quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

O padeiro e o teórico (sobre a teoria da forma-valor) – Gilles Dauvé



Tradução de humanaesfera do texto La Boulangère et le théoricien (sur la théorie de la forme-valeur) publicado originalmente em francês em 2014 no link https://ddt21.noblogs.org/?page_id=81.



O padeiro e o teórico 
(sobre a teoria da forma-valor)

Se a teoria da forma-valor (“TFV”), devida notoriamente a Robert Kurz, Anselm Jappe e Moishe Postone [1], alcançou renome entre os radicais na França após a tradução do Manifesto contra o trabalho em 2002, é porque ela teve sucesso em se apresentar como um posto avançado da crítica social.

Por que entrar nesse que parece um debate de especialistas? (Forma-valor... a expressão já impressiona). Sobretudo porque ela abrange questões políticas não negligenciáveis. Depois, porque todos nós podemos saber tanto quanto os especialistas.

1 – Valor & valor

O que chamamos de valor é aquilo que determina a produção e circulação capitalistas: o tempo de trabalho social médio necessário para produzir uma mercadoria. O valor é o tempo, e o tempo é primeiramente o tempo de trabalho. Uma mercadoria é tempo de trabalho coagulado. O tempo é simultaneamente a substância e a medida de valor. O tempo de trabalho socialmente necessário conduz necessariamente ao tempo mínimo de trabalho: a produtividade tende a se impor sobre toda a sociedade.

A repetição das palavras tempo e trabalho não é pedantismo: a compreensão do valor passa pela conjugação dessas duas realidades.

A exploração não é apenas o fato de o trabalhador ser privado de todo ou parte do resultado de seu trabalho. No entanto, costuma-se reduzir exploração a isso, e a dupla solução seria a re-apropriação dos meios de produção e a redistribuição das riquezas: o “desenvolvimento das forças produtivas” sob direção dos trabalhadores, dos “produtores associados”.

Não foi obstinação de algum teórico que questionou esse programa. Foi uma crítica proletária que começou, particularmente na Itália na década de 1970, a questionar o marxismo como afirmação do trabalho, e fundamentou teoricamente a exigência da abolição do trabalho, o qual os comunistas anteriormente só podiam propor como um imperativo.

Remover o caráter de mercadoria dos produtos e dos seres não é apenas suprimir o dinheiro, é viver sem calcular nem comparar o tempo de produção para reduzi-lo ao mínimo: é romper com a produtividade.

A TFV é vista como uma expressão dessa perspectiva: ela não insiste na crítica do trabalho colocando o valor no centro da análise?

Isso se a TFV não fizesse do centro a totalidade: para ela, o valor seria completamente autonomizado, auto-sustentado. Todas as realidades, a começar pelo capital no sentido de uma soma investida por um empresário com objetivo de ganhar no fim do ciclo mais dinheiro do que colocou, todos os conceitos perdem sua função ao fundirem-se em um grande todo dominado pelo “trabalho abstrato”.

Para a TFV, o “trabalho abstrato” é tão abstrato que ele existe em toda parte e em lugar nenhum: o local de produção, uma fábrica de componentes eletrônicos por exemplo, se torna desimportante. Uma multiplicação de fórmulas (“mediação social essencial”, “dinâmica imanente”, “socialização pelo valor”, “movimento tautológico de reprodução e auto-reflexão do dinheiro”) nos explica que, por trás das aparências, o sistema funciona por si só. Se a TFV fala do assalariado, é como se fosse um detalhe secundário: ali onde reina o trabalho abstrato, o trabalho se torna secundário, assim como a exploração do trabalho.

Para a TFV, a palavra valor explica tudo: a dominação abstrata do valor. Pouco importa à TFV que a mercadoria força de trabalho seja posta a trabalhar para produzir valor: que ela seja mercadoria é mais importante do que aquilo para o qual ela é consumida. A força de trabalho não seria a mercadoria que funda todas as outras, ela seria apenas uma entre muitas, não mais central do que centenas de outras na perpetuação do sistema.

Em suma, o conceito de valor absorveu o de capital, e a exploração do trabalho é um fenômeno derivado: a noção de mais-valia foi dissolvida na de valor.

Segue-se logicamente disso a extensão da noção de relação social a todos os atos da vida.

Um homem investiu dinheiro, se tornando dono de uma padaria. Um assalariado trabalha nela. A esposa do patrão trabalha ali como vendedora: ela gostaria de deixar seu marido, mas continua com ele por falta de outro modo de sobreviver. O teórico (suponhamos que ensine no setor público) mora do outro lado da rua. Sua filha, considerando receber pouca mesada, se recusa a fazer as compras da casa. O teórico vai ele próprio comprar pão. Compra uma baguete de 1 € com uma moeda de 2 €, e recebe o troco de 1 €, que ele, ao sair, dá ao sem-teto sentado na calçada.

