quinta-feira, 26 de junho de 2014

Materialismo

"[...] não existe  [algo] que não seja visto por meio de alguma forma [eideos]. Creio que os próprios nomes tenham sido atribuídos por meio das formas. É absurdo e impossível acreditar que as for­mas brotem dos nomes. Os nomes são estabelecidos pela convenção, enquanto a forma brota da natureza." Hipócrates de Cós,  Acerca da Arte (Peri Tékhne). 

Matéria e forma
Demócrito, o filósofo que ri.

A afirmação de que a substância gera suas formas é o que nos leva a nos considerar materialistas.

Ao contrário, os imaterialistas afirmam que as formas são impostas do alto e de fora (ou do passado, ou futuro) sobre uma substância inerte e informe. Assim, eles são dualistas, ou seja, dividem o universo em dois princípios distintos: ativo e passivo, comandante e comandado, espírito e matéria, alma e corpo, sujeito e substância, vontade e paixão...

O modelo imaterialista é antropomórfico: a escultura  é uma matéria que recebeu suas formas do escultor, assim como, analogamente, o universo "perfeito como um relógio" provaria que existe um ser exterior que impõe formas "perfeitas" sobre a matéria bruta.

Em contraste, no modelo materialista, todas as formas surgem pela própria matéria, imanentemente.  Por exemplo, a forma redonda, esférica, do planeta terra, é causada simplesmente por sua matéria e nela. Do mesmo modo, univocamente, é a matéria que causa, conforme o modo de sua disposição, todas as formas: corporais, espirituais, humanas, minerais, animais, ideais, técnicas, culturais..., isto é, tudo o que conhecemos. Mais precisamente: tudo surge, se mantém e age pela confluência de determinações simultâneas (sem finalidade e sem pré-determinação, que são apenas práticas humanas) e morre quando essa confluência se desfaz.

Não faz sentido acusar o materialismo de tentar "reduzir tudo" à  matéria, porque, segundo ele, a matéria é irredutível à mente, à representação - já que a matéria é infinitamente mais rica e complexa do que qualquer de suas formas. Nessa perspectiva, o espírito, por exemplo,  é uma forma da matéria e, enquanto matéria, irredutível e atuante. Ele tem certa autonomia (potência), embora  temporária e nunca absoluta, pois nenhuma forma é indiferente, incondicional, exceto se deixar de existir.


Forma indiferente e hierarquia

Supor a existência de uma ou várias formas indiferentes é supor a existência de um inacessível, de uma realidade oculta, incondicional, uma verdade escondida pelas aparências. A hierarquia se legitima na submissão àqueles que afirmam ter o privilégio de acessar o inacessível, secreto, sagrado (hierós, ἱερός). O imaterialismo legitima necessariamente a hierarquia, o poder, ou seja, a violência.

É certo que as pessoas devem acreditar no que acharem melhor, pois isto é um problema delas e que só diz respeito à elas. Mas quando um exército de seguidores erige uma hierarquia, uma relação social autoritária que se acredita representar uma forma incondicional (não só deus, universo oculto, mundo espiritual... mas igualmente o mito da pátria, da nação, do povo especial, da terra sagrada e da família, como também o da "mão invisível", econômica ou ecológica, e o das formas holísticas e vitalísticas), essas pessoas necessariamente tratam as demais como inferiores, indivíduos meramente relativos que devem se curvar ao "absoluto" ao qual o líder teria acesso. É sobretudo por esse motivo que vemos a necessidade premente de sair à público em defesa do materialismo, que é o antídoto cirurgicamente específico contra todas as tendências obscurantistas.

Forma e matéria das idéias
O Jovem Rembrandt como Demócrito

A tradição materialista (desde a antiguidade, por ex., Epicuro e sua aisthēsis) se caracteriza por afirmar que as aparências são sempre verdadeiras (detalhes aqui), mesmo que descubramos, depois, graças a novas aparências, que estávamos enganados. Somente as aparências dão os conteúdos,  os materiais,  que  confluindo com os dispostos pela imaginação e pela memória formam imanentemente idéias,  pensamentos, conceitos. As aparências cujo acesso não é individualmente exclusivo são chamadas evidências. Estas são verificáveis e comunicáveis entre os seres humanos, que, de diversos pontos de vista, compartilham suas diferentes impressões e podem assim fazer uma idéia mais ampla e potente daquilo que vêem, do que poderão fazer e de seus fins. 

Uma cultura materialista, baseada em evidências, é o único antídoto contra os boatos, notícias falsas, conspiranóias, desconfianças paranóicas, medos, fobia de bodes expiatórios ("estrangeiros", "judeus", "favelados criminosos", "financistas maléficos"...), que só são úteis para uma classe dominante legitimar seu poder enquanto os proletários (submetidos à condição de "classe média", isto é, vendedores-compradores "livres e iguais", como se, por livre e espontânea pressão, não se arrastassem para vender a si próprios no mercado de trabalho e reduzir suas capacidades de pensar e agir a meros objetos de consumo, para as empresas, particulares e estatais), desconfiando de si mesmos, são imbecilizados a ponto de atenderem instantaneamente ao comando de massacrarem a si mesmos.


