quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Propriedade Absoluta (1982), de G. Kay & J. Mott. Parte 6: Abundância



Terminamos de traduzir a última parte do texto "Propriedade absoluta", primeiro capítulo do livro “Political Order and the Law of Labour”, de G. Kay & J. Mott; Macmillan, London, 1982. Tradução para o português pela humanaesfera a partir da versão que pode ser encontrada em https://libcom.org/library/absolute-property-g-kay-j-mott. 

Publicamos a tradução em partes, correspondentes a um subcapítulo cada uma:


1- Propriedade privada 
2- Propriedade intensificada 
3- A abstração e a crítica da natureza
4- Forma social
5- O Estado
6- Abundância

A seguir, está a tradução do subcapítulo 6: "Abundância".






PROPRIEDADE ABSOLUTA

(Geoffrey Kay & James Mott)





ABUNDÂNCIA
Para que o estudo da sociedade política não seja uma odisseia através de uma sala de espelhos, é necessário um ponto de referência externo para uma perspectiva histórica. Antes da revolução francesa, os filósofos políticos orientavam suas investigações partindo de um estado natural, no qual, acreditava-se, os homens teriam a posse de direitos em virtude de sua humanidade. Os direitos formais da sociedade política então poderiam ser adjudicados nos termos desses direitos naturais que forneceriam os critérios da razão para julgar a validade do estado político como expoente da vontade geral. No século XIX, com a intensificação da propriedade privada, a razão iluminista perde seu encanto, a medida que se torna claro que não havia nenhuma condição na qual o Estado poderia exprimir a vontade geral da sociedade, visto que ele era por natureza uma força especial ou Estado de classe. Sob o regime do capitalismo industrial, as deficiências do direito natural foram expostas e seu caráter assumidamente conjectural o tornou inadequado para a crítica histórica concreta. Além disso, dado que o estado natural foi construído a partir dos elementos da propriedade privada, o seu uso como ponto de partida da crítica envolvia uma circularidade fatal do pensamento. O capitalismo industrial só podia ser criticado nos termos da propriedade privada, isto é, em seus próprios termos, já que ele não era nada mais do que a propriedade privada, embora intensificada. Qualquer crítico que empregasse suas categorias não poderia ver além das formas fundamentais da nova ordem, e a única alternativa que ele poderia oferecer às misérias da propriedade intensificada era a regressão à ficção da produção simples de mercadorias, na qual a separação entre necessidades e capacidades, que estabelece a força de trabalho como uma mercadoria, era simplesmente omitida. Diante das rudes realidades da propriedade intensificada, a razão não-regenerada definhou em utopismo romântico, que visa restaurar a unidade do trabalho como fato original da natureza traduzido pela história política.
O colapso da razão absoluta derivada de um estado de natureza conjecturado não removeu a necessidade de crítica histórica, mas estipulou novos termos para ela. A crítica:
(1) precisava fornecer a base para uma história real do capitalismo;
(2) precisava evitar a circularidade do pensamento que conduz à nostalgia, ela não poderia mais ser derivada da propriedade simples, e
(3) precisava oferecer uma alternativa real ao presente em termos de necessidades e capacidades tal como estavam realmente se desenvolvendo.
No Manifesto comunista (1848), Marx e Engels desenvolveram uma crítica da sociedade capitalista que preenchia estas condições, e, desde então, o estado de abundância superou o de natureza como o ponto de partida da análise política genuína.
A abundância, ou comunismo, não é fartura infantil – a replicação de produtos para a gratificação imediata de sujeitos desejantes -, já que ela dissolve os sujeitos formais e a contingência do desejo. Também não é uma racionalização empírica dos recursos contra a destruição e o desperdício. Sua possibilidade é diretamente estruturada nas capacidades produtivas, que portanto não são meios a serem dispostos de acordo com fins exteriores. Em outras palavras, a abundância não pode ser alcançada mediante um plano que busca reconciliar meios e fins, pois um plano reteria a separação formal entre necessidades e capacidades. A racionalização planejada da produção capitalista por meio da razão formal não é uma alternativa. E nem é prática: pois enquanto as necessidades forem formalmente separadas das capacidades, a lei do valor subjuga todos os esforços de racionalização, e, como nos eventos recentes no leste, oeste e sul tornam claro, subverte inclusive a possibilidade de fartura infantil. A abundância está além do “estreito horizonte do direito”, nela, as formas da propriedade privada não mais existem e a capacidade humana de trabalhar não mais é uma mercadoria. O trabalho social necessário para a provisão da subsistência retém um elemento de formalidade (planejamento) para alocar meios aos fins; mas os termos nos quais o produto social é disponibilizado são dissociados disso, e nada fica entre o indivíduo e suas condições de vida. Ao mesmo tempo, esse remanescente de formalidade é comprimido pelo vasto crescimento das capacidades produtivas – o desenvolvimento da produção automática – que reduz o trabalho necessário ao mínimo. O trabalho não-necessário não é mais incorporado em um sobre-produto, mas se torna atividade livre. A atividade livre é necessidade e capacidade ao mesmo tempo – a unidade imediata do trabalho.
Em contraste com o estado de natureza, que é conjecturado a partir dos elementos da sociedade política projetados em um vácuo a-histórico, o estado de abundância tem uma procedência. Nem a sua distância como possibilidade prática e nem a sua completude como solução para a política tornam seu conceito idealista. Ele é a possibilidade da sociedade política cujo desenvolvimento forneceu seus materiais históricos – as capacidades e necessidades universais do trabalho, que atualmente existem negativamente como armas de destruição em massa e população excedente relativa (subdesenvolvimento). O estado de abundância não é deduzido como um devaneio utópico a partir de especulações sobre a natureza humana: a possibilidade de uma unidade direta das necessidades e capacidades surge exclusivamente de sua separação formal na sociedade política. Além disso, ele não é apenas uma possibilidade dada pela determinação da força de trabalho como mercadoria, mas uma necessidade; ele é a necessária, embora não inevitável, resolução da [contradição entre] riqueza subjetiva e miséria objetiva. Daí que a abundância não é a base da sociedade política do mesmo modo como o estado de natureza era pensado que fosse, mas sua própria possibilidade futura projetando suas sombras para trás e, ao mesmo tempo, puxando a história para adiante.

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6- Abundância


terça-feira, 4 de dezembro de 2018

On the "yellow vests" (gilets jaunes) in France - Sobre os "coletes amarelos" na França





On the "yellow vests" (gilets jaunes) in France:

While this movement remains in the sphere of the circulation of commodities, it is condemned to be "citizen" and, consequently, "fascist". Only if it attacks and takes the sphere of commodity production, can the proletariat emerge as an autonomous class against the capitalists and the state. Only in this way, when it emerges decisively as a class, it inexorably affirms the communist program of total and borderless (cosmopolitan) transformation of society, the abolition of wage labor, by placing production immediately to satisfy human needs and capacities as ends in themselves. The proletariat is either revolutionary or nothing. What is needed, at least, is that the Communists clearly present this communist program against the spectacular illusions that emerge from the sphere of circulation in which that movement moves.

At least this is the lesson we learned from the 2013 events in Brazil, which ended in a brutal democrat-fascistization of social relations today. We present these lessons from the 2013 events in Brazil in the article at this link: What happened in June 2013 in Brazil? - From the incipient material community to its reactionary destruction in the ideological pseudo-community

humanaesfera, December 4, 2018



Reports and analyzes:
In English, an interesting collection of articles has been translated by Ediciones Inéditos: On the Gilets Jaunes: Dispatches from France

In Spanish, we found this article translated: CHALECOS AMARILLOS PARA QUIENES VEN ROJO 




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Sobre os "coletes amarelos" (gilets jaunes) na França:

Enquanto o movimento permanece na esfera de circulação de mercadorias, ele é condenado a ser "cidadão" e, consequentemente, "fascista". Unicamente se atacar e tomar a esfera da produção de mercadorias, o proletariado pode emergir como classe autônoma contra os capitalistas e o Estado. Apenas assim, emergindo decisivamente como classe, ele inexoravelmente afirma o programa comunista de transformação total e sem fronteiras (cosmopolita) da sociedade, a abolição do trabalho assalariado, ao colocar a produção diretamente para satisfazer as necessidades e capacidades humanas como fins em si. No mínimo é preciso que os comunistas apresentem claramente este programa comunista contra as ilusões espetaculares que surgem da esfera da circulação na qual o movimento se move.

