sexta-feira, 13 de setembro de 2019

O senhor Puntila e seu criado Matti, de Bertolt Brecht (arquivo PDF)


Clique aqui para baixar o arquivo PDF da peça de teatro de Bertolt Brecht, O senhor Puntila e seu criado Matti.

Trechos da apresentação:

"Foi em 1940, na emigração, enquanto se encontrava na Finlândia, que Bertolt Brecht escreveu O senhor Puntila e seu criado Matti, baseando-se num esboço dramático e em narrações da escritora Hella Wuolijoki, em cuja casa se hospedara. Entre as grandes obras da maturidade, Puntila é a de cunho mais popular e humorístico.[...]

Seu motivo central, ao mesmo tempo jocoso e profundo, já fora explorado anteriormente por Chaplin (Luzes da cidade) a quem Brecht muito admirava. Não é, portanto, novo o caso dos dois caracteres de Puntila, homem afetuoso quando embriagado, homem egoísta quando sóbrio. Nova é a maneira de como Brecht aproveita a curiosa duplicidade que desintegra a personalidade do fazendeiro. A partir dela analisa a dialética inerente às relações entre senhor e criado tão bem exposta por Hegel — e, concomitantemente, procura elucidar certos aspectos da sociedade de classes.
[...]
Com horror na voz, Puntila confessa que no estado vil da sobriedade é um homem responsável, forçado a prestar conta de seus atos. Por isso mesmo é então uma pessoa de quem se podem esperar as piores coisas. Paradoxalmente, ser responsável implica ser imoral. Daí o seu empenho heroico em beber e em tornar-se deste modo irresponsável, isto é, virtuoso. [...] Puntila está em constante contradição consigo mesmo, produzindo na própria pessoa o distanciamento, já que os dois caracteres se refutam e estranham, se criticam e ironizam mutuamente. É no estado irresponsável — quando é um animal irracional — que se torna humano e é no estado racional, isto é, humano, que passa a ser desumano. [...] Puntila é, portanto, associal em todas circunstâncias. A sua maldade é “normal”, isto é, típica, institucional, e sua bondade é “anormal”, isto é, particular e caprichosa e por isso sem valor, sem conseqüência. De fato, nos estados maldosos anula tudo quanto fez de bom nos estados generosos. Tudo fica na mesma e às vezes até piora.
[...]
Os momentos estruturais apontados, totalmente contrários à unidade e continuidade do drama aristotélico — com início, meio e fim — tornam esta peça em uma das mais conseqüentes do teatro épico, cuja teoria Brecht então já levara ao amadurecimento. Duas razões fundamentais fizeram com que a elaborasse. A primeira decorre da convicção antropológica de que a pessoa humana é o conjunto de todas as relações sociais. Cabe integrá-la, pois, num mundo amplo, mostrando não só os “navios inclinados” — como se fazia no teatro clássico — mas também a “tempestade que os inclina”, isto é, as fôrças anônimas que atuam sôbre o indivíduo. Esta razão do teatro épico encontra ampla expressão em Puntila. [...]

A segunda razão do teatro épico decorre dos objetivos didáticos de Brecht, do seu desejo de apresentar um palco capaz de esclarecer o público sobre a nossa sociedade e o dever de transformá-la. Êste fim didático impõe eliminar o efeito hipnótico do teatro tradicional. Impõe anular a sua função de sedativo e evasão. Por isso mesmo convém montar uma estrutura em curvas, episódica, dialética — a afetuosidade de Puntila se chocando com a sua aspereza — para romper a continuidade linear da dramaturgia tradicional. Esta, mercê do seu encadeamento rigoroso, prende o espectador no avanço ininterrupto da ação tensa, enreda-o no enredo, não lhe concedendo liberdade crítica. Coloca-lhe o jugo da identificação com as situações e os personagens, de modo que vive com estes o seu destino inexorável, em vez de, vivendo embora emocionalmente o seu destino, ter ao mesmo tempo a possibilidade de distanciar-se o suficiente para, pela objetivação, chegar ao raciocínio. Assim compreenderá que êste destino de maneira alguma é eterno e inexorável, mas conseqüência de uma situação histórica, de um sistema social (p. ex. o da relação senhor-criado). O homem, sem dúvida, é determinado pela situação histórica; mas pode, por sua vez, determiná-la. O fito principal do teatro épico e do distanciamento é, portanto, estudar o comportamento do homem em certas condições e mostrar que estas podem e devem ser modificadas. É, pois, a “desmistificação”, a revelação de que as desgraças humanas não são eternas e sim históricas, podendo por isso ser superadas. O distanciamento, mais exatamente, procura tornar estranha a nossa situação habitual, anular-lhe a familiaridade que a torna corriqueira e “natural” e por isso incompreensível na sua historicidade. Pois tudo que é habitual apresenta-se como fenômeno natural e por isso imutável. Temos que ver o nosso mundo e comportamento objetivados, por uma momentânea alienação deles, para vê-los na sua relatividade e para, dêste modo, conhecê-los melhor. Todo conhecimento inicia-se com a perplexidade diante de um fenômeno. Distanciar, tornar estranho é, portanto, tornar ao mesmo tempo mais conhecido.
[...]
Brecht não visa a apresentar com Puntila um homem mau ou um homem bom, mas simplesmente um fazendeiro que, para ele, representa uma organização social. É um “modelo” proposto para demonstrar exemplarmente a atitude do superior que, não importa se com sinceridade ou para disfarçar a realidade, “concede” ao inferior paternalmente ocasionais benefícios, enquanto de fato, como vimos, tudo fica na mesma. [...] O fazendeiro seria provavelmente um “sujeito ótimo” [...] mas as condições não permitem que o seja (e se o fosse, perderia a fazenda, sem grande benefício para ninguém). O problema, para Brecht, não é, portanto, moral e sim social. Puntila quer ser bom, é por isso que se embriaga, pois “terrível é a sedução da bondade” e é duro ser mau [...]