Para a TFV, o capitalismo se constitui de todas essas relações sem que nenhuma determine a outra. Apesar das diferenças de status ou de função, patrão, operário, esposa sem recursos, filho dependente de seus pais, professor assalariado, sem-teto, aquilo que os opõe é menos importante do que o que eles compartilham: todos tem em comum serem dominados pelo “valor”. Quer se trabalhe ou não, quer se comande ou não o trabalho dos outros, cada um é submetido ao “trabalho abstrato”. Cada papel sustenta todos os outros, e o sistema social se reproduz em igual medida por cada um desses gestos. A transformação social só poderia advir do somatório das recusas de cada um dos participantes.

Segundo a TFV, que atribui ao trabalho apenas um papel subsidiário, o capitalismo não tem realmente necessidade de trabalho, mas mantém cada um (empregado ou desempregado) sob a coerção do trabalho por razões de controle social. A função do trabalho não seria mais a produção, mas a dominação. A TFV é uma teoria do valor sem o trabalho.

2: Sociedade de classes ou sociedade autômata?

Apesar da TFV ter o mérito de ter entendido que o comunismo não é a vitória do trabalho sobre o capital, da classe trabalhadora sobre a classe burguesa, esse entendimento só serve a ela para concluir que a luta de classe é uma bobagem que se limitaria a sustentar o sistema.

Para ela, com a autonomização do valor, o trabalho e o momento produtivos se tornaram irrelevantes, e a revolução (para empregarmos uma velha palavra) será a obra de bilhões de seres reificados e alienados.

Pode-se dizer que, de fato, o comprador de um Mercedes de 100.000 € é tão alienado quanto (e este “quanto” não é de analogia, pois aqui não há o que comparar) o sem-teto procurando comida no lixo.

Mas, para compreendermos como a sociedade existente funciona (e como ela pode ser abalada), a alienação não é suficiente.

Se o mercado é o lugar indispensável onde se confrontam os equivalentes da substância do trabalho social médio, portanto do valor, essas equivalências foram formadas na e através da exploração dos trabalhadores cujos custos foram mensurados (e reduzidos ao mínimo possível).

A TFV nos apresenta um mundo onde todos são alternadamente compradores e vendedores, inclusive de si mesmos. Na realidade, o valor se baseia na divisão do trabalho, que, por sua vez, supõe a divisão da propriedade entre aqueles que comandam os meios de produção e aqueles, “sem reservas”, forçados a sobreviver alugando sua capacidade de trabalhar. Em outras palavras: duas classes.

Ver a fonte de valor na produção é situar a contradição essencial na relação entre trabalho assalariado e capital, com tudo o que isso implica em termos de relação entre classes: estamos diante do inevitável problema de uma luta de classes suscetível de produzir outra coisa além dela própria. Problema até hoje não resolvido pelos proletários, e com o qual a teoria comunista se debate há dois séculos. Porém, a história ainda não terminou.

A TFV se evade da dificuldade. Para ela, o enigma do proletariado (essa classe que não é uma...) seria resolvido ao situar a origem do valor na circulação, na troca: o problema é diluído em um conjunto de contradições resumidas nos conceitos de alienação, de despossessão e fetichismo, coisas que dizem respeito a quase toda gente.

Partindo da crítica muito correta da visão da luta entre o burguês e o operário em que bastaria libertar o segundo do primeiro, a TFV acaba negando a realidade das classes. Partindo no entendimento da impessoalidade da relação social (o burguês e o trabalhador não seriam mais do que funções do capital), ela leva a uma despersonalização que desrealiza a realidade: a transformação da sociedade seria obra de todos os que hoje são submetidos ao valor, isto é, o conjunto das vítimas do capitalismo (os famosos 99%).

Além disso, se o capital funciona como um autômato e seu automatismo abrange tudo e todos, se o único sujeito real é o valor, nesta altura de abstração, a força capaz de derrubá-lo (mais uma palavra excessiva: ultrapassá-lo é suficiente) também é automática. A mudança, é você e eu, e é inevitável.

3: Vítimas do fetiche

Grupos como Socialisme ou Barbarie teorizaram um “capitalismo burocrático” (que supôs realizado na Rússia e em vias de se impor na América) e terminaram fazendo da burocracia a essência do capitalismo. A análise situacionista da “sociedade do espetáculo” terminou colocando o espetáculo no fundamento da sociedade.

A TFV procede do mesmo modo com o fetichismo.

Se a palavra tem um sentido, fetichismo designa o mecanismo pelo qual o dinheiro parece dotado de uma força própria, mas que na verdade resulta do trabalho, das relações entre os homens (entre classes).

Porém, na TFV, o fetichismo não é mais efeito de um certo tipo de atividade, o trabalho. É o inverso: o trabalho é um fetiche. A teoria do “capitalismo fetichista” transforma o capital (e toda a sociedade) em fetiche. Que os proletários sejam explorados, isso não passa de um fato marginal: no fundo, eles são, e todos nós somos, fetichistas.

Se é essa a essência do capitalismo, a solução é promover relações pessoais verdadeiramente vividas, não mediatizadas pela mercadoria, como uma sociedade transparente de produtores associados pode proporcionar, porque os associados saberão aquilo que fazem.