Ao menos é esta a lição que aprendemos dos eventos de 2013 no Brasil, que terminaram numa brutal democrato-fascistização das relações sociais hoje. Apresentamos essas lições que tomamos dos eventos de 2013 no texto:  O que foi junho de 2013? - da incipiente comunidade material a seu esmagamento reacionário na pseudo-comunidade ideológica.

humanaesfera, 4 de dezembro de 2018


Relatos e análises:
Em inglês, interessante coletânea de artigos foi traduzida por Ediciones Inéditos: On the Gilets Jaunes: Dispatches from France

Em espanhol, encontramos este artigo traduzido: CHALECOS AMARILLOS PARA QUIENES VEN ROJO 

terça-feira, 27 de novembro de 2018

Propriedade Absoluta (1982), de G. Kay & J. Mott. Parte 5: O Estado



Estamos traduzindo o texto "Propriedade absoluta", primeiro capítulo do livro “Political Order and the Law of Labour”, de G. Kay & J. Mott; Macmillan, London, 1982. Tradução para o português pela humanaesfera a partir da versão que pode ser encontrada em https://libcom.org/library/absolute-property-g-kay-j-mott. 

Publicaremos a tradução em partes, correspondentes a um subcapítulo cada uma:


1- Propriedade privada 
2- Propriedade intensificada 
3- A abstração e a crítica da natureza
4- Forma social
5- O Estado
6- Abundância

A seguir, está a tradução do subcapítulo 5, "O Estado".





PROPRIEDADE ABSOLUTA



(Geoffrey Kay & James Mott)


O ESTADO

Do século XVI ao XVIII, o pensamento político colocou a análise da propriedade privada e do contrato no âmago da teoria do Estado. As contribuições mais importantes à tradição do direito natural foram as de Hobbes e Locke no século XVII e, no século XVIII, de Rousseau, cujo Contrato Social marcou seu apogeu. O método dessa tradição era contrastar a sociedade política, na qual o Estado se desenvolvia, com o estado natural, em que o Estado estaria ausente. Visto que o estado natural era baseado em uma conjectura, os resultados desta abordagem foram limitados. Em particular, a sua teoria da transição do estado natural ao estado político por meio de um contrato social abrigava inconsistências que ela nunca pôde resolver. Um contrato social, como qualquer outro, só pode ser efetuado por pessoas que possuem as competências apropriadas, ou seja, por sujeitos de direito. Mas como os filósofos políticos vieram a entender que essas capacidades eram políticas, e que o direito só poderia ser estabelecido mediante o Estado, a inconsistência da teoria do contrato se tornou gritante. Para que efetuassem o contrato que formou o Estado, os homens deveriam estar dotados de direitos que derivam do Estado. No tempo em que Rousseau tentou aperfeiçoar a lógica da teoria do contrato, não havia escapatória que não a conclusão de que o Estado foi a condição necessária para sua própria criação.

Nesse momento, a teoria do direito natural descobriu o fato fundamental do estado político, o de que ele é auto-constituinte, mas ela era incapaz de se basear nisso. A teoria política nos séculos XVII e XVIII era parte do movimento mais amplo do pensamento moderno que incluía o desenvolvimento da teoria científica. Em especial os trabalhos de Newton sobre física e matemática exerceram profunda influência, e inspiraram uma lógica mecânica de causa e efeito. Mas enquanto esse método permitiu à teoria política romper com o pensamento feudal e se desenvolver como ciência, ele travou o direito natural quando estava prestes a descobrir a natureza auto-constituinte do Estado. No quadro da lógica newtoniana, em que a causa é não só logicamente anterior ao efeito como também o precede no tempo, é impossível conceber o Estado como condição de sua própria existência.

Para mais avanços na teoria do Estado, foi preciso uma reformulação completa de seu método, e esta foi a proeza da filosofia idealista alemã na virada do século XIX, especialmente Hegel. A própria contribuição de Hegel à teoria do Estado foi seriamente limitada por seu idealismo, que impediu que compreendesse o desenvolvimento empírico da sociedade política. Isso o levou a sobrepor seu pensamento sobre ela de um modo que se mostrou inerte e pouco esclarecedor. Mas o desenvolvimento que fez da lógica dialética foi um avanço seminal. Hegel substituiu a rigidez mecânica da causa e efeito com uma lógica fluida cujas categorias se moviam entre si de maneira que tornava possível ver que o que é premissa em um momento é consequência no momento seguinte. Nos termos desta lógica, a dificuldade de ver o Estado como condição de sua própria existência foi superada, possibilitando compreender e explorar sua natureza auto-constituinte pela primeira vez. Esta foi a contribuição feita à teoria política por Marx que, modificando o método de Hegel, produziu uma crítica do direito natural de longo alcance. Visto que era dirigida contra a economia política, sua importância para a teoria do Estado não é imediatamente óbvia, e é necessário um esforço de interpretação para revelá-la. Mas a teoria da abstração com que Marx criticou e reconstruiu a teoria do valor-trabalho se aplica com igual força à teoria do direito natural e do contrato social.

O feito notório do direito natural foi colocar a propriedade privada e o contrato no âmago da teoria do Estado. Acreditava-se que no estado de natureza, os homens tinham contato imediato com o mundo à sua volta e podiam tomar posse de tudo o que estivesse ao alcance da mão. Esse estado foi conjecturado, mas, como um ponto de contraste, focalizou o aspecto distintivo da sociedade política, na qual a apropriação não mais é direita, mas mediada através da subjetividade e da objetividade – a propriedade privada. Nos dois estados, a apropriação implica em força, primeiro para tomar e depois para manter. No entanto, enquanto no estado de natureza essa força é exercida diretamente por um indivíduo em seu próprio interesse, na sociedade política, ela é exercida indiretamente, por outros em seu nome. Segundo Rousseau, os homens saíram do estado de natureza porque seus poderes individuais se tornaram demasiado fracos para sustentá-los; e, em troca de ceder seus direitos naturais, receberam direitos políticos mantidos pelo poder da comunidade como um todo. Em termos de apropriação, isso significou que os indivíduos não mais exerciam força para manter as posses, que eles agora detinham como propriedade privada mediante direitos garantidos pelo Estado.

A diferença entre este entendimento da sociedade política e a visão liberal convencional não poderia ser mais nítida. Na visão liberal, a sociedade política é sustentada por meio da reciprocidade de direitos. O direito de um indivíduo é simplesmente espelhado no de outro (um mundo de inter-subjetividade), e isso cria uma comunalidade de interesses mútuos que provê o fundamento da sociedade. O Estado, então, exprime essa comunalidade mediante a constituição democrática, e a salvaguarda com sua soberania. Já segundo o direito natural, re-elaborado pela teoria da abstração, a recíproca da reivindicação, sua forma equivalente, é a força. A reivindicação de uma coisa por uma pessoa só se torna elemento de direito quando a força que a defende é exercida por outro. Na sociedade política, na qual as posses particulares são detidas através de um direito de propriedade geral, essa força é universal. Não há reciprocidade imediata de interesses, como a teoria liberal afirma, mas uma equivalência universal dos sujeitos mediada pela relação comum deles com uma força absoluta. O representante dessa força é o Estado, que não fica de fora como se fosse um terceiro que garante as regras, mas é o poder soberano que constitui todos os participantes como sujeitos.

De acordo com a teoria liberal, a propriedade privada é enraizada na necessidade racional e o Estado chega post festum, logicamente se não historicamente, para proteger seu bom funcionamento como sistema. Segundo a teoria da abstração, a propriedade privada é abstraída de toda racionalidade, e é enraizada na força. O Estado não é uma salvaguarda de segunda ordem da propriedade absoluta depois de ele ter se derivado racionalmente dela, mas a força universal que é parte indispensável dela.