Entretanto, por mais que Puntila se esforce por evitar este esforço, as suas tentativas de ser cordial se corrompem ante o “vício da responsabilidade”. [...] Todos os esforços do fazendeiro de ser generoso, por mais autênticos que sejam, fracassaram. A situação torna-os ambíguos, contamina-os de suspeitas, ao ponto de poderem ser interpretados como artimanha para desarmar os criados. “Se (os patrões) tivessem corpo de urso, ou cobra, a gente tomava mais cuidado”, diz a telefonista. A bondade chega a revestir-se de aspectos quase ameaçadores.

É nesta desconfiança que vive Matti, o criado cético, solidário com os seus colegas, que tem a sabedoria e um pouco também a esperteza dos oprimidos. Apesar de ser um “operário consciente”, tem dificuldade em resistir ao encanto de Puntila. Mas pelo menos sabe desta falha. “Ele é familiar demais”, assegura, desfamiliarizando a nossa familiaridade com essa familiaridade. [...]

Na dialética de suas relações, bem de acordo com Hegel, o senhor se torna cada vez mais dependente de quem dele depende, e quando Matti abandona Puntila a perda será maior para o patrão do que para o criado.
[...]
Mais que o esquema didático, exposto nesta apresentação, importa compreender o humanismo de Brecht. É verdade, a peça não visa a uma tese moral. Para Brecht, as soluções supremas pressupõem as humildes. Os valores sociais, embora inferiores aos morais, são precisamente por isso os básicos. Sem a realização do inferior, mas básico, não se desenvolve e frutifica o superior. Só depois de estabelecida a justiça social podem revelar-se o amor e a bondade na sua pureza e autenticidade. Toda a ênfase de Puntila é humanista. No horizonte da obra, não visível mas onipresente, espécie de imagem sugerida pelos contornos negativos da sombra que projeta no universo ambíguo da peça, pressente-se um mundo mais generoso em que Puntila pode ser bom e Matti, seu amigo."

Anatol Rosenfeld (A Cordialidade Puntiliana)

terça-feira, 3 de setembro de 2019

Album "Arte Degenerada"

Recebemos e publicamos: "Este é o segundo álbum solo de Gustavo Nassar (ex- Luiza Fria, ex-Império dos Sentidos). Com músicas tematizando uma crítica radical à [des]ordem social, 'Arte Degenerada' é uma resposta incendiária ao reacionarismo dos dias atuais. Contra o politicamente correto. É uma declaração anarco-artística de ruptura contra o processo de degradação geral no contexto da [des]ordem capitalista deste início de século XXI, lançando os maiores ídolos da atualidade ao chão."



TRACK LIST: 01. A Burguesia Fede (de verdade) [ 0:00 ] 02. Curto-Circuito Identitário [ 2:32 ] 03. Aceitei Jesus em Meu Coração [ 7:29 ] 04. Histeria Anticorrupção [ 11:18 ] 05. Orelha da Soberania Nacional [ 15:56 ] 06. Coaching Motivacional para Trabalhadores [ 19:33 ] 07. Afrodite Vive nos Locais de Labuta [ 24:49 ] 08. Temer Ficar sem o Fígado [ 27:43 ] 09. Empresas [ 30:57 ] 10. STF [ 35:50 ] 11. Incel Alt-Right Incel [ 39:54 ] 12. O Trabalho Dignifica o Homem [ 41:31 ] 13. A Monarquia Privada da Família Kim (don´t tread on me) [ 42:56 ] 14. A Arte Degenerada do Marxismo Cultural [ 48:59 ]

