sábado, 27 de janeiro de 2018

A armadilha do sindicalismo


Trechos do texto de Libcom "Sindicatos: uma introdução"


"[...]Os sindicatos, seja qual for o tamanho, têm empregados remunerados, e são organizados como uma empresa. Há os diretores que ganham altos salários, os gerentes intermediários que aplicam as decisões do topo e uma progressão de carreira em partidos políticos socialdemocratas, think-tanks e ministérios governamentais.

No cotidiano dos locais de trabalho, os sindicatos são geridos por trabalhadores que se voluntariam como representantes, muitas vezes sofrendo realmente um custo pessoal com isso. Porém, os filiados ao sindicato e seus representantes no local de trabalho também podem entrar em conflito com a burocracia empregada pelo sindicato.

Isso porque a base sindical tem interesses diferentes dos das pessoas que trabalham para e dirigem o sindicato. Os líderes sindicais precisam colocar as necessidades do sindicato, enquanto entidade legal, acima das necessidades dos trabalhadores que estão lutando por seus próprios interesses. Porque seus empregos e cargos políticos dependem de continuar existindo essa entidade legal. Assim, apoiar qualquer ação que cause problemas para o sindicato – por exemplo, greves sem aviso – jamais será algo defendido pelos dirigentes sindicais.

Mesmo no nível regional e local, os empregados do sindicato não compartilham os mesmos interesses dos trabalhadores filiados ao sindicato.  Isso não tem a ver com suas ideias ou intenções (muitos empregados do sindicato são ex-representantes sindicais nos locais de trabalhos que querem ajudar os trabalhadores a se organizarem além de seus locais de trabalho), mas com seus interesses materiais. Para um trabalhador, ganhar significa conseguir um salário maior, mais tempos de descanso e benefícios melhores.  Já para um empregado do sindicato, ganhar significa conseguir um posto na mesa de negociações com a direção, e que os trabalhadores continuem pagando a taxa de filiação ao sindicato.
[...]

Uma coisa que muitos membros radicais e de esquerda dos sindicatos argumentam com frequência é “retome os sindicatos” ou, às vezes, criar novos sindicatos sem burocratas. A questão é que os sindicatos não funcionam tal como funcionam por causa dos burocratas; pelo contrário, os burocratas é que são produtos do modo como os sindicatos funcionam (ou querem funcionar) no local de trabalho.

O papel do sindicato é paradoxal: no fim, eles precisam se vender duplamente, para dois grupos com interesses opostos (os patrões e os trabalhadores).

Para se venderem a nós, eles precisam mostrar que há benefícios em ser filiado ao sindicato. Isso às vezes significa que eles podem nos ajudar a agir para forçar que a direção mantenha ou melhore nossas condições, sobretudo se eles estão buscando ganhar reconhecimento pela primeira vez em um local de trabalho.

Ao conseguir que nos filiemos, eles mostram para a direção que eles são os principais representantes da força de trabalho. Mas ao mesmo tempo, eles têm que demonstrar que são interlocutores responsáveis nas negociações.

A direção necessita saber que, uma vez alcançado o acordo, o sindicato conseguirá fazer os trabalhadores voltarem ao trabalho. De outro modo, por que a direção faria qualquer acordo com um parceiro de negociação que não pudesse honrar os acordos que negocia?

É devido a esse desejo de ser reconhecido como um parceiro de negociação que os sindicatos acabam agindo contra seus próprios filiados.  O objetivo é provar à direção da empresa que eles controlam seus filiados.  [...]

