até cessarem de existir com a queda dos últimos redutos do capitalismo”.
Mas, uma vez que o território desde o início se reproduz mediante repressão e exploração devido à necessidade de trocar vantajosamente com o exterior, é difícil imaginar qualquer maneira em que os administradores do território possam se desinteressar da dinâmica material da propriedade privada que passou a formar seus interesses como personificações do capital. Apenas se fôssemos idealistas, apenas se tivéssemos alguma fé no poder sobre-humano da força de vontade (ou na força sagrada das ideias e das doutrinas...) nos seria possível acreditar que essa expansão do território poderá ter qualquer coisa de revolucionária ou comunista.
4 - TRABALHO?
Necessariamente, o trabalho não será sequer abolido nesse território: “De duas, uma: ou a escolha [por cada indivíduo] de se vai trabalhar, e com que habilidade, será uma prerrogativa pessoal, ou os indivíduos terão que preencher uma obrigação de trabalho, imposta tanto quando possível sobre todos os membros disponíveis da sociedade igualmente. Neste caso, a coerção será aberta e direta.”
Segundo o artigo, a coerção aberta e direta é preferível à coerção indireta do mercado, porque, como que por milagre (e contrariando toda a história conhecida), “é uma dor aguda que desaparece rapidamente”. Como se a propriedade privada territorial pudesse escolher à vontade não “representar constante estresse psicológico e orgânico” (o que é atribuído no artigo exclusivamente à coerção ao trabalho pelo mercado e competição dentro do território, como se o território já não estivesse, como parte do mercado mundial, forçado a impor essa mesmíssima coerção aos trabalhadores à todo custo).
5 - ADMINISTRAÇÃO?
Após isso, o artigo novamente confunde comunismo (“Os membros da sociedade em transição acessam os bens independentemente de se eles trabalham ou quanto trabalham”) com uma forma de administração da distribuição dos bens e de gestão do trabalho nesse território privado: “A produção será planejada principalmente em termos materiais - a produção de quantas toneladas de trigo necessita da produção de tantas toneladas de fertilizante, água e assim por diante – por um órgão ´central´ da sociedade, isto é, um cuja plena alçada de competência coincide com todo o território sob a ditadura comunista”.
Isso não é necessariamente comunismo já que não é impossível que um território privado esteja tão à frente na competição global (p. ex., exportando “produtos com alto valor agregado”) a ponto de ser capaz de externalizar totalmente para os outros territórios a exploração dos trabalhadores e o custo de controlá-los e reprimi-los (e mesmo conseguindo resolver no interior do território o problema da “camada de especialistas que se colocam como uma casta privilegiada”). Levada essa hipótese ao extremo, o território se torna um condomínio fechado icariano enquanto o resto do mundo é uma imensa favela que trabalha para ele.
É muito mais provável que a coerção por produzir mercadorias suficientemente competitivas para trocar por produtos de outros territórios não permita nem mesmo esse triste comunismo administrativo icariano. Como toda empresa (e como todo Estado), os gestores desse território são materialmente impotentes para prescindir de um sistema de recompensas e punições, i.e., eles tem poder unicamente para reproduzir a sociedade de classes no território. Com efeito, a ideia de "administração da sociedade" em si não faz sentido sem um sistema de recompesas e punições sobre a sociedade - uma sociedade de classes.
6 - MERCADORIAS COM PREÇOS MAS SEM VALOR?
O trecho sobre “como funcionará o comércio entre a ditadura comunista e o mercado mundial” confirma que o artigo subestima o grau de socialização das forças produtivas mundiais, isto é, o grau de interconexão e interdependência do processo produtivo global: “a zona revolucionária […] pode estabelecer os preços à vontade, administrativamente, já que não haveria custos de produção. Estamos então falando de produtos que tem preços, mas não valor no sentido pleno da palavra, visto que nenhum trabalho abstrato é incorporado neles. Isso tornará a ditadura revolucionária capaz de derrubar consistentemente os outros vendedores.”
Mas sabemos que as únicas mercadorias que não tem custos de produção são as matérias primas (se abstraímos o custo do maquinário necessário para sua extração), e as únicas mercadorias cujos preços podem ser determinados à vontade, administrativamente, são as que são monopolizadas no mercado mundial.
Esse monopólio de matérias primas é não só improvável mas também mostra que o território já estaria plenamente engajado exatamente naquilo que todas as outras propriedades privadas (e Estados) do mundo competem por alcançar para si: derrubar os outros vendedores, zerar os custos para maximizar os lucros. E, de fato, se esses bens monopolizados forem vendidos no mercado mundial é porque tem valor, servem para absorver valor: isto é, tem o poder de impor aos proletários do mundo a intensificação do trabalho abstrato equivalente a esses produtos que os territórios exteriores necessitam adquirir. Simplesmente, esse sobre-trabalho global é a mais-valia absorvida e acumulada como capital no interior do território “comunista”.
“Mas essa produção de bens para o comércio, por maior que seja seu impacto sobre o sistema como um todo, será um setor menor de uma rede comunal e planejada de provisionamento muito mais ampla, um elemento irritante, é verdade, mas necessário a curto prazo.”
Aqui, novamente, o artigo subestima como até mesmo as necessidades mais básicas, tais como medicamentos, alimentos, equipamentos, meios de produção... dependem inextricavelmente, cada um deles, de uma rede global altamente socializada que combina inúmeros materiais envolvendo todos os continentes. No texto, este fato é apresentado como um empecilho distorcedor, um obstáculo a ser ultrapassado mediante a expansão do território “comunista” imaginado como externo a essa rede (tanto é assim que no começo do artigo é dito que “territórios isolados do resto do mundo” seriam a situação ideal, mas inexistente, para instauração sem distorção do comunismo).
7 - CONDIÇÕES DE EXISTÊNCIA UNIVERSALMENTE INTERCONECTADAS
Na realidade, de um ponto de vista materialista, a necessidade consciente do comunismo, assim como a formação da capacidade prática e do desejo de efetuá-lo, não podem sequer existir fora dessa rede inextrincável mundial. Qualquer tentativa de sair ou permanecer de fora dessa interconexão global é somente fadada a criar e consolidar outra propriedade privada, outro capital na competição universal militar, comercial e industrial. Tentar colocar-se de fora implica em colocar-se no mesmo patamar de fora e, assim, introduzir-se verticalmente na mesma rede da qual se busca se separar, reproduzindo a sociedade de classes.
A única dinâmica material capaz de abolir e superar o capital é uma que atravesse horizontalmente a totalidade da sociedade capitalista mundial ao mesmo tempo que é produzida sistematicamente por ela como seu negativo universal. O proletariado só existe como classe nesse nível histórico-mundial. É precisamente de dentro dessa ubíqua unidade mundial das forças produtivas que se pode dar à luz o comunismo - a comunidade humana mundial – ao fazer explodir a decrépita carapaça capitalista, tornando livre a condição universalista material das capacidades e necessidades humanas para que expressem suas formas imanentes. [2]
Assim, a luta de classes - a fraternização dos proletários que destroi todas as fontes de separação (reificações tais como identidades, nações, emprego/desemprego, fronteiras, profissão, posição, mérito, território, etnia, raça, administração, família, segregação...) que os compelem, contra si mesmos, a competir por se submeter às “suas próprias” classes dominantes em troca da sobrevivência – é a única base e fundamento da emergência universal do comunismo. O principal erro do artigo é a desvinculação entre luta de classes mundial e comunismo.
