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quarta-feira, 3 de abril de 2019
Brochura humanaesfera #6 - Marx comunista individualista! (trechos sobre o indivíduo)
Saiu Humanaesfera #6. Sexta brochura (livreto) com conteúdos deste site. Este número contém extratos sortidos de Marx sobre o indivíduo, a abolição do trabalho, do Estado , do capital e das classes pelos indivíduos livremente associados como fins em si, que se expressam com as forças produtivas histórico-mundiais. São os trechos que já publicamos no link: Marx comunista individualista! (trechos sobre o indivíduo, 1843-1858) e no link Comentários sobre James Mill (trechos) (Karl Marx, 1844).
Neste link, está o PDF com a brochura, que consiste de 5 folhas A4 para serem impressas frente-e-verso (em impressoras que imprimem em frente-e-verso automaticamente, selecione "borda curta" ou "no sentido da borda menor", ou ainda "Frente e verso, orientação vertical"), dobradas e grampeadas no meio.
Também nos formatos:
Versão e-book EPUB ou versão e-book PDF.
Para outras brochuras, ver este link: Imprensa autônoma humanaesfera
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quarta-feira, 2 de janeiro de 2019
Sobre "transição"
Resposta ao texto Notes on the transition to communism, do coletivo Kontraklasa, da Croácia, que foi publicada na revista Intransigence número 2. A resposta a seguir foi publicada originalmente em inglês na revista Intransigence número 3.
SOBRE "TRANSIÇÃO"
1- A SOCIEDADE CAPITALISTA COMO SISTEMA TOTAL
O texto de Kontraklasa começa muito bem, criticando “a concepção aguada de comunismo”, exemplificada com as concepções leninista e conselhista (“capitalismo de Estado posto para servir todo o povo”, e “um comunismo em que locais de trabalho autônomos calculam o ´tempo de trabalho absorvido em cada produto´ de modo a cada trabalhador receber a ´sua´ parte”, respectivamente).
A seguir, ele mostra como a maioria das correntes subestimam o capitalismo enquanto sistema total, “isto é, um todo cujo caráter geral e leis de movimento imbuem cada parte, sem nada acidental ou externo.”
Essa subestimação do capitalismo acarreta que: “O capitalismo é retratado como impotente e incoerente, uma pálida sombra que pode coexistir com um socialismo incipiente e lentamente dar passagem a ele, e cujas partes podem ser isoladas e instrumentalizadas pela sociedade transitória ou até mesmo comunista”.
Mas, visto que o capitalismo é um sistema total, ocorre que: “Do trabalho assalariado até a política parlamentar, cada aspecto da sociedade capitalista é capitalista, e permanece assim quando é traduzido em uma situação ambígua. Isso, assim como as imensas pressões do apoio quase universal ao capitalismo e a simples inércia social agindo em seu favor, significa que qualquer situação ambígua ou passageira, no fim das contas, será resolvida de uma maneira capitalista”.
E o argumento conclui muito bem, colocando a questão crucial da revolução:
“A única esperança que resta para a espécie, assim, é que um ataque infligido conscientemente, severo e rápido o suficiente contra a sociedade da troca seria capaz de fazer justamente isso [isto é, sair desse sistema total]”
2 - MAS... TERRITÓRIO?
A questão crucial está claramente posta. E no entanto, a partir deste ponto, o texto inexplicavelmente parece ignorar as implicações básicas da própria questão levantada e assume a estranha pressuposição de que a revolução mundial será um processo de conquistas territoriais:
“Naqueles territórios isolados do resto do mundo, não há dúvidas em impor imediatamente o comunismo. Tais áreas não mais existem, porém, excetuando a ilha Sentinela do Norte e algumas faixas da Amazônia que ainda não receberam as bênçãos da civilização moderna. Em todos os outros lugares, processos de produção cruciais, inclusive os necessários para a provisão de comida, abrigo, medicina e infraestrutura, requerem produtos que vêm de fora da área em questão. Excetuando as circunstâncias mais excepcionais, em todas as outras, esses produtos terão de ser comercializados por outros.”
Assim, a revolução é vista como conquista territorial, e um território é obrigado a trocar mercadorias com o exterior. Isso porque tal território é privado dos materiais necessários que estão no resto do mundo. Mas, de fato, essa privação o define exatamente como uma nova propriedade privada.
O que o artigo parece subestimar é que toda propriedade privada é necessariamente parte interessada na competição universal (militar, comercial, industrial...), porque é obrigada a conseguir trocar vantajosamente mercadorias contra outras propriedades (empresas ou Estados), sob pena de não conseguir nem mesmo trocar e, assim, não conseguir sequer sobreviver, devido à falta dos materiais necessários (o que acarretaria subjugar a população a um regime paranoico e letal). Essa competição por conseguir impor que os outros comprem do território o mais caro possível e que os outros vendam para território o mais barato possível só é realizável como competição por impor sobre o proletariado a máxima dominação e exploração, direta ou indiretamente, tanto no exterior quanto no seu interior. [1] É uma dinâmica material que se impõe independentemente da vontade, das ideias, da consciência, dos planos ou formas organizativas (tudo isso está fadado a se tornar apenas novas ideologias para mascarar e justificar a exploração).
Mas o artigo continua na equivocada premissa da propriedade privada territorial como base fundante da revolução, e sugere a possibilidade de um curto período em que essa troca de mercadorias com o exterior ocorre sem produção para venda, mediante uma “abordagem extrativa” (“a venda de objetos já existentes e bens mais abstratos”, por exemplo, itens de luxo, objetos culturais caros, propriedade intelectual, dinheiro e poupanças). E aponta que mais cedo ou mais tarde será preciso produzir mercadorias para trocar com os territórios exteriores.
Porém, diz que, ainda que haja produção de mercadorias para o exterior, no interior do território “não existe razão para que a produção e distribuição não deva ser imediatamente organizada de modo que um plano social científico baseado nas necessidades humanas as regule.” Esse “sistema de provisionamento planejado” é então apresentado como se fosse sinônimo de comunismo, “embora deformado pela necessidade de participar no mercado mundial”.
O fato de não existir troca de mercadorias no interior dessa propriedade territorial não significa nada intrinsecamente comunista, visto que toda propriedade privada e toda empresa funciona assim em seu interior. É com um “sistema de provisionamento planejado” que a burocracia administrativa e os patrões dirigem o funcionamento interno de cada empresa. Mesmo se a intenção ideológica oficial for satisfazer as necessidades humanas (e não faltam empresas e Estados que propagandeiam que seu objetivo não é o lucro, mas satisfazer as necessidades), a única maneira de satisfazer essas necessidades numa propriedade privada territorial é se submeter à competição por trocar vantajosamente no mercado mundial, como vimos.
3 - CONSOLIDAÇÃO TERRITORIAL E CONTRARREVOLUÇÃO
O texto não parece dar-se conta suficientemente de que, se uma revolução se estabelece como um território particular consolidado e tenta se reproduzir, a medida que os estoques de produtos se esgotam e consequentemente a troca de mercadorias com os territórios exteriores se torna obrigatória para essa reprodução, a revolução se entrega imediatamente à contrarrevolução. O poder estabelecido no território é materialmente forçado a recorrer à repressão, dominação e exploração do proletariado para que as mercadorias que produz o coloque pelo menos no mesmo patamar dos competidores, i.e., que compita, como eles, para absorver e acumular o máximo de valor, a máxima imposição direta ou indireta do sobre-trabalho sobre os trabalhadores, tanto do resto do mundo quanto no interior da propriedade territorial.