Apesar de ser a força geral ou universal na sociedade, o Estado permanece uma força especial, visto que ele é apenas uma parte dela. As consequências disso e as tentativas de resolvê-las se tornaram o assunto central da teoria política. Rousseau, que se recusou a se contentar com as banalidades constitucionais do liberalismo, buscou uma resolução no conceito de uma vontade geral que compeliria todo Estado legitimamente estabelecido a exercer poder racionalmente para a comunidade como um todo. No século XVIII, antes da propriedade ter se intensificado na produção capitalista e quando ainda parecia ter raízes, por mais atenuadas, em um sistema de necessidades, essa vontade ainda era plausível. Mas quando o capitalismo industrial se apoderou da sociedade, realidades mais escabrosas vieram à tona. Assim, Lenin, elaborando a partir da análise do capitalismo de Marx, substituiu a vontade geral de Rousseau com o conceito de Estado de classe – isto é, o Estado como uma força especial na sociedade e que é geral apenas no sentido de que ele exerce poder sobre o todo da sociedade. Visto que o poder (força) é a recíproca das reivindicações de propriedade, e visto que a propriedade privada, por sua vez, é a forma através da qual o trabalho é explorado pelo capital, o Estado por sua própria natureza é um Estado de classe ou capitalista. Nesse ponto, a grande tradição da filosofia política que começou com Maquiavel alcançou sua conclusão – e mais nenhum avanço significativo foi feito na teoria do Estado desde então. [3] O objetivo dessa tradição foi descobrir a anatomia do Estado, e o que fornece a continuidade temática ao longo de seu desenvolvimento é a tentativa de produzir uma teoria unitária do Estado em termos de propriedade privada e contrato.
No final do século XIX, o Estado entrou em uma nova fase histórica a medida que sua administração foi elaborada em um grau historicamente sem precedentes. Começando na Grã Bretanha na década de 1870, inaugurou-se uma fase de construção liberal do Estado em que o Estado não mais parecia uma força distante, mas intimamente amarrado à sociedade. No século XX, especialmente no período desde a segunda guerra mundial, esse processo continuou de um modo patológico, de maneira que o Estado agora infunde cada sujeito, que, além de ser um cidadão, também é um administré. À primeira vista, a teoria tradicional, que sempre teve a forma de uma investigação filosófica sobre o Estado, parece incapaz de lidar com seu desenvolvimento. Esta presunção é fundamental para o projeto modernista, que tratou esse desenvolvimento em seus próprios termos e meramente reproduziu sua complexidade sem explicá-lo. O modernismo pode ser rejeitado em termos estéticos; ele também pode ser questionado filosoficamente, mas a sua rejeição definitiva é a demonstração de que o desenvolvimento do Estado desde os anos 1870 pode ser plenamente explicado nos termos daquela tradição, mostrando que ele é a história natural da abstração.

NOTA:
[3] Nota dos tradutores: aqui o autor parece desconhecer as contribuições, desde os anos 1920, dos comunistas de conselhos, da esquerda comunista italiana, da Internacional Situacionista e de inúmeras tendências comunistas. Antes mesmo disso, os anarquistas comunistas já tinham desenvolvido a crítica radical do Estado como Estado de classe, embora desde então eles tenderam a congelar em ideologia sua teoria, tornada quase um culto às personalidades e iconografia do anarquismo do século XIX ou da revolução espanhola. Por outro lado, a teoria anti-estatal de Lenin (em “O Estado e a Revolução”) se mostrou só mais uma ideologia diante da prática dos bolcheviques e leninistas, que se esforçaram por reproduzir a exploração sob um capitalismo nacionalizado sob pretexto de “regime de transição”.

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Próximas partes do texto "Propriedade absoluta" que ainda serão traduzidas e publicadas neste site:
6- Abundância



quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Propriedade Absoluta (1982), de G. Kay & J. Mott. Parte 4: Forma social



Estamos traduzindo o texto "Propriedade absoluta", primeiro capítulo do livro “Political Order and the Law of Labour”, de G. Kay & J. Mott; Macmillan, London, 1982. Tradução para o português pela humanaesfera a partir da versão que pode ser encontrada em https://libcom.org/library/absolute-property-g-kay-j-mott. 

Publicaremos a tradução em partes, correspondentes a um subcapítulo cada uma:


1- Propriedade privada 
2- Propriedade intensificada 
3- A abstração e a crítica da natureza
4- Forma social
5- O Estado
6- Abundância

A seguir, está a tradução do subcapítulo 4 "Forma social".






PROPRIEDADE ABSOLUTA



(Geoffrey Kay & James Mott)




FORMA SOCIAL

A história é construída sobre a fundação do trabalho, que é o único meio pelo qual os homens se apropriam da natureza. É mediante o trabalho que os homens tomam posse do mundo e tornam os materiais da natureza em produtos que satisfazem as necessidades. Por esta razão, o trabalho é o núcleo racional da sociedade. Mas a propriedade privada interrompe as coisas, visto que é construída sobre a separação dos homens frente ao mundo a sua volta. Ela se interpõe como uma cunha que força os homens à parte da natureza, e, então, como uma amarra que os solda juntos. Separação e unificação ocorrem simultaneamente através do estabelecimento de sujeitos e objetos de propriedade. Assim, a propriedade privada tem dois lados correspondentes aos aspectos fundamentais da abstração: um é a separação, o outro é a uniformidade. Como sujeitos de propriedade, todos os homens são equivalentes e se movem em um mesmo plano.

Na sociedade capitalista, a abstração encharca a racionalidade. O intercurso dos homens com a natureza é interrompido e transformado em troca de mercadorias. Subjetividade e objetividade são formas sociais. O processo de abstração e a constituição dessas formas sociais são simplesmente a mesma coisa: a forma é a cristalização da abstração. Considere o processo familiar de pesagem, em que uma fatia de pão, por exemplo, é colocada em um lado de uma balança e algumas peças de ferro no outro lado. Quando a balança se equilibra, o peso do ferro se iguala ao do pão, mas ao colocar o aspecto quantitativo de um lado, isso é considerado a base com a qual ele é estabelecido. O peso do pão é antes de tudo uma qualidade natural do pão: uma parte integral de sua constituição que não pode realmente ser removida sem destruir o pão. Porém, ele pode ser formalmente separado do pão, possibilitando lhe dar uma existência objetiva. Na pesagem, dá-se ao peso do pão uma segunda forma de existência como peças de ferro. Em certo sentido, essas peças não são o peso do pão, elas não são seu peso real, que permanece uma parte integral do pão. Mas em outro sentido, elas são seu peso, seu peso formal. Aqui estão envolvidos quatro aspectos fundamentais da abstração e do estabelecimento da forma.

(1) A formalização da qualidade de uma coisa não cria essa qualidade em primeiro lugar, mas meramente lhe dá uma forma distinta e separada. Pesar uma fatia de pão não cria seu peso, mas dá a este peso uma segunda forma de ser que é distinta e que não tem nada especificamente do pão nela.
(2) A existência formal de uma coisa é tão real quanto sua existência original ou natural: o peso formal da fatia é tão real quanto o seu peso real.
(3) O processo de formalização é de abstração em dois sentidos: (a) a formalização da qualidade de uma coisa requer sua separação dessa coisa: o peso formal do pão é algo à parte do pão enquanto tal; (b) na sua existência formal, uma coisa não se torna diferente das outras coisas formalizadas. Não é apenas o pão que pode ser pesado, mas muitos outros itens – açúcar, chá, carvão, etc. E quando todos eles são pesados, cada um se torna a mesma coisa que os outros e se movem no mesmo plano como equivalentes uns dos outros. Neste sentido, a formalização é abstração como equivalência ou uniformidade – a desconsideração da particularidade.
(4) Apesar da formalização não criar o que é formalizado, ela lhe dá um potencial totalmente novo. Através do processo de formalização, uma coisa é refletida de volta a si mesma. Quando pesado, o peso do pão, agora formalizado, está fora do pão, que por sua vez confronta seu próprio peso como algo externo a ele, capaz de determinar sua própria existência (isto é, a do pão). Uma vez que o peso do pão é formalizado, torna-se possível organizar a sua produção com o critério do peso.
Por mais simples que seja esta metáfora, e por mais enganadora se for levada muito longe, estas generalizações são válidas para a propriedade privada e sua intensificação.
Como atividade racional, o trabalho é apropriação, o meio mediante o qual os homens tomam posse do mundo a sua volta. Neste sentido, ele pressupõe propriedade: é um ato de propriedade, mas não propriedade privada, que é uma formalização disso. O estabelecimento da propriedade privada não é a criação da propriedade mas uma cristalização dela, a partir da produção, em uma forma em que ela existe distinta do trabalho. Essa formalização é mais plenamente desenvolvida como subjetividade universal, em que os direitos de propriedade são totalmente divorciados da atividade racional, e todas as relações direitas com o trabalho são cortadas. Isso corresponde ao ponto (1) acima; o próximo aspecto da propriedade privada, sua realidade como uma forma, o (2) acima, é claro. Embora a propriedade privada não tenha como forma uma existência tangível como o peso (peças de ferro), a sua realidade é igualmente certa. Assim também é a sua natureza abstrata, (3). Primeiro, é uma separação (formalização) da apropriação racional e, segundo, ela estabelece a equivalência de tudo o que abrange. Ao se aplicar tanto a sujeitos como a objetos de modo a obliterar as distinções naturais entre eles, isso torna possível a intensificação da propriedade.
A produção capitalista, a propriedade privada refletida de volta a si mesma, confirma o último ponto, (4). A organização da produção para o lucro é a produção abstraída da necessidade racional.
A filosofia política tradicional reconhecia que a análise formal da propriedade privada era o único ponto de partida válido para a teoria do Estado. Tendências na teoria moderna tem mal interpretado isso como formalismo em dois sentidos. Primeiro, ele parece apoiar a impressão popular de que formal significa fixo e rígido. O direito e a administração, mediante os quais o caráter da sociedade moderna é estabelecido, parece, à primeira vista, apoiar esta impressão. É tentador imaginar a estrutura formal da sociedade como a imagem de um moderno bloco de escritórios que determina o espaço no qual as atividades acontecem, e até mesmo as próprias atividades. Mas apesar desta imagem capturar o poder determinado da formalização e seu caráter sistemático, a fluidez é perdida. Uma imagem mais adequada da formalidade da sociedade moderna é a matemática, que combina coerência e movimento. Na matemática, axiomas são elaborados sem que sejam alterados no seu fundamento. O axioma da sociedade capitalista é a forma única universal da propriedade privada: mas ela compreende uma série de elementos formais em contínuo fluxo e desenvolvimento. Isso dá uma segunda falsa impressão, a de que a capacidade de uma forma de ser elaborada é a capacidade da forma de se elaborar de acordo com uma lógica própria (teleologia).
O trabalho, e - deve ser enfatizado - apenas o trabalho, é a fonte da história. Enquanto a estrutura formal da sociedade é fluida e carrega o potencial de transformação, o trabalho porta não apenas o potencial, mas a capacidade de realizá-la. Na sociedade capitalista, a iniciativa imediata saiu inteiramente das mãos dos produtores: no entanto, a responsabilidade final pela produção social e por seu desenvolvimento repousa no colo do trabalho social. O potencial do trabalho de se colocar em movimento decorre de sua natureza como atividade propositiva, uma dialética das necessidades e capacidades que estabelece tanto as condições do progresso quanto as possibilidades reais de alcançá-lo. A abstração do trabalho frustra isso ao interromper a relação direta entre necessidades e capacidades, substituindo-a pela relação formalizada da propriedade intensificada no trabalho assalariado. Mas isso nunca freia o movimento. E nem a abstração é um único ato que alcança seu fim de uma vez por todas. Assim, o processo de abstração precisa ser continuamente renovado em condições sempre mutantes, e é isso que dá surgimento à elaboração contínua das formas. A complexidade superficial da sociedade moderna não deriva do direito, administração ou de qualquer outro elemento formal; e ela também não é a consequência espontânea da divisão do trabalho e do desenvolvimento da produção social. Ela surge como resposta da formalização frente ao desenvolvimento real. Os avanços na produção social tendem à simplificação dos processos sociais a medida em que eles tornam mais próxima a possibilidade de abundância em que as necessidades são diretamente relacionadas às capacidades. Mas é precisamente esta possibilidade que a sociedade moderna deve frustrar. A complexidade formal da sociedade é sinal de sua simplificação potencial – um índice das forças que pressionam contra ela.