Fazer do fetichismo o objetivo central é dissociar as relações sociais das relações de produção. A palavra “social” parece ampliar e aprofundar a análise, enquanto, na verdade, dilui seu fundamento: não há mais nenhum efeito causal, apenas uma totalidade auto-(re)produzida.

Quando se decreta o trabalho e a exploração como secundários diante de uma alienação generalizada (é isso que perpetuaria a sociedade atual), reivindicar a autenticidade permite incluir quase toda gente, os 99% outra vez.

Com o risco de soarmos marxistas antiquados: o fetichismo não está no fato de eu e o padeiro nos tratarmos reciprocamente como coisas porque ele, com uma mão, me dá um pão e, com a outra, toma minha moeda de 2 €. O fetichismo está no esquecimento de que o dinheiro exprime uma relação de exploração. Omissão que é inevitável para o padeiro (ele tem outros problemas), mas menos justificável para aqueles que pretendem revelar o mistério da sociedade moderna. O teórico inverte a realidade quando ele toma a relação salarial como um fenômeno acessório, simples efeito da submissão generalizada ao trabalho abstrato. Fetichizar é falar em dinheiro-rei ou de reino da mercadoria, quando na verdade esses são soberanos apenas por delegação. Uma característica do objeto-fetiche é sua capacidade de agir como sujeito automático que escapa aos homens. A TFV não faz outra coisa quando ela dota o “valor” de um poder autônomo.

O padeiro conta seus centavos, mas é o teórico da onipotência do valor que sucumbe à fascinação do capital.

As verdadeiras vítimas do fetichismo são aqueles que creem que o valor domina o mundo.

4: Como eles lêem Marx

Esses “novos leitores de Marx” são muito pouco crítico daquilo que lêem. Eles nunca exprimem um desacordo explícito com Marx.

No entanto, a teoria deles está longe da de Marx, se é que não é oposta, porque todos os conceitos marxianos originais para a análise do capitalismo (trabalho, trabalho necessário/sobretrabalho, assalariado, mais-valia, lucro, classe, etc.) foram dissolvidos (dir-se-ia subsumidos) no valor elevado à categoria de “totalidade social” “automediatizante” e “auto-referencial”, ou seja, um conceito que serve de explicador de tudo.

Já que a TFV diz que estuda o trabalho, esperaríamos que houvesse uma crítica à forma como o autor de O Capital aborda e define valor e trabalho, particularmente no início do Livro I. [2]

Se nas suas dezenas de milhares de páginas, a TFV não fez nada disso, é porque visa outra coisa: afirmar que o valor é tudo, reduzir o capital ao valor.

Para ela, apenas os Grundrisse (manuscritos de 1857-58) interessam, e sobretudo o “Fragmento sobre as máquinas”, onde Marx explica que a criação de riquezas depende cada vez menos do trabalho imediato e direto e cada vez mais da aplicação à produção da ciência e da tecnologia (o célebre general intellect).

A TFV não tem nenhuma necessidade de criticar Marx. Basta-lhe separar um Marx exotérico (aquele do século XIX, do movimento operário, da luta de classes, da afirmação do trabalho) de um Marx esotérico, o verdadeiro, o revolucionário, aquele dos Grundrisse, o teórico pioneiro da forma-valor que se tornou dominante no fim do século XX.

Válida em seu tempo, a obra marxiana hoje seria obsoleta. O Capital tinha validade em 1867. Apenas os Grundrisse (aquilo que a TFV retêm) valeriam para hoje. O que a TFV sustenta é a tese de um novo capitalismo, libertado das restrições históricas do trabalho industrial, da oposição burguês/operário, da diferença entre trabalhador e não-trabalhador, entre trabalho improdutivo e improdutivo (tudo e todos contribuiriam agora para a criação do valor), entre produção e circulação. Esse neo-capitalismo ofereceria a vantagem de facilitar a supressão do trabalho... já em vias de desaparecimento pelo próprio capitalismo.

5: Método

A TFV faz do “valor” uma fórmula mágica, uma chave explicativa universal, comparável em seu funcionamento a “capitalismo” ou “classe” no marxismo. O leitor é confrontado com uma série de palavras, cada uma suposta como explicação da outra: trabalho abstrato (sem esse abstrato, estaríamos à beira do marxismo operário), forma, valor, fetiche, mediação social, reprodução (“produção” soa antiquado), etc. sem demonstração de uma causalidade: o sentido se transvasa de um termo ao seu vizinho, e então tudo recomeça.

O procedimento é irrefutável [irréfutable]: nenhum momento do raciocínio pode ser falho, pois cada um remete a uma causa primeira e última, “o valor”, impalpável mas onipresente (exatamente como “o capitalismo” entre os marxistas).

A TFV causa sensação graças a conceitos que dão a impressão de ir ao fundo das coisas, de apreender a realidade na sua verdade mais geral. Forma sugere que se compreende uma infinidade de conteúdos particulares. Trabalho abstrato parece cobrir todas as manifestações possíveis do trabalho assim como do não-trabalho. A repetição do adjetivo social amplia o ponto de vista a uma multiplicação de gestos e práticas. O leitor pode então se imaginar guiado dos fenômenos de superfície para sua causa profunda.