O artigo espera que isso seja contornado a medida que a propriedade privada administrativa territorial se expanda para mais territórios: “Nem é preciso dizer, essas distorções não serão insignificantes. Mas a medida que a zona revolucionária se expande e traz mais recursos sob seu controle administrativo direto, elas se tornarão menos significativas, até cessarem de existir com a queda dos últimos redutos do capitalismo”.
Mas, uma vez que o território desde o início se reproduz mediante repressão e exploração devido à necessidade de trocar vantajosamente com o exterior, é difícil imaginar qualquer maneira em que os administradores do território possam se desinteressar da dinâmica material da propriedade privada que passou a formar seus interesses como personificações do capital. Apenas se fôssemos idealistas, apenas se tivéssemos alguma fé no poder sobre-humano da força de vontade (ou na força sagrada das ideias e das doutrinas...) nos seria possível acreditar que essa expansão do território poderá ter qualquer coisa de revolucionária ou comunista.
4 - TRABALHO?
Necessariamente, o trabalho não será sequer abolido nesse território: “De duas, uma: ou a escolha [por cada indivíduo] de se vai trabalhar, e com que habilidade, será uma prerrogativa pessoal, ou os indivíduos terão que preencher uma obrigação de trabalho, imposta tanto quando possível sobre todos os membros disponíveis da sociedade igualmente. Neste caso, a coerção será aberta e direta.”
Segundo o artigo, a coerção aberta e direta é preferível à coerção indireta do mercado, porque, como que por milagre (e contrariando toda a história conhecida), “é uma dor aguda que desaparece rapidamente”. Como se a propriedade privada territorial pudesse escolher à vontade não “representar constante estresse psicológico e orgânico” (o que é atribuído no artigo exclusivamente à coerção ao trabalho pelo mercado e competição dentro do território, como se o território já não estivesse, como parte do mercado mundial, forçado a impor essa mesmíssima coerção aos trabalhadores à todo custo).
5 - ADMINISTRAÇÃO?
Após isso, o artigo novamente confunde comunismo (“Os membros da sociedade em transição acessam os bens independentemente de se eles trabalham ou quanto trabalham”) com uma forma de administração da distribuição dos bens e de gestão do trabalho nesse território privado: “A produção será planejada principalmente em termos materiais - a produção de quantas toneladas de trigo necessita da produção de tantas toneladas de fertilizante, água e assim por diante – por um órgão ´central´ da sociedade, isto é, um cuja plena alçada de competência coincide com todo o território sob a ditadura comunista”.
Isso não é necessariamente comunismo já que não é impossível que um território privado esteja tão à frente na competição global (p. ex., exportando “produtos com alto valor agregado”) a ponto de ser capaz de externalizar totalmente para os outros territórios a exploração dos trabalhadores e o custo de controlá-los e reprimi-los (e mesmo conseguindo resolver no interior do território o problema da “camada de especialistas que se colocam como uma casta privilegiada”). Levada essa hipótese ao extremo, o território se torna um condomínio fechado icariano enquanto o resto do mundo é uma imensa favela que trabalha para ele.
É muito mais provável que a coerção por produzir mercadorias suficientemente competitivas para trocar por produtos de outros territórios não permita nem mesmo esse triste comunismo administrativo icariano. Como toda empresa (e como todo Estado), os gestores desse território são materialmente impotentes para prescindir de um sistema de recompensas e punições, i.e., eles tem poder unicamente para reproduzir a sociedade de classes no território. Com efeito, a ideia de "administração da sociedade" em si não faz sentido sem um sistema de recompesas e punições sobre a sociedade - uma sociedade de classes.
6 - MERCADORIAS COM PREÇOS MAS SEM VALOR?
O trecho sobre “como funcionará o comércio entre a ditadura comunista e o mercado mundial” confirma que o artigo subestima o grau de socialização das forças produtivas mundiais, isto é, o grau de interconexão e interdependência do processo produtivo global: “a zona revolucionária […] pode estabelecer os preços à vontade, administrativamente, já que não haveria custos de produção. Estamos então falando de produtos que tem preços, mas não valor no sentido pleno da palavra, visto que nenhum trabalho abstrato é incorporado neles. Isso tornará a ditadura revolucionária capaz de derrubar consistentemente os outros vendedores.”
Mas sabemos que as únicas mercadorias que não tem custos de produção são as matérias primas (se abstraímos o custo do maquinário necessário para sua extração), e as únicas mercadorias cujos preços podem ser determinados à vontade, administrativamente, são as que são monopolizadas no mercado mundial.
Esse monopólio de matérias primas é não só improvável mas também mostra que o território já estaria plenamente engajado exatamente naquilo que todas as outras propriedades privadas (e Estados) do mundo competem por alcançar para si: derrubar os outros vendedores, zerar os custos para maximizar os lucros. E, de fato, se esses bens monopolizados forem vendidos no mercado mundial é porque tem valor, servem para absorver valor: isto é, tem o poder de impor aos proletários do mundo a intensificação do trabalho abstrato equivalente a esses produtos que os territórios exteriores necessitam adquirir. Simplesmente, esse sobre-trabalho global é a mais-valia absorvida e acumulada como capital no interior do território “comunista”.
“Mas essa produção de bens para o comércio, por maior que seja seu impacto sobre o sistema como um todo, será um setor menor de uma rede comunal e planejada de provisionamento muito mais ampla, um elemento irritante, é verdade, mas necessário a curto prazo.”
Aqui, novamente, o artigo subestima como até mesmo as necessidades mais básicas, tais como medicamentos, alimentos, equipamentos, meios de produção... dependem inextricavelmente, cada um deles, de uma rede global altamente socializada que combina inúmeros materiais envolvendo todos os continentes. No texto, este fato é apresentado como um empecilho distorcedor, um obstáculo a ser ultrapassado mediante a expansão do território “comunista” imaginado como externo a essa rede (tanto é assim que no começo do artigo é dito que “territórios isolados do resto do mundo” seriam a situação ideal, mas inexistente, para instauração sem distorção do comunismo).
7 - CONDIÇÕES DE EXISTÊNCIA UNIVERSALMENTE INTERCONECTADAS
Na realidade, de um ponto de vista materialista, a necessidade consciente do comunismo, assim como a formação da capacidade prática e do desejo de efetuá-lo, não podem sequer existir fora dessa rede inextrincável mundial. Qualquer tentativa de sair ou permanecer de fora dessa interconexão global é somente fadada a criar e consolidar outra propriedade privada, outro capital na competição universal militar, comercial e industrial. Tentar colocar-se de fora implica em colocar-se no mesmo patamar de fora e, assim, introduzir-se verticalmente na mesma rede da qual se busca se separar, reproduzindo a sociedade de classes.
A única dinâmica material capaz de abolir e superar o capital é uma que atravesse horizontalmente a totalidade da sociedade capitalista mundial ao mesmo tempo que é produzida sistematicamente por ela como seu negativo universal. O proletariado só existe como classe nesse nível histórico-mundial. É precisamente de dentro dessa ubíqua unidade mundial das forças produtivas que se pode dar à luz o comunismo - a comunidade humana mundial – ao fazer explodir a decrépita carapaça capitalista, tornando livre a condição universalista material das capacidades e necessidades humanas para que expressem suas formas imanentes. [2]
Assim, a luta de classes - a fraternização dos proletários que destroi todas as fontes de separação (reificações tais como identidades, nações, emprego/desemprego, fronteiras, profissão, posição, mérito, território, etnia, raça, administração, família, segregação...) que os compelem, contra si mesmos, a competir por se submeter às “suas próprias” classes dominantes em troca da sobrevivência – é a única base e fundamento da emergência universal do comunismo. O principal erro do artigo é a desvinculação entre luta de classes mundial e comunismo.