Assim, quando os sindicatos “nos traem” não é que “não estejam fazendo o seu trabalho corretamente”. Pode ser que eles estejam fazendo um lado de seu trabalho (o nosso, o de defender nossos interesses) muito mal, enquanto fazem o outro lado realmente muito bem! Afinal, eles precisam ser capazes de controlar nossas lutas para representá-las. E é por isso  que os esforços da assim chamada “esquerda revolucionária” nos passados 100 anos para “radicalizar” os sindicatos, elegendo os delegados certos e tomando resoluções “corretas”, terminaram num beco sem saída. De fato, no lugar de terem radicalizado os sindicatos, são as estruturas sindicais que desradicalizaram frequentemente os revolucionários!
[...]
Quando surgem conflitos trabalhistas, os trabalhadores não sindicalizados não se sentem capazes de fazer muito, enquanto que mesmo os que fazem greve podem se sentir como se a greve oficial fosse um ritual: a direção faz uma proposta terrível, o sindicato se diz “ultrajado” e convoca uma greve de um dia (ou de alguns dias), as negociações são reiniciadas e a greve é  suspensa, a direção volta com uma proposta ligeiramente menos terrível e os líderes sindicais declaram vitória e recomendam aos trabalhadores que a aceitem.

Porém, nem sempre as coisas acontecem assim. O que importa – quer sejamos sindicalizados ou não – é irmos além dos limites impostos pelos sindicatos oficiais e pelas restritivas leis trabalhistas. Ao invés de votar em representantes diferentes ou aprovar resoluções em bolorentas reuniões sindicais, precisamos nos organizar com nossos companheiros de trabalho, para quebrar suas regras e respeitar as nossas:

-As reuniões nos locais de trabalho devem ser abertas para todos os trabalhadores, independentemente do tipo de trabalho que façam, de qual seu sindicato (se algum) ou que tipo de contrato de trabalho eles tem.

-Precisamos respeitar os piquetes uns dos outros. Muitas vezes, os trabalhadores entram em greve para logo verem seus companheiros de outros sindicatos indo ao trabalho. Isso faz com que nossas greves se enfraqueçam, e apenas se atuamos juntos poderemos fechar nossos locais de trabalho e derrotar nossos patrões. Por exemplo, os motoristas de caminhão tanque da Shell conseguiram um aumento salarial acima da inflação em 2008 quando os motoristas de outras empresas se recusaram a romper os piquetes. No mesmo ano, os sindicatos NUT e Unison romperam os piquetes uns dos outros no setor educativo e nenhum conseguiu concessões significativas.

-Confiamos na ação direta e na força coletiva para conseguir o que queremos, quer isso seja coberto pelas leis trabalhistas ou não. Em 2008, em Brighton, os lixeiros responderam às ameaças da direção, ganhando depois de apenas dois dias de greve selvagem. Uma outra greve selvagem nesse mesmo ano confirmou sua disposição a fazer greves, com ou sem apoio de sindicatos oficiais. Assim, em 2009, quando a direção tentou reduzir seus salários em até 8000 libras (um corte de cerca de 25.000 reais por ano para cada trabalhador), eles forçaram a direção a retirar sua decisão após apenas dois de uma greve oficial que durou uma semana.

-As greves devem se difundir. Com frequência, os problemas não afetam só um local de trabalho, mas ramos inteiros e inclusive outros ramos. Nós precisamos criar comunicação entre os nossos diversos locais de trabalho para que consigamos nos apoiar mutuamente. Em 2009, quando a companhia petrolífera Total tentou demitir 51 trabalhadores, todo mundo saiu para os apoiar.  A Total respondeu demitindo 600 trabalhadores por essa ação não oficial. Porém, as greves se espalharam por toda indústria energética e, em apenas quinze dias, todo mundo conseguiu seus empregos de volta.

- A solidariedade precisa ser tão internacional como os nossos empregadores. Ao invés de culpar imigrantes de tomarem nossos empregos ou de abaixarem nossos salários, ou culpar trabalhadores estrangeiros quando as fábricas são deslocadas para outros países, nós devemos apoiar os trabalhadores migrantes e os trabalhadores em outros países que estão lutando para melhorar seus salários e suas condições de vida. Isso não apenas vai beneficiá-los diretamente, mas também significa que eles não mais poderão ser usados pelos empregadores para reduzir os salários dos trabalhadores daqui.