Na realidade, de tão ampliados, os conceitos se esvaziam. Na TFV, trabalho abstrato significa o fim do papel do trabalho: tratar unicamente do trabalho como abstração, dissociá-lo de todo trabalho concreto, equivale a eliminá-lo. Forma é sinônimo de perda de substância, o capitalismo contemporâneo (o novo capitalismo, da 3ª revolução industrial) sendo descrito como dissolvendo a substância trabalho abstrato, fundamento do valor.

Quanto à palavra social (tão recorrente na TFV quanto, entre ativistas, a expressão “as lutas”), sua generalização banaliza o sentido: englobando tudo, desde a fábrica Renault até uma discussão entre vizinhos, falar de relações sociais dessa maneira significa omitir as relações de produção, e, em nossa sociedade, as relações de classe.

6: Política

O que essa teoria, tão crítica do anti-capitalismo e alter-mundialismo contemporâneos quanto do velho movimento operário, propõe?

Em uma sociedade sem centro de gravidade, que funcionaria de modo automático e reduziria a oposição entre capital e trabalho a um conflito de interesses entre proprietários de mercadorias diferentes, quem for buscar um “sujeito histórico”, o encontrará fora da esfera da (re)produção.

Lá, há inúmeras opções. Teorizar sobre a violência dos excluídos, por exemplo. Mas os partidários da TFV preferem soluções mais amenas, misturando transformação das mentalidades, movimentos de consumidores, cooperativismo, experimentações sociais, práticas ecológicas, ações anti-assédio, e, na produção, uma organização de tarefas, uma indústria “em escala humana”, mais a automação, a redução do tempo de trabalho, uma ênfase na “economia do conhecimento” graças à dita revolução digital, tudo isso sustentado na reivindicação de uma renda básica universal e democracia horizontal.

Que contraste entre a ambição de ir ao fundo das coisas e a modéstia dos objetivos...

Que a TFV seja compatível com a panóplia reformista, isso é coerente com a definição do valor.

Como o Deus definido por Nicolau de Cusa no século XV, o valor é “um círculo cujo centro está em todo lugar, e a circunferência, em lugar algum”. Felizmente, esse monstro é vulnerável: como ele está em todos, todos nós podemos fazê-lo desaparecer, desde que o arquiteto e sua secretária, o comerciante e sua vendedora, o diretor e o estudante, o prefeito e o catador de lixo se engajem nas práticas de gratuidade, de resistência, e talvez de desobediência. Ao invés de “a revolução”, velharia do século XIX, um ou dois bilhões de micro-revoluções, uma infinidade de pequenos e grandes gestos.

7: No espírito do tempo

A sofisticação à serviço da moderação. Há 15 anos, o Manifesto contra o trabalho (publicado pelo grupo Krisis, tendo Robert Kurz como principal animador) já descrevia um sistema ainda mais fácil de destruir porque ele se desfaria a si próprio: o capitalismo moderno removeria sua base racional no trabalho, e também no valor. Não há mais necessidade de revolução, pois o capitalismo estaria prestes de atingir o seu próprio limite. Como no marxismo social-democrata ou estalinista, tão desprezado pela TFV, a socialização capitalista é apresentada como contraditória ao capitalismo. A “crise do valor” (supostamente mais englobante do que a banal crise do capital) já estaria em andamento porque setores inteiros da vida social estão sendo descapitalizados por falta de rentabilidade. Portanto, não esperemos a queda do capitalismo pela luta de classes, mas do movimento do valor morrendo pelas suas contradições internas.

A TFV está no cruzamento de muitos caminhos ideológicos.

Ela exprime a decomposição do “marxismo”, devido ao fim do velho movimento operário e do capitalismo de Estado.

Ela é um eco muito degradado das novas críticas proletárias (o “anti-trabalho”).

Ela se inscreve na auto-crítica de um capitalismo forçado a se questionar sobre o produtivismo e a ecologia, que duvida do “progresso”, que ao estender o trabalho assalariado ao mundo inteiro, não glorifica mais “o desenvolvimento das forças produtivas”, e que imagina sair de sua crise pelo virtual e pelo imaterial.

A força da TFV é dar ao leitor algo de qualitativo [qualitatif]. Ele vai mais longe do que a gestão (operária ou generalizada), e parece fazer a ponte entre resistência ou revolta imediata e transformação social. Enquanto retrata um presente sombrio, a TFV promete um porvir radioso, porque o tal valor onipresente mina sua própria dominação universal, e contra ele, vai nos unir a todos. A TFV é reconfortante.

A TFV ignora a violência fundamental contida na relação de exploração, a venda de força de trabalho, efeito de uma situação onde uns, porque “sem reservas”, são coagidos, para sobreviver, a trabalhar para o lucro de outros, que controlam os meios de produção. O fato de que a exploração do trabalho é uma contradição, de que a revolução (a comunização) se fará a partir dessa situação e contra ela, é uma questão prática e teórica demasiado banal em comparação com as sutilezas do valor.