Em outros textos já expomos nossas posições sobre as medidas práticas imediatas e objetivos que a revolução mundial precisaria realizar para ter chance mínima de êxito:
A dinâmica material especificamente comunista é desencadeada pela "superação da greve por uma tática de continuar a produção, mas como produção livre (gratuita) para e pela população, suprimindo a divisão emprego/desemprego nesse momento (abolição da empresa). Começando primeiro numa cidade, a difusão dessa experiência será tão apaixonante (incontível), que rapidamente, em um ou dois dias, se difundirá pelas principais metrópoles do mundo. O mapeamento da interconexão dos fluxos e estoques da produção mundial, cada vez mais completo, vai permitindo à população descobrir quais produções não servem para ela, desativando-as, e modificando outras. Os governos e as forças repressivas não tiveram tempo para estudar e coordenar um ataque e nem há mais condições para isso, pois a produção que sustenta essa condições está nas mãos da população. Os soldados, fraternizando, dão as armas para a população e se juntam a ela. Os que resistem tem suas condições de existências cortadas até que se rendam. Em menos de uma semana, o mundo inteiro estará sob o modo de produção associado, o comunismo. Senão, quanto mais a difusão global se retarda, chegando a apenas uma parte do mundo, a medida que os estoques vão acabando, mais insustentável (materialmente falando e em termos de repressão) se torna o modo de produção comunista. Pois mais se é privado dos materiais que a outra parte do mundo ainda não transformado possui como propriedade privada (estatal ou particular), forçado-a a trocar (comprar/vender) com ela para repor os estoques. Ou seja, é forçada, para comprar dela, a trabalhar para ela - e a reproduzir internamente o mesmo modo de produção capitalista, havendo o risco de o comunismo se tornar mera cobertura ideológica de uma nova variedade de exploração capitalista." (Contra a metafísica da escassez, copiosidade prática) [3]
E também:
“Em contraste com a ideologia da estratégia, os proletários não podem contar senão com a sua própria capacidade autônoma de agir e pensar, impulsionada pela rápida difusão de sua luta em escala mundial. Nesse mesmo ato, eles comunicam mundialmente uns com os outros o conhecimento do modo como suas atividades cotidianas simultâneas se interligam (por exemplo, conforme o local em que estão, as supply chains, as relações entre indústria, agricultura e as vias materiais de livre expressão das necessidades, desejos, pensamentos e capacidades dos habitantes e viajantes do mundo, etc ), conhecimento que é simultâneo à supressão em ato das condições de existência materiais (moleculares) da propriedade privada, do capital e do Estado e à criação de uma nova sociedade em que os meios de vida e de produção, indissoluvelmente interconectados em escala mundial em uma rede de fluxos imanentes, se tornam livremente (gratuitamente) acessíveis à qualquer um que queira satisfazer suas necessidades, desejos, pensamentos, projetos, paixões, e desenvolver livremente suas habilidades, capacidades e potencialidades.
Um evento assim, que desabilita pela base o poder da classe dominante (empresários, burocratas e o Estados), tem desde o princípio uma linguagem incompreensível e “inconversável” com a classe dominante e o Estado, sendo de fato uma ditadura contra eles - a verdadeira ditadura do proletariado.
A classe dominante sequer tem tempo para começar a entender o que está sofrendo para elaborar uma estratégia antes de o proletariado ter se auto-abolido e, portanto, abolido a classe dominante, a sociedade de classes. ”(Contra a estratégia) [4]
Ouvimos frequentemente que tudo isso é impossível. Mas a categoria “possibilidade” não tem nenhuma relação com a revolução, que por definição transforma as condições de possibilidade em que ela própria se desdobra, fazendo emergir necessariamente o “impossível”. Porém, os conteúdos singulares desse “impossível em ato” são imprevisíveis. O único “impossível” de que dispomos hoje para nossa ação é o do entendimento das necessidades práticas objetivamente indispensáveis que as condições postas pela própria sociedade capitalista nos permite inferir teoricamente se buscamos a destruição e superação dessa sociedade. Essas são as tarefas mínimas objetivamente incontornáveis que a irrupção mundial do “impossível em ato” precisará realizar para superar de fato a sociedade capitalista e que, caso não as realize, fatalmente se deixará afogar na contra-revolução. Como criar as condições propícias? Como fazer coincidir e combinar no tempo e no espaço as inumeráveis circunstâncias e determinações singulares (já em plena ação mas disparatadas) de tal modo a suscitar as “impossíveis” capacidades do proletariado mundial para realizar essas tarefas mínimas? [5] Para nós, esta é a questão decisiva.
Outra coisa que ouvimos frequentemente é que nossa posição depende de um otimismo descabido ou uma esperança ingênua. Na realidade, a questão do pessimismo ou otimismo, desespero ou esperança, não tem nenhuma importância, e é insignificante para nós enquanto comunistas materialistas. O que importa é que os comunistas exponham com clareza seus objetivos, assim como os fundamentos (verificáveis por qualquer um) de sua necessidade prática. Se o objetivo for equivocado, ele levará a práxis apenas a desperdiçar energia e tempo num projeto que alimentará fatalmente a contra-revolução.
humanaesfera, agosto de 2018
NOTAS
[1] Tratamos precisamente sobre as implicações disso no texto Condiçõesde existência universalmente interdependentes/interconectadas.
[2] Isso significa que, contrariamente ao que o texto de Kontraklasa afirma (com sua fixação na centralização, administração, planejamento central), nenhuma forma específica de organização ou administração define a existência do comunismo, mas sim o universalismo material surgido da subversão dessa interconexão global das forças produtivas (que já é hoje unidade concreta, prática, da espécie). É a comunidade material na qual as necessidades e capacidades humanas se produzem como fins em si, satisfazendo e potencializando umas as outras. Com isso, o trabalho é abolido e as múltiplas atividades se manifestam nos seus próprios termos, libertadas da coerção do equivalente geral, da comparação. A multiplicidade material das necessidades e faculdades implica em uma multiplicidade de formas imanentes de organização da satisfação dessas necessidades e faculdades. A forma de organização (centralização ou descentralização) não tem nenhuma virtude por si mesma, não tem nenhum poder autônomo, e não pode se estabelecer partindo de si mesma. Isso é uma ilusão de ótica que decorre da visão invertidada da sociedade, de cima para baixo, que é a da classe dominante.
[3] Aquela parte sobre “menos de uma semana” pode parecer engraçada. Chegamos rigorosamente a esse número ao considerar a produção just-in-time (e a “pull production”). Daí a absoluta importância da simultaneidade da luta de classes em uma escala mundial. Nota: este artigo (Contra a metafísica da escassez, copiosidade prática) também apresenta uma hipótese básica sobre como a sociedade comunista vai funcionar, sobre como tratar a escassez em uma sociedade cujo critério não é mais a reprodução ampliada da própria escassez (isto é, propriedade privada, mercadoria, capital), etc. E quanto aos detalhes da mais imediata das medidas comunistas práticas, veja o pequeno texto: Greve e produção livre. Outra hipótese é que a dinâmica material comunista começa no setor de serviços (já que é o setor mais imediatamente próximo à satisfação das necessidades dos proletários em sua vida cotidiana) e se difunde rapidamente aos setores de logística, o industrial e o agrícola (nos quais o trabalho e os produtos são mais abstratos, menos diretamente compreensíveis em relação às necessidades humanas), ao mesmo tempo em que se difunde mundialmente. A extensão exponencial no mundo é a condição para essa metamorfose comunista intensiva da cadeia produtiva (e vice-versa).