Essas ideias não são novas. São coisas que os trabalhadores – com ou sem sindicatos – tem feito por toda história e, quando fazem assim, eles com frequência entram em conflito não apenas com os patrões, mas também com a burocracia sindical.

CONCLUSÃO
Muitas vezes vemos os sindicatos como uma estrutura organizativa que nos dá força. E, certamente, isso é parcialmente verdade. O que nem sempre reconhecemos (ou nem sempre agimos conforme) é que a força que um sindicato nos dá é na verdade a nossa própria força canalizada através da – e portanto limitada pela – estrutura sindical.

É apenas se reconhecermos isso e tomarmos a luta em nossas mãos – ignorando as divisões dos sindicatos e não rompendo os piquetes uns dos outros, e não esperando por nosso sindicato antes de agirmos, tomando ações sem esperar autorização, tais como ocupações, operações tartaruga e sabotagem – é apenas assim que podemos de fato aproveitar nossa força e começar a vencer."

Link para o texto completo: "Sindicatos: uma introdução".


segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Bordiga versus Pannekoek - Antagonism


Traduzimos o texto Bordiga versus Pannekoek , escrito por um coletivo anônimo e publicado por Antagonism Press. O texto completo está neste link

Abaixo, alguns trechos:


"[...] Atualmente, como na maioria dos períodos históricos, somente uma pequena minoria está ativamente envolvida na oposição ao capitalismo de um modo revolucionário. Quer se definam como “movimento”, “organização”, “partido” ou até mesmo rejeitem qualquer organização formal, a questão de como uma minoria radicalizada se relaciona com o resto do proletariado é crucial.

[...] Estas questões permanecem importantes, e controversas. Elas foram abordadas por todas as tendências radicais de uma maneira ou de outra, mesmo que tangencialmente. É o caso inclusive das tendências que rejeitam o conceito de partido revolucionário. Por exemplo, muitos anarquistas de luta de classes tentam resolver o problema designando seu partido “a organização revolucionária”, presumindo que, mudando de nome, exorcizam a besta. Daí em diante, eles podem confundir sua própria organização com a organização da classe. As esquerdas comunistas italiana e alemã tratam dessas questões diretamente, mas cada uma a seu próprio modo.
[...]
A obra de Bordiga e da esquerda italiana pode ser considerada, ao menos em certa medida, como representando um dos polos de um contínuo dialético dentro do movimento comunista. O comunismo teórico e organizado baseia suas ideias e práticas no movimento real do proletariado na sua luta antagônica contra o capital. O comunismo teórico é uma tentativa de destilação das lições aprendidas na luta proletária. No entanto, há uma constante contradição nesse esforço. O estudo das lições das lutas passadas tende a uma teoria cada vez mais coerente que se manifesta como um programa baseado em princípios. Mas a adesão a esse programa necessariamente significa manter uma atitude crítica frente às lutas proletárias. Como resultado, os comunistas que se baseiam em princípios tendem a se tornar cada vez mais distantes das lutas reais dos proletários. O “bordiguismo”, em algumas de suas manifestações, como movimento fundamentado em um programa “invariante”, é um dos exemplos mais puros desse polo.

Pannekoek e a esquerda alemã/holandesa aparecem no polo oposto dessa dialética, assim como movimentos como o “autonomismo”. Essas tendências tentam manter sua teoria em contato com as últimas lutas do proletariado e com as modificações na organização do capital. Infelizmente, isso pode levar a uma constante revisão de posições políticas (ou melhor, a recusar manter qualquer posição), ou então pode levar a um obreirismo imediatista ou espontaneísta.

É necessário ultrapassar qualquer falsa oposição de programa versus espontaneidade. O comunismo é tanto a atividade autônoma [self-activity] do proletariado quanto a crítica teórica rigorosa que a exprime e prefigura."