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Revertério

Parece que há um padrão que sempre se repetiu na história do capital: quando há crise geral de lucratividade na produção, os capitalistas desinvestem ou liquidam a produção para investir no capital financeiro. Esperam que este último encontre algo novamente lucrativo para colocar seu dinheiro. Mas na medida em que a crise geral de lucratividade continua, surgem apenas bolhas e mais bolhas especulativas que estouram sucessivamente. Por fim, só resta ao capital financeiro investir nos Estados, o garantidor último do capital (o "porto seguro"). Cada Estado compete com os demais para atrair capitais, e, nesse momento, o principal sinal de ser um destino atrativo é ser um Estado mais forte (logo, mais "seguro") do que outros. A corrida armamentista se acelera assustadoramente, uma economia de guerra aos poucos vai se formando quase imperceptivelmente. Até que um evento insignificante (real ou provocado) dispara uma guerra de alcance mundial. Segundo alguns historiadores, esse padrão se repetiu desde Veneza e Gênova no século XIV (que foi a primeira vez na história que o capital, ainda comercial, se tornou poderoso) a cada mudança do centro hegemônico do capital no mundo (Gênova->Espanha->Holanda->Inglaterra->EUA).
Porém, a crise de lucratividade atual (que perdura desde a década de 1970) decorre de uma composição orgânica do capital imensamente mais alta do que já se viu no passado. É uma crise estrutural da produção de valor e da acumulação do capital, i.e não parece ter solução que repita padrões anteriores da história. E a medida que o proletariado, como classe autônoma (i.e. com o projeto de uma sociedade sem Estado, sem fronteiras, sem exploração, que suprima a dominação do homem pelo homem), está há 40 anos tão derrotado que desapareceu da cena histórica (a ponto de hoje quase todos imaginarem que ele não existe mais), estamos muito provavelmente rumando para um longo período de neo-feudalismo, neo-barbárie, sob domínio de neo-aristocracias de gangsteres, de máfias, grupos de extermínio, fundamentalismos religiosos, etnicismos... Tudo aponta para um certo tipo de guerra de todos contra todos que abra espaço permanente para uma redução drástica da composição orgânica do capital (restaurando a lucratividade), devido ao imenso trabalho humano (portanto valor) que uma situação de barbárie extra-econômica generalizada exige. Esse gigantesco novo "campo de trabalho" que lida não mais com a "natureza", mas com a "segunda natureza" técnico-social enlouquecida dejetada pela própria barbárie da passagem do capital, seria a nova base da exploração do trabalho e, consequentemente, da valorização do capital. Já hoje, esse espírito de salve-se quem puder, de maneira inconsciente, toma a sociedade como único futuro imaginável (e esta é exatamente a "utopia" abertamente defendida pela nova direita proto ou neo-fascista, os Bolsonaros da vida, e também a esquerda nacionalista, identitária etc, que se espalham pelo mundo). Assim, a antecipação desse único futuro imaginado, sua preparação, já coloca todos nós no meio do que se supõe que estaria por vir (mesmo que não venha, como desejamos).
Essa situação está tendo um efeito sobre nós. Os textos de nosso site, humanaesfera, são feitos a partir de contatos e conversas na vida cotidiana com muitas pessoas, inclusive desconhecidos aleatórios. O site é um projeto não-autoral de reunir ideias e argumentos ouvidos na vida cotidiana que vão na direção da atualização para o século XXI do programa radical do proletariado de transformação da sociedade, buscando reunir de modo coerente essas ideias em uma teoria que pode ser tomada livremente e desenvolvida por qualquer proletário, conforme suas necessidades e capacidades de pensar e de lutar. Desde cerca de 2016, essas conversas na vida cotidiana se tornaram cada vez mais difíceis. Depois da derrota de junho de 2013 e a consequente desmoralização cada vez maior da solidariedade entre os explorados que, confiando cada vez menos em si mesmos, competem entre si para ser "salvos" por sua "própria" classe dominante, tudo aquilo que escrevemos são palavras que cada vez mais não dizem nada para os explorados derrotados. Desse modo, a fonte de nosso site está secando. O que nos restou é reunir o que aprendemos ao longo desses vários anos sob a forma de perspectiva teórica para tentar analisar e compreender o que está acontecendo hoje e transmitir a chama acesa para as próximas gerações. Espero que ainda consigamos fazer isso.
Há também outra questão muitas vezes menosprezada: e nosso coração neste mundo que parece sem coração definitivamente? Como proletários, o coração é tudo que temos: nossas capacidades, desejos, necessidades, nossa vida, rodeada e confrontada a condições objetivadas como uma força hostil voltadas contra nós mesmos, isto é, propriedade privada, o capital. Apesar de tudo, com um pouco de arte, agente vai levando. No vídeo abaixo, Nelson Cavaquinho cantando a música Revertério (Nelson Cavaquinho/Guilherme de Brito) em um documentário de 1969.
Nina Simone - Ain't got no / I got life :

humanaesfera, agosto de 2019

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Espelho no Wordpress

Em razão de o facebook, sem qualquer explicação, estar bloqueando o compartilhamento de todo e qualquer texto de http://humanaesfera.blogspot.com.br, estamos copiando os textos daqui para https://humanaesfera.home.blog/, para o caso de alguém desejar compartilhá-los no facebook.