[4] Com relação ao problema da repressão:
“Obviamente, as armas da classe dominante, o Estado, os grupos de extermínio etc são infinitamente mais poderosos e aprimorados do que qualquer “movimento estratégico de oposição”, que, consequentemente, não passa de espetáculo, só útil para a classe dominante ensaiar seus cães de guarda e métodos de controle, que, encenando, legitima o próprio status quo como “democrático”. E quando não é encenação, um “movimento estratégico de oposição” é apenas a reprodução da estrutura à qual procura se opor […]. Em contraste com encenação da “oposição estratégica”, o único modo de suprimir a força repressiva do status quo é por uma emergência tão rápida e generalizada do proletariado autônomo (portanto, do comunismo) que os poderosos não encontrarão sequer por onde começar a reprimir, de modo que os seus cães de guarda repressores deixarão de ver qualquer sentido em continuar obedecendo, deixando de ser cães de guarda, voltando as armas contra os generais e distribuindo as armas para a população, pela simples razão de passarem a ser irrefreável e irreprimivelmente atraídos, como o restante dos explorados, pela emergência apaixonante do comunismo luxuriante generalizado, a comunidade humana mundial.” (Contra a estratégia)
[5] Sem dúvida, o conceito de composição de classe é indispensável: com as interconexões (materiais, geográficas, produtivas, educativas, subjetivas) colocadas pelo capital, o proletariado cria suas próprias conexões nas quais ele produz e desenvolve novas necessidades e capacidades, pelas quais afirma sua autonomia de classe contra o capital. Sobre isso, ver:
- A rede de lutas na Itália - Romano Alquati
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quarta-feira, 13 de julho de 2016
Contra a estratégia
[english version]
Não existe nada mais inútil e equivocado do que o ativismo, a militância, a ânsia de “prática”. Existir é agir. Os proletários não são bestas que fazem coisas cegamente ou por instinto. Não há ações sem objetivos, finalidades, desejos... isto é, existir (ou seja, agir) pressupõe e implica teorias, que os proletários criam e aprimoram (ou degradam e dogmatizam) conforme sua capacidade de agir é objetivamente aumentada (ou diminuída). Expliquemos:
Não existe nada mais inútil e equivocado do que o ativismo, a militância, a ânsia de “prática”. Existir é agir. Os proletários não são bestas que fazem coisas cegamente ou por instinto. Não há ações sem objetivos, finalidades, desejos... isto é, existir (ou seja, agir) pressupõe e implica teorias, que os proletários criam e aprimoram (ou degradam e dogmatizam) conforme sua capacidade de agir é objetivamente aumentada (ou diminuída). Expliquemos:
A capacidade de
agir dos proletários é aumentada quando confiam em si mesmos
(internacionalisticamente), não acreditam em "bodes expiatórios", e
impõem a satisfação de suas necessidades (que são comunistas: não trabalhar e
que tudo seja livre, "free"), opondo-se radicalmente, por este
simples ato, à classe dominante (para a qual, obviamente, isto é
"opressivo"); quando ataca, portanto,
o poder pela dissolução do que o sustenta (a oposição mútua entre proletários
em empresas, pátrias, raça, gênero etc, se engalfinhando por seus próprios senhores)
mediante um universalismo material (comunismo) que garante o livre acesso a
qualquer um aos meios de produção e de vida, a expressão livre e autônoma das
capacidades e necessidades humanas, a livre individualidade que se liberta
enfim da comparação massificadora, reificante, identitária, da concorrência,
propriedade privada, hierarquia, mercado e Estado.
Por outro lado, a
capacidade de agir é diminuída quando os proletários desconfiam de si mesmos (a
ponto de massacrarem a si próprios a um simples pedido dos chefes e poderosos), clamam ao
poder contra "bodes expiatórios" (estrangeiros, "judeus",
imigrantes, "vagabundos", “favelados”, “políticos maus”, “empresários
maus”), e reprimem seus desejos em nome da ficção de um "bem maior"
(pátria, empresa, etnia, ideologia, religião...), isto é, quando se unem às
“suas” classes dominantes (burocrática ou particular, de esquerda ou de
direita) contra si mesmos. Quanto menos capazes de ação, mais se entregam à
reação.
No primeiro caso
(aumento da capacidade de agir), a teoria necessariamente se desenvolve e se
aprimora, enquanto que no segundo caso (redução da capacidade de agir), a
teoria só pode se degradar e se dogmatizar.
Critério do conhecimento e práxis
Os critérios para
distinguir mentiras ou boatos de verdades, o especulativo do provável, o que é
verdadeiro em certos contextos e falso em outros, o que é baseado em mera fé do
que é baseado em evidências etc., esses critérios são expressões intrínsecas do
grau de autonomia ou heteronomia do proletariado, de sua autodeterminação ou sua
sujeição às classes dominantes. Quanto
a isso, há três tipos de crítica da sociedade
capitalista:
A) Existe uma
crítica da sociedade capitalista cuja verdade pode ser verificada materialmente
por qualquer um em seu cotidiano, no mundo inteiro, por qualquer proletário: a
crítica do capital enquanto coerção que nos força a nos vender como objetos
úteis no mercado de trabalho, que nos coage, se quisermos sobreviver, a alienar
nossas capacidades em troca do dinheiro, a exercer nossas potencialidades contra
nós mesmos , transformando o mundo em uma força hostil que se acumula nos privando (propriedade
privada) das próprias condições materiais de existir, um poder hostil que nos domina,
usa e descarta: o capital e o aparato repressivo que os garante (Estado). Essa
é uma crítica da essência do capital, ela é radical, e dela
decorre invariavelmente a necessidade irrevogável de abolir o trabalho, a
propriedade privada, a empresa, as fronteiras e o Estado, ou seja, realizar o
comunismo [1]. Detalhe: não requer nenhuma fé em "fontes especiais de
informação".
B) Existem outras
críticas que requerem alguma "fé", como são as críticas parciais do
capitalismo (que são basicamente críticas socialdemocratas do capitalismo:
distribuição de renda desigual, obsolescência programada, piora das condições
de vida, do meio ambiente, capitalistas e burocratas burlando as leis, governos
tramando a derrubada de outros...) que nada mais são do que críticas de
acidentes do capital, e não de sua essência. Enquanto no caso A, os proletários
são plenamente autônomos quanto ao poder de verificar a verdade do seu
conhecimento (que exprime a matéria de sua própria vida cotidiana) e de agir
conforme o que sabem, no caso B, é preciso confiar em especialistas. Ainda
assim, a verossimilhança dessa crítica pode ser pesada na vida cotidiana (por
exemplo, verificando pioras de fato nas condições de vida, ou não verificando a
obsolescência programada). Mas quanto menos radical e mais parcial a crítica,
por ser mais "inacessível", mais requer que a prática dos proletários
se submeta a "esferas superiores", e menos exprime uma prática
autônoma capaz de se opor ao capital para impor a satisfação das necessidades
humanas.
C) E existem
críticas do capitalismo que só requerem fé, uma fé baseada totalmente em
"fontes especiais de informação", fé aceita com base numa vaga
"intuição psicológica" ou no apelo aos sentimentos. Por exemplo,
críticas especulativas (as que, por exemplo, profetizam o "colapso
inevitável do capitalismo", como a nova "crítica crítica" - Kurz, Postone, Jappe... -, as especulações do aceleracionismo, transhumanismo, etc), o conspiracionismo ("forças ocultas"
que estariam tramando o sofrimento e aniquilação dos pobres, do povo ou da
natureza) e as críticas identitaristas (as que afirmam uma identidade – de
gênero, de raça, de etnia, de nacionalidade, de cultura – contra outras que
“representariam o capitalismo”). Em termos práticos, essas críticas requerem a
completa submissão, a completa aniquilação da capacidade de pensar e de agir do
proletariado, e a assunção como verdade de qualquer boato, qualquer mentira que
confirme os preconceitos “intuitivos” (por exemplo, as mentiras paranoicas
sobre transgênicos, produtos químicos, vacinas, medicina, ciência, produtos
naturais, tecnologia que muitos ecologistas propagam). O exemplo máximo é a
própria religião, em que a fé na revelação de uma verdade absoluta oculta requer
a total obediência àqueles que dizem ter acesso especial a ela (daí vem a
própria palavra “hierarquia”, de hieros,
sagrado ou segredo, e arché, fonte,
princípio ou ordem).