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Próximas partes do texto "Propriedade absoluta" que ainda serão traduzidas e publicadas neste site:

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Estalinismo canavieiro


Estudo detalhado sobre o que é e como funciona o capitalismo estatizado de Cuba: a imposição do trabalho assalariado, as empresas, o lucro, a acumulação do capital, a privação de propriedade dos meios de vida e de produção pelo proletariado e a consequente sujeição deles à uma burguesia de Estado, o proprietário desses meios. Escrito por ES e publicado em inglês na revista Intransigence número 2 (julho de 2018) (https://intransigence.org/2018/07/09/sugarcane-stalinism/). Tradução para o português pela humanaesfera.



Estalinismo canavieiro

Capitalismo de Estado e desenvolvimento em Cuba


As nações, assim como os indivíduos, não podem escapar dos imperativos da acumulação do capital sem abolir o capital.” (Grandizo Munis, “Por um Segundo Manifesto comunista” [1])
Segundo a narrativa oficial sobre a natureza das transformações da economia e da sociedade em geral desencadeadas pelo governo cubano após a assim chamada “revolução” de 1959, a reforma agrária e a subsequente estatização da economia – isto é, a transferência da propriedade dos meios de produção dos capitalistas privados para o Estado – colocaram Cuba no caminho do socialismo. Este é o ponto de vista que foi promovido pelo agrônomo francês René Dumont, que serviu como conselheiro do governo, então recém alcunhado de “socialista”, sobre questões de desenvolvimento econômico. Desde então, outros acadêmicos na esquerda estudaram seriamente a economia cubana. Entre os que fizeram isso com uma lente crítica, Samuel Farber se destaca como o mais intelectualmente rigoroso e consistente. Embora não isento de problemas, seu livro sobre a sociedade cubana após o triunfo dos barbudos sobre a ditadura Batista patrocinada pela CIA provê uma rara janela para os mecanismos internos do sistema estalinista na sua variedade cubana. Farber subscreve a posição “coletivista burocrática” padrão, sustentando que, se, por um lado, Cuba fica aquém dos critérios para designá-la socialista devido à ausência de controle significativo da produção e distribuição pelas massas trabalhadoras, por outro, também não pode ser considerada capitalista, já que a nacionalização dos meios de produção supostamente impede a competição entre empresas. Ao invés, diz ele, o que existe em Cuba é um tipo qualitativamente novo de sociedade, baseada no regime autocrático de uma burocracia parasitária incrustada no aparato estatal, e cuja mão de ferro sobre a economia e a sociedade em geral frustra qualquer tentativa das empresas individuais de perseguir seus interesses econômicos particulares. [2]

Apesar de suas conclusões radicalmente diferentes, os defensores tanto da teoria de que Cuba e outras sociedades estatizadas são “socialistas” quanto da teoria de que elas não são “nem socialistas nem capitalistas” (que chamaremos daqui em diante de nem-nem) coincidem na visão de que a nacionalização das empresas privadas constitui uma negação parcial, ou até total, do capitalismo e de suas leis de movimento. Essa concepção, cuja infeliz genealogia remonta às ideias “socialistas de Estado” de Ferdinand Lassalle e seus seguidores na Primeira Internacional, não tem nenhuma base na teoria do socialismo elaborada por Marx e Engels. Para este último, monopólios estatais não significam negação das relações de produção capitalistas, mas sua acentuação. [3] De fato, eles insistiram que a transição para o socialismo necessariamente acarretaria um progressivo enfraquecimento ou “desaparecimento” da maquinaria estatal. O restante deste ensaio tentará fazer uma análise crítica dessas teorias, empregando uma abordagem que é metodologicamente marxista e direta em seu compromisso com a auto-emancipação dos trabalhadores. Será argumentado, além disso, que a “socialista” Cuba é na realidade uma sociedade baseada no trabalho assalariado e na acumulação do capital. As características definidoras dessa sociedade, que chamaremos de “capitalismo de Estado”, são a hiper-concentração do capital e o exercício coletivo do controle de facto dos meios de produção por uma burguesia de Estado.

Como com muitos luminares da Nova Esquerda, não é muito claro o que Dumont entendia por “socialismo”. Se o grupo da Monthly Review com que se envolveu indica algo, então estamos seguros em supor que o Estado tem uma papel central na sua concepção. Porém, visto que ele não deixou sequer um breve esboço e nem definição operacional, resta-nos decifrar suas visões a partir de algumas observações esparsas em seu relato da transformação da economia cubana numa linha soviética. Por exemplo, ele contrasta “planejamento socialista” com “a mão invisível do lucro”, que aloca capital onde quer que a taxa de lucro seja maior. Em contraste, ele diz, uma economia socialista substituirá a anárquica “lei do mercado” pela vontade de um planificador central, embora não especifique em nenhum lugar o que acarreta a operação de tal lei, nem como ela se manifesta concretamente na produção social. [4] Ao invés, Dumont presenteia seus leitores com incessantes e tediosas anedotas dele repreendendo gerentes de empresas e contabilistas estatais por fazerem planos de modo completamente ad hoc e estabelecendo metas de produtividade baseadas em informações errôneas ou até fictícias. Tudo isso, ele explica, impede que uma economia planejada opere sem fricções. [5] Lamentavelmente, sua pesquisa sobre a falha do planejamento em Cuba começa e acaba aqui. Farber mostra uma compreensão superior da real profundidade do problema, identificando a ineficiência, as falhas mecânicas e o desperdício como consequências lógicas da organização hierárquica da produção. Ele argumenta corretamente que a falta de feedback genuíno, indispensável ao planejamento econômico sob qualquer sistema, e a produtividade medíocre (apesar do excesso crônico de empregados), resultam da falta ou inexistência de incentivos materiais, e da separação transparente dos produtores frente aos instrumentos de trabalho. [6]