A TFV é uma exposição erudita da crítica da mercadoria, livre do idealismo dos anos 70 e do apelo dos conselhos operários, mas também desprovida de exigências de ruptura social. [3]

G.D.

[Tradução do francês por humanaesfera]


Notas:

[1] O site  Critique de la valeur (wertkritk) fornece o essencial sobre a teoria da forma-valor.
[2] Para uma releitura crítica de Marx: Bruno Astarian: site Hic Salta, Feuilleton sur la valeur, Chapitre 1.
[3]Para um desenvolvimento dos temas apenas resumidos aqui: site Hic Salta, Feuilleton sur la valeur, Chap. 6 et 7.

sábado, 30 de novembro de 2019

Uma estranha derrota: a revolução chilena – Pointblank! (1973)

Traduzimos o texto Strange defeat: The Chilean revolution, escrito pelo grupo situacionista Pointblank! em outubro de 1973, um mês após o golpe de 11 de setembro no Chile que depôs Salvador Allende. 


Pointblank! mostra como as condições para o golpe de Estado de Pinochet foram preparadas por Allende e pelos partidos de esquerda, que desmobilizaram um proletariado poderoso e minaram a sua força. Ao impedirem que a classe trabalhadora se armasse e ao perpetuar o exército permanente, eles mesmos acabaram por assinar suas próprias sentenças de morte.


I
No palco espetacular dos eventos atuais denominados “notícias”, o funeral da socialdemocracia no Chile foi orquestrado com alta dramaticidade por quem entende mais intuitivamente a ascensão e queda de governos: outros especialistas do poder. As últimas cenas do script chileno foram escritas em vários campos políticos de acordo com os requisitos das ideologias particulares. Alguns vieram para enterrar Allende, outros, para o enaltecer. Ainda outros reivindicam um conhecimento ex post facto de seus erros. Quaisquer que sejam os sentimentos expressos, estes obituários foram escritos com bastante antecedência. Os organizadores da “opinião pública” só podem reagir reflexivamente e com uma distorção característica dos próprios eventos.
A medida que os respectivos blocos da opinião mundial “escolhem lados”, a tragédia chilena é reproduzida como uma farsa de escola internacional; a luta de classes no Chile é dissimulada como pseudo-conflito entre ideologias rivais. Nas discussões da ideologia, não ouviremos nada sobre aqueles a quem o “socialismo” do regime de Allende era supostamente destinado: os trabalhadores e camponeses chilenos. Seu silêncio foi assegurado não apenas por aqueles os metralharam em suas fábricas, no campo e em suas casas, mas por aqueles que diziam (e continuam a dizer) representar seus “interesses”. Mesmo com mil deturpações, no entanto, as forças que estiveram envolvidas na "experiência chilena" ainda não se expuseram. O seu conteúdo real será estabelecido apenas quando as formas de sua interpretação forem desmistificadas.

Mais do que tudo, o Chile fascinou a dita esquerda em todos os países. E, ao documentar as atrocidades da junta militar atual, cada partido e seita tenta ocultar a estupidez das análises anteriores. Dos burocratas no poder em Moscou, Pequim e Havana aos burocratas exilados dos movimentos trotskistas, um coro litúrgico de embusteiros esquerdistas oferece sua avaliação post mortem do Chile, com conclusões tão previsíveis quanto sua retórica. As diferenças entre eles são apenas de nuances hierárquicas; compartilham uma terminologia leninista que exprime 50 anos de contrarrevolução em todo o mundo.

Os partidos estalinistas do Oeste e os Estados “socialistas” do Leste, muito acertadamente, vêem na derrota de Allende a sua própria – a de um homem de Estado. Com a falsa lógica que é um mecanismo essencial de seu poder, aqueles que sabem tanto de Estado e de (derrota da) Revolução denunciam a queda de um regime constitucional, burguês. Por outro lado, os importadores de “esquerda” do trotskismo e maoísmo apenas podem lamentar a ausência de um “partido de vanguarda” - o deus ex machina do senil bolchevismo – no Chile. Os que herdaram a derrota de Kronstadt e Xangai revolucionárias sabem do que falam: o projeto leninista requer a imposição absoluta de uma “consciência de classe” deformada (a consciência de uma classe dominante burocrática) àqueles que, em seus projetos, são apenas “as massas”.

As dimensões da “Revolução Chilena” transbordam os limites de qualquer doutrina particular. Enquanto os “anti-imperialistas” do mundo denunciam – de uma distância segura – o muito conveniente bicho-papão da CIA, a real razão da derrota do proletariado chileno deve ser buscada em outro lugar. Allende o mártir foi o mesmo Allende que desarmou as milícias de trabalhadores de Santiago e Valparaíso nas semanas que antecedem o golpe, deixando-os indefesos diante dos militares cujos oficiais já estavam em seu gabinete. Essas ações não podem ser explicadas simplesmente como “colaboração de classe” ou como uma “traição”. As condições da estranha derrota da Unidad Popular (UP) foram preparadas muito antes. As contradições sociais que emergiram nas cidades e no campo do Chile em agosto e setembro não foram simplesmente divisões entre “esquerda” e “direita”, mas envolveram uma contradição entre o proletariado chileno e os políticos de todos os partidos, incluindo aqueles que se apresentavam como os mais “revolucionários”. Num país “subdesenvolvido”, uma luta de classes altamente desenvolvida surgira, ameaçando as posições de todos aqueles que queriam o subdesenvolvimento, seja economicamente, através da continuação da dominação imperialista, ou politicamente, através do retardo de um autêntico poder proletário no Chile.