Em outros textos já expomos nossas posições sobre as medidas práticas imediatas e objetivos que a revolução mundial precisaria realizar para ter chance mínima de êxito:
A dinâmica material especificamente comunista é desencadeada pela "superação da greve por uma tática de continuar a produção, mas como produção livre (gratuita) para e pela população, suprimindo a divisão emprego/desemprego nesse momento (abolição da empresa). Começando primeiro numa cidade, a difusão dessa experiência será tão apaixonante (incontível), que rapidamente, em um ou dois dias, se difundirá pelas principais metrópoles do mundo. O mapeamento da interconexão dos fluxos e estoques da produção mundial, cada vez mais completo, vai permitindo à população descobrir quais produções não servem para ela, desativando-as, e modificando outras. Os governos e as forças repressivas não tiveram tempo para estudar e coordenar um ataque e nem há mais condições para isso, pois a produção que sustenta essa condições está nas mãos da população. Os soldados, fraternizando, dão as armas para a população e se juntam a ela. Os que resistem tem suas condições de existências cortadas até que se rendam. Em menos de uma semana, o mundo inteiro estará sob o modo de produção associado, o comunismo. Senão, quanto mais a difusão global se retarda, chegando a apenas uma parte do mundo, a medida que os estoques vão acabando, mais insustentável (materialmente falando e em termos de repressão) se torna o modo de produção comunista. Pois mais se é privado dos materiais que a outra parte do mundo ainda não transformado possui como propriedade privada (estatal ou particular), forçado-a a trocar (comprar/vender) com ela para repor os estoques. Ou seja, é forçada, para comprar dela, a trabalhar para ela - e a reproduzir internamente o mesmo modo de produção capitalista, havendo o risco de o comunismo se tornar mera cobertura ideológica de uma nova variedade de exploração capitalista." (Contra a metafísica da escassez, copiosidade prática) [3]
E também:
“Em contraste com a ideologia da estratégia, os proletários não podem contar senão com a sua própria capacidade autônoma de agir e pensar, impulsionada pela rápida difusão de sua luta em escala mundial. Nesse mesmo ato, eles comunicam mundialmente uns com os outros o conhecimento do modo como suas atividades cotidianas simultâneas se interligam (por exemplo, conforme o local em que estão, as supply chains, as relações entre indústria, agricultura e as vias materiais de livre expressão das necessidades, desejos, pensamentos e capacidades dos habitantes e viajantes do mundo, etc ), conhecimento que é simultâneo à supressão em ato das condições de existência materiais (moleculares) da propriedade privada, do capital e do Estado e à criação de uma nova sociedade em que os meios de vida e de produção, indissoluvelmente interconectados em escala mundial em uma rede de fluxos imanentes, se tornam livremente (gratuitamente) acessíveis à qualquer um que queira satisfazer suas necessidades, desejos, pensamentos, projetos, paixões, e desenvolver livremente suas habilidades, capacidades e potencialidades.
Um evento assim, que desabilita pela base o poder da classe dominante (empresários, burocratas e o Estados), tem desde o princípio uma linguagem incompreensível e “inconversável” com a classe dominante e o Estado, sendo de fato uma ditadura contra eles - a verdadeira ditadura do proletariado.
A classe dominante sequer tem tempo para começar a entender o que está sofrendo para elaborar uma estratégia antes de o proletariado ter se auto-abolido e, portanto, abolido a classe dominante, a sociedade de classes. ”(Contra a estratégia) [4]
Ouvimos frequentemente que tudo isso é impossível. Mas a categoria “possibilidade” não tem nenhuma relação com a revolução, que por definição transforma as condições de possibilidade em que ela própria se desdobra, fazendo emergir necessariamente o “impossível”. Porém, os conteúdos singulares desse “impossível em ato” são imprevisíveis. O único “impossível” de que dispomos hoje para nossa ação é o do entendimento das necessidades práticas objetivamente indispensáveis que as condições postas pela própria sociedade capitalista nos permite inferir teoricamente se buscamos a destruição e superação dessa sociedade. Essas são as tarefas mínimas objetivamente incontornáveis que a irrupção mundial do “impossível em ato” precisará realizar para superar de fato a sociedade capitalista e que, caso não as realize, fatalmente se deixará afogar na contra-revolução. Como criar as condições propícias? Como fazer coincidir e combinar no tempo e no espaço as inumeráveis circunstâncias e determinações singulares (já em plena ação mas disparatadas) de tal modo a suscitar as “impossíveis” capacidades do proletariado mundial para realizar essas tarefas mínimas? [5] Para nós, esta é a questão decisiva.
Outra coisa que ouvimos frequentemente é que nossa posição depende de um otimismo descabido ou uma esperança ingênua. Na realidade, a questão do pessimismo ou otimismo, desespero ou esperança, não tem nenhuma importância, e é insignificante para nós enquanto comunistas materialistas. O que importa é que os comunistas exponham com clareza seus objetivos, assim como os fundamentos (verificáveis por qualquer um) de sua necessidade prática. Se o objetivo for equivocado, ele levará a práxis apenas a desperdiçar energia e tempo num projeto que alimentará fatalmente a contra-revolução.
humanaesfera, agosto de 2018
NOTAS
[1] Tratamos precisamente sobre as implicações disso no texto Condiçõesde existência universalmente interdependentes/interconectadas.
[2] Isso significa que, contrariamente ao que o texto de Kontraklasa afirma (com sua fixação na centralização, administração, planejamento central), nenhuma forma específica de organização ou administração define a existência do comunismo, mas sim o universalismo material surgido da subversão dessa interconexão global das forças produtivas (que já é hoje unidade concreta, prática, da espécie). É a comunidade material na qual as necessidades e capacidades humanas se produzem como fins em si, satisfazendo e potencializando umas as outras. Com isso, o trabalho é abolido e as múltiplas atividades se manifestam nos seus próprios termos, libertadas da coerção do equivalente geral, da comparação. A multiplicidade material das necessidades e faculdades implica em uma multiplicidade de formas imanentes de organização da satisfação dessas necessidades e faculdades. A forma de organização (centralização ou descentralização) não tem nenhuma virtude por si mesma, não tem nenhum poder autônomo, e não pode se estabelecer partindo de si mesma. Isso é uma ilusão de ótica que decorre da visão invertidada da sociedade, de cima para baixo, que é a da classe dominante.
[3] Aquela parte sobre “menos de uma semana” pode parecer engraçada. Chegamos rigorosamente a esse número ao considerar a produção just-in-time (e a “pull production”). Daí a absoluta importância da simultaneidade da luta de classes em uma escala mundial. Nota: este artigo (Contra a metafísica da escassez, copiosidade prática) também apresenta uma hipótese básica sobre como a sociedade comunista vai funcionar, sobre como tratar a escassez em uma sociedade cujo critério não é mais a reprodução ampliada da própria escassez (isto é, propriedade privada, mercadoria, capital), etc. E quanto aos detalhes da mais imediata das medidas comunistas práticas, veja o pequeno texto: Greve e produção livre. Outra hipótese é que a dinâmica material comunista começa no setor de serviços (já que é o setor mais imediatamente próximo à satisfação das necessidades dos proletários em sua vida cotidiana) e se difunde rapidamente aos setores de logística, o industrial e o agrícola (nos quais o trabalho e os produtos são mais abstratos, menos diretamente compreensíveis em relação às necessidades humanas), ao mesmo tempo em que se difunde mundialmente. A extensão exponencial no mundo é a condição para essa metamorfose comunista intensiva da cadeia produtiva (e vice-versa).