Composição de classe VERSUS estratégia
Há quem argumente
que o caso A, de plena autonomia, é insuficiente, porque é abstrato e
filosófico, e que precisamos do caso B, porque é necessário que haja estratégia
(por exemplo, “transição”), que seria algo até muito mais fundamental.
Mas falar em
estratégia só faz sentido contra uma estratégia do lado oposto, isto é, quando
há uma contra-estratégia pressuposta. Não se trata, então, de luta de classes,
mas de uma guerra de frentes, que pressupõe um mesmo tabuleiro, uma mesma linguagem,
uma mesma lógica compartilhada, na qual se apoiam os dois lados para que seja
possível se enfrentarem. Para guerrearem entre si, precisam estar num mesmo
plano, apoiar-se numa mesma estrutura, estarem numa mesma altura, falarem de
igual para igual. Daí todas as contrarrevoluções em todas as revoluções
"vitoriosas" que já existiram, em que as mesmas estruturas
(dominação, sociedade de classes, Estado etc) do inimigo são reproduzidas em
nome de atacá-lo.
A grande virtude
dos proletários é que eles, enquanto classe autônoma, não podem atacar a
estrutura no plano da própria estrutura, mas como produto, como produção
molecular resultante de sua própria atividade cotidiana simultânea no mundo
inteiro. Caso ataquem a estrutura no mesmo plano da estrutura, aceitando se
submeter a uma estratégia, eles são condenados a reproduzir sua própria
sujeição sob a mesma ou alguma nova classe dominante, pois seu campo de
atuação, a atividade cotidiana simultânea universal, é condenado a permanecer inalterado
(trabalho, auto-sacrifício, sujeição...) para efetivar a própria estratégia,
reproduzindo automaticamente, apenas com novos nomes, as mesmas estruturas que
resultam necessariamente da atividade cotidiana alienada.
Em contraste com a
ideologia da estratégia, os proletários não podem contar senão com a sua
própria capacidade autônoma de agir e pensar, impulsionada pela rápida difusão
de sua luta em escala mundial. Nesse mesmo ato, eles comunicam mundialmente uns
com os outros o conhecimento do modo como suas atividades cotidianas
simultâneas se interligam (por exemplo, conforme o local em que estão, as
supply chains, as relações entre indústria, agricultura e as vias materiais de
livre expressão das necessidades, desejos, pensamentos e capacidades dos
habitantes e viajantes do mundo, etc ) [2],
conhecimento que é simultâneo à supressão em ato das condições de existência
materiais (moleculares) da propriedade privada, do capital e do Estado e à
criação de uma nova sociedade em que os
meios de vida e de produção, indissoluvelmente interconectados em escala
mundial em uma rede de fluxos imanentes, se tornam livremente (gratuitamente)
acessíveis à qualquer um que queira satisfazer suas necessidades, desejos,
pensamentos, projetos, paixões, e desenvolver livremente suas habilidades,
capacidades e potencialidades.
Um evento assim,
que desabilita pela base o poder da classe dominante (empresários, burocratas e o Estados), tem desde o princípio
uma linguagem incompreensível e “inconversável” com a classe dominante e o
Estado, sendo de fato uma ditadura contra eles - a verdadeira ditadura do
proletariado. A classe dominante sequer tem tempo para começar a entender o que
está sofrendo para elaborar uma estratégia antes de o proletariado ter se
auto-abolido e, portanto, abolido a classe dominante, a sociedade de classes.
Muito diferente disso, o ativismo ou militância se caracteriza por se exibir
espetacularmente à classe dominante como “oposição”. Obviamente, as armas da
classe dominante, o Estado, os grupos de extermínio etc são infinitamente mais
poderosos e aprimorados do que qualquer “movimento estratégico de oposição” [3],
que, consequentemente, não passa de espetáculo, só útil para a classe dominante
ensaiar seus cães de guarda e métodos de controle, que, encenando, legitima o
próprio status quo como "democrático". E quando não é encenação, um “movimento estratégico de oposição” é apenas a reprodução da
estrutura à qual procura se opor, como vimos nos parágrafos anteriores.
É óbvio que,
quanto mais reduzida a capacidade de agir do proletariado, menos ele consegue se
dar ao luxo de pensar por si mesmo, e mais só lhe resta ser objeto de
estratégias, de burocratas, empresários e políticos que dizem pensar e agir
pelo seu “bem”, prometendo, por exemplo, reformas, melhorias etc. Assim, dizem
que devemos ser realistas, que o proletariado deve fazer o possível, votando,
participando em campanhas, militando, “se esforçando mais”, "se sacrificando com mais empenho" etc, em suma,
participando de estratégias. Isso é um equívoco. Porque, se não há
luta autônoma, é pura sorte, além de extremamente improvável, que ocorra
qualquer das melhoras prometidas; e se há luta autônoma, não faz sentido
deixar-se reduzir a objeto de estratégias. O efeito colateral imediato da luta
autônoma é que todos os burocratas, empresários e políticos, para conter a
emergência do proletariado enquanto classe, passam enfim a servir as tais
“melhorias”, mas, é claro, no mesmo prato da repressão. A questão é a autonomia
do proletariado se difundir tão rapidamente em escala mundial que torne
impossível que caia mais uma vez nessa armadilha.
Adendo: O fetichismo dos "exemplos práticos"
As revoluções e contrarrevoluções que experimentamos nos últimos 300 anos mostraram que a ideologia mais destrutiva para a luta autônoma mundial é a dos "exemplos práticos". Tão logo se ouve falar sobre uma "revolução" qualquer em algum lugar do mundo, é abandonada toda capacidade crítica e consideração pela verdade, que passam a ser consideradas irrelevantes frente ao "exemplo prático real de como transformar o mundo na realidade". A realidade do exemplo é considerada tão complexa que toda crítica e busca da verdade é descartada como masturbação mental reducionista e utopismo. Abandonada a capacidade de pensar, é aberta a via para o tarefismo supersticioso, destruindo a luta autônoma, seja pela luta imaginária que imita a aparência espetacular do exemplo, seja pela aceitação de se subordinar aos burocratas considerados representantes do exemplo (como quando o leninismo se espalhou no mundo e destruiu a luta autônoma por toda parte graças à "realidade inquestionável de seu exemplo", 1917 na Rússia).
Como antídoto, há um critério mínimo certeiro para avaliar todo e qualquer suposto exemplo (como o Curdistão, zapatistas, revolução russa, espanhola etc): se uma suposta revolução não se espalha rapidamente além das fronteiras para o mundo inteiro (com os proletários se opondo a seus opressores em cada vez mais lugares do mundo e se constituindo como classe autônoma sem fronteiras, se recusando a matar nas guerras, voltando as armas contra os generais em todos os lados, comunizando etc), se a suposta revolução se perpetua apenas num lugar, isso já é suficiente para saber que ali está um Estado e o capital (independente do nome que se use, "autogestão", "socialismo", "comunismo", "anarquismo"...), ou seja, uma sociedade de classes. Pelo simples fato de que, isolados, eles são condenados a se adequar à troca no mercado mundial, acumulando capital e explorando o proletariado para não falir na concorrência internacional, e também porque são condenados a se constituir como Estado para se aliar, se defender ou atacar outros Estados.