II
Em todo lugar, a expansão do capital cria a sua aparente oposição na forma de movimentos nacionalistas que procuram se apropriar dos meios de produção “em nome” dos explorados e, com isso, se apropriar o poder social e político para si mesmos. A extração de mais-valia do imperialismo tem suas consequências políticas e sociais, não somente na pobreza forçada daqueles que devem se tornar seus trabalhadores, mas no papel secundário designado à burguesia local, que é incapaz de estabelecer completa hegemonia sobre sociedade. É precisamente esse vácuo que os movimentos de “libertação nacional” buscam ocupar, assumindo assim o papel gerencial não preenchido pela burguesia dependente. Esse processo assumiu muitas formas – da xenofobia religiosa de Khadafi à religião burocrática de Mao – mas em todas elas, as palavras de ordem de “anti-imperialismo” são as mesmas, e aqueles que as dão estão em idênticas posições de comando.
A distorção imperialista da economia chilena deu abertura para um movimento popular que almejava estabelecer uma base de capital nacional. Porém, o status econômico relativamente avançado do Chile impediu o tipo de desenvolvimento burocrático que tinha chegado ao poder pela força das armas em outras áreas do “terceiro mundo” (um termo usado para ocultar as divisões reais de classe nesses países). O fato de que a “progressista” Unidad Popular fosse capaz de uma vitória eleitoral como coalizão reformista foi um reflexo da peculiar estrutura social no Chile, que era, em muitos aspectos, similar àquela nos países capitalistas avançados. Ao mesmo tempo, a industrialização capitalista criou as condições para a possível superação dessa alternativa burocrática na forma de um proletariado rural e urbano que emergiu como a classe mais importante, e com aspirações revolucionárias. No Chile, tanto democratas cristãos quanto social-democratas deveriam provar ser os oponentes de qualquer solução radical dos problemas existentes.

Até o advento da coalizão UP (Unidad Popular), as contradições na esquerda chilena entre uma base radical de trabalhadores e camponeses e seus assim chamados “representantes” políticos permanecia em grande medida um antagonismo latente. Os partidos de esquerda foram capazes de organizar um movimento popular apenas com base na ameaça estrangeira posta pelo capital norte-americano. Os comunistas e socialistas foram capazes de sustentar a imagem de autênticos nacionalistas sob o governo democrata cristão porque o programa de Eduardo Frei de “chilenização” (que incluía uma política de reforma agrária que Allende iria conscientemente emular mais tarde) era explicitamente conectada à “Aliança pelo Progresso” patrocinada pelos EUA. A esquerda oficial foi capaz de construir sua própria aliança dentro do Chile em oposição, não ao reformismo em si, mas a um reformismo com ligações estrangeiras. Mesmo com seu caráter moderado, o programa de oposição da esquerda chilena só foi adotado depois que a atividade de greve militante dos anos 1960 – organizada independentemente dos partidos – ameaçou a existência do regime de Frei.

A vitoriosa UP se moveu em um espaço aberto pelas ações radicais dos trabalhadores e camponeses chilenos; ela se impôs como uma representação institucionalizada das causas proletárias na medida em que ela foi capaz de as recuperar. Apesar do caráter extremamente radical de muitas das ações de greve anteriores (que incluía ocupações de fábrica e a administração pelos trabalhadores de várias plantas industriais, notavelmente a COOTRALACO), a prática do proletariado chileno carecia de uma correspondente expressão teórica e organizativa, e essa falha em afirmar sua autonomia o deixou aberto às manipulações dos políticos. Apesar disso, a batalha entre reforma e revolução estava longe de ter sido decidida.