Atualização 22/7/2019: o bloqueio do facebook terminou.

Abaixo, está um índice com o link para todos os textos copiados para https://humanaesfera.home.blog/:

ÍNDICE DE TEXTOS em https://humanaesfera.home.blog:


PRESSUPOSIÇÕES BÁSICAS:
POSIÇÕES:

PRÁXIS:

 HISTÓRIA:
ANÁLISES DO CAPITALISMO CONTEMPORÂNEO:
SOBRE ACONTECIMENTOS RECENTES:
DEBATES:
FILOSOFIA, ÉTICA, MATERIALISMO:
BIBLIOGRAFIA (com links):

O site humanaesfera é produto de debates e conversas entre muitas pessoas que não são nenhum grupo formal, muitas vezes inclusive com pessoas aleatórias da vida cotidiana, no trabalho, ônibus, rua, filas etc. O objetivo é reunir, ou, por assim dizer, "salvar" (para um maior público e para o futuro) as ideias comunistas libertárias, que não tem donos, e que surgem esparsas pela sociedade. Abaixo, textos clássicos dessa tendência:

quarta-feira, 3 de abril de 2019

Brochura humanaesfera #6 - Marx comunista individualista! (trechos sobre o indivíduo)




Saiu Humanaesfera #6Sexta brochura (livreto) com conteúdos deste site. Este número contém extratos sortidos de Marx sobre o indivíduo, a abolição do trabalho, do Estado , do capital e das classes pelos indivíduos livremente associados como fins em si, que se expressam com as forças produtivas histórico-mundiais. São os trechos que já publicamos no link: Marx comunista individualista! (trechos sobre o indivíduo, 1843-1858) e no link Comentários sobre James Mill (trechos) (Karl Marx, 1844).


Neste link, está o PDF com a brochura, que consiste de 5 folhas A4 para serem impressas frente-e-verso (em impressoras que imprimem em frente-e-verso automaticamente, selecione "borda curta" ou "no sentido da borda menor", ou ainda "Frente e verso, orientação vertical"), dobradas e grampeadas no meio. 

Também nos formatos:
Versão e-book EPUB ou versão e-book PDF.

Para outras brochuras, ver este link: Imprensa autônoma humanaesfera


sexta-feira, 15 de março de 2019

"Cadastro Positivo": o pesadelo que está por vir


Segundo a notícia Senado aprova cadastro positivo, que vai à sanção presidencial, o "cadastro positivo" vai passar a englobar automaticamente toda a população do Brasil. Na China isso já existe em estado avançado: o "Sesame Credit" é um sistema que cruza informações de cada pessoa (desde suas postagens nas redes sociais, as pessoas com quem se relaciona, os lugares que visita, as compras que faz, seu comportamento na vida cotidiana etc.) para liberar ou não o crédito (que é o dinheiro em si) em todas as coisas que cada pessoa faz, inclusive o acesso ao transporte público, acesso a estabelecimentos, serviços, compras etc.

O Incrível é que Marx, estudando as entranhas mais viscerais do sistema creditício no século XIX, já percebia exatamente isso:

"O crédito é o julgamento que a Economia Política realiza sobre a moralidade de um homem. No crédito, em lugar do metal ou do papel, é o próprio homem que se torna o mediador da troca - não como homem, mas como modo de existência de um capital e de seus juros. Assim, deixando sua forma material, sem dúvida o meio de troca retornou ao homem e se reincorporou ao homem, mas unicamente porque o próprio homem lançou-se para fora de si e se tornou para si mesmo uma forma material. Não é o dinheiro que se suprime no homem no interior do sistema creditício; é o próprio homem que se converte em dinheiro ou, noutra expressão, é o dinheiro que se encarna no homem. A individualidade humana, a moral humana, transformam-se, simultaneamente, em artigo de comércio e na existência material do dinheiro. Em lugar do dinheiro, do papel, é a minha existência pessoal, a minha carne e o meu sangue, a minha virtude social e a minha reputação social que se tornam a matéria e o corpo do espírito do dinheiro. O crédito calcula o valor monetário não em dinheiro, mas em carne e coração humanos. Este é o ponto em que todos os progressos e todas as inconsequências ocorrentes no interior de um sistema falso constituem a suprema regressão e a suprema consequência da abjeção.