[4] Com relação ao problema da repressão:
“Obviamente, as armas da classe dominante, o Estado, os grupos de extermínio etc são infinitamente mais poderosos e aprimorados do que qualquer “movimento estratégico de oposição”, que, consequentemente, não passa de espetáculo, só útil para a classe dominante ensaiar seus cães de guarda e métodos de controle, que, encenando, legitima o próprio status quo como “democrático”. E quando não é encenação, um “movimento estratégico de oposição” é apenas a reprodução da estrutura à qual procura se opor […]. Em contraste com encenação da “oposição estratégica”, o único modo de suprimir a força repressiva do status quo é por uma emergência tão rápida e generalizada do proletariado autônomo (portanto, do comunismo) que os poderosos não encontrarão sequer por onde começar a reprimir, de modo que os seus cães de guarda repressores deixarão de ver qualquer sentido em continuar obedecendo, deixando de ser cães de guarda, voltando as armas contra os generais e distribuindo as armas para a população, pela simples razão de passarem a ser irrefreável e irreprimivelmente atraídos, como o restante dos explorados, pela emergência apaixonante do comunismo luxuriante generalizado, a comunidade humana mundial.” (Contra a estratégia)
[5] Sem dúvida, o conceito de composição de classe é indispensável: com as interconexões (materiais, geográficas, produtivas, educativas, subjetivas) colocadas pelo capital, o proletariado cria suas próprias conexões nas quais ele produz e desenvolve novas necessidades e capacidades, pelas quais afirma sua autonomia de classe contra o capital. Sobre isso, ver:
- A rede de lutas na Itália - Romano Alquati
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segunda-feira, 14 de maio de 2018
Maio de 68: a "juventude" e a destruição épica do fordismo pelo proletariado
Há 50 anos, Maio de 68 aconteceu simultaneamente no mundo todo, do Japão até o Chile, Itália, México, Espanha, EUA, etc e perdurou até meados dos anos 1970. Enquanto em cada lugar ele teve características e limitações diferentes, o que importa para nós são as potencialidades internacionalistas e comunistas libertárias que surgiram por toda parte mas que, por não conseguirem se afirmar nem se desdobrar, abriram caminho à derrota do movimento, permitindo à sociedade capitalista, nas décadas seguintes, uma reação que a reconfigurou profundamente.
Para acontecer maio de 1968, várias dimensões confluíram. Do ponto de vista das relações de produção, o modelo fordista de dominação e exploração se esgotou, graças a poderosos métodos de resistência rapidamente se generalizando: o absenteísmo se tornou rotina, greves de ocupação (grève sur le tas, sit-down strike, em que simplesmente se cruzava os braços no meio do trabalho, interrompendo algumas linhas de montagem fordistas, o que, pelo encadeamento delas, interrompia fábricas inteiras ou mesmo várias fábricas), desprezo pelos chefes, pelos burocratas, pelo trabalho e pelo empresariado...
Outra dimensão foi a "juventude", criada pela primeira vez como categoria (ou até como o próprio tipo-ideal da sociedade capitalista) pelas necessidades de acumulação do capital (educação universitária se tornando comum e não mais apenas para as elites, assim como os "jovens" se tornando importantes consumidores de mercadorias específicas, cada vez mais produzidas em rápida rotação, devido às "modas"), nos anos 1960. Com esse novo produto, a "juventude", a sociedade capitalista invocou forças que ela não pôde controlar, principalmente quando essa juventude rebelde se juntou com os proletários que estavam destruindo o modelo fordista de exploração. Tudo indica que essas foram as duas dimensões cruciais que convergiram naquele momento para desatar maio de 68.
Essas duas dimensões se combinaram, se potencializando mutuamente, produzindo uma perspectiva apaixonante de transformação total da sociedade em que os indivíduos se libertam de todos os papéis, particularidades e hierarquias, e afirmam seus desejos curto-circuitando o singular e o universal, a vida cotidiana e a história mundial.
DERROTA E REAÇÃO
O movimento foi derrotado porque o proletariado, com a "juventude", não conseguiu atacar as relações de produção de uma maneira suficiente para criar um novo modo de produção capaz de se generalizar rapidamente por todo o mundo e nutrir tanto seu poder contra a classe capitalista e o Estado, quanto potencializar sua capacidade de criar uma nova sociedade. [1] Ao se prolongar no tempo sem alcançar isso, eles terminaram tendo que confiar em sindicatos e na social-democracia, instituições cuja razão de ser é controlar tudo que ameace a exploração, mediando e negociando com o Estado e os capitalistas. Esse prolongamento no tempo foi desmoralizando a luta nas relações de produção, canalizando a energia social para a pseudo-luta na esfera do simbólico, do espetacular, da representação, o que se consumou na completa desintegração do movimento nas categorias reificadas da sociedade capitalista: "juventude", "trabalhadores", "consumidores", "estudantes", "minorias", "cidadãos lutando por direitos civis"... Até que no fim dos anos 1970 e nos anos 1980, no plano das relações de produção, veio o brutal ataque contra os trabalhadores por parte dos capitalistas, que substituíram o modelo fordista pelo modelo em que a terceirização é o principal elemento, dividindo e hierarquizando os trabalhadores ao máximo... enquanto que as outras categorias reificadas citadas acima, imaginariamente separadas das relações de produção, foram fadadas a reivindicar "direitos civis", ou seja, fortalecer o poder alienado da sociedade, o Estado e o capital, a polícia, como garantidores de "espaços" para suas "identidades" ("representatividade") no inferno da competição pela sobrevivência na sociedade capitalista, a competição generalizada pela submissão à classe proprietária dos meios de vida.
Em suma, depois da derrota, os capitalistas recuperaram o descontentamento e os desejos de maio de 1968, canalizando-os para a reprodução da sociedade capitalista: ter dinheiro seria a própria realização da "autonomia" e "afirmação da individualidade e dos desejos". O toiotismo foi adotado (mas transformado, pois no toiotismo original no Japão dos anos 1950 até recentemente, o emprego era vitalício) como afirmação de cada trabalhador como empresário de si mesmo, "capital humano" (suposta realização da "autogestão") e como terceirização desses empresários de si mesmos numa rede de infinitas camadas "meritocráticas" selecionadas, é dito, pela competição impessoal no mercado e não mais pelo comando desse ou daquele patrão... enquanto a "questão social" se degradou em mera luta por "afirmação de identidades", isto é, de estereótipos ("etnia", "gênero", "cultura" etc) buscando "representatividade" no mercado, na empresa e no Estado.
Mas a destruição do modelo fordista de dominação e exploração pelo proletariado merece uma exposição mais detalhada. É o que tentaremos fazer a seguir:
COMO OCORREU A DESTRUIÇÃO DO MODELO FORDISTA DE DOMINAÇÃO E EXPLORAÇÃO
O capital tende sempre à transformar os meios de produção de modo a fazer com que sua operação seja simplificada, abstratizada e homogeneizada ao máximo (e, é claro, feita pelo mínimo de pessoas), com o objetivo de depender cada vez menos de trabalhadores que possuam uma qualificação específica e que, por isso, tem algum poder de impor seus interesses contra os capitalistas.