III
A eleição do maçom Allende, embora não tenha significado de modo algum que os trabalhadores e camponeses tivessem estabelecido o seu próprio poder, porém, intensificou a luta de classes que estava ocorrendo em todo Chile. Ao contrário das declarações da UP de que a classe trabalhadores alcançara uma grande “vitória”, tanto o proletariado quanto seus inimigo continuaram sua batalha fora dos canais parlamentares convencionais. Apesar de Allende constantemente dizer aos trabalhadores estar engajado em uma “luta comum”, ele revelou o verdadeiro caráter de seu socialismo-por-decreto no início de seu mandato quando ele assinou o Estatuto, que formalmente garantiu que ele respeitaria rigorosamente a constituição burguesa. Tendo chegado ao poder com um programa “radical”, a UP entrou em conflito com uma crescente corrente revolucionária em sua base. Quando o proletariado chileno mostrou que estava preparado para tomar os slogans da UP literalmente – slogans que não passavam de retórica vazia e promessas não cumpridas por parte da coalizão burocrática – colocando-os em prática, as contradições entre o conteúdo e a forma da revolução chilena se tornou evidente. Os trabalhadores e camponeses do Chile estavam começando a falar e agir por si mesmos.
Apesar de todo seu “marxismo”, Allende nunca passou de um administrador da intervenção do Estado em uma economia capitalista. O estatismo de Allende – uma forma de capitalismo de Estado que acompanha a ascensão de todos os administradores do subdesenvolvimento – nada mais foi senão uma extensão quantitativa das políticas da democracia cristã. Ao nacionalizar as minas de cobre e outros setores industriais, Allende continuou a centralização iniciada sob o controle do aparato de Estado chileno – uma centralização iniciada pelo “arqui-inimigo” da esquerda Eduardo Frei. Allende, de fato, foi forçado a nacionalizar certos setores porque eles tinham sido espontaneamente ocupados pelos trabalhadores. Ao impedir a autogestão da indústria pelos trabalhadores, neutralizando essas ocupações, Allende se opôs ativamente ao estabelecimento de novas relações sociais de produção. Como resultado de suas ações, os trabalhadores chilenos apenas substituíram um conjunto de patrões por outro: agora a burocracia do governo, no lugar da Kennecott ou Anaconda, dirigia o seu trabalho alienado. Essa mudança de aparências não podia esconder o fato de que o capitalismo chileno estava se perpetuando. Dos lucros extraídos pelas corporações multinacionais aos “planos quinquenais” do estalinismo internacional, a acumulação do capital sempre é feita às custas do proletariado.

Que governos e revoluções sociais nada tem em comum foi também demonstrado nas áreas rurais. Em contraste com a administração burocrática da “reforma agrária”, herdada e continuada pelo governo Allende, a tomada armada espontânea de grandes propriedades oferecia uma resposta revolucionária à “questão da terra”. Por maiores que fossem os esforços da CORA (Corporación de la Reforma Agraria) para impedir essas expropriações pela mediação de “cooperativas camponesas” (asentamientos), a ação direta dos camponeses ultrapassou essas formas ilusórias de “participação”. Muitas tomadas de terra foram legitimizadas pelo governo somente depois que a pressão dos camponeses tornou impossível ao governo não fazer isso. Reconhecendo que essas ações colocavam em questão sua própria autoridade tanto como a dos proprietários de terras, a UP nunca perdeu a oportunidade de denunciar as expropriações “indiscriminadas” e de apelar à “moderação”.

As ações autônomas do proletariado urbano e rural formaram a base do desenvolvimento de um movimento significativamente à esquerda do governo Allende. Ao mesmo tempo, esse movimento forneceu ainda outra ocasião para que uma representação política se impusesse sobre as realidades da luta de classes chilena. Esse papel foi assumindo pelos militantes guevaristas do MIR (Movimiento de Izquierda Revolucionaria) e sua contraparte rural, o MCR (Movimento Camponês Revolucionário), os quais tiveram êxito em recuperar muitas das conquistas radiciais dos trabalhadores e camponeses. O slogan dos miristas de “luta armada” e sua obrigatória recusa da política eleitoral eram apenas gestos pro forma: logo após a eleição de 1970, um corpo de elite das guerrilhas urbanas do MIR se tornou a guarda palaciana pessoalmente escolhida por Allende. Os laços que ligam o MIR-MCR à UP foram além de considerações puramente táticas – ambos tinham interesses comuns a defender. Apesar da pose revolucionária do MIR, ele agiu de acordo com as exigências burocráticas da UP: sempre que o governo estivesse em apuros, os ajudantes do MIR reuniriam seus militantes sob a bandeira da UP. Se o MIR fracassou em ser a “vanguarda” do proletariado chileno, não foi porque ele não era vanguarda o bastante, mas porque sua estratégia sofreu a resistência daqueles que tentou manipular.