No interior do sistema creditício, a natureza alienada do homem se afirma duplamente sob a aparência do máximo reconhecimento econômico do homem:

1º) entre o capitalista e o trabalhador, entre o grande capitalista e o pequeno capitalista, aprofunda-se a oposição, porque o crédito só é concedido a quem já possui, constituindo para o rico uma nova oportunidade de acumulação, enquanto o pobre - cuja existência depende dessa oportunidade - a vê assegurada ou negada segundo o arbítrio do rico ou conforme a opinião casual formada sobre ele;

2º) a mistificação, a hipocrisia e a vigarice recíprocas são levadas ao cúmulo; quanto àquele que não recebe crédito, não é julgado apenas como um pobre, mas também moralmente, como quem não merece confiança nem estima, um pária, um homem mau - à miséria do pobre soma-se a humilhação de rastejar para mendigar crédito ao rico;

3º) dada essa existência completamente ideal ao dinheiro, o homem pode praticar a falsificação monetária não só sobre qualquer matéria, mas ainda sobre a sua pessoa: o próprio homem, forçado a falsificar sobre si mesmo, deve simular, mentir etc. para obter crédito; assim, o crédito se torna - tanto para quem o concede quanto para quem o solicita - objeto de tráfico, de engano e de abuso mútuos. Aqui se revela, com toda a clareza, como, na base dessa confiança econômica, estão: a desconfiança, o cálculo suspeitoso para conceder ou negar o crédito; a espionagem em busca dos segredos da vida privada do solicitante; a denúncia de dificuldades momentâneas de um concorrente para desacreditá-lo etc. - todo esse sistema de falências e empresas falsas... No crédito público, o Estado ocupa a mesma posição que acabamos de caracterizar para o homem particular. Na especulação com os valores públicos, vê-se muito bem como o Estado se tornou o joguete dos comerciantes etc;

4º) enfim, o sistema creditício encontra seu acabamento no sistema bancário. A criação do banqueiro, o poder público da banca, a concentração da fortuna nessas mãos, este areópago econômico da nação, eis a digna coroação do sistema monetário. Quando, no sistema creditício, a avaliação moral de um homem, assim como a confiança no Estado etc, toma a forma do crédito, o mistério que se oculta sob a mentira dessa avaliação, a infâmia imoral dessa moralidade, tanto como a hipocrisia e o egoísmo dessa confiança no Estado - tudo isso emerge e aparece à luz do dia tal como é na realidade.” (Karl Marx, Cadernos de Paris, 1844)



Não deixe de ler também: Marx comunista individualista! (trechos sobre o indivíduo em Marx)

sexta-feira, 8 de março de 2019

Dia Internacional das Mulheres

No dia internacional das mulheres, lembramos que a verdadeira luta pela emancipação feminina é o oposto da política identitária (feminismo burguês), que busca colocar mulheres entre os exploradores, entre os patrões, policiais, burocratas, generais, CEOs ou busca transformar o trabalho doméstico não pago em mais um trabalho assalariado... A única luta verdadeiramente emancipatória é por libertar as mulheres do fardo da família, da desgraça que é ter que se matar para se submeter aos patrões ou aos maridos para conseguir dinheiro para cuidar das crianças. Crianças que a sociedade capitalista busca reduzir a uma propriedade privada delas (e consequentemente, à privação de propriedade delas), mas que na verdade são a próxima geração da humanidade com a qual todos nós somos responsáveis enquanto comunidade humana mundial.

Assim, indicamos esse texto que analisa a família, o núcleo da miséria e dominação das mulheres:  Contra o familismo novo e velho - abaixo a família!


domingo, 3 de março de 2019

"Internet das Coisas" e subsunção real da sociedade ao capital


Segundo o artigo Huawei, o 5G e a Quarta Revolução Industrial na China, a internet das coisas, base de uma suposta "4ª revolução industrial", está tendo um forte desenvolvimento e implementação, especialmente na China, com o 5G.

Já analisamos as consequências evidentes disso (juntamente com o "Blockchain") para as condições de vida da humanidade no capítulo 8 do texto "A internet: uma história de invocação, bolhas e subsunção ao capital". Abaixo, transcrevemos esse capítulo:

"8. TRANSFUSÃO DAS FORÇAS DESTRUTIVAS NOS POROS DO MUNDO FÍSICO - EMBUTIMENTO DA PROPRIEDADE PRIVADA NA "NATUREZA DAS COISAS": A UTOPIA SUPREMA DO CAPITAL (FELIZMENTE AINDA IRREALIZÁVEL)

A dominação do capital, antes de tudo e desde sempre, é o embutimento artificial da escassez na natureza objetiva. É a natureza transformada pelo trabalho alienado dos seres humanos em um poder separado deles, a propriedade privada. A população se torna privada de suas condições de existência materiais, e, consequentemente, todos, democraticamente, se vem forçados a comprar e, para isso, forçados a vender mercadorias voluntariamente, se quiserem sobreviver.