Esta explicação pode parecer contra-intuitiva à primeira vista. Afinal, os trabalhadores nos países capitalistas convencionais também são despossuídos de qualquer meio de produção. No entanto, os gerentes de empresa sob cada um dos dois sistemas possuem diferentes conjuntos de ferramentas à disposição para disciplinar seus trabalhadores. Sobretudo, enquanto os trabalhadores nos países capitalistas convencionais podem ser coagidos sob pena de desemprego a manter um certo nível de produtividade, seus homólogos em Cuba são em geral protegidos do desemprego de longa duração por um artigo na constituição do país que estabelece o emprego como um direito fundamental do cidadão. [7] Como resultado, gerentes de empresas são muitas vezes forçados a tolerar um certo grau de ociosidade, e até absenteísmo, de seus trabalhadores como um custo transacional para atingir as metas de produção impostas a eles pelos que estão mais acima na cadeia de comando burocrática. Daí, se é que existe planejamento econômico em Cuba, ele sempre funcionou mal e sem consistência. Na realidade, revisões das metas finais são tão frequentes e tão generalizadas nas várias industrias e empresas que não há efetivamente algo que se possa chamar “o plano”. A garantia de emprego é muitas vezes citada por aqueles que defendem uma perspectiva “socialista” ou nem-nem como prova definitiva da ausência de mercado de trabalho em Cuba. Alguns até mesmo argumentam que, visto que os trabalhadores nesses países supostamente não gozam da dupla liberdade identificada por Marx – i.e., a “liberdade” para vender sua força de trabalho a um empregador e a “liberdade” de todo meio de produção – não haveria ali sequer uma classe trabalhadora propriamente falando. Esta interpretação não pode ser conciliada com os fatos. Em primeiro lugar, um trabalhador em Cuba pode perder seu emprego após repetidas infrações menores ou como punição por se engajar em uma atividade dissidente. [8] Embora incomum devido à inconveniência, quando uma infração dessa magnitude aparece no registro de trabalho de alguém, limita as possibilidades de emprego futuras. [9] É bem conhecido, além disso, que a taxa de rotatividade anual da mão-de-obra em países capitalistas de Estado como Cuba é comparativamente maior do que a dos países capitalistas convencionais. [10] Isso sugere que, de fato, a força de trabalho pode ser comprada e vendida em Cuba.

O senso comum na esquerda dita que o planejamento estatal interfere nas forças inconscientes do mercado que governam a produção no capitalismo. O progenitor intelectual desta ideia é o estalino-keynesiano Paul Sweezy. Embora sua conceitualização não fosse original, Sweezy foi indubitavelmente um dos primeiros a sistematizar este sacrilégio contra o marxismo e a apresentá-lo a uma audiência de pretensos radicais e intelectuais no mundo anglófono. Sua teoria fornece muito do quadro conceitual que mantém juntas as interpretações “socialistas” e nem-nem. Assim, precisamos examinar suas pressuposições básicas. Segundo Sweezy, tudo que é preciso fazer para acabar com a “lei do valor” - i.e., o mecanismo social que regula a troca de mercadorias no capitalismo de acordo com a quantidade de tempo média necessária para produzi-las – é que o planejamento estatal suplante as forças de mercado como o principal meio de mobilizar os fatores de produção. [11] O funcionamento da sociedade capitalista atual mostra que isso é completamente falso. A lei do valor coexiste com o planejamento estatal hoje na forma de industrialização para substituição de importações, incentivos de investimento e subsídios para empresas privadas, a gestão dos serviços públicos e das principais indústrias pelo Estado, dirigismo e controle do fluxo de capital-dinheiro mediante um banco centralizado. Estados “desenvolvimentistas” do terceiro-mundo empregaram muitas dessas estratégias para conseguir uma vantagem contra seus rivais no mercado mundial desenvolvendo indústrias nacionais até que elas fossem capazes de competir globalmente. [12] A finalidade do planejamento estatal é o mesmo em todo lugar: introduzir um grau de regularidade e uniformidade na economia, que de outro modo não poderia existir, para facilitar a realização de certos objetivos e mitigar as crises cíclicas. Por exemplo, a necessidade de restaurar as taxas de lucro anêmicas nos países capitalistas convencionais deu surgimento a um arranjo institucional conhecido como “economia mista”, no qual o Estado, empregando uma combinação de “porretes” e “cenouras” econômicas, estímulo fiscal e inclusive intervenção direta do Estado, dirige o investimento do capital e a produção para os fins desejados. Nos Estados Unidos, o país do capitalismo de laissez-faire por excelência, o gasto do governo como porcentagem do PIB desde 1970 chegou a subir a 43%, enquanto nunca caiu abaixo de 34% nesse mesmo período, indicando que, em qualquer momento dessa período, o Estado controla entre um terço a dois quintos da economia. [13] Ainda que o governo dos EUA não diga às empresas quanto produzir do quê, ele está efetivamente engajado numa forma de planejamento, em que certas formas de produção recebem preferência sobre outras, redistribuindo dinheiro dos setores mais lucrativos da economia para aqueles que necessitam dele através de financiamento de impostos e do deficit (i.e., tributação diferida). Assim, vemos que, ao invés de distorcer o mercado, o planejamento estatal se tornou indispensável para sua preservação.
O capital, enquanto entidade social, leva uma existência dupla: uma existência fenomenal como um conjunto de unidades econômicas independentes e uma existência essencial como capital social total, ou a soma dos capitais nas suas inter-relações dinâmicas. O capital social total se manifesta exclusivamente mediante seus fragmentos individuais. Porém, apenas em um sentido relativo esses fragmentos são independentes uns dos outros e do capital social total, visto que sua existência implica ambos. [14] Imaginemos que o capital seja um circuito eletrônico e que os fragmentos individuais são nós do circuito. Os nós são uma parte integral do circuito: não há circuito sem eles e vice-versa. Cada nó é uma parte, e assim dependente de todo o circuito. Os nós individuais podem estar mais próximos ou distantes entre si – ou, no caso do capital, eles podem estar mais ou menos concentrados – mas eles não podem existir fora do circuito, fora da totalidade. Aplicar o mesmo conceito ao trabalho assalariado traz importantes insights. Os trabalhadores na sociedade capitalista são “livres” com relação aos capitais individuais aos quais eles vendem sua força de trabalho, enquanto eles são presos como peças ao capital social total. Com efeito, a própria presença do trabalho assalariado implica a competição entre empresas, porque pressupõe unidades econômicas com autonomia suficiente para fazer decisões independentes com relação ao emprego. [15] A atribuição dos meios de produção a uma única entidade – anteriormente referida como a “hiper-concentração do capital” - não extinguiu a competição em Cuba. Ela meramente mudou a forma jurídico-legal da propriedade privada, de propriedade individual (particular) para propriedade estatal. Os meios de produção são propriedade de classe da burguesia de Estado e não-propriedade dos trabalhadores. Em termos da metáfora do circuito eletrônico, isso significa que: a nacionalização das empresas em Cuba levou os nós individuais no circuito – i.e., os fragmentos do capital social total – a se aproximarem, enquanto o circuito como tal permanece intacto. Os detratores da teoria do capitalismo de Estado e alguns proponentes, como os Cliffites, tratam Cuba e outras economias estatizadas como uma única unidade produtiva. [16] A tese da “fábrica gigante” é sedutora em grande parte porque ela torna a análise dessas sociedades mais manejável ao condensar muitos fenômenos complexos em um único objeto de estudo. Isso presume um monolitismo funcional no qual os elementos constitutivos da totalidade social se comportam como partes de um todo harmonioso, indiferenciado. Um exame mais exaustivo de nossa parte mostrará que essa assunção não tem nenhuma justificativa.

Existe competição enquanto a produção social total é funcionalmente fragmentada numa pluralidade de empresas reciprocamente autônomas e em competição. Dois critérios são necessários para demonstrar a separação organizacional relativa das empresas, e ela só pode ser relativa. O primeiro é a presença de um mercado para a força de trabalho. O segundo é a troca de produtos entre empresas na forma dinheiro-mercadoria. [17] Foi anteriormente estabelecido que as empresas em Cuba são empregadores independentes de trabalho. Mas elas também estão em competição entre si no sentido marxiano – i.e., elas se confrontam como compradores e vendedores de mercadorias. Sabemos que é assim porque seus produtos são trocados por dinheiro ao invés de serem diretamente apropriados e fisicamente distribuídos. Um relatório de autoria da CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe – uma subdivisão regional da ONU) sobre o estado da economia de Cuba durante o período especial, antes das reforma de mercado do fim dos anos 1990, encontrou que,

as empresas no setor tradicional vendem a um preço regulado, muitas vezes recebem tratamento tributário e tarifário preferencial, e adquirem uma grande parte de seus insumos com subsídios, para cobrir os déficits que surgem da venda a preços subsidiados.”