Não é preciso recorrer a qualquer autoridade que reivindique um acesso privilegiado a uma verdade oculta.  As experiências comuns cotidianas (chamadas triviais, "banais") são suficientes. E esta é a base da própria filosofia. O campo da filosofia são as coisas que de tão comuns, rotineiras, óbvias e ululantes,  perdemos a consciência delas, e elas ficaram de fora do pensamento e se tornaram repetição mecânica, estereótipo. Filosofar é considerar o que todos achamos saber mas que nunca tínhamos parado para pensar.

É meramente por experiências triviais, comuns, que afirmamos que qualquer algo só surge entre outros algos, nunca num absoluto, que nada é indiferente e tudo se forma através de uma confluência  de determinações simultâneas, ou seja, que tudo é matéria. Se um dia encontrarmos uma evidência de uma forma indiferente, imaterial, poderemos dar o braço a torcer para os imaterialistas, mas só encontramos evidências de que uma diferença indiferente, incondicional, não passa de pura indiferença, ou seja, nada.

Essas evidências da experiência comum bastam para conceituarmos "matéria" de um ponto de vista filosófico e prático. Quanto à afirmação de que tudo são partículas subatômicas, ondas, unicórnios quânticos ou campos, esta não é uma questão filosófica, pois a verdade dessas afirmações não pode ser suficientemente confirmada por evidências de nossas experiências comuns e corriqueiras, mas apenas por experimentos caros e complexos acessíveis somente às autoridades científicas (comunidade científica). Não se trata de desprezar a ciência, que é valiosíssima, mas de saber reconhecer corretamente o seu campo de aplicação e validez.

La Mettrie

Contra o cientificismo e a tecnocracia

O cientificismo deixa de lado a experiência comum cotidiana considerando-a sem valor e pretende confiar apenas nas autoridades científicas (no veredito da comunidade científica). Criam assim uma outra forma de credo propenso a se conformar acriticamente a uma hierarquia tecnocrática. Além disso, o cientificismo faz a experiência cotidiana comum ficar de fora do pensamento, deixando um vazio que será ocupado por pseudo-explicações místicas, mágicas e religiosas. Assim, não causa surpresa ver o quão frequentemente o cientificismo se revela o outro lado da moeda místico-religiosa.

Mas o principal é que, por definição,  a ciência se ocupa de descrições da realidade e do aprimoramento de meios técnicos, não dos fins. Logo, a idéia de governo científico,  gestão eficiente, ou tecnocracia , é uma fraude, porque oculta as finalidades, confundindo-as com meros meios. O tecnocrata é portanto o alter ego do teocrata, cujos fins são ocultos, "mistérios".

Para as finalidades, ou temos a religião ("mandamentos", inclusive a superstição da "mão invisível" da economia e ecologia), o instinto (incluindo o hábito, inculcado pavlovianamente), ou o pensamento (ou seja, a filosofia). Defendemos que os melhores fins são os feitos com o pensamento, em especial o materialista, paixão-pensante-praxis que busca criar e submeter os fins à expansão da potência de agir e de pensar dos indivíduos e, portanto, da humanidade.


Humanaesfera, junho de 2014


Bibliografia 

  • Lucrécio - Da Natureza das Coisas (De Rerum Natura)
  • Baruch Espinoza - Ética
  •  Jean Meslier - Ateísmo e Revolta, os manuscritos do padre Jean Meslier (Paulo Jonas de Lima Piva)
  • La Mettrie - O Homem-máquina
  • Holbach - Sistema da Natureza
  • Hegel - Fenomenologia do Espírito
  • Marx - Manuscritos econômicos e filosóficosA Ideologia Alemã, Grundrisse
  • Joseph Déjacque - A humanisfera 
  • Bakunin - Deus e o Estado
  • Michel Serres - O Nascimento da Física no Texto de Lucrécio
  • Deleuze & Guattari - Capitalismo e esquizofrenia, volume I (O Anti Édipo) e II ( Mil Platôs)  

sábado, 10 de maio de 2014

Contra as recompensas e punições (contra a meritocracia, contra a coerção)

(english translation)

"A recompensa da virtude é a própria virtude e o castigo reservado à desrazão e ao abandono de si é precisamente a desrazão. Quem quer recompensas e castigos não encontra nada que lhe apraza na virtude mesma e no conhecimento, e evita os maus atos com hesitação, forçando-se como um escravo. Ele espera que sua servidão seja paga a um preço que a seus olhos vale muito mais do que o amor: tanto mais caro quanto mais aversão ele tem ao bem e se coage mais." Baruch Espinosa (resumo e livre adaptação de um argumento encontrado na Carta 43, de  Espinosa  a Jacob Osten, fevereiro de 1671, Correspodência).
"Para propagar a virtude, é melhor o encorajamento e a palavra persuasiva do que a lei e a coerção. Quem evita ser injusto por temor à lei, provavelmente cometerá o mal em segredo; quem, ao contrario, for levado ao dever pela convicção, provavelmente não será injusto nem em segredo e nem abertamente.Demócrito de Abdera (fragmento DK 68 B 181) 
Recompensas e punições pressupõem uma violência (poder) que despojou os seres humanos de suas próprias condições de existência, impedindo-os de existirem por si mesmos, autonomamente,  e permitindo-a prometer (recompensar) e ameaçar (punir). O medo e a esperança; o chicote e a carne lançada às bestas.  Combater esse poder só é possível se abolirmos a propriedade privada das condições de existência (meios de vida e de produção), tornando-as gratuitas, para que desenvolvamo-nos e as nossas produções como atividades e fruições que valem por si mesmas, manifestações multilaterais de nossas faculdades, desejos, necessidades, paixões... livres, ou seja, sem nenhuma força que possa estar na posição (classes) de nos submeter à recompensas nem punições. Em outras palavras, sem o engodo da troca de equivalentes, seja hierárquico ou mercantil, já que na verdade são sempre pseudo-equivalentes: sobretrabalho e mais-valia. Recompensas e punições serão suplantadas pela alegria ou tristeza intrínsecas ao experimento de cada um nessas atividades, produções e fruições livres, únicos móveis de  toda composição e dissolução na livre associação em escala mundial que chamamos comunismo.