Nas sociedades pré-capitalistas, na servidão e na escravidão, a dominação era pessoal, diretamente de homens sobre outros homens, a vontade pessoal de uns sendo imposta diretamente à dos outros, negando-a. Diferentemente, o aspecto mais básico da sociedade capitalista é que ela transforma a dominação e exploração do homem pelo homem em algo que é voluntário, manifestação do livre arbítrio de cada um. Isso porque ela se dá numa condição coercitiva objetiva, a privação de propriedade, que impõe objetivamente, ou seja, de modo "neutro" ("democrático", "impessoal", "razoável", "justo", "natural") a necessidade de competir pela submissão à propriedade privada, à classe capitalista, para ganhar um salário e sobreviver. 

Visto que cada proletário, porque é privado de meios de produção, não tem nenhuma coisa para vender, ele, se quiser sobreviver (socialmente e fisicamente), só tem a opção de vender voluntariamente a si mesmo, suas capacidades vitais, no mercado de trabalho, aos proprietários dos meios de produção (a classe capitalista). Ele tem livre arbítrio, já que "pode" escolher morrer de fome ou se tornar mendigo ao invés de se vender. Comprada pelos capitalistas, estes consomem essa mercadoria: o proletário é colocado para trabalhar e transformar a natureza aumentando o poder objetivo que o confronta como uma força hostil, a propriedade privada.  Quanto mais ele trabalha, tanto mais privado de propriedade se torna, mais poderosa se torna a propriedade privada, e tanto mais transfere as capacidades humanas para ela (capital fixo: máquinas, automação, conhecimento e know-how tornados propriedade privada intelectual), criando ativamente o que o torna cada vez mais descartável, privado de propriedade, proletário. 

Em suma, na sociedade capitalista, a dominação se apresenta como um imperativo da realidade objetiva, uma "força da natureza" ("segunda natureza") que foi criada pelo próprio trabalho humano.  A escassez, a privação de propriedade, a propriedade privada, se reproduz como uma força independente que comanda todos os seres (humanos e não-humanos), inclusive a pessoa do capitalista (e também os Estados) que, se falharem na competição por acumular capital, entram em falência, e são automaticamente substituídos por outros mais "eficientes" nisso (é por isso que usamos a palavra "capital", pois é ele, de fato, que comanda a sociedade da mercadoria segundo uma lógica autônoma, automática, mas opaca, enquanto os capitalistas são apenas agentes, personificações do poder do capital, obrigados a aplicar os ditames da acumulação do capital sobre os seres humanos sob pena de caírem no inferno de se tornarem também proletários).

Mas, até hoje, a sociedade capitalista foi impossível sem um poder central, que, com polícia e prisões, impõe pela violência o respeito à propriedade privada, valida centralmente a equivalência dos meios de troca e de pagamento (dinheiro, crédito), protege e garante os contratos entre proprietários, e reprime a luta dos proletários contra a privação de suas condições de vida (luta que, por definição, desrespeita a propriedade privada dessas condições). Assim, a sociedade capitalista tem um calcanhar de Aquiles bastante concentrado e visível, que, se for atacado, desarranja instantaneamente todas as engrenagens do sistema da propriedade privada. Evidentemente, a existência desse ponto vulnerável, o Estado, causa grande preocupação à classe proprietária. 

Até hoje, a única maneira da classe proprietária justificar e legitimar o Estado - que é simplesmente uma empresa territorial, que, como todo capital, é uma ditadura para imposição do trabalho assalariado, submetida aos mesmos imperativos da acumulação do capital de qualquer outra empresa - foi apresentá-lo imaginariamente como neutro, acima das classes e do capital. Isto é, "Estado de Direito", representação de sujeitos (o cidadão) cuja "autonomia" coincide com sua sujeição voluntária a ele, em que o cidadão elege seu próprio patrão (que competem para serem escolhidos nas urnas), representação da "vontade geral do povo". Em outras palavras: a ideologia democrática (ou "socialista", como nos países de capital nacionalizado tais como a URSS e Cuba).

Porém, essa legitimação puramente imaginária nunca é plenamente convincente, e muitos capitalistas preferem pregar que o Estado é totalmente separado e alienígena à propriedade privada, enquanto que na realidade, como vimos, ele sempre foi de fato a instituição suprema e indispensável que garante sua existência. É simplesmente impossível que exista propriedade privada sem polícia, tribunais, forças armadas e prisões. Até hoje.

A tecnologia blockchain (o chamado smart contract) está sendo hoje fortemente financiada com o explícito objetivo de, no futuro, tornar a propriedade privada algo que já não dependerá mais de absolutamente nenhum "poder central", se tornando embutida no comportamento automático e descentralizado das coisas e, portanto, nas relações entre humanos mediadas por essas coisas. 