Adendo: O fetichismo dos "exemplos práticos"
As revoluções e contrarrevoluções que experimentamos nos últimos 300 anos mostraram que a ideologia mais destrutiva para a luta autônoma mundial é a dos "exemplos práticos". Tão logo se ouve falar sobre uma "revolução" qualquer em algum lugar do mundo, é abandonada toda capacidade crítica e consideração pela verdade, que passam a ser consideradas irrelevantes frente ao "exemplo prático real de como transformar o mundo na realidade". A realidade do exemplo é considerada tão complexa que toda crítica e busca da verdade é descartada como masturbação mental reducionista e utopismo. Abandonada a capacidade de pensar, é aberta a via para o tarefismo supersticioso, destruindo a luta autônoma, seja pela luta imaginária que imita a aparência espetacular do exemplo, seja pela aceitação de se subordinar aos burocratas considerados representantes do exemplo (como quando o leninismo se espalhou no mundo e destruiu a luta autônoma por toda parte graças à "realidade inquestionável de seu exemplo", 1917 na Rússia).
Como antídoto, há um critério mínimo certeiro para avaliar todo e qualquer suposto exemplo (como o Curdistão, zapatistas, revolução russa, espanhola etc): se uma suposta revolução não se espalha rapidamente além das fronteiras para o mundo inteiro (com os proletários se opondo a seus opressores em cada vez mais lugares do mundo e se constituindo como classe autônoma sem fronteiras, se recusando a matar nas guerras, voltando as armas contra os generais em todos os lados, comunizando etc), se a suposta revolução se perpetua apenas num lugar, isso já é suficiente para saber que ali está um Estado e o capital (independente do nome que se use, "autogestão", "socialismo", "comunismo", "anarquismo"...), ou seja, uma sociedade de classes. Pelo simples fato de que, isolados, eles são condenados a se adequar à troca no mercado mundial, acumulando capital e explorando o proletariado para não falir na concorrência internacional, e também porque são condenados a se constituir como Estado para se aliar, se defender ou atacar outros Estados.
humanaesfera,
julho de 2016
Notas:
[1] “Não se trata
do que este ou aquele proletário, ou até mesmo do que o proletariado inteiro
pode imaginar de quando em vez como sua meta. Trata-se do que o proletariado é
e do que ele será obrigado a fazer historicamente de acordo com o seu ser. Sua
meta e sua ação histórica se acham clara e irrevogavelmente predeterminadas por
sua própria situação de vida e por toda a organização da sociedade burguesa.”
(Marx e Engels, A Sagrada Família – Crítica da Crítica Crítica).
[2] Trata-se da
composição de classe. Para mais detalhes, veja: Textos sobre composição de classe.
[3] Em contraste
com encenação da “oposição estratégica”, o único modo de suprimir
a força repressiva do status quo é
por uma emergência tão rápida e generalizada do proletariado autônomo (portanto, do comunismo) que os poderosos
não encontrarão sequer por onde começar a reprimir, de modo que os seus cães de
guarda repressores deixarão de ver qualquer sentido em continuar obedecendo,
deixando de ser cães de guarda, voltando as armas contra os generais e distribuindo
as armas para a população, pela simples razão de passarem a ser irrefreável e irreprimivelmente
atraídos, como o restante dos explorados, pela emergência apaixonante do comunismo luxuriante generalizado, a
comunidade humana mundial.
Bibliografia:
A reprodução da vida cotidiana (Fredy Perlman,, 1969)
Capitalismo e comunismo (Jean Barrot/Gilles Dauvé, 1972)
O «renegado» Kautsky e seu discípulo Lênin (Jean Barrot, 1969)
Leninismo e Ultra-esquerda (Jean barrot & François Martin, 1972)
Notas sobre Composição de Classe (Kolinko, 2001)
A Impotência do Grupo Revolucionário (Sam Moss, 193?)
Sobre Organização: As Gangues (dentro e fora do Estado) e o Estado como Gangue (Jacques Camatte & Gianni Collu, 1969)
Origem e função da forma partido (Programma Comunista, 1961)
A revolução não é tarefa de partido (Otto Ruhle, 1920)
Outros textos sobre o mesmo tema:
-Ação direta VERSUS trabalho de base
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quinta-feira, 19 de maio de 2016
Escolas ocupadas: difusão das lutas ou propriedade privada?
Enquanto não se expande além dos limites pré-estabelecidos (escolas, empresas, países, bairros, família etc), enquanto não dissolve esses limites, se a autogestão "tiver sucesso", ela apenas implica o aumento do "trabalho não pago", gerando ainda mais mais-valia para o capital. Por exemplo, se a autogestão das escolas for estabelecida, formando autogestionariamente a mercadoria força de trabalho com um imenso trabalho voluntário "autônomo", isso seria o sonho dos governos e dos capitalistas, pois com isso eles não mais precisam pagar esses "custos", ao mesmo tempo em que essa "experiência autônoma" força todos os demais proletários do resto do sistema educacional a trabalhar ainda mais "voluntariamente", de graça, para os empresários estatais e particulares, para não serem demitidos frente a essa nova intensificação da competição.

Um movimento realmente autônomo só pode vencer se se expande rapidamente de modo universal, mundial. Caso contrário, é forçado a trocar com o resto da sociedade que ainda se mantém como propriedade privada (empresas, países, bairros, famílias etc), e, para trocar, é forçado a trabalhar para a propriedade privada, gerando mais-valia e reproduzindo o capital numa escala ainda maior.
A medida que a luta autônoma nas escolas não se generaliza para fora delas, ou seja, enquanto não consegue impulsionar uma transformação que se espalha rapidamente, transformação em que, por exemplo, os trabalhadores suspendem a produção para a empresa, abolindo o emprego e tornando a produção livre por quem quiser e para quem quiser satisfazer suas necessidades, paixões, desejos etc, em que os papeis de "trabalhador" e "estudante" são abolidos por uma livre associação de indivíduos que se afirmam como classe autônoma sem fronteiras contra a classe dominante por toda parte, enquanto isso não ocorre, a luta dos estudantes é condenada ao fracasso, condenada materialmente a se relacionar com o resto da sociedade que não se transformou, e daí a reproduzir a mesma dominação de todo o resto da sociedade.
humanaesfera, maio de 2016
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sexta-feira, 18 de março de 2016
Concisíssimo resumo da ópera
Resumo da ópera em que estamos:
"[...] o fascismo foi a conseqüência de dois fracassos: o primeiro, dos revolucionários, que foram massacrados pelos sociais democratas e seus aliados liberais; o segundo, dos liberais e social-democratas incapazes de gerenciar efetivamente o capital." (Jean Barrot/Gilles Dauvé - Fascismo & Antifascismo).
O nazifascismo foi justamente um movimento da "classe média", a união do "povo" em torno da nação, raça, etnia, cultura "ancestral" contra bodes expiatórios imaginários, situação surgida após o massacre da luta de classes (que é internacionalista) pela social-democracia (dirigida por um operário, Ebert, responsável inclusive pelo assassinato de Rosa Luxemburgo), que prometia à burguesia conciliar as classes, desarmando o proletariado, mas que, após executar isso, já não tinha nenhuma serventia para a classe dominante, principalmente quando a crise econômica piorava a cada ano. É importante lembrar que, imediatamente antes disso tudo, o fator determinante foi que a I Guerra mundial terminou devido aos soldados de todos os lados das trincheiras terem passado a se recusar a matar uns aos outros, voltando as armas contra seus próprios generais, e os operários passaram a se recusar a obedecer nas fábricas, buscando fazer conselhos de operários e soldados (sovietes) para transformar a sociedade, entre 1917-1924. Esse movimento mundial simultâneo consistiu em revoluções e rebeliões por toda parte, China, Brasil, França, Argentina, África do Sul, México, Itália etc etc e na própria Alemanha (revolução espartaquista), com a perspectiva de que a revolução mundial iria vencer. A revolução russa foi apenas uma revolução entre essas, mas como foi logo isolada (as outras no resto do mundo foram massacradas pela contra-revolução, seja social-democrata, liberal ou fascista como na Itália), resultou necessariamente em mero capitalismo estatizado, ou mais uma variedade de sociedade de classes.