Mas os paranóicos e apavorados só enxergam o mundo através dos óculos da ameaça e da recompensa (eles querem o fim da "impunidade" e a retribuição de seus "méritos"). Então, vejamos melhor: qual a relação entre um ato ("bem" ou "mal") e sua sanção (recompensa ou punição)?  Por mais que se procure, simplesmente não há nenhuma relação. A única coisa que os liga é, necessariamente, uma força totalmente extrínseca ao ato e ao móvel do ato. Logo, a conclusão é evidente: a relação entre "crime" e punição (e entre servilismo e recompensa) é sempre arbitrária, exterior, irracional, inútil. (E quando as crianças são "educadas" assim, elas apenas são ensinadas, e isso na melhor das hipóteses, que é aceitável que as coisas "se resolvam" mediante chantagens e porrada - e quando crescerem provavelmente engrossarão o partido da ordem dos linchadores de plantão "em defesa da família"). 

Outros defendem que só as regras ou a lei ("o estado de direito", ou mesmo as "leis universais da razão" de Kant) impedirão que recompensas e punições sejam arbitrárias. Porém, além de a idéia de equivalência entre ato e sanção ser em si arbitrária (uma pura troca de alhos por bugalhos), é impossível que a lei possa por conta própria andar por aí para aplicar sanções (recompensas e punições), pois afinal a lei é só um monte de papéis. A lei só pode ser efetiva se aplicada por uma força que não é a lei, que é portanto literalmente fora da lei, acima da lei: a polícia, o pai (ou mãe), o chefe, o gerente, o presidente... na prática, a arbitrariedade sempre reina, como já  estamos fartos de saber (veja, por exemplo, o Brasil, onde a pena de morte e a tortura são ilegais, oficialmente não existem,  mas que, na prática, é um dos países onde elas são mais praticadas no mundo).

Quanto ao estado de direito, um trecho de Walter Benjamin:
"[...] uma solução totalmente não violenta de conflitos nunca poderá desembocar num contrato jurídico. Por mais pacífico que tenha sido o clima que levou as partes a firmá-lo, um contrato desse tipo pode acabar sempre por conduzir à violência, porque concede a cada uma delas o direito de reclamar o recurso a alguma forma de violência contra a outra, no caso de esta violar o contrato. E não é só isso: a própria origem de todo contrato aponta para a violência, tal como o seu desfecho. Enquanto poder que institui o Direito, esta não precisa estar diretamente presente nele, mas está nele representada desde que o poder que garante o contrato jurídico tenha, por seu lado, origem violenta, ainda que não tenha sido aplicada legalmente no contrato com recurso à violência.  [...] Por mais desejável e satisfatório que, apesar de tudo, seja um parlamento que funcione bem, por comparação com outros regimes, a discussão dos meios, por princípio pacíficos, do entendimento político não poderá passar pelo parlamentarismo. Na verdade, o que este consegue alcançar no que se refere a questões vitais são apenas aquelas ordens jurídicas reféns da violência à entrada e à saída. " Walter Benjamin, Sobre a crítica do poder como violência

Há também os que, impregnados de religião e espiritualidade, acreditam numa entidade chamada "mal", "maldade", e dizem que o homem (assim como a matéria e o mundo como um todo) por si mesmo é "mal". Não é a toa que os lugares do mundo onde a religiosidade é mais intensa são os mais violentos, pois a expectativa a priori da maldade nas relações humanas, numa desconfiança mútua generalizada, torna real esse fantasma ("maldade") na prática. Para eles, "o bem" é auto-sacrifício, auto-anulação; isto é, para eles o "bem" é algo repulsivo, que justamente por não ter nenhum valor em si mesmo, vale por outra coisa, é "mérito" (que serve para reencarnar melhor, chegar ao nirvana, ou ascender ao paraíso e evitar o inferno, ou ser promovido pelo chefe). Contra isso defendemos uma ética materialista:



" O homem é o egoísmo; sem egoísmo, o homem não existiria. O egoísmo é o móbil de todas as suas ações, o motor de todos os seus pensamentos.[...]
É para crescer, para aumentar o círculo de sua influência que o homem leva alto a sua face e atira ao longe o seu olhar; é em vista de satisfações pessoais que ele caminha para a conquista de satisfações coletivas. É para si mesmo, como indivíduo, que ele quer participar da efervescência viva da felicidade geral; é para si mesmo que ele fica aflito pelo sofrimento dos outros. Seu egoísmo, sem cessar exigido pelo instinto de sua conservação progressiva e pelo sentimento de solidariedade que o liga a seus semelhantes – seu egoísmo solicita as perpétuas emanações de sua existência na existência dos outros. É isto que a velha sociedade chama impropriamente de devotamento e que não é senão espelhamento [spéculation], espelhamento que é tanto mais humanitário quanto é mais inteligente, que é tanto mais humanicida quanto mais é imbecil.(...)
Humanamente, não é possível fazer um movimento, um gesto da mão, do coração ou do cérebro, sem que a sensação se repercuta de uma pessoa para outra como um choque elétrico. E isso tem lugar no estado de comunidade anárquica, no estado de natureza livre e inteligente. [...]
 
A coerção é a mãe de todos os vícios. Por isso, é banido pela razão do território da humanisfera. O egoísmo, naturalmente, o egoísmo inteligente é muito desenvolvido para que alguém pense em forçar seu próximo. É por egoísmo que eles trocam bons atos.
[...]Nós todos nascemos com o germe de todas as faculdades [...], as circunstâncias exteriores agem diretamente sobre nós. Conforme nossas faculdades são ou foram expostas a sua influência, elas adquirem um desenvolvimento maior ou menor e se formam de uma ou de outra maneira.  [...]
O meio onde nós vivemos e a diversidade de pontos de vista onde se colocam os homens e que faz com que ninguém possa ver as coisas sob o mesmo aspecto, explicam [...] a diversidade de suas paixões e aptidões.” Joseph Déjacque (Le Humanisphère)

humanaesfera, maio de 2014








quinta-feira, 24 de abril de 2014

Trechos do rascunho de um artigo sobre o livro de Friedrich List: Das Nationale System der Politischen Oekonomie, por Karl Marx (março de 1845)

Tradução para o português por Humanisfera a partir do inglês (fonte: Draft of an Article on Friedrich List’s book: Das Nationale System der Politischen Oekonomie).




[Sobre a abolição do trabalho:] 

“[...] o trabalhador é o escravo do capital, ele é uma “mercadoria”, um valor de troca cujo nível mais alto ou mais baixo, cuja alta ou baixa, depende da concorrência, da oferta e da procura; [...] sua atividade não é uma livre manifestação de sua vida humana, mas é, sim, uma mascatear de suas forças, uma alienação (venda) para o capital de suas habilidades unilateralmente desenvolvidas, em suma,  ela é “trabalho”. Esquece-se disso. O “trabalho” é a base viva da propriedade privada, é a propriedade privada enquanto fonte criativa de si mesma. A propriedade privada não passa de trabalho objetivado. Se desejamos dar um golpe mortal na propriedade privada, é preciso atacá-la não apenas enquanto um estado de coisas material, mas também como atividade, como trabalho. É um dos maiores equívocos falar em trabalho livre, humano, social,  trabalho sem propriedade privada. O “trabalho  por sua própria natureza é atividade não livre, desumana, não social, determinada pela propriedade privada e criadora da propriedade privada. Por isso, a abolição da propriedade privada se tornará uma realidade somente quando ela for concebida como abolição do “trabalho” (uma abolição que, é claro, só se tornou possível como resultado do próprio trabalho, ou seja, tornou-se possível como resultado da atividade material da sociedade e que em nenhum caso deve ser concebida como a substituição de uma categoria por outra). Uma “organização do trabalho”, portanto, é uma contradição nos termos. A melhor organização que ao trabalho pode ser dada é a atual organização, a livre concorrência, a dissolução de toda a sua prévia organização aparentemente “social”.”


[Contra o nacionalismo:]

“O burguês diz: é claro, a teoria dos valores de troca não deve ser questionada dentro do país, a maioria, na nação, deve permanecer um mero “valor de troca”, uma “mercadoria” que deve encontrar seu próprio comprador, e que não é vendida, mas que vende a si mesma. Em relação a vocês proletários, e até mesmo em nossas relações mútuas, consideremos a nós mesmos como valores de troca, aqui a lei da venda universal é válida. Mas em relação a outras nações, devemos interromper a operação dessa lei. Como uma nação, não podemos nos vender a outras nações. [...]”


“Então, o que o filisteu alemão quer? Ele quer ser um burguês, um explorador, dentro do país, mas ele também quer não ser explorado fora do país. Ele se infla como “nação” em relação aos países estrangeiros e diz: eu não me submeterei às leis da concorrência; isso seria contrário à minha dignidade nacional; enquanto nação, sou superior ao mascateio.


A nacionalidade do trabalhador não é nem francesa, nem inglesa, nem alemã - é o trabalho, a escravidão livre, a venda de si mesmo. Seu governo não é nem francês, nem inglês, nem alemão - é o capital. Seu ar nativo não é nem francês, nem alemão nem Inglês - é o ar da fábrica. A terra que lhe pertence não é nem francesa, nem inglesa, nem alemã, ela está alguns palmos debaixo do solo. [...]”