O fordismo foi isso: a linha de montagem, junto com a automação, buscava retirar dos trabalhadores o conhecimento e o controle sobre o processo produtivo, e tornou o trabalho homogêneo e simples, intenso e frenético, mas fácil de ser feito por trabalhadores não qualificados, por exemplo, migrantes que vieram de regiões rurais desempregados. Na época em que foi implantado e generalizado, nos anos 1930-1950, muitos acreditaram no fim absoluto da luta de classes enquanto força capaz de transformar radicalmente a sociedade (era o que pregava Marcuse, por exemplo), principalmente no pós-guerra, quando a Europa e os EUA viviam o maior período de prosperidade da história da sociedade capitalista, em que, graças a acordos de produtividade (entre sindicatos e patrões sob a chancela do Estado, atrelando o aumento dos lucros e o aumento dos salários, conforme a política keynesiana), tudo parecia neutralizar e prevenir qualquer radicalização dos trabalhadores ao integrá-los na "sociedade de consumo".
Porém, essa simplificação e homogeneização acarretada pelo fordismo teve o efeito colateral de os trabalhadores, pouco a pouco, desde suas lutas iniciais muito tímidas, irem percebendo que suas condições eram as mesmas por toda parte, se solidarizando não mais como capital variável qualificado que tem interesses corporativos frente a outros trabalhadores (como era antes do fordismo e como era a estrutura "trabalhista" que foi herdada das lutas desses antigos trabalhadores qualificados que se orgulhavam de seu trabalho que ainda era bastante artesanal), mas se solidarizando enquanto proletários, ou seja, com qualquer explorado, inclusive desempregados, todos desqualificados que viam e viviam o trabalho como negação da vida e da individualidade, como transformação do ser humano em máquina, em objeto nas linhas de montagem. Essa situação culminou em maio de 1968, com a prática, que se tornou corriqueira, de "recusa do trabalho", o absenteísmo, a sabotagem, e a exigência, nos momentos mais radicalizados, de "abolição do trabalho" [2] (obs.: nos anos 1990, o grupo Krisis, com seu "Manifesto contra o trabalho", chegou 30 anos atrasado quanto a essa questão, com o agravante de silenciar e não fazer referência ao fato de ela ter surgido graças à luta autônoma dos proletários 30 anos antes, ou seja, de propagar a ignorância).
Buscando minar as bases desse movimento de recusa e desprezo pelo trabalho que tinha culminado em maio de 68 e que perdurou por alguns anos, em que ocorreu uma crise de lucratividade que marcou o fim dos "anos dourados" do pós-guerra, o capital foi pouco a pouco abandonando o fordismo e adotando e generalizando uma variação de toiotismo, isto é, terceirização dos trabalhadores de modo a isolá-los, dispersá-los e hierarquizá-los, no processo produtivo, em inúmeras camadas subterceirizadas com salários extremamente variados e condições diferentes, o que minou a solidariedade deles.
Porém, a história certamente ainda não acabou. A tendência de homogeneização e simplificação do trabalho faz parte de uma necessidade inescapável do capital, que não pode existir sem buscar desqualificar ao máximo, tornando facilmente intercambiável a força de trabalho, para cortar o máximo de custos com ela (i.e., para pagar o menor salário possível), de modo que, como efeito colateral, há sempre a tendência correspondente de os trabalhadores, junto com os desempregados, se encontrarem como iguais, constituindo-se como proletariado que busca se auto-abolir, e portanto abolir o capital, afirmando a comunidade humana mundial, o comunismo.
Talvez essa tendência de homogeneização e simplificação do trabalho (que se vê hoje levada ao extremo em "aplicativos" como o Uber e, agora, a "uberização" de cada vez mais trabalhos, inclusive de profissões que antes se viam como protegidas do ataque capitalista, até as mais esnobes, como os acadêmicos e os engenheiros) seja o verdadeiro pressuposto não só da fraternização global da classe, mas também, no momento em que essa fraternização conseguir se estender, intensificar sua potência e derrotar o capital por toda parte, o pressuposto para simultaneamente suprimir a divisão do trabalho (já que tende a fazer com que qualquer um consiga operar qualquer maquinismo) e, consequentemente, o pressuposto da abolição do trabalho em si, por uma livre associação dos indivíduos em escala mundial, na qual qualquer um tem livre acesso às forças produtivas mundiais conforme as suas necessidades (e a partir disso, é claro, transformando todos os meios de produção herdados da sociedade capitalista, que foram feitos sob medida pela ditadura do dinheiro e do lucro, para que sejam submetidos às necessidades, desejos e capacidades humanas como fins em si).
humanaesfera, maio de 2018
NOTAS:
[1] Em Paris, o momento chave da derrota e do prolongamento arrastado que se seguiu foi testemunhado in loco por Fredy Perlman enquanto estava acontecendo:
"[...]Na Sorbonne, no Censier, em Nanterre, e em outros lugares, a universidade foi proclamada uma propriedade social; os prédios ocupados tornaram-se ex-universidades. Os prédios foram abertos para toda a sociedade - estudantes, professores, trabalhadores - para qualquer um que desejasse ir lá. Além do mais, as ex-universidades foram geridas pelos seus ocupantes, fossem eles estudantes ou não, trabalhadores, camponeses. No Censier, de fato, a maioria dos ocupantes não era “estudante”. Essa socialização foi acompanhada por uma ruptura da divisão do trabalho, da divisão entre “trabalhadores” e “intelectuais”. Em outras palavras, a ocupação representou a abolição da universidade como uma instituição especializada restrita a um segmento específico da sociedade (estudantes). A ex-universidade se tornou socializada, pública, aberta a todos.
As assembleias gerais nas universidades foram momentos de auto-organização pelas pessoas dentro de um prédio específico, independente de suas especializações anteriores. Elas não foram momentos de auto-organização a respeito de “seus próprios” assuntos.
Entretanto, isso foi o mais longe que a “escalada” foi. Quando as pessoas que organizavam as atividades dentro da universidade ocupada foram “aos trabalhadores”, fosse nas barricadas ou nas fábricas, e quando eles disseram para os “trabalhadores”: VOCÊS devem tomar SUAS fábricas”, eles mostravam uma completa falta de entendimento sobre o que eles já estavam fazendo nas ex-universidades.
Nas ex-universidades, a divisão entre “estudantes” e “trabalhadores” foi abolida na ação, na prática cotidiana dos ocupantes; não havia mais “tarefas de estudantes” e “tarefas de trabalhadores”. Entretanto, a ação foi mais longe que a consciência. Ao ir aos “trabalhadores” as pessoas viam os trabalhadores como um setor especializado da sociedade, eles aceitaram a divisão de trabalho.
A escalada foi tão longe a ponto da formação de assembleias gerais de seções da população dentro das universidades ocupadas. Esses ocupantes organizaram suas próprias atividades.
Entretanto, as pessoas que “socializaram” as universidades não viram as fábricas como meios SOCIAIS de produção; elas não perceberam que essas fábricas não foram criadas pelos trabalhadores empregados lá, mas por gerações de trabalhadores.Tudo que eles viram, dado que isso é visível na superfície, é que os capitalistas não fazem a produção mas os trabalhadores fazem. Mas isso é uma ilusão. A Renault, por exemplo, não é em nenhum sentido um “produto” dos trabalhadores empregados na Renault, ele é um produto de gerações de trabalhadores (não apenas na França), incluindo mineiros, produtores de máquinas, produtores de comida, pesquisadores, engenheiros. Pensar que as fábricas automobilísticas da Renault “pertencem” às pessoas que hoje trabalham lá é uma ilusão. Porém, essa ficção foi aceita por pessoas que rejeitaram a especialização e a “propriedade” nas universidades ocupadas.