A situação atual no Brasil desde os anos 2000 pode ser entendida como repetição preventiva dessa dinâmica contra-revolucionária. Preventiva porque a classe dominante aprendeu com os acontecimentos da primeira metade do século XX que deve fazer tudo que puder para que o proletariado nunca mais surja como classe autônoma mundial (pois isso coloca diretamente a superação da sociedade de classes), e para isso, financia e instaura governos social-democratas (no caso, o PT) que, preventivamente, buscam fazer uma conciliação de classes, "reunir a nação". Épocas de crescimento da economia são propícias para o objetivo conciliador de fazer os salários e benefícios subsidiados acompanharem o aumento da produtividade, mas em épocas de estagnação ou decrescimento não resta à burguesia senão a repressão salarial e social, em especial quando o proletariado já está (como hoje) profundamente esmagado e dominado pela social-democracia, que se torna desnecessária para garantir a continuidade "normal" dos negócios. Os proletários, ao serem esmagados como classe, se reduzem à átomos vendedores e compradores tão "livres e iguais" quanto os burgueses (daí, no capitalismo, só pode haver uma classe reconhecida: "classe média", infinitamente subdivisível numa escala que vai de classe média alta alta alta até baixa baixa baixa, em que até o mais miserável é "classe média" em relação à alguém ainda mais miserável), com a particularidade "privada" de que a única mercadoria que os proletários tem para vender é a si mesmos (sua força de trabalho) e os únicos compradores dessa mercadoria viva são os empresários, estatais ou particulares, que, outra particularidade "privada", os coloca para trabalhar para acumular trabalho morto, capital, para que os trabalhadores construam ativamente o próprio poder hostil que os priva de meios de vida e os força a se submeter sempre mais intensa e extensamente aos empresários e ao Estado.
humanaesfera, março de 2016
Bibliografia:
Referência essencial para entender a história do Estado no capitalismo e o que ocorre hoje:
Fascismo & Antifascismo (Jean Barrot/Gilles Dauvé):
Uma análise histórica de como o Estado é tornado ditadura ou democracia conforme as necessidades do capital a cada momento, da relação disso com a luta autônoma do proletariado, e da ilusão daqueles (inclusive anarquistas) que aderem ao Estado democrático (contra o fascismo) como se isso não fosse aderir à repressão e eliminação da luta autônoma do proletariado.
Curiosidade: parece que a história se repete mais uma vez como farsa até nos detalhes mais superficiais: fotos do ex-operário Friedrich Ebert
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humanaesfera
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quinta-feira, 21 de janeiro de 2016
Contra a metafísica da escassez, copiosidade prática
(English version)
O texto Propriedade privada, escassez e democracia suscitou por toda parte a seguinte objeção:
"A abundância (superação da escassez) é impossível, uma vez que vivemos em um universo com recursos limitados, não só econômica mas fisicamente; portanto superar a escassez é uma exigência metafísica, absurda, que necessitaria uma automatização total do universo infinito para entregar à cada indivíduo, elevado ao status de um deus, a realização de seus menores caprichos e arbitrariedades."
Essa objeção interpreta “abundância” como uma categoria metafísica, solipsista, teogônica e psicototalitária. É como falar em “liberdade” abstraindo das relações materiais, sociais e históricas específicas, tomando “liberdade” como uma entidade que existisse em um mundo transcendente e identificando-a no nosso mundo com nonsenses, impossibilidades e aporias, como se na prática ela fosse sempre um nome para disfarçar a escravidão (a conclusão logicamente é o realismo: os escravos devem buscar a liberdade continuando a obedecer ao senhor, porque liberdade só não é um nonsense em um universo metafísico que não tem nada a ver com o da escravidão).
Mas assim como liberdade, escassez e abundância – fora dos devaneios metafísicos – são coisas radicalmente concretas.
Pois vejamos: se tu e mais alguém necessitam de algo específico, e há o suficiente para vós todos, então há abundância. Se não há o suficiente, há escassez. Abundância e escassez são sempre de algo específico, material, e não universais metafísicos.

Mas o que importa não são coisas encontradas já prontas, pois não se trata de automatizar por automatizar a produção (afinal, produção nada mais é do que criatividade, expressão humana multilateral no mundo - poética, racional, lúdica, culinária, apaixonada, matemática, artística, paisagística etc etc), mas sim de abolir o trabalho, ou seja, acabar com toda e qualquer atividade que é tão repulsiva, irritante e maçante que ninguém cogita em executá-la exceto em troca de recompensas (salário, cargo, "mérito"...) e sob ameaça de punições (demissão, prisão...), isto é, sob o poder de uma classe dominante (seja ela burguesa, como o empresariado particular nos EUA e Brasil, ou burocrática, como o empresariado estatizado em Cuba e URSS).
Assim, por exemplo, em um mundo libertário (em que as forças produtivas mundiais deixaram de ser propriedade privada, sendo gratuitamente acessíveis a qualquer um no mundo que deseje se associar autonomamente com quem quiser para buscar satisfazer seus desejos, necessidades, paixões, projetos etc), há gente que deseja algo específico, algo que talvez nem mesmo existe ainda. Eles fazem uma proposta para o mundo (coisa hoje mais do que nunca factível com telecomunicações, tecnologia da informação, internet...). No mundo, a proposta pode (ou não) despertar em outros o desejo de contribuir para realizá-la, dispondo-se para isso conforme as atividades produtivas às quais são apaixonados (e não por medo nem chantagem, como na sociedade de classes e, em especial, na tirania chamada empresa, seja estatal ou particular). Eles se comunicam e coordenam suas atividades para transportar de várias partes do mundo os materiais necessários, produzir e distribuir essa produção aos que necessitam (tudo isso é hoje muito simples: supply chains).
A produção resultante pode ou não ser suficiente para todos os que a necessitam. Se é suficiente, não há o que discutir: ela é desfrutada livremente, gratuitamente, sem complicações. Mas se não é suficiente, surge a complicada questão da “justiça”: quem tem prioridade?
[Nota: na sociedade capitalista isso não é uma questão: nela, tem prioridade quem tiver mais dinheiro para pagar. Ou seja, quem mais tiver comando sobre as capacidades criativas alienadas (vendidas) da população, que o endinheirado (capitalista) tiraniza para que trabalhe o mais gratuitamente possível (sobretrabalho: máximo de tempo, na máxima intensidade e pelo mínimo salário possível) para gerar o máximo de lucros para ele (mais-valia). Essa população é o proletariado, a classe daqueles que, privados de toda propriedade das condições de existir por si mesmo (graças à propriedade privada, mantida pelo Estado, concentração da violência armada da classe proprietária), se veem forçados, pela simples necessidade de sobreviver, a vender a única coisa que ainda possuem - a sua vida, oferecendo no mercado de trabalho como objeto de consumo as suas próprias capacidades humanas (força de trabalho) para fazer tudo o que o comprador (a classe proprietária) mandar. Trabalho: a troca da vida pela sobrevivência. Mas deixemos um pouco de falar da tirania atual para voltar a falar de um mundo verdadeiramente libertário, isto é, comunista.]
Como a justiça também não é uma forma platônica eterna sobrenatural que bastaria trazer pronta de um reino metafísico para aplicá-la aqui, não há nenhuma maneira de resolver a questão senão com uma democracia material em que os envolvidos decidam por si mesmos um critério do que é justo e também para evitar que alguns monopolizem o que for escasso para forçar outros, mediante ameaças e promessas baseadas na privação dos outros desse escasso (fazendo reaparecer a propriedade privada), a trabalhar para eles (ou seja, comprar deles) e restabelecer a sociedade de classes.