“Ele [o burguês] está disposto a reconhecer a força da sociedade burguesa só na medida em que essa força está de acordo com os seus interesses, os interesses de sua classe! Ele não quer ser vítima de uma força a qual ele quer sacrificar outros, e para a qual ele se sacrifica dentro de seu próprio país! [...]


Provar-lhe-emos [ao burguês] que a venda de si mesmo dentro do país tem como conseqüência necessária a venda fora, que a concorrência, que dá-lhe poder dentro do país, não pode impedi-lo de se tornar impotente fora do país; que o Estado, que subordina à sociedade burguesa dentro do país, não pode protegê-lo da ação da sociedade burguesa fora do país.


Por mais que o burguês individual lute contra os outros, enquanto classe o burguês têm um interesse comum, e essa comunidade de interesse, que é dirigida contra o proletariado dentro do país, é dirigida contra a burguesia de outras nações fora do país. É isto que o burguês chama de nacionalidade.”


[A indústria invoca potências que a superam - forças naturais, forças produtivas e proletariado]

“A indústria pode ser considerada como uma grande oficina em que o homem primeiro toma posse de suas próprias forças e das forças da natureza, se objetiva e cria para si mesmo as condições para uma existência humana. Quando a indústria é considerada desta forma, abstraímos as circunstâncias em que ela opera hoje, e nas quais existe como indústria; nosso ponto de vista não está no interior da época industrial, mas sobre ela; a indústria é considerada não pelo que ela é para o homem de hoje, mas pelo que hoje o homem é para a história humana, o que ele é historicamente; não é a sua existência atual (não a indústria como tal) que é reconhecida, mas sim a potência que a indústria tem sem saber ou querer e que a destrói e cria a base para uma existência humana.[...]”


“Esta apreciação da indústria é, ao mesmo tempo, o reconhecimento de que é chegada a hora de acabar com ela, ou da abolição das condições materiais e sociais em que a humanidade tinha que desenvolver suas habilidades como um escravo. Pois desde que a indústria não é mais considerada como um interesse mercantil, mas como o desenvolvimento do homem,  é o homem, no lugar do interesse mercantil, que é tornado princípio, e àquilo que na indústria pode se desenvolver apenas em contradição com a própria indústria é dado a base que está em harmonia com o que está para ser desenvolvido.”


“A escola de Saint-Simon deu-nos um exemplo instrutivo do que ocorre quando a força produtiva que a indústria cria inconscientemente e contra a sua vontade é creditada à indústria atual e as duas coisas são confundidas: a indústria e as forças que a indústria traz à existência inconscientemente e sem a sua vontade, mas que só se tornarão forças humanas, a potência do homem, quando a indústria for abolida. [...]  As forças da natureza e as forças sociais que a indústria traz à existência (que ela invoca) tem com ela a mesma relação que o proletariado tem. Hoje eles ainda são os escravos do burguês, que não vê neles nada além de instrumentos (os suportes) de sua cobiça suja (egoísta) pelo lucro; amanhã eles vão quebrar suas cadeias e se revelar como os portadores do desenvolvimento humano que vai lançá-los pelos ares junto com sua indústria, que assume essa casca suja exterior - que ele considera como a sua essência - só até que o núcleo humano ganhe força suficiente para estourar esta carapaça e aparecer em sua forma própria. Amanhã eles arrebentarão as cadeias pelas quais o burguês os separa do homem e assim os distorce (transforma) de um vínculo social real em grilhões da sociedade.


A escola de Saint-Simon glorificou em ditirambos a força produtiva da indústria. As forças que a indústria chama a existir ela confundiu com a própria indústria, isto é, com as condições atuais de existência que a indústria dá a essas forças. [...] O primeiro passo para quebrar o encantamento com indústria foi abstrair as condições, os grilhões do dinheiro, em que as forças da indústria operam hoje e examinar essas forças em si mesmas. Este foi o primeiro chamado para o povo emancipar sua indústria da venda e compreender a indústria de hoje como uma época de transição. [...].  

Eles [os saint-simonianos] chegaram  [...] a atacar o valor de troca, a propriedade privada, a organização da sociedade atual. Eles propuseram a associação no lugar da competição. Mas eles foram punidos por seu erro original. Não somente a confusão acima mencionada os levou à ilusão ainda maior de ver no burguês sujo um sacerdote, mas também fez com que eles, após as primeiras lutas externas, voltassem a cair na velha ilusão (confusão) - mas agora hipocritamente, porque precisamente no curso da luta a contradição das duas forças que haviam confundido tornou-se manifesta. Sua glorificação da indústria (das forças produtivas da indústria) tornou-se glorificação da burguesia, e Monsieur Michel Chevalier, Monsieur Duveyrier, Monsieur Dunoyer ridicularizaram a si mesmos e à burguesia, aos olhos de toda a Europa - após o que os ovos podres que história lançou na cara deles transformaram-se pela magia da burguesia em ovos de ouro, uma vez que o primeiro dos nomeados acima reteve as velhas frases, mas preenchidas com o conteúdo do regime burguês atual, o segundo é ele próprio engajado no mascateio em uma escala de atacado e preside a venda de jornais franceses, enquanto o terceiro se tornou o apologista mais raivoso do atual estado de coisas e supera em desumanidade (em falta de vergonha) todos os economistas ingleses e franceses do passado.”