O objetivo é fazer cada coisa espontaneamente verificar, homologar e validar a condição pressuposta de privação de propriedade. Isso significa instantaneamente autenticar a escassez artificial de tudo pela equivalência quantitativa imposta pela propriedade privada: desde a homologação da limitação do uso pelo pagamento, a limitação da cópia por licenças de cópia, da autenticação do comando pela execução do trabalho, o enforcement instantâneo do respeito a patentes e propriedade intelectual em todas as coisas, e até das leis com os casos em que ela se aplica, etc. 

Com isso, cada objeto tenderá a deixar de ser um "produto" - que é comprado de uma vez, e cujo uso, após ter sido comprado, é independente da empresa e do mercado - para se tornar um "serviço" - em que uma assinatura ou uma licença é paga continuamente pelo seu uso, como um aluguel. Isso torna seu uso a curto prazo aparentemente muito mais barato e acessível para os proletários, mas acarretará que a classe proprietária terá o poder de impor diretamente a todo e qualquer uso o ditame da escassez contínua, e a "monetização" até dos gestos mais corriqueiro (especialmente com a popularização da wearable technology, p.ex., "roupas inteligentes", realidade aumentada, próteses "transhumanas",  sensores biomédicos, etc), tais como se vestir, andar, ir ao banheiro, dar descarga, bocejar, ver, ouvir, falar, respirar, até o peristaltismo, a circulação do sangue, as sinapses cerebrais ...  Todos os gestos, e até o funcionamento do organismo humano, a partir de então, encarnarão a coerção ao trabalho. Será preciso, de maneira ainda mais intensa do que hoje, trabalhar desesperadamente para conseguir dinheiro para pagar por existir.

É um cenário em que a "internet das coisas" assumirá por si só, automaticamente, o papel de cunha policial-penal que separa as capacidades das necessidades humanas, impondo a submissão à reprodução da propriedade privada dos meios de vida e de produção em absolutamente todos os aspectos da existência humana. 

A utopia da propriedade privada, como vimos, sempre foi converter a  totalidade das circunstâncias em que os seres humanos se encontram em imperativos "naturais", "objetivos", "automáticos" e "voluntários" de submissão aos ditames da acumulação do capital, ao máximo de trabalho. A diferença agora é que, com essas duas tecnologias, blockchain e internet das coisas, a polícia será automática, ela estará na "natureza das coisas". A prisão poderá ser o sofá da tua casa ou a própria "casa inteligente" (smart home), que subitamente tranca o "colaborador"; ou poderá ser todas as coisas (todos os "serviços" na smart home e na smart city) que, de uma hora para outra, param de funcionar para ele, isolando-o da sociedade que só existe conectada nelas. E o julgamento do "crime", um algorítimo descentralizado que devolve ao "criminoso" - que nada obriga que seja informado de que foi acusado, julgado e condenado (como já são hoje os "banimentos" nas redes sociais e nas empresas de "economia colaborativa") - a execução automática da pena. "Direito" e "fato" se tornam indistinguíveis. A ideologia do "Estado de direito" torna-se totalmente desnecessária para legitimar a cunha policial-penal, que se torna a própria objetividade "neutra" das condições em que cada indivíduo atomizado se encontra forçado a "livre escolher" voluntariamente. [17]

Felizmente, tudo isso ainda é apenas o sonho do capital. E não há dúvida de que a mínima tentativa de realizá-lo, numa sociedade que é um mecanismo cego de cujo funcionamento os capitalistas e seus tecnocratas são inerentemente os menos entendidos (por terem a práxis - e portanto o pensamento - totalmente nublada pelo fetichismo da mercadoria), levará certamente a efeitos incontroláveis que ameaçarão desarranjar e fazer ruir por inteiro o próprio funcionamento global do capital. (Por exemplo, veja o que aconteceu recentemente com a pequenina experiência da criptomoeda Bitcoin - da qual se originou a própria ideia de blockchain -, criada com base na fé fetichista inabalável na mão invisível atuando pela tecnologia automovente, pelo trabalho morto.) 

É muito mais provável que, no fim, a tecnologia blockchain seja utilizada principalmente pelos Estados, para manter seus registros instantaneamente atualizados e tornar esquemas de vigilância, julgamento, punição e policiamento automaticamente unificados e imediatos ao máximo. Ou senão, o que dá no mesmo, por empresas que na divisão do trabalho farão o papel unificador (a "interoperabilidade") necessário para o andamento da sociedade capitalista (que, sem isso, colapsa dilacerada pela competição, pela guerra de todos contra todos que a movimenta), cobrando taxas pelo acesso ao blockchain que é sua propriedade privada - p.ex. as implementações do blockchain, como o Ethereum, são assim -, propriedade privada que ao mesmo tempo será a infraestrutura unificante indispensável para todas as transações e coisas produzidas na sociedade capitalista. Na prática, essa taxa será a mesma coisa que um imposto, assim como essas empresas serão a mesma coisa que um Estado, que apenas deixaria de se adornar com a fachada ideológica democrática ("república", "monarquia constitucional", "socialismo") para se tornar diretamente uma monarquia absolutista corporativa (aliás, como sempre foi de fato, de um modo ou de outro: ditadura do empresariado).