Então é necessário aos envolvidos votar para decidir algum critério considerado mais justo sobre o que fazer com algo escasso: sorteio, repartição igualitária, distribuição conforme os mais necessitados, ou conforme a participação em alguma atividade específica vista como necessária por todos, ou mesmo armazenar para suportar algum período de dificuldade... (nota: a tecnologia da informação já existente, torna facílimo disponibilizar mundialmente aos envolvidos meios de votar e debater)
O ideal, claro, é que a escassez de cada produção seja superada, isto é, que haja o suficiente para todos que necessitam dela e que não seja necessária essa complicação democrática entre produção e desfrute. Provavelmente, como ninguém quer passar necessidade (e como as complicações que o escasso envolve são chatíssimas), haverá sempre propostas para que a escassez de cada produção seja superada, e aqueles em todo o mundo que são apaixonados por meios de produção, ciência, máquinas, informática, robótica, meios de comunicação etc podem ser atraídos pela proposta, ajudando a criar e desenvolver materialmente as condições para isso.
A questão de não destruir o ambiente natural em que vivemos só pode ser levantada e assumida pelos próprios envolvidos, a partir do que considerarem (mediante conhecimento, ciência, ética, técnica etc) necessário fazer e capacitados para fazer. Porque não existe nenhum ponto referencial "superior" (como a fantasia mitológica/teológica de uma providência chamada "natureza", "gaia") fora das necessidades e capacidades dos próprios seres humanos para eles mesmos decidirem suas vidas e suas ações.
Apesar do que parece, este assunto não é especulação futurista, mas uma necessidade do proletariado de hoje em todo o mundo. Porque seus velhos métodos de luta (greves, manifestações, ocupações etc) estão mais do que domesticados pelos empresários e burocratas. Estes perdem cada vez mais o medo da revolução social e portanto já estão há 30 anos retirando todos os "direitos democráticos" que Estados e empresas foram forçados a adotar para evitar o comunismo e a anarquia durante os 50 anos anteriores (dos anos 1920 aos 1970).
Por isso, essa perspectiva é uma necessidade prática aqui e agora: "a superação da greve por uma tática de continuar a produção, mas como produção livre (gratuita) para e pela população, suprimindo a divisão emprego/desemprego nesse momento (abolição da empresa). Começando primeiro numa cidade, a difusão dessa experiência será tão apaixonante (incontível), que rapidamente, em um ou dois dias, se difundirá pelas principais metrópoles do mundo. O mapeamento da interconexão dos fluxos e estoques da produção mundial, cada vez mais completo, vai permitindo à população descobrir quais produções não servem para ela, desativando-as, e modificando outras. Os governos e as forças repressivas não tiveram tempo para estudar e coordenar um ataque e nem há mais condições para isso, pois a produção que sustenta essa condições está nas mãos da população. Os soldados, fraternizando, dão as armas para a população e se juntam a ela. Os que resistem tem suas condições de existências cortadas até que se rendam. Em menos de uma semana, o mundo inteiro estará sob o modo de produção associado, o comunismo. Senão, quanto mais a difusão global se retarda, chegando a apenas uma parte do mundo, a medida que os estoques vão acabando, mais insustentável (materialmente falando e em termos de repressão) se torna o modo de produção comunista. Pois mais se é privado dos materiais que a outra parte do mundo ainda não transformado possui como propriedade privada (estatal ou particular), forçado-a a trocar (comprar/vender) com ela para repor os estoques. Ou seja, é forçada, para comprar dela, a trabalhar para ela - e a reproduzir internamente o mesmo modo de produção capitalista, havendo o risco de o comunismo se tornar mera cobertura ideológica de uma nova variedade de exploração capitalista." (Breve crítica à ideia de economia paralela anticapitalista)
humanaesfera, janeiro de 2016

[Para uma resposta filosófica aos que insistem na metafísica da escassez, clique aqui para ver o texto DISSECANDO A METAFÍSICA DA ESCASSEZ]
Fundamentação teórica:
O texto Propriedade privada, escassez e democracia suscitou por toda parte a seguinte objeção:
![]() |
| Cornucópia |
"A abundância (superação da escassez) é impossível, uma vez que vivemos em um universo com recursos limitados, não só econômica mas fisicamente; portanto superar a escassez é uma exigência metafísica, absurda, que necessitaria uma automatização total do universo infinito para entregar à cada indivíduo, elevado ao status de um deus, a realização de seus menores caprichos e arbitrariedades."
Essa objeção interpreta “abundância” como uma categoria metafísica, solipsista, teogônica e psicototalitária. É como falar em “liberdade” abstraindo das relações materiais, sociais e históricas específicas, tomando “liberdade” como uma entidade que existisse em um mundo transcendente e identificando-a no nosso mundo com nonsenses, impossibilidades e aporias, como se na prática ela fosse sempre um nome para disfarçar a escravidão (a conclusão logicamente é o realismo: os escravos devem buscar a liberdade continuando a obedecer ao senhor, porque liberdade só não é um nonsense em um universo metafísico que não tem nada a ver com o da escravidão).
Mas assim como liberdade, escassez e abundância – fora dos devaneios metafísicos – são coisas radicalmente concretas.
Pois vejamos: se tu e mais alguém necessitam de algo específico, e há o suficiente para vós todos, então há abundância. Se não há o suficiente, há escassez. Abundância e escassez são sempre de algo específico, material, e não universais metafísicos.

Mas o que importa não são coisas encontradas já prontas, pois não se trata de automatizar por automatizar a produção (afinal, produção nada mais é do que criatividade, expressão humana multilateral no mundo - poética, racional, lúdica, culinária, apaixonada, matemática, artística, paisagística etc etc), mas sim de abolir o trabalho, ou seja, acabar com toda e qualquer atividade que é tão repulsiva, irritante e maçante que ninguém cogita em executá-la exceto em troca de recompensas (salário, cargo, "mérito"...) e sob ameaça de punições (demissão, prisão...), isto é, sob o poder de uma classe dominante (seja ela burguesa, como o empresariado particular nos EUA e Brasil, ou burocrática, como o empresariado estatizado em Cuba e URSS).
Assim, por exemplo, em um mundo libertário (em que as forças produtivas mundiais deixaram de ser propriedade privada, sendo gratuitamente acessíveis a qualquer um no mundo que deseje se associar autonomamente com quem quiser para buscar satisfazer seus desejos, necessidades, paixões, projetos etc), há gente que deseja algo específico, algo que talvez nem mesmo existe ainda. Eles fazem uma proposta para o mundo (coisa hoje mais do que nunca factível com telecomunicações, tecnologia da informação, internet...). No mundo, a proposta pode (ou não) despertar em outros o desejo de contribuir para realizá-la, dispondo-se para isso conforme as atividades produtivas às quais são apaixonados (e não por medo nem chantagem, como na sociedade de classes e, em especial, na tirania chamada empresa, seja estatal ou particular). Eles se comunicam e coordenam suas atividades para transportar de várias partes do mundo os materiais necessários, produzir e distribuir essa produção aos que necessitam (tudo isso é hoje muito simples: supply chains).
A produção resultante pode ou não ser suficiente para todos os que a necessitam. Se é suficiente, não há o que discutir: ela é desfrutada livremente, gratuitamente, sem complicações. Mas se não é suficiente, surge a complicada questão da “justiça”: quem tem prioridade?