O relatório continua: “o produtor de bens comercializáveis opera em mercados internacionais ou domésticos e não tem obrigação de comprar insumos no mercado doméstico.” [18] Em outras palavras, as empresas cubanas produzem bens que elas vendem nos mercados interno e/ou externo; elas compram matérias-primas, assim como bens intermediários ou semi-acabados umas das outras e de empresas estrangeiras; e finalmente, suas transações, sejam elas escriturárias ou à vista, são transações de troca em que o dinheiro funciona tanto como medida de valor quanto meio de circulação. Pode-se argumentar que essas transações são meras formalidades, porque o Estado é dono de todos os meios de produção. Outra maneira de reafirmar essa tese é que, mesmo que o processo que acabamos de descrever tenha a forma de troca mercantil, seu conteúdo é diferente, porque o quadro legal da propriedade estatizada impede as empresas em Cuba de se comportarem de modo autônomo. Porém, isso levanta a questão de porquê, em primeiro lugar, os produtos do trabalho humano precisarem ser trocados – ou parecerem ser trocados – por dinheiro. A resposta, é claro, é que o governo depende da lucratividade da economia como um todo, e que isso obriga as empresas a serem responsáveis por suas próprias finanças, o que por sua vez faz delas unidades independentes com interesses econômicos em competição. Os adeptos das teorias “socialista” e nem-nem também negam que exista competição em Cuba porque o Estado permite que empresas não-lucrativas continuem a operar. Enquanto é lugar comum que Estados apoiem empresas nativas – até mesmo indústrias inteiras – absorvendo suas perdas, nada nesse arranjo é incompatível com a existência da competição e da troca de mercadorias. A versão idealizada do capitalismo como um mercado puramente livre com apenas interferência mínima do governo, que essas pessoas usam como padrão de comparação, não existe em lugar nenhum exceto nos livros. Também contraria a experiência do capitalismo há um século e meio, que é repleto de exemplos com o Estado se ocupando da operação “normal” dos mercados. De fato, o que há de mais incomum na variedade de capitalismo que foi estabelecida em Cuba é que todos os prejuízos e lucros revertem no fim das contas ao Estado, onde o balanço é então redistribuído aos diferentes ramos. No processo, muitos setores e firmas inviáveis são mantidos artificialmente. No entanto, os planejadores centrais só podem tolerar a insolvência até certa medida. Eles não tem liberdade para escolher repartir dinheiro à vontade, pelo menos não para sempre, já que isso reduziria a quantidade total de dinheiro disponível para formação de capital e arruinaria a competitividade de Cuba no mercado mundial. O mesmo vale para os preços das mercadorias em Cuba, a medida que eles devem espelhar os preços globais das mercadorias, caso contrário o Estado cubano perde dinheiro se os preços se desviam deles em demasia ou por muito tempo. Em resumo, o mesmíssimo mecanismo que mobiliza trabalho e capital de acordo com os imperativos de valorização nos países capitalistas convencionais aparece no capitalismo de Estado, embora numa forma altamente distorcida. No lugar de eliminar esses mecanismo, as forças da competição forçam o Estado a introduzir sua própria força para tentar fazer conscientemente (e com menos eficiência) o que o mercado faz inconscientemente. [19]

A acumulação do capital, ou reprodução ampliada dos meios de produção físicos, é o único objetivo da produção no capitalismo. Isso porque, como Marx explicou:

o desenvolvimento da produção capitalista torna constantemente necessário continuar aumentando a quantidade de capital dispendida em um dado empreendimento industrial... isso compele [o capitalista] a continuar aumentando seu capital para preservá-lo, mas ele não pode aumentá-lo exceto por meio da acumulação progressiva.” [20]

Em O capital, Marx explica a fórmula da reprodução capitalista assim: c + v + m, onde c representa o capital constante, ou o estoque de capital físico, v é o capital variável, ou os salários, e m é a mais-valia, ou lucro. [21] A massa de mais-valia pode ser dividida em duas partes, uma destinada ao consumo do capitalista e outra à acumulação. Vamos nos referir a essas partes como k (fundo de consumo do capitalista) e a (fundo de acumulação), respectivamente, de modo que a massa de mais-valia M = k + a. No capitalismo, o crescimento de c depende diretamente da quantidade de a, com v não aumentando exceto quando é necessário empregar força de trabalho adicional para colocar uma massa aumentada de capital, c, em movimento. Em contraste, numa sociedade socialista, o crescimento de c dependeria inteiramente das necessidades de v, os requerimentos de reprodução física da população, enquanto que M e seus componentes k e a estariam disponíveis para quem quer que necessitasse deles na forma de produtos adicionais prontos para o consumo. [22] Em Cuba, como em todos os outros países capitalistas de Estado, qualquer aumento no fundo que sustenta toda classe trabalhadora, v, é diretamente dependente da expansão de c, a massa de meios de produção, e o fundo de acumulação, a, que alimenta seu crescimento. [23] A nacionalização das indústrias não abole o capital, nem a acumulação dele. Mais: ela acelera tendências que já eram inatas no processo de acumulação do capital: 1) a concentração do capital, o que Marx chamou “expropriação de muitos capitalistas por poucos” e 2) a “socialização” da produção, ou tendência dos vários ramos da indústria a se tornarem dependentes entre si. [24] Ambas servem para aumentar a produtividade do trabalho – i.e., a taxa na qual a mais-valia é sugada da classe trabalhadora – mediante o aumento da composição orgânica do capital (razão de c para v). A nacionalização das indústrias alcança isso ao concentrar capital em empresas que são maiores e mais eficientes devido à economia de escala, que reduz o custo de produção por unidade a medida que a produção industrial se expande. Por outro lado, a socialização da produção harmoniza os diferentes ramos da indústria, reduzindo os “gargalos” ou desequilíbrios na produção ao longo de cada “elo” na cadeia de produção. Em suma, o objetivo da produção em Cuba ainda é a acumulação do capital a partir dos lucros. O monopólio legal exercido pelo Estado cubano sobre os instrumentos de trabalho não modificou a organização social da produção porque, “o direito nunca consegue ficar acima da estrutura econômica da sociedade”. [25]


Os líderes do governo que subiram ao poder em 1959 estavam otimistas, pelo menos no início, de que Cuba seria capaz de se livrar da dependência da cana-de-açúcar e diversificar sua economia. Eles viraram Marx de cabeça para baixo, argumentando que, para construir o socialismo, era necessário desenvolver a base econômica de Cuba – isto é, acumular capital numa taxa acelerada, sujeitando os trabalhadores a um exploração intensificada. O bloqueio econômico dos EUA contra Cuba levou à falta de bens de primeira necessidade e de peças de reposição para o maquinário existente, a maioria das quais vinha dos EUA. Dado que não havia fontes alternativas de peças de reposição, o novo governo se voltou para a outra grande potência imperialista, a União Soviética, para ter assistência econômica, que ela prontamente forneceu. Os soviéticos enviaram máquinas à Cuba, mas a industrialização logo encontrou alguns problemas de natureza técnica: a “tecnologia intermediária” produzida na URSS e seus Estados-tampão eram muito toscas e ineficientes, além de incompatíveis com grande parte do equipamento existente na ilha. Cuba no fim das contas teria que importar máquinas mais modernas da Europa ocidental ou do Japão. Porém, elas só poderiam ser compradas com dólares, e o modo mais rápido e confiável de obter dólares foi exportar cana-de-açúcar. Além disso, apesar de receber ajuda significativa dos soviéticos, Cuba ainda precisava pagar a massiva conta de importação que havia acumulado. Também isso só poderia ser feito vendendo cana-de-açúcar. [26] O mesmo processo que tinha levado o Estado cubano a “dobrar as apostas”, por assim dizer, na produção de cana-de-açúcar como sua fonte de renda primária nos anos anteriores culminou no fim dos anos 1960 com a campanha para uma colheita de dez milhões de toneladas de cana-de-açúcar. Os soviéticos deram a Cuba um mercado garantido para toda sua produção canavieira, do mesmo modo que os EUA tinham feito até 1960, o ano em que o bloqueio econômico foi estabelecido, sob os termos do Tratado de Reciprocidade de 1902. [27] Dado que Cuba é uma economia exportadora de um único produto, ela sempre dependeu de um padrinho imperialista com uma economia muito maior que absorvesse sua produção. Os EUA preencheram esse papel até 1960, e, depois, a União Soviética. Nos dois casos, o preço político pago por Cuba foi pesado. Os EUA exigiram uma base naval no território soberano cubano e o direito de intervir militarmente para defender seus interesses empresariais, enquanto que os soviéticos exigiram que Cuba servisse como seu fantoche em conflitos armados em todo o mundo. Em 1966, Cuba negociou um lucrativo acordo de comércio com a União Soviética para vender cinco milhões de toneladas de cana-de-açúcar a preços acima do mercado nos anos 1968-1969, mas a produção total ficou aquém da marca, com a média de apenas 3,7 milhões por ano. Não desanimando com esse fracasso e determinada como nunca a transformar Cuba numa potência industrial, os novos governantes miraram um objetivo ainda mais ambicioso, concebido como a panaceia para todos os fracassos econômicos do país: Cuba desafiaria as leis da natureza e da economia triplicando sua produção no espaço de um único ano, com uma colheira de dez milhões de toneladas de cana-de-açúcar. Os soviéticos comprariam cinco milhões de toneladas ao preço estipulado no acordo comercial, e os outros dois milhões seriam vendidos no mercado mundial ao preço de mercado no momento, enquanto os restantes 3 milhões seriam vendidos a consumidores e empresas no mercado interno. O Estado cubano, apoiado em grande parte pelo Partido e seus apêndices sindicais, lançou uma campanha com estilo militar, mobilizando o país inteiro para assegurar a meta de produção. No fim, os esforços não tiveram êxito, e a desorganização que a campanha causou nos outros setores da economia teve efeitos duradouros dos quais, pode-se dizer, Cuba ainda não se recuperou. Ao cabo, todos os planos de industrializar Cuba numa velocidade vertiginosa, como Stalin fez com a Rússia nos dois primeiros planos quinquenais, foram curto-circuitados pelas realidades econômicas do período após o golpe de 1959. Cuba deixou de ser uma plantação de cana para os Estados Unidos mas se tornou uma para os soviéticos. [28]