Os “revolucionários” que transformaram as universidades em espaços públicos, e consequentemente em propriedade de ninguém, não estavam conscientes do caráter SOCIAL das fábricas. O que eles contestaram foi o “sujeito” que controlava a propriedade, o “proprietário”. A concepção dos “revolucionários” era que “os trabalhadores da Renault devem gerir as fábricas ao invés dos burocratas do estado; os trabalhadores da Citroen devem gerir a Citroen no lugar dos proprietários capitalistas”. Em outras palavras, as propriedades privada e estatal devem ser transformadas em propriedade do grupo: a Citroen deve se tornar uma propriedade dos trabalhadores empregados na Citroen. E visto que essa “corporação” de trabalhadores não existe no vácuo, ela deve estabelecer maquinarias para se ligar a outras corporações, “externas”, de trabalhadores. Consequentemente, eles devem estabelecer uma administração, uma burocracia, que “representa” os trabalhadores de uma fábrica particular. Um elemento dessa concepção corporativista foi afetado pelo “modelo” das universidades ocupadas.Tão logo o sindicato estudantil foi rejeitado como o “porta-voz” dos estudantes que ocuparam a universidade, o sindicato tradicional (A Confederação Geral do Trabalho) foi rejeitado como o “porta-voz” dos trabalhadores incorporados: ”os trabalhadores devem ser representados não pela CGT; eles devem ser representados por eles mesmos,” quer dizer, por uma nova burocracia eleita democraticamente.
Assim, mesmo na perspectiva dos ocupantes da universidade, as fábricas não deveriam ser socializadas. Desse modo, as “assembleias Gerais” dentro das fábricas não possuíam o mesmo significado que nas universidades. As fábricas deveriam se tornar uma propriedade de grupo, como as empresas iugoslavas. Tais empresas não são socialmente controladas; elas são geridas por burocracias dentro de cada empresa.
[...]
A ideia de que “os meios de produção pertencem aos trabalhadores” foi traduzida como significando que os trabalhadores são donos da fábrica em particular na qual eles trabalham. Essa é uma vulgarização extrema. Tal interpretação implicaria que a atividade particular à qual a luta pelo salário condenou alguém na sociedade capitalista é a atividade a que esse alguém estaria condenado quando a sociedade é transformada. E se alguém que trabalha nas fábricas de automóveis quisesse pintar, plantar, voar ou fazer pesquisa no lugar de produzir numa linha de montagem de carros? Uma revolução deveria significar que os trabalhadores, a partir desse momento, poderiam ir a toda a sociedade, e é duvidoso que muitos deles retornassem para a fábrica de carro particular que o capitalismo os tinha condenado a trabalhar."(Fredy Pelrman, Comitês de ação dos trabalhadores e estudantes. França, maio de 68 - Parte 2. Avaliação e Crítica. Limites da escalada).
[2] Ver, por exemplo: A recusa do trabalho - Comitato Operaio di Porto Marghera
BIBLIOGRAFIA
Link com várias referências: Referências Bibliográficas - Maio de 68 - Francês
Dossiê com vários textos: MISCELÂNEA: 1968 & depois...
Sobre a Internacional Situacionista, o movimento radical mais avançado naqueles anos, ver:
DOSSIÊ: INTERNACIONAL SITUACIONISTA
Sobre os efeitos de Maio de 1968 e a reação contra ele (cultural, produtiva, social, subjetiva, etc.), reação que perdura até hoje, ver:
Os estilhaços do capital – Eric Alliez e Michel Feher
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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017
Dois textos contra o trabalho
Reproduzimos abaixo dois textos interessantíssimos, Contra o trabalho (1979) e Atividade humana contra o trabalho (1982), que também podem ser encontrados, respectivamente, neste link e neste link.
[Texto ogininalmente publicado em 1979 pelo Grupo Comunista Internacionalista. Foi publicado em português em KAOS #0, 06/1997 (boletim aperiódico e experimental do Grupo Autonomia), onde apresentava o seguinte cabeçalho:
Por que trabalhamos? A resposta não é tão fácil quanto parece. Sem um longo processo de sujeição física e psíquica, de opressão cotidianizada, de educastração ou internalização de valores morais sexualmente repressivos e enunciados racionalizadores (do sacrifício, da culpa, do dever, da renúncia...), dificilmente alguém trabalharia.
O significado da palavra trabalho remonta à sua origem latina: tripalium (três paus) - instrumento utilizado para subjugar os animais e forçar os escravos a aumentar a produção. O tripalium era, pois, um instrumento de tortura, algo semelhante à cruz que o rebanho cristão adotou como objeto-símbolo de um culto masoquista.
Antes de adquirir o significado moderno – isto é: urbano, industrial e capitalista – a palavra trabalho designava atividades estafantes, insalubres e penosas. Hoje, seu significado é mais extenso e difuso. O que caracteriza o trabalho é justamente o fato de se tornar cada vez mais abstrato, pois já não se refere a essa ou aquela atividade, mas à atividade e ao esforço em si mesmos. Já não plantamos, tecemos ou pastoreamos, tampouco operamos um equipamento; simplesmente, trabalhamos. Iniciando uma discussão que consideramos das mais fecundas e relevantes, transcrevemos abaixo um trecho das Tesis de Orientación Programática, do Grupo Comunista Internacionalista, da Bélgica.]
TESE 40:
"O trabalho é a negação da vida, da alegria e do prazer humano. O trabalho faz do homem um estranho para si mesmo, alienado da humanidade como um todo. O trabalho é a atividade humana subjugada às necessidades da classe dominante, que se apropria do sobreproduto obtido mediante a exploração das outras classes.
O capitalismo, ao separar os explorados de seus meios de vida e de produção, impôs a escravidão assalariada por toda a parte, reduzindo o homem à condição de trabalhador.
No trabalho, o proletário se vê completamente despojado de seu produto, alienado, negado em sua essência, em sua vida, em seus desejos... Além de desperdiçar seu suor, seu sangue e sua vida, numa atividade cujo absurdo só é menor do que o embrutecimento que acarreta, o trabalhador é separado dos demais homens, separado da espécie humana.
Somente na luta contra o trabalho, contra a atividade que estão forçados a executar e contra aqueles que os forçam, os proletários se reapropriam de sua condição humana. Com a generalização desta luta e a conseqüente negação da sociedade atual, avançam no sentido de uma sociedade comunista, na qual toda atividade humana estará voltada para a satisfação das necessidades humanas."
TESE 40A:
"Todas as ideologias do capital fazem a apologia do trabalho, como a atividade mais importante, à qual tudo se subordina, a atividade essencial do homem. O homem é considerado não como tal, mas ´pelo que faz na vida`, o que, na sociedade capitalista, quer dizer ´profissão`, ´trabalho`. Tais ideologias se baseiam no sacrifício, na renúncia, na interiorização das emoções e dos sentimentos...
Ao trabalho corresponde o sacrifício e a este, a religião (incluída a religião capitalista de estado, do marxismo-leninismo), como tentativa de justificar a repressão dos desejos e prazeres humanos, para a maior glória da burguesia.