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Serviços: subsunção formal


Trecho de Misery and debt  (2010) por Endnotes  ( http://endnotes.org.uk/articles/1):

"[...]Se, como temos argumentado, a reprodução ampliada gera crescimento dinâmico quando o aumento da produtividade libera de alguns ramos capital e trabalhadores que depois são recombinados em indústrias novas ou em expansão, então isto tem consequências importantes para a compreensão do crescimento do setor de serviços. Quase por definição, os serviços são atividades cujo aumento de produtividade é difícil de atingir exceto numa margem. A única maneira conhecida de melhorar drasticamente a eficiência dos serviços é transformá-los em produtos e depois produzir esses produtos em processos industriais, que se tornam mais eficientes com o tempo. Muitos bens são de fato antigos serviços - por exemplo, havia antigamente criados que lavavam as roupas nas casas dos ricos; hoje em dia, as máquinas de lavar roupa executam esse serviço de forma mais eficiente e são elas mesmas produzidas com cada vez menos trabalho. As atividades que permanecem serviços tendem a ser precisamente as que até agora se mostraram impossíveis de serem substituídas por produtos fabricados.

É claro que o conceito burguês de "serviços" é notoriamente impreciso, incluindo tudo, desde os chamados "serviços financeiros" até o trabalho de escritório e o pessoal de limpeza de hotéis , e até mesmo alguns empregos industriais terceirizados. Muitos marxistas tentaram assimilar a categoria de serviços ao de trabalho improdutivo, mas se refletirmos sobre a caracterização acima, fica claro que ela está mais próxima do conceito de "subsunção formal" de Marx. Marx havia criticado Smith por ele ter um entendimento metafísico do trabalho produtivo e improdutivo – aquele produzindo bens e este não – e ele o substituiu por uma distinção técnica entre o trabalho realizado como parte de um processo de valorização do capital e trabalho realizado fora desse processo para o consumidor imediato. Em “Os Resultados do Processo de Produção Imediato”, Marx argumenta que, teoricamente, todo o trabalho improdutivo pode se tornar produtivo, pois isso apenas significa que ele foi formalmente subsumido ao processo capitalista de valorização. No entanto, as atividades formalmente subsumidas são produtivas apenas de mais-valia absoluta. Para ser produtiva de mais-valia relativa é necessário transformar o processo material de produção para que seja passível de rápidos aumentos de produtividade (cooperação, manufatura, grande indústria e maquinário) - ou seja, passível de subsunção real. Quando economistas burgueses como Rowthorn falam de "serviços tecnologicamente estagnados", eles sem perceber se remetem ao conceito de Marx de um processo de trabalho que foi apenas formalmente subsumido, mas não realmente subsumido.

Assim, quando a economia cresce, a produção real de "serviços" tende a crescer, mas apenas pela adição de mais empregados ou intensificando o trabalho dos trabalhadores existentes, isto é, por meio de produção de mais-valia absoluta, em vez de mais-valia relativa. Na maioria desses setores os salários formam a quase totalidade dos custos, de modo que os salários têm de ser mantidos baixos para que os serviços permaneçam bancáveis e lucrativos, especialmente quando as próprias pessoas que lhes pagam são pobres: assim é o McDonald´s e o Wal-Mart nos EUA – e também o grande proletariado informal na Índia e China."


terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Trechos dos Comentários sobre Os Elementos de Economia Política de James Mill, por Karl Marx (1844)

Tradução para o português por Humanaesfera a partir do inglês ( fonte: Comments on James Mill by Karl Marx ) e do espanhol (fonte: o livro Páginas Malditas de Marx). Aparentemente, os comentários sobre James Mill (também conhecidos como Notas sobre James Mill) por Marx nunca foram  publicados em português. 


"Só o que é monopolizável tem um preço." (Comentário de Karl Marx ao Esboço de Economia Política de Friedrich Engels, 1844)

"[...] A característica originária, determinante, da propriedade privada é o monopólio, portanto, quando ela cria uma constituição política, é a do monopólio. O monopólio consumado é a concorrência."

"O movimento mediador do homem que troca não é um movimento social, humano, não é uma relação humana, mas a relação abstrata da propriedade privada com a propriedade privada, e essa relação abstrata é o valor cuja existência em ato como valor constitui o dinheiro. A relação social da propriedade privada com a propriedade privada já é uma relação em que a propriedade privada é alienada de si mesma. A forma de existência para si dessa relação, o dinheiro, é, portanto, a alienação da propriedade privada, a abstração de sua natureza pessoal, específica."