Quanto à inteligência artificial, e as ilusões sobre ela, sobre desemprego e sobre renda básica universal, não vamos falar aqui, porque anteriormente já tratamos disso no texto:  Inteligência artificial, desemprego e renda básica universal: mais uma panaceia da classe proprietária."

Este é o capítulo 8 do texto "A internet: uma história de invocação, bolhas e subsunção ao capital" (o texto completo está no link).


segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Propriedade Absoluta (1982), de G. Kay & J. Mott


Traduzimos o texto "Propriedade absoluta", primeiro capítulo do livro “Political Order and the Law of Labour”, de G. Kay & J. Mott (Macmillan, London, 1982). Tradução para o português pela humanaesfera a partir da versão que pode ser encontrada em https://libcom.org/library/absolute-property-g-kay-j-mott. 

Índice:


Introdução

1- Propriedade privada 

2- Propriedade intensificada 

3- A abstração e a crítica da natureza

4- Forma social

5- O Estado

6- Abundância



Trecho:

"Na sociedade moderna, onde as condições de vida são propriedade privada, as necessidades são separadas das capacidades. Um estado de abundância alteraria isso. Necessidades e capacidades se encontrariam, fechando o espaço entre elas. Na sociedade moderna, esse espaço é ocupado pelas densas estruturas da propriedade privada – a ordem política e a lei do trabalho.
[...]
No coração da teoria da propriedade privada, o direito natural colocou o trabalho – a relação do homem com a natureza, posta em termos de pessoas legais e coisas. Isso deu surgimento à forma elementar da propriedade privada, persona-res. Mas, ao contrário do que parece à primeira vista, esta forma elementar da propriedade não é uma estrutura auto-contida de uma pessoa e uma coisa. É uma ordem social dentro da qual cada ato de propriedade é geral na medida em que o trespasse deve ser proibido. No entanto, embora a propriedade privada sempre assuma a forma de relação social entre pessoas, ela não é uma forma em que as coisas têm um papel passivo. Na sociedade política, as coisas tem vida própria.
[...]
Ali onde a propriedade privada é o modo universal de apropriação, a forma legal persona-res é a ossatura que unifica a sociedade. A necessidade de uma tal amarra especialmente desenvolvida surge quando é negado aos elementos ligados por ela a possibilidade de estabelecerem uma unidade direta em si mesmos. A própria existência de uma amarra jurídico-legal entre pessoas e coisas pressupõe uma verdadeira separação. De fato, a propriedade privada pressupõe não apenas uma, mas toda uma série de separações das quais esta é a primeira: a saber, as condições materiais de vida são coisas jurídico-legais sobre as quais nenhuma pessoa pode exercer uma reivindicação direta. Nada na sociedade capitalista pode ser adquirido mediante a simples possessão ou direito natural, visto que não há relações diretas entre os homens e o mundo à sua volta. Assim, a primeira separação implicada pela propriedade privada como sua condição de existência, uma existência que continuamente reproduz essa condição, é a divisão categórica entre pessoas e coisas, cujo refinamento como sujeitos e objetos jurídico-legais, longe de superar a separação, na verdade a reforça. Esta primeira cisão é completada por uma segunda – a separação entre sujeito e sujeito e entre objeto e objeto – através da qual se faz com que a propriedade privada funcione como sistema.

O aspecto distintivo da propriedade moderna que a diferencia das formas mais antigas e menos desenvolvidas da antiguidade clássica e do feudalismo é que essas duas separações, que resultam em um mundo de sujeitos individuais de um lado e de objetos discretos do outro, se tornaram absolutas ao se combinarem para formar uma terceira: a separação do direito de propriedade face a todos os objetos. Na sociedade capitalista, as capacidades jurídico-legais que selam um indivíduo como detentor de propriedade não derivam da posse direta. Quando, neste sentido, a propriedade é absoluta (propriedade absoluta), uma cunha é colocada entre o direito de propriedade e todos os objetos, criando um abismo entre sujeitos e objetos e abrindo um espaço que é imediatamente preenchido pelo Estado. A sequência é lógica, não sequencial: a separação entre a subjetividade e os objetos não acontece primeiro criando um espaço que o Estado ocupa depois - os eventos ocorrem simultaneamente. O espaço é preenchido no mesmo momento de sua criação, dado que está na natureza deste espaço existir apenas como espaço ocupado. A fundação da propriedade absoluta e o estabelecimento do Estado são momentos recíprocos do mesmo processo. [...]" Propriedade Absoluta (1982), de G. Kay & J. Mott.

Link para o texto completo: "Propriedade absoluta"