As reformas agrárias foram propagandeadas como a peça central do projeto “socialista” em Cuba. No entanto, elas na realidade serviram como uma forma de acumulação primitiva capitalista, transformando o campesinato numa classe de trabalhadores assalariados agrícolas. Os paralelos entre esse processo e a assim chamada “acumulação primitiva socialista” na Rússia de Stalin, que levaria à paródica “produção socialista de mercadorias”, são notórios. As fazendas de propriedade estatal criadas em Cuba pela fusão das pequenas propriedades dos camponeses pobres ou de classe média, ou pela divisão de grandes propriedades, operam como fazendas comerciais. Aqueles que labutam nessas gloriosas empresas capitalistas, cinicamente batizadas de “fazendas do povo” (granjas del pueblo), recebem seu pacote “salarial” como minúscula fração da colheita total, um v que é dificilmente adequado para mantê-los vivos, enquanto o Estado vende o produto excedente, m, nos mercados domésticos em troca de lucro. [29] A estrutura de gestão de cima para baixo dessas empresas, enraizada na propriedade estatizada, e a resultante falta de controle sobre a distribuição da produção são reconhecidos pelo Estado cubano como sendo o principal desincentivo à produtividade, embora não poderia ser de outro modo. [30] Qualquer medida de autêntico controle da economia pelos próprios produtores ameaça não só a taxa de acumulação do capital mas também a integridade funcional do sistema político cubano, que é baseado em um militarismo onipresente, e isso portanto não pode ser tolerado. Os agricultores privados são incorporados no nexo da produção de valor como pequenos arrendatários com direitos de usufruto (e não de propriedade) sobre a terra. Na prática, porém, eles não dispõe livremente dos produtos de seu trabalho, mas devem vendê-los ao Estado através de seus centros de distribuição (Centros de Acopio) a preços fixos, engajando em algo semelhante ao trabalho remunerado por peças. [31] Por pouco comum que possa parecer, sua aflição tipifica a do trabalhador cubano: sujeito a uma exploração brutal, que não conhece limites, nem mesmo os da fisiologia humana; completamente imobilizado e privado de toda autonomia por uma maquinaria estatal onipresente; supervisionado todo o tempo pela polícia, os CDRs (Comités de Defensa de la Revolución), e nos locais de trabalho pelos sindicatos, que também possuem uma função organizadora dentro do capitalismo cubano; sem o direito de se organizar nem de se expressar; à mercê dos caprichos da burguesia de Estado, etc. Em nenhum outro país a classe trabalhadora é tão dominada como em Cuba, algo que o governo cubano promove sem ambiguidade como o maior atrativo comercial para seus potenciais parceiros nas joint ventures. Um estudo da Brookings Institution, um think-tank capitalista, observou que embora “a Confederação de Trabalhadores Cubanos e as células do Partido Comunista estejam embutidas dentro das firmas... essas organizações geralmente se alinham às metas de produção da firma e de suas agências estatais associadas”, e portanto “a gerência não precisa se preocupar com greves militantes nem interrupções do trabalho”. [32] A natureza profundamente reacionária dos sindicatos deriva do papel que eles possuem dentro do capitalismo como reguladores da compra e da venda da força de trabalho. Eles estão interessados em manter o sistema do trabalho assalariado porque sua existência depende disso. Isso permitiu que se tornassem integrados no Estado capitalista como órgãos auxiliares, um processo que alcança sua máxima expressão nos países capitalistas de Estado como Cuba. [33] Mas, diferentemente de outros países capitalistas, os sindicatos cubanos nem sequer pretendem representar os trabalhadores, nem negociar com os empregadores em nome deles. Eles são órgãos estatais cuja tarefa é impor a disciplina laboral e aumentar a produtividade. [34]

Todas as medidas tomadas pelo governo cubano desde 1959, e citadas com aprovação pela burguesia de Estado e seus partidários externos e internos como evidências concretas de seu caráter “revolucionário” e “operário”, foram completamente interesseiras e implementadas com o objetivo de reforçar o capitalismo na ilha. Talvez, o melhor exemplo, o que melhor ilustra isso, seja a campanha bem sucedida do Estado cubano para erradicar o analfabetismo no campo. Este é um dos legados duradouros do capitalismo de Estado cubano e algo a que o governo recorre de tempos em tempos para justificar sua própria existência de um ponto de vista moral. Cuba, eles dizem, era um país atrasado com uma economia subdesenvolvida, presa em uma relação parasitária com seus vizinho do norte – a revolução lhe deu independência e o tornou invejado por toda a América Latina! O que essas pessoas não veem, ou não querem ver, é que todas as conquistas da suposta “revolução” foram, categoricamente, medidas capitalistas. Seus objetivos nunca foram melhorar as condições de vida do trabalhador em Cuba, mas sim aumentar o capital cubano, alcançar uma maior taxa de exploração (razão de m para v) através de uma melhor utilização da tecnologia existente. Depois que as relações entre os EUA e Cuba azedaram, e que Cuba se alinhou com a União Soviética, o país sofreu uma sangria dos próprios trabalhadores qualificados que necessitava para industrializar a economia. Carregamentos de maquinário e matérias-primas da URSS, que foi muito generosa, estavam literalmente sendo empilhadas nos portos, pois Cuba não tinha nem o pessoal para operá-los e nem construções para armazená-los. [35] Para se industrializar e se manter páreo com os competidores, Cuba teria de converter sua população rural analfabeta em força de trabalho capaz de gerar mais-valia para o Estado. Apesar da tentativa de industrializar Cuba ter esbarrado em barreiras intransponíveis, o subproduto desse processo abortado foi que sobrou uma força de trabalho altamente qualificada. Em anos recentes, a exportação de capital humano se tornou a fonte de renda primária do país – substituindo a produção canavieira, que colapsou após a queda da URSS devido à perda deste mercado garantido – com o turismo e as remessas do exterior como segunda e terceira fontes, respectivamente. O Brasil, por exemplo, paga ao Estado cubano 4.000 dólares mensais por cada médico enviado numa “missão internacionalista”. No entanto, esses doutores ganham em média apenas 400 dólares mensais de salário. [36] A diferença é apropriada pelo governo como mais-valia para pagar gastos militares e o consumo luxuoso da classe dominante, ou senão reinvestida em empreendimentos lucrativos, muitos deles em parceria com capitalistas estrangeiros. Até mesmo o sistema de saúde “socialista” do país, considerado por muitos como sua maior conquista, serve às necessidades da acumulação do capital. Do ponto de vista do capital, um sistema de saúde mantido pelo Estado é preferível a um sistema privado ou multi-pagador, tal como existe nos EUA, porque permite que toda a classe capitalista divida o dinheiro do custo de reproduzir a força de trabalho, que também inclui a saúde, no lugar de ter de bancarem esse custo individualmente. Além disso, visto que permite aos trabalhadores visitarem os médicos com mais frequência, e também dá acesso à cuidados preventivos, isso também reduz esses custos a longo prazo, sem falar das horas de trabalho perdidas devido a doenças. [37] Em suma, trata-se de moldar o trabalhador de acordo com as exigências da reprodução ampliada do capital e de reduzir os custos de suas necessidades para extrair mais mais-valia.