"Em ambos os lados, portanto, a troca é necessariamente mediada pelo objeto que cada lado produz e possui. A relação ideal com os respectivos objetos da nossa produção é, evidentemente, a necessidade mútua. Mas a relação real, verdadeira, que realmente ocorre e produz efeitos, é apenas a posse mutuamente exclusiva de nossos respectivos produtos. O que dá à tua necessidade de meu artigo valor, importância e efetividade para mim é apenas o teu objeto como o equivalente do meu objeto. Nosso produto recíproco, portanto, é o meio, o mediador, o instrumento, o poder reconhecido de nossas necessidades mútuas. Tua demanda e o equivalente de tua posse, portanto, são para mim termos que são iguais em importância e validade, e tua demanda só adquire um significado, devido a ter um efeito, quando ela tem um significado e efeito em relação a mim. Como um mero ser humano, sem este instrumento, tua demanda é uma aspiração frustrada de tua parte e uma ideia que não existe para mim. Como um ser humano, portanto, você não tem nenhuma relação com meu objeto, porque eu mesmo não tenho nenhuma relação humana com ele. Mas o meio é o verdadeiro poder sobre o objeto e, portanto, nós consideramos mutuamente nossos produtos como o poder de cada um sobre o outro e sobre nós mesmos. Ou seja, o nosso próprio produto se levantou contra nós; ele parecia ser nossa propriedade, mas de fato nós somos propriedade dele. Nós mesmos somos excluídos da verdadeira propriedade porque nossa propriedade exclui os outros homens.

A única linguagem inteligível em que conversamos um com o outro consiste nos nossos objetos em suas relações entre si. Nós não entendemos uma linguagem humana, e ela permanece sem efeito. Ela seria considerada e sentida como um pedido, uma súplica, e, portanto, uma humilhação, e, conseqüentemente, pronunciada com um sentimento de vergonha, de degradação. Enquanto que a outra parte a receberia como descaramento ou loucura e rejeitada como tal. Estamos de tal forma mutuamente estranhados do ser humano que a sua linguagem direta nos parece uma violação da dignidade humana, ao passo que a linguagem estranhada dos valores coisificados parece a afirmação justa da dignidade humana, auto-confiante e consciente de si."

"Nosso valor mútuo é para nós o valor de nossos mútuos objetos. Portanto, para nós o próprio homem é reciprocamente sem qualquer valor.

Suponhamos que tivéssemos produzido como seres humanos. Cada um de nós afirmaria duplamente a si mesmo e a outra pessoa:

1) Na minha produção, eu teria tornado objetiva a minha individualidade, o seu caráter específico e, portanto, não só teria desfrutado ao expressar minha vida individual durante a atividade, mas também, ao ver o objeto, eu teria o prazer individual de saber que a minha personalidade é objetiva, perceptível aos sentidos e, portanto, um poder fora de qualquer dúvida.
2) O teu desfrute ou uso de meu produto me proporcionaria diretamente o prazer de me saber satisfazendo com minha atividade uma necessidade humana, isto é, de ter tornado objetivo o ser humano, e de ter, assim, criado um objeto correspondente à necessidade de outro ser humano.
3) Eu teria sido para você o mediador entre você e o gênero humano e, portanto, seria reconhecido e sentido por você como um preenchimento da tua própria natureza essencial e como uma parte necessária de você mesmo e, consequentemente, eu me sentiria confirmado tanto no teu pensamento como no teu amor.
4) Teria tido a alegria de, na expressão individual de minha vida, eu ter criado diretamente a expressão de tua vida, e, portanto, de na minha atividade individual, eu ter diretamente confirmado e realizado o meu verdadeiro ser, o meu ser humano, meu ser multilateral em comum universal [gemeinwesen].

Nossas produções seriam múltiplos espelhos em que veríamos refletida a nossa natureza essencial.

Esta relação além disso seria recíproca; o que ocorre do meu lado ocorreria do teu.

Vamos analisar os vários fatores vistos em nossa hipótese:

Minha atividade seria uma livre manifestação da vida, portanto, um desfrute da vida. Ao contrário, pressupondo a propriedade privada, a minha atividade é uma alienação da vida, pois eu trabalho para viver, para adquirir meios de vida. Meu trabalho não é a minha vida.
Em segundo lugar, a natureza específica da minha individualidade, portanto, iria se afirmar na minha atividade, uma vez que esta seria uma afirmação da minha vida individual. A atividade portanto seria propriedade verdadeira, ativa. Em contraste, pressupondo a propriedade privada, minha individualidade é alienada a tal ponto que essa atividade torna-se, ao contrário, odiosa para mim, um suplício, e mais que atividade, uma aparência dela; daí que é uma atividade forçada, imposta a mim mediante uma necessidade extrínseca e acidental, e não por uma necessidade interior e determinada."


Veja também mais trechos de outros clássicos:







sábado, 15 de fevereiro de 2014

O mito do socialismo cubano (Kaos, 1997)

Texto publicado em KAOS #0 08/97 (boletim aperiódico e experimental do Grupo Autonomia).

"O estado, qualquer que seja sua forma, é apenas uma máquina a serviço do capital, o estado dos capitalistas." Roig de San Martin – El Produtor de La Habana, 1888.

No mundo inteiro, o estado é o instrumento que o capital utiliza para reproduzir sua dominação. Os marxistas-leninistas de variadas genealogias e tinturas insistem em apresentar o regime cubano como uma exceção. 