Link para o texto completo: Bordiga versus Pannekoek - Antagonism


quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Textos sobre a situação na Venezuela

O link abaixo, do grupo Třídní Válka, contém 3 textos que examinam a situação da luta de classes na Venezuela e criticam a ideologia do "poder popular", a destruição da luta do proletariado mediante de sua canalização para a polarização intracapitalista, entre as facções esquerda e direita do capital/Estado, e interimperialista, entre Estados nacionais:

O mito da esquerda cai de maduro

- Venezuela: crise, protestos, conflito político interburguês e ameaça de guerra imperialista

- Poder popular e socialismo do século XXI: os modernos trajes da social-democracia

Já o texto abaixo, do grupo Nuevo Curso analisa como a história da  Venezuela prova quão danosa é a armadilha do nacionalismo:



segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Imprensa autônoma humanaesfera





Reunimos neste post uma série de livretos/brochuras com conteúdos deste site que podem ser impressos autonomamente por quem tiver acesso a uma impressora:


PRIVATE PROPERTY, SCARCITY AND DEMOCRACY
https://subversionpress.wordpress.com/2016/11/24/private-property-scarcity-and-democracy/
O site SUBVERSION PRESS publicou um livreto para imprimir (PDF) que contém dois textos nossos traduzidos para o inglês.

This printable zine contains two texts:



Link para o PDF: https://subversionpress.wordpress.com/2016/11/24/private-property-scarcity-and-democracy/



BROCHURA HUMANAESFERA #5:
O mecanismo atrativo: a teoria da atração apaixonada de Charles Fourier e
Extratos de L'Humanitaire, a primeira publicação comunista libertária


Humanaesfera #5Quinta brochura (livreto) com conteúdos deste site. Este número contém extratos das obras de Charles Fourier e também extratos da primeira publicação comunista libertária, o jornal L'Humanitaire
Neste link, está o PDF com a brochura, que consiste de 6 folhas A4 para serem impressas frente-e-verso (em impressoras que imprimem em frente-e-verso automaticamente, selecione "borda curta" ou "no sentido da borda menor", ou ainda "Frente e verso, orientação vertical"), dobradas e grampeadas no meio. Ela contém os textos:

Trechos de Charles Fourier sobre a teoria da atração apaixonada (1808-1858)

BROCHURA HUMANAESFERA #4:
Transformação da vida cotidiana - ética, autonomia, classe solidariedade e abundância na prática


Humanaesfera #4 (número especial sobre transformação da vida cotidiana). Quarta brochura (livreto) com conteúdos deste site.


Neste link, está o PDF com a brochura, que consiste de 6 folhas A4 para serem impressas frente-e-verso (em impressoras que imprimem em frente-e-verso automaticamente, selecione "borda curta" ou "no sentido da borda menor", ou ainda "Frente e verso, orientação vertical"), dobradas e grampeadas no meio. Ela contém os textos:

- Autonomia, espiral de violências e apelo à força (i.e. à classe dominante)
A autonomia é favorecida pelas lutas identitárias?
Contra as recompensas e punições (contra a meritocracia, contra a coerção)
Ação direta VERSUS trabalho de base
Contra a estratégia
Abolição do trabalho e a questão do circuito produtivo global no comunismo


Para ler como e-book, baixe a versão EPUB ou esta versão PDF.

BROCHURA HUMANAESFERA #3

https://goo.gl/FFqNfVHumanaesfera #3. Terceira brochura (livreto) com conteúdos deste site.
Neste link, está o PDF com a brochura, que consiste de 6 folhas A4 para serem impressas frente-e-verso (em impressoras que imprimem em frente-e-verso automaticamente, selecione "borda curta" ou "no sentido da borda menor", ou ainda "Frente e verso, orientação vertical"), dobradas e grampeadas no meio. Ela contém os textos:

Para ler como e-book, baixe a versão EPUB ou esta versão PDF.

BROCHURA HUMANAESFERA #2:
Trechos de A Humanisfera - Utopia Anárquica


https://goo.gl/umWiM6humanaesfera #2, livreto/brochura que contém trechos de "A Humanisfera - Utopia Anárquica" de Joseph Déjacque.