Os sacerdotes e mandarins de todas as ideologias - entre os quais a esquerda do capital, que enaltece as mãos calosas do proletariado e se vangloria da miséria alheia - oferecem dogmas e ilusões para todos os gostos, propondo ´uma sociedade futura`, onde - após a morte, certamente - os proletários terão a recompensa pelos sacrifícios e renúncias que fizeram, a partir do momento em que aceitaram a mais desigual das trocas: a troca da vida pela sobrevivência ."
[Texto originalmente publicado em 1982 na revista Le Communiste número 14 (do Grupo Comunista Internacionalista). Foi publicado em português em KAOS #2, 04/1998 (boletim aperiódico e experimental do Grupo Autonomia), onde apresentava o seguinte cabeçalho:
O texto abaixo, de autoria dos companheiros do GCI - Grupo Comunista Internacionalista (*), foi-nos enviado já traduzido, com a solicitação de que o divulgássemos, após os necessários procedimentos de revisão e resumo/adaptação. O tema é da maior relevância, na atual situação de ofensiva do capital contra as condições de vida dos operários e demais trabalhadores. Aliás, cabe lembrar que a palavra "trabalho" tem origem no vocábulo latino trepalium (literalmente, três paus), que designava um instrumento de tortura utilizado para subjugar os animais rebeldes à domesticação. Sugestivamente, o termo "labor" significava sofrimento, antes de se tornar sinônimo de trabalho... (*) Por motivos óbvios, recomendamos não escrever GCI no envelope.
BP 54 St. Gilles, 3
1060 BRUXELES – BELGIQUE]
BP 54 St. Gilles, 3
1060 BRUXELES – BELGIQUE]
"Não se trata de libertar o trabalho, mas de suprimi-lo". (Karl Marx)
I. A palavra "trabalho" é a denominação burguesa para "atividade humana".
Na sociedade capitalista, a linguagem, como qualquer esfera da vida, é determinada pelo capital. É, fundamentalmente, a linguagem da classe dominante, a linguagem burguesa, que pode ser definida como o domínio da ideologia burguesa exercendo-se na comunicação. Assim, o modo de comunicação vigente impõe-nos seus limites. Como não se trata de inventar uma linguagem que só poderia basear-se numa nova compreensão das relações humanas, vemo-nos continuamente obrigados a desmascarar e redefinir as palavras.
A palavra "trabalho" é o exemplo mais cabal e quase perfeito da falsificação das consciências humanas. O homem sempre se expressou através de sua atividade vital (o que é a vida, senão atividade?), visando à satisfação de suas necessidades. Contudo, o sistema mercantil vai reduzir e aviltar essa atividade, subjugando-a sob a forma denominada "trabalho". O capital universalizará essa forma de exploração, vinculando-a ao salário. Atualmente, essa é a única possibilidade de sobrevivência para a maioria das pessoas, a única maneira de existir do proletariado. Assim, o trabalho tornou-se a atividade central do homem.
A ideologia burguesa confunde propositalmente a essência do homem com a sua alienação, o trabalho. A palavra "trabalho", que designa uma forma muito particular de atividade humana, soa hoje aos ouvidos como um sinônimo de "atividade", visto que, para a maioria dos homens, o trabalho chegou a ser a totalidade de suas atividades. Logo, atuar significa "trabalhar" e ser ativo entende-se como ser "trabalhador". A hipocrisia e o cinismo da linguagem burguesa culminam em expressões tais como "fazer trabalhar o dinheiro", imagem de uma riqueza hermafrodita, reproduzindo-se por si própria, como se por trás do dinheiro não se encontrassem os braços, o suor e o sangue daqueles de quem é extorquida a mais-valia, fonte de enriquecimento dos capitalistas.
Portanto, a palavra trabalho denomina uma forma determinada de atividade humana, intrinsecamente ligada ao sistema mercantil. É preciso entender o trabalho como atividade humana estranha ao homem, à manifestação de sua vida e à consciência que ele tem dela. O trabalho é a escravidão assalariada, a redução do homem à lamentável condição de trabalhador.
II. "O trabalho é o ato de alienação da atividade humana prática." - (Marx - Manuscritos Econômicos e Filosóficos de 1844)
O trabalho é a expressão alienada da atividade humana; a manifestação da vida como estranhamento e perda da vida. O caráter alienado do trabalho aparece de diferentes maneiras. Em primeiro lugar, através do objeto produzido. Este, de fato, não pertence ao proletário. Obrigado a vender a única mercadoria que lhe pertence, sua força de trabalho, e a alienar sua atividade na mercadoria que produz, o proletário constata que sua vida não lhe pertence mais. O estranhamento de si no e através do trabalho decorre, pois, da necessidade, para o proletário, de vender sua força de trabalho para produzir uma mercadoria que lhe é totalmente estranha.
O trabalhador não encontra qualquer satisfação no resultado do seu trabalho. Mesmo quando o objeto criado é de seu interesse imediato, o trabalhador não pode utilizá-lo. O absurdo de tal situação aparece, em toda a sua cruel dimensão, no seguinte exemplo. Um grupo de operários trabalha numa fábrica, cuja temperatura ambiente é superior a 35 graus. Esses operários sufocam de calor, enquanto produzem aparelhos de ar condicionado e ventiladores...
O proletário não se aliena somente no produto de sua atividade, mas em sua própria atividade. Sua atividade produtiva já não lhe pertence. De fato, o trabalho é exterior ao trabalhador, mas sendo a única atividade que lhe permite obter seus meios de sobrevivência no sistema capitalista, ele se vê obrigado a exercê-la. O trabalho é, pois, a atividade não-livre no mais alto grau. Escravidão assalariada, o trabalho só pode ser constrangido e forçado. "O caráter alienado do trabalho aparece claramente no fato de que, desde que não exista um constrangimento físico ou qualquer outro, fugimos dele como se fosse a peste." (Marx - Manuscritos)
No trabalho, o indivíduo não se afirma, se nega. Da mesma maneira que investe a sua vida no objeto, o proletário abandona sua existência à atividade de produção desse objeto. "Se o produto do trabalho é a alienação, o próprio trabalho deve ser alienação em ato... A alienação do objeto do trabalho não é mais que o resumo da alienação, o estranhamento de si, dentro da própria atividade do trabalho." (Marx - Idem)
O trabalho, atividade produtiva submetida ao capital, torna-se, para o proletário, atividade passiva, força impotente. Perda de si e do objeto, o trabalho acarreta ainda a perda do outro. O trabalho torna o homem estranho ao próprio homem, separa a vida individual da vida da espécie humana.
O que distingue o homem do animal é que o animal se identifica totalmente com a sua atividade vital. Ele "é" essa atividade. O homem faz de sua atividade o objeto de sua vontade e de sua consciência. Quando a atividade vital do homem se aliena, no sistema mercantil, o produtor é reduzido à condição de trabalhador. Ou seja, é obrigado a fazer de sua atividade consciente um simples meio de subsistência, um meio de existir, um trabalho.
A atividade vital deveria ser a livre expressão do homem; a produção pelo homem de um mundo objetivo, no qual ele poderia contemplar-se e se reconhecer. Mas essa produção de sua vida genérica ativa, uma vez subjugada ao capital e reduzida a trabalho, aliena a atividade vital do homem na produção de mercadorias. A atividade vital do homem se degrada a meio de sobrevivência. "O que é verdade, a respeito da relação do homem com o seu trabalho, o produto de seu trabalho e a si próprio, é verdade também a respeito da relação do homem com o outro homem, assim como ao trabalho e ao objeto do trabalho do outro homem." (Marx - Idem)
Sob o domínio do capital, a consciência do gênero humano, a consciência da espécie, isto é, de si e do outro, é aniquilada. Quando ocorrem, as manifestações de solidariedade proletária nada mais são do que um vestígio da consciência genérica do homem que compreende que os seus próprios interesses coincidem com os interesses da comunidade humana; consciência de um ser humano genérico, que somente pode entender a livre satisfação de suas necessidades e desejos como desfrute coletivo.