A política castrista, mera variante do stalinismo, gira em torno do estado. Em Cuba, o estado se apresenta como popular, operário, socialista, defensor dos interesses dos trabalhadores, distribuidor da riqueza e encarregado das mudanças no sentido do comunismo. 

Mas a verdadeira revolução nada tem a ver com um 'governo operário'. O objetivo da luta do proletariado não é tomar o poder político, nem apoderar-se do estado para utilizá-lo em seu interesse. O estado, seja qual for a classe dominante, continuará reforçando o capital. Pretender utilizar o estado para servir ao proletariado é uma manobra reacionária da esquerda do capital. O estado nada mais é do que o capital concentrado, centralizado para reproduzir o sistema universal de escravidão assalariada. 

Além de não ser exceção, Cuba é uma confirmação da regra. O estado cubano também exerce o monopólio da violência para assegurar a exploração e a opressão sobre os proletários, colocando-os à disposição do capital. O desarmamento do proletariado é um exemplo ilustrativo. O fato de que somente ao exército e à polícia seja permitido ter armas faz com que os trabalhadores se sintam permanentemente coagidos. Toda e qualquer tentativa de auto-organização dos trabalhadores é brutalmente reprimida. 

Em Cuba, o ódio contra a escassez de gêneros de primeira necessidade e a miséria vigente é canalizada contra o imperialismo yankee e o bloqueio econômico, ou, eventualmente, a corrupção da burocracia. Nada de novo sob o sol: o descalabro da economia russa foi, durante muitos anos, apresentado como efeito da corrupção e da burocracia. Aqueles que faziam tais denúncias não eram apenas os trotskistas – esses infatigáveis 'apoiadores críticos' de todos os estados capitalistas tingidos de vermelho... Periodicamente, os membros do comitê central do partido-estado bolchevique também denunciavam, cumprindo o ritual leninista da crítica & autocrítica. Em resumo, tem-se feito todo o possível para ocultar que o verdadeiro mal é a sociedade capitalista e sua organização política: o estado. 

O proletário cubano se encontra, como qualquer outro, separado de todo meio de vida, de todo o meio de produção necessário para viver. Em Cuba, como em qualquer outro país latino-americano e do resto do mundo, o trabalhador enfrenta duras condições de sobrevivência, concentradas como forças alheias e hostis, inteiramente privado (propriedade privada significa exatamente isto!) de seus meios de vida. No latifúndio de Fidel Castro, a propriedade privada não foi abolida, mas concentrada e metamorfoseada juridicamente em propriedade estatal. 

Ao contrário do que dizem os apoiadores críticos e outros defensores do regime castrista, a revolução social é a destruição completa do mundo burguês e de suas reformas, dirigidas pelo estado e no interesse do capital, temperadas com amenas críticas à burocracia. Efetivamente a revolução social não consiste, antes, em conquistar a direção do estado para, depois, realizar uma série de reformas sócio-econômicas. Ao contrário, desde o início, a revolução social consiste em destruir o poder total (militar, econômico, político) da burguesia; em criar a comunidade humana mundial, baseada nas necessidades humanas e não nas necessidades do capital.





domingo, 2 de fevereiro de 2014

Pequena Ética (A Vida, 1914)

"[...] aqueles pendores chamados altruístas no fundo nada mais são do que puro egoísmo.

Quem dá o último pedaço de pão para matar a fome a um semelhante, quem deixa a última coberta para abrigar a outrem prestes a morrer de frio, pratica esses atos, que o positivismo chama altruístas, porque sentirá maior prazer em matar a fome do faminto e em abrigar o outro do frio, do que se ele mesmo comesse esse pão e se abrigasse com essa coberta. Da mesma forma, quem arrisca a vida para salvar a de outrem, o faz para evitar o sofrimento que lhe resultaria se não praticasse essa ação. Daí resulta que agimos sempre para sentirmos um prazer ou para evitarmos um sofrimento.

Atribua-se esses atos ao egoísmo ou ao altruísmo, isso pouco importa, porque a verdade é que, no fundo, tudo redunda em egoísmo.

[...] É por amor aos nossos semelhantes que somos anarquistas, é por amor à nossa espécie, a nós mesmos e à sociedade, que combatemos a injustiça, que odiamos os exploradores e os opressores dos nossos semelhantes: e, se odiamos é porque o ódio é também uma manifestação de amor. Quem odeia alguém ou alguma coisa é porque esse alguém ou essa coisa prejudica aquilo que amamos. "
A Vida, publicação mensal anarquista, ano I nº2, Rio de Janeiro, 31 de Dezembro de 1914
(grato a Ulisses)

Outros textos sobre ética

Contra as recompensas e punições (contra a meritocracia, contra a coerção) (2014)

Autonomia, espiral de violências e apelo à força (i.e. à classe dominante) (2015)

Autonomia e cotidiano - Espinosa e o imperativo de Kant: "Tratar os outros e a si mesmo como fins, jamais como meios" (2015)

Algumas implicações epistemológicas e éticas do materialismo(2011)

Materialismo (2014)

Pequena crítica antimoralista da dominação (crítica à idéia de "servidão voluntária") (2011)

Propriedade privada, escassez e democracia (2014)

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