[Nota: na sociedade capitalista isso não é uma questão: nela, tem prioridade quem tiver mais dinheiro para pagar. Ou seja, quem mais tiver comando sobre as capacidades criativas alienadas (vendidas) da população, que o endinheirado (capitalista) tiraniza para que trabalhe o mais gratuitamente possível (sobretrabalho: máximo de tempo, na máxima intensidade e pelo mínimo salário possível) para gerar o máximo de lucros para ele (mais-valia). Essa população é o proletariado, a classe daqueles que, privados de toda propriedade das condições de existir por si mesmo (graças à propriedade privada, mantida pelo Estado, concentração da violência armada da classe proprietária), se veem forçados, pela simples necessidade de sobreviver, a vender a única coisa que ainda possuem - a sua vida, oferecendo no mercado de trabalho como objeto de consumo as suas próprias capacidades humanas (força de trabalho) para fazer tudo o que o comprador (a classe proprietária) mandar. Trabalho: a troca da vida pela sobrevivência. Mas deixemos um pouco de falar da tirania atual para voltar a falar de um mundo verdadeiramente libertário, isto é, comunista.]
Como a justiça também não é uma forma platônica eterna sobrenatural que bastaria trazer pronta de um reino metafísico para aplicá-la aqui, não há nenhuma maneira de resolver a questão senão com uma democracia material em que os envolvidos decidam por si mesmos um critério do que é justo e também para evitar que alguns monopolizem o que for escasso para forçar outros, mediante ameaças e promessas baseadas na privação dos outros desse escasso (fazendo reaparecer a propriedade privada), a trabalhar para eles (ou seja, comprar deles) e restabelecer a sociedade de classes.
Então é necessário aos envolvidos votar para decidir algum critério considerado mais justo sobre o que fazer com algo escasso: sorteio, repartição igualitária, distribuição conforme os mais necessitados, ou conforme a participação em alguma atividade específica vista como necessária por todos, ou mesmo armazenar para suportar algum período de dificuldade... (nota: a tecnologia da informação já existente, torna facílimo disponibilizar mundialmente aos envolvidos meios de votar e debater)
O ideal, claro, é que a escassez de cada produção seja superada, isto é, que haja o suficiente para todos que necessitam dela e que não seja necessária essa complicação democrática entre produção e desfrute. Provavelmente, como ninguém quer passar necessidade (e como as complicações que o escasso envolve são chatíssimas), haverá sempre propostas para que a escassez de cada produção seja superada, e aqueles em todo o mundo que são apaixonados por meios de produção, ciência, máquinas, informática, robótica, meios de comunicação etc podem ser atraídos pela proposta, ajudando a criar e desenvolver materialmente as condições para isso.
A questão de não destruir o ambiente natural em que vivemos só pode ser levantada e assumida pelos próprios envolvidos, a partir do que considerarem (mediante conhecimento, ciência, ética, técnica etc) necessário fazer e capacitados para fazer. Porque não existe nenhum ponto referencial "superior" (como a fantasia mitológica/teológica de uma providência chamada "natureza", "gaia") fora das necessidades e capacidades dos próprios seres humanos para eles mesmos decidirem suas vidas e suas ações.
Apesar do que parece, este assunto não é especulação futurista, mas uma necessidade do proletariado de hoje em todo o mundo. Porque seus velhos métodos de luta (greves, manifestações, ocupações etc) estão mais do que domesticados pelos empresários e burocratas. Estes perdem cada vez mais o medo da revolução social e portanto já estão há 30 anos retirando todos os "direitos democráticos" que Estados e empresas foram forçados a adotar para evitar o comunismo e a anarquia durante os 50 anos anteriores (dos anos 1920 aos 1970).
Por isso, essa perspectiva é uma necessidade prática aqui e agora: "a superação da greve por uma tática de continuar a produção, mas como produção livre (gratuita) para e pela população, suprimindo a divisão emprego/desemprego nesse momento (abolição da empresa). Começando primeiro numa cidade, a difusão dessa experiência será tão apaixonante (incontível), que rapidamente, em um ou dois dias, se difundirá pelas principais metrópoles do mundo. O mapeamento da interconexão dos fluxos e estoques da produção mundial, cada vez mais completo, vai permitindo à população descobrir quais produções não servem para ela, desativando-as, e modificando outras. Os governos e as forças repressivas não tiveram tempo para estudar e coordenar um ataque e nem há mais condições para isso, pois a produção que sustenta essa condições está nas mãos da população. Os soldados, fraternizando, dão as armas para a população e se juntam a ela. Os que resistem tem suas condições de existências cortadas até que se rendam. Em menos de uma semana, o mundo inteiro estará sob o modo de produção associado, o comunismo. Senão, quanto mais a difusão global se retarda, chegando a apenas uma parte do mundo, a medida que os estoques vão acabando, mais insustentável (materialmente falando e em termos de repressão) se torna o modo de produção comunista. Pois mais se é privado dos materiais que a outra parte do mundo ainda não transformado possui como propriedade privada (estatal ou particular), forçado-a a trocar (comprar/vender) com ela para repor os estoques. Ou seja, é forçada, para comprar dela, a trabalhar para ela - e a reproduzir internamente o mesmo modo de produção capitalista, havendo o risco de o comunismo se tornar mera cobertura ideológica de uma nova variedade de exploração capitalista." (Breve crítica à ideia de economia paralela anticapitalista)
humanaesfera, janeiro de 2016

Bibliografia (com links):
-A reprodução da vida quotidiana, por Fredy Perlman
-Eclipse e Reemergência do Movimento Comunista (1972), por Jean Barrot e François Martin
-Dois textos contra o trabalho (1979 e 1982), por GCI
-Agora e Depois: O ABC do comunismo libertário (1929), por Alexander Berkman
-Le Humanisphère (1857), por Joseph Déjacque
-Nova Babilônia (1959-74), por Constant Nieuwenhuys (publicado no Dossiê "Constant", revista Sinal de Menos nº 5)
-Red Star (1908), por Alexander Bogdanov
-Um Mundo sem Dinheiro: o Comunismo (1975-76), por Os Amigos dos 4 Milhões de Jovens Trabalhadores
-Questionário (1964), por Internacional Situacionista (dossiê Internacional Situacionista)
-Crise e Autogestão (1973), por Négation
-A rede de lutas na Itália ( anos 1970), por Romano Alquati
-Kropotkin: Textos Escolhidos - org.: Mauricio Tragtenberg
-Grundrisse, A Ideologia Alemã (capítulo: Feuerbach) e Comentários sobre James Mill, por Karl Marx
-Marx comunista individualista! (trechos sobre o indivíduo em Marx)
-O Anti-Édipo, por Deleuze e Guattari
-Dois textos contra o trabalho (1979 e 1982), por GCI
-Agora e Depois: O ABC do comunismo libertário (1929), por Alexander Berkman
-Le Humanisphère (1857), por Joseph Déjacque
-Nova Babilônia (1959-74), por Constant Nieuwenhuys (publicado no Dossiê "Constant", revista Sinal de Menos nº 5)
-Red Star (1908), por Alexander Bogdanov
-Um Mundo sem Dinheiro: o Comunismo (1975-76), por Os Amigos dos 4 Milhões de Jovens Trabalhadores
-Questionário (1964), por Internacional Situacionista (dossiê Internacional Situacionista)
-Crise e Autogestão (1973), por Négation
-A rede de lutas na Itália ( anos 1970), por Romano Alquati
-Kropotkin: Textos Escolhidos - org.: Mauricio Tragtenberg
-Grundrisse, A Ideologia Alemã (capítulo: Feuerbach) e Comentários sobre James Mill, por Karl Marx
-Marx comunista individualista! (trechos sobre o indivíduo em Marx)
-O Anti-Édipo, por Deleuze e Guattari
[Para uma resposta filosófica aos que insistem na metafísica da escassez, clique aqui para ver o texto DISSECANDO A METAFÍSICA DA ESCASSEZ]
Continuação das reflexões deste texto:
Perspectiva prática:
- Breve crítica à idéia de economia paralela anticapitalista
- Condições de existência universalmente interconectadas
- Condições de existência universalmente interconectadas
- A logística e a fábrica sem muros (Brian Ashton)
- Serviços: subsunção formal (Endnotes)
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