III. A abolição do trabalho encontra sua forma política na emancipação do proletariado.
Acabamos de ver que o ser humano, alienado pelo trabalho, não se pertence mais. Mas se não se pertence mais, deve pertencer a outro. Se a atividade humana tornou-se um tormento para o operário, é necessariamente em proveito de outro. Através do trabalho, o proletário não só (re)produz uma relação estranha com o seu produto, mas também a dominação dos que não produzem, dominação que se exerce sobre o produto, sobre a atividade produtiva e sobre o produtor. Nada justifica que a atividade humana seja alienada que se transforme em trabalho, a não ser o interesse da classe dominante. O proveito que tira a burguesia de sua dominação impede-lhe de ver mais além de seus próprios interesses de classe. A classe social que libertará a humanidade do trabalho só pode ser aquela que mais sofre com os seus maléficos efeitos. A emancipação universal do homem depende da emancipação do proletariado, porque esta classe concentra, na sua relação com o trabalho, toda a opressão do homem.
Ao proletariado, auto-organizado em classe e portanto em partido, cabe a tarefa histórica de libertar a humanidade do trabalho. E de solucionar, de uma vez por todas, os antagonismos entre o homem e a natureza, entre a sua atividade e o seu desfrute, entre sujeito e objeto, entre o indivíduo e a espécie humana.
IV. Abaixo o trabalho !
Agora talvez se possa ver mais claramente em porque as exigências sindicalistas e esquerdistas de "direito ao trabalho" e "garantia do emprego" são eminentemente reacionárias. Os proletários sabem que, no capitalismo, o trabalho é a sua única maneira de subsistir e que, neste sentido, não trabalhar é estar condenado à mendicância, à delinqüência ou à morte pela fome. Portanto, a exigência de emprego, feita pelo operário, é a exigência de alimentação, vestuário e outros bens necessários para ele e sua família. Mas reivindicar trabalho para todos dentro do sistema burguês é fazer crer que isto é possível; é negar o caráter catastrófico do capitalismo, sua incapacidade de abolir o desemprego que ele próprio cria.
Nós, comunistas internacionalistas, afirmamos que a reivindicação de trabalho para todos é utópica, baseados no fato de que, se o capital não criou emprego para todos e a nível mundial em tempos de prosperidade, seria tolice imaginar que possa fazê-lo em plena crise. A reivindicação é reacionária, porque corresponde a uma visão idealizada do sistema capitalista e ignora a natureza contraditória do capital, cuja ditadura é a da riqueza que cria miséria. Ideólogos do capital, os economistas e outros defensores do trabalho alheio tentam explicar que o trabalho é necessário porque "confundem" produção de mercadorias e riqueza social. É, pois, hipocrisia das mais sórdidas apresentar o trabalho como a única fonte de riqueza. O trabalho, no sentido de atividade alienada, é a perda do homem. "Eu digo que o trabalho, não só nas condições presentes, mas em geral, na medida em que seu objetivo é o simples aumento da riqueza, é prejudicial e funesto." (Marx - Manuscritos de 1844)
Em vez da exigência reacionária: "um salário justo para um dia de trabalho justo", Marx nos propõe a consigna revolucionária: "Abolição do sistema salarial". Da mesma maneira, desmascarando o oportunismo das reivindicações de "trabalho para todos", contrapomos a palavra de ordem do programa comunista: "Abaixo o trabalho!"
V. Trabalho, lazer e comunismo.
"Em todas as revoluções anteriores, o modo de produção não se alterava. Tratava-se, apenas, de uma nova divisão do trabalho. A revolução comunista, pelo contrário, é dirigida contra o modo de produção anterior, ela suprime o trabalho e a dominação de classes, suprimindo as próprias classes." (Marx - Manuscritos de 1844)
O comunismo destrói o modo de atividade específico ao sistema capitalista: o trabalho, essência da propriedade privada. Ao mesmo tempo que suprime o trabalho, suprime a organização do lazer como complemento indispensável ao trabalho alienado.
O lazer nada mais é do que o tempo que o capitalista concede ao proletário para que este reconstitua sua força de trabalho, além de ter como função aliviar a frustração acumulada durante a jornada de trabalho. O lazer não corresponde a tempo livre, uma vez que só se trata, para o capital, de que o proletário retorne ao posto de trabalho, em boas condições de saúde. O capital opõe tempo de trabalho e tempo de lazer; separa as duas atividades e, no entanto, torna-as complementares. A escola já inculca essa separação na mente do futuro trabalhador: "Vocês estão aqui para trabalhar e para brincar, mas nunca façam as duas coisas ao mesmo tempo!".
Mas a atividade humana é uma totalidade. Neste sentido, a sociedade comunista não tem nada a ver com uma sociedade de lazeres, mera idealização do pólo "positivo" do sistema capitalista. À separação trabalho/lazer, o comunismo contrapõe a atividade vital que é o desfrute, o desfrute que é a atividade vital. "A atividade e o desfrute, tanto pelo seu conteúdo quanto pela sua origem, são sociais: atividade social e desfrute social." (Marx - Manuscritos de 1844)
O comunismo suprime a oposição entre tempo de trabalho e tempo de lazer, entre produção e aprendizagem, entre o que é vivido e experimentado. Isto não é de modo algum uma antecipação idílica, uma visão rósea do futuro, mas a expressão do próprio movimento da história mundial. Longe de ser casual, este movimento é o resultado do desenvolvimento das forças produtivas, que torna mais atuais do que nunca a possibilidade e a necessidade do comunismo.
A abolição do trabalho como atividade humana alienada é um ponto essencial do programa comunista, que o proletariado cumprirá ao abolir-se com a supressão de todas classes. Às quarenta (ou mais) horas semanais de trabalho, à tortura de acordar cedo, à angustiante busca de emprego, à sorridente hipocrisia dos gestores do capital que demitem sem contemplações, às cotidianas idas e vindas (do trabalho para casa, e vice-versa) de pé e comprimido nos meios de transporte de massas, ao embrutecimento das horas "livres", aos ritmos de trabalho infernais, aos "acidentes" de trabalho, à propriedade privada, à exploração do homem pelo homem; enfim, ao capital, contraporemos a nossa força e o nosso saber na construção de uma sociedade sem trabalho, uma sociedade comunista que garanta a livre disposição do tempo enquanto desenvolvimento da atividade humana.
"Se a atividade produtiva livre é o maior prazer que conhecemos, o trabalho é a tortura a mais cruel, a mais degradante. Nada é mais terrível do que fazer, o dia todo, uma coisa que nos repugna. Quanto mais sentimentos humanos tem um proletário, tanto mais detestará o seu trabalho, porque sofre com a opressão e a inutilidade que o trabalho representa para ele."
Engels, Friedrich - A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra, 1845.
Engels, Friedrich - A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra, 1845.
Veja também:
A recusa do trabalho (Comitato Operaio di Porto Marghera, 1970)
Abolição do trabalho e a questão do circuito produtivo global no comunismo (Joseph Kay / Libcom, 2008)
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