A economia capitalista, seja ela privada ou estatal, requer crescimento econômico sem fim, que, porém, só pode ser obtido através do aumento da taxa de exploração ou da redução no consumo da classe trabalhadora. A burguesia de Estado em Cuba tentou as duas estratégias, com resultados desastrosos para os trabalhadores, que tiveram seu padrão de vida absolutamente devastado nas últimas seis décadas. Dissidentes de direita e ativistas de esquerda, tanto na ilha como no exterior, apresentaram uma série de soluções, algumas mais dignas de discussão do que outras, mas todas sofrem do mesmo defeito: elas de modo algum questionam as bases materiais da sociedade capitalista. O consenso geral na direita é que o aparato de comando deve ser desmantelado em favor de um sistema de livre mercado e do leilão da propriedade estatal para empresas ou indivíduos privados. Porém, há muito menos acordo sobre a velocidade da desnacionalização (as experiências da Rússia e dos países do antigo bloco soviético, presume-se, serviu como lição da história contra os perigos da “privatização irresponsável”) e sobre quais programas sociais ao fim serão poupados. As propostas na esquerda são muito mais variadas, indo desde “autogestão” no estilo Iugoslavo, em que empresas operadas pelos trabalhadores competem dentro de uma economia de mercado francamente desregulada, até o capitalismo de Estado “democratizado”. [38] De fato, uma das críticas da esquerda mais frequentes ao castro-estalinismo é que ele exclui injustamente do processo de decisão todos exceto um punhado de pessoas. Em outras palavras, que ele é autoritário e não-democrático. No entanto, isso simplesmente confunde os sintomas pela doença. O caráter rigidamente hierárquico da economia cubana é efeito colateral da propriedade estatizada. Sua transformação em propriedade privada individual ou descentralização mediante meios jurpidicos não alteraria em nada seu conteúdo. Apenas mudaria a forma particular institucional de capitalismo. Na realidade, todas as soluções propostas se resumem a pouco mais do que modificações superficiais do sistema atual, enquanto seus pilares essenciais, trabalho assalariado e acumulação do capital, permanecem firmemente seguros. É revelador que todos os fatores citados como razões para buscar tais mudanças - por exemplo, melhorar a qualidade do feedback, eliminar desperdício, aumentar a produtividade, tornar as empresas enxutas, etc. - derivam do imperativo estrutural de aumentar o capital nacional. No fundo, o dualismo esquerda-direita não representa nada mais do que alternativas que competem por gerir o capitalismo. A classe trabalhadora deve recusar este paradigma na sua totalidade, colocando a imediata abolição do trabalho assalariado e da troca de mercadorias na ordem do dia, inicialmente numa escala nacional e, a seguir, internacional. Isso requer que os explorados em Cuba e em todos os outros países se organizem como classe para derrubar o Estado capitalista, destruindo essa maquinaria repressiva de uma vez por todas, e que simultaneamente estabeleçam a sua própria estrutura de poder baseada nos conselhos de trabalhadores: comitês de delegados democraticamente eleitos e revogáveis a qualquer instante. Estes órgãos serão responsáveis por expropriar o capital, efetuar o planejamento econômico, e supervisionar a generalização do setor “socializado” - isto é, que produz estritamente valor de uso – da economia para todas as atividades produtivas. Estas são as tarefas, e em Cuba, como por toda parte, é apenas a classe trabalhadora que pode levá-las à conclusão. A supressão do sistema capitalista, seja qual for o seu disfarce, é a condição indispensável para a emancipação completa da humanidade e seu renascimento como uma autêntica comunidade.

ES (Intransigence, publicação dos comunistas internacionalistas da América do Norte)


Notas


[1] Grandizo Munis, “Pro Segundo Manifiesto Comunista,” in Teoría y Práctica de la Lucha de Clases, 13.
[2] Samuel Farber, Cuba Since the Revolution of 1959 (Chicago: Haymarket, 2011), 18-19.
[3] Frederick Engels, Socialism: Scientific and Utopian (New York City: Cosimo Inc., 2008), 67.
[4] Rene Dumont, Cuba: Socialism and Development (New York City: Grove Press, 1970), 110.
[5] Ibid., 111-113.
[6] Farber, op. cit., 55-56.
[7] Constitución de la República de Cuba. Capítulo VII – Derechos, Deberes y Garantías Fundamentales, artículo 45.
[8] Codigo de Trabajo de Cuba. Capítulo VI – Disciplina Laboral, sección III, artículos 158-159.
[9] Ibid., Capítulo II – Contrato de Trabajo, sección XII, artículo 61.
[10] Nancy A. Quiñones Chang, “Cuba’s Insertion in the International Economy Since 1990,” in Cuban Economists on the Cuban Economy, (Gainesville: University Press of Florida, 2013), 91.
[11] Paul Sweezy, The Theory of Capitalist Development (New York City: Monthly Review Press, 1942), 52-54.
[12] Ha-Joon Chang, Bad Samaritans: The Myth of Free Trade and the Secret History of Capitalism (New York City: Bloomsbury Press, 2008), 14-15.
[13] OECD, General Government Spending: Total, % of GDP, 1970-2014.
[14] Karl Marx, Capital vol. 2 (London: Penguin Classics, 1990), 427.
[15] Paresh Chattopadhyay, The Marxian Concept of Capital and the Soviet Experience (Westport: Praeger Publishers, 1994), 18-20.
[16] Peter Binns & Mike Gonzales, “Cuba,Castro and Socialism,” in International Socialism, Spring, 1980.
[17] Chattopadhyay, op. cit., 54-55.
[18] CEPAL, La Economía Cubana: Reformas Estructurales y Desempeño en los Noventa, 2nd ed. (Mexico City: Economic Culture Fund, 2000), 205-206.
[19] Adam Buick & John Crump, State Capitalism: The Wages System under New Management (New York City: St. Martin’s Press, 1986), 80-93.
[20] Karl Marx, Capital vol. 1 (London: Penguin Classics, 1990), 739.
[21]  Para sermos claros, mais-valia e lucro não são sinônimos. Porém, a mais-valia é a fonte do lucro, e, para nossos propósitos, eles preenchem o mesmo papel. Portanto, podemos falar deles como termos intercambiáveis.
[22] Grandizo Munis, “Partido-Estado, Stalinismo, Revolución,” in Revolución y Contrarrevolución en Rusia, 78-80.
[23]  Isso é apenas para ilustrar como a lei do valor não operará sob o socialismo, e nem sequer existirá valor de troca.
[24] Marx, ibid., 929-930.
[25] Karl Marx, Critique of the Gotha Program (Rockville: Wildside Press, 2008), 26.
[26] Richard Gott, Cuba: A New History (New Haven: Yale University Press, 2005), 186-188.
[27] United States Tariff Commission, The Effects of the Cuban Reciprocity Treaty of 1902 (Washington: US Govt. Printing Office, 1929), 66-67.
[28] Gott, op. cit., 240-243.
[29] Esses foram renomeados como 
Unidades Básicas de Producción Cooperativa seguindo alguma reestruturação dos ativos do capital produtivo no setor agrícola em 1993. No entanto, a sua organização inerna e modo básico de funcionamento permaneceram iguais.
[30] Dumont, op. cit., 51-52.
[31] Ibid., 80-85.
[32] Richard E. Feinberg, The New Cuban Economy: What Roles for Foreign Investment? (Washington DC: Brookings Institution, 2012), 58.
[33] Grandizo Munis, “Los Sindicatos Contra la Revolución,” in Internacionalismo, Sindicatos, Organizaciónde Clase, 85-86.
[34] Farber, op. cit., 138-139.
[35] Dumont, op. cit., 77.
[36] Martin Carnoy, “Cuba’s Biggest Export is Teachers, Doctors – Not Revolution,” Reuters, December 24, 2014.
[37]  Para uma análise em profundidade do sistema de saúde dos EUA, veja o artigo de Red Rughs “Capital’s Health Dilemma”, no primeiro número de Intransigence.
[38] Pedro Campos Santos, “Cuba Necesita un Socialismo Participativo y Democrático. Propuestas Programáticas,” Cubaencuentro, August 24, 2008.






Veja também: 

Luta de classes na empresa Cuba

O mito do socialismo cubano (Kaos, 1997)

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