IV
A atividade direitista no Chile aumentou, não em resposta a algum decreto governamental, mas por causa da ameaça direta posta pela independência do proletariado. Diante das crescentes dificuldades econômicas, a UP só podia falar em “sabotagem direitista” e da obstinação da “aristocracia operária”. Quaisquer que fossem as impotentes denúncias do governo, essas “dificuldades” eram problemas sociais que só poderiam ser resolvidos de maneira radical através do estabelecimento de um poder revolucionário no Chile. Apesar de afirmar “defender os direitos dos trabalhadores”, o governo Allende se mostrou como um espectador impotente da luta de classes se desdobrando fora das estruturas políticas formais. Foram os próprios trabalhadores e camponeses que tomaram a iniciativa contra a reação, e assim, criaram formas novas e radicais de organização social, formas que exprimiam uma consciência de classe altamente desenvolvida. Depois do lockout dos patrões em outubro de 1972, os trabalhadores não esperaram que a UP interviesse, mas ocuparam ativamente as fábricas e iniciaram a produção por si mesmos, sem “assistência” do Estado ou dos sindicatos. Os cordones industriales, que controlaram e coordenaram a distribuição dos produtos e organizaram a defesa armada contra os empregadores, foram formados nos complexos fabris. Diferentemente das “assembleias populares” prometidas pela UP, que existia apenas no papel, os cordones foram criados pelos trabalhadores por si mesmos. Em sua estrutura e funcionamento, esses comitês – junto com os consejos rurais – foram a contribuição mais importante ao desenvolvimento de uma situação revolucionária no Chile.
Uma situação similar existia nos locais de moradia, onde as ineficientes “juntas de abastecimento popular” (JAPs) foram suplantadas pelas proclamações de “autogoverno dos bairros” e organização de comandos comunais pelos moradores. Apesar da infiltração pelos castristas do MIR, essas expropriações armadas do espaço social formaram o ponto de partida para um autêntico poder proletário. Pela primeira vez, gente até então excluída de participação na vida social foi capaz de fazer decisões sobre as realidades mais básicas de suas vidas cotidianas. Os homens, mulheres e a juventude das poblaciones descobriram que as revoluções não são assunto de urna eleitoral; independentemente de como os bairros eram nomeados – Nova Havana, Heróico Vietnã – o que acontecia dentro deles não tinha nada a ver com as paisagens alienadas de seus homônimos.

Apesar de as conquistas realizadas pela iniciativa popular serem consideráveis, uma terceira força capaz de colocar uma alternativa revolucionária ao governo e aos reacionários nunca emergiu completamente. Os trabalhadores e camponeses fracassaram na tarefa de estender suas conquistas até o ponto de substituir o regime Allende por seu próprio poder. O MIR, o suposto “aliado”, usou a retórica de opor ao burocratismo as “massas armadas” como uma máscara para suas intrigas. No seu esquema leninista, os cordones eram vistos como “formas de luta” que preparariam o caminho para futuros modelos organizativos menos “restritos”, cuja liderança seria fornecida pelo MIR, é claro.

Apesar de toda preocupação com as conspirações direitistas que ameaçavam sua existência, o governo impedia os trabalhadores de tomarem medidas positivas para resolver a luta de classes no Chile. Com isso, a iniciativa passou das mãos dos trabalhadores para as do governo, e, ao se deixar enganar, o proletariado chileno pavimentou o caminho para sua futura derrota. Em resposta aos apelos de Allende após o golpe abortado de 29 de junho, os trabalhadores ocuparam ainda mais fábricas, apenas para fechar fileiras sob as forças que os desarmariam um mês depois. Essas ocupações continuaram definidas pela UP e seus intermediários do sindicato nacional, a CUT, que manteve os trabalhadores isolados entre si ao insulá-os dentro das fábricas. Nessa situação, o proletariado estava impotente para encetar qualquer luta independente, e quando a Ley de Control de Armas foi assinada, o seu destino foi selado. Como os republicanos espanhóis que negaram armas à milícias anarquistas na frente de Aragão, Allende não estava preparado para tolerar a existência de uma força proletária armada fora de seu próprio governo. Nenhuma conspiração da direita teria durado um dia sequer se os trabalhadores e camponeses chilenos estivessem armados e organizassem suas próprias milícias. Por mais que o MIR protestasse contra a entrada dos militares no governo, eles, como seus predecessores no Uruguai, os Tupamaros, apenas falavam de armar os trabalhadores e tinham pouco a ver com a resistência que acontecia. O lema dos trabalhadores “Um povo desarmado é um povo derrotado” encontraria sua amarga verdade no massacre dos trabalhadores e camponeses que se seguiu ao golpe militar.

Allende foi derrubado, não por causa de suas reformas, mas porque ele foi incapaz de controlar o movimento revolucionário que se desenvolveu espontaneamente na base da UP. A junta militar que se instalou no poder claramente percebia a ameaça de revolução e se empenhou em eliminá-la com todos os meios a sua disposição. Não foi por acaso que a resistência mais forte à ditadura ocorreu naquelas áreas onde o poder dos trabalhadores tinha avançado mais longe. Na fábrica têxtil Sumar e em Concepción, por exemplo, a junta foi forçada a liquidar esse poder por meio de bombardeios aéreos. Como resultado das políticas de Allende, os militares foram capazes de ter a mão livre para finalizar o que tinha começado pelo governo da UP: Allende foi tão responsável quanto Pinochet pelos assassinatos em massa de trabalhadores e camponeses em Santiago, Valparaíso, Antofogasta e nas províncias. Talvez, a mais reveladora de todas as ironias inerente à queda da UP é que, enquanto muitos apoiadores de Allende não sobreviveram ao golpe, muitas de suas reformas sim. As categorias políticas perderam tanto significado que o novo ministro do exterior pôde se descrever como “socialista”.

V
Os movimentos radicais são subdesenvolvidos na medida em que eles respeitam a alienação e entregam seu poder a forças externas, ao invés de criar-lo por si mesmos. No Chile, os revolucionários apressaram o dia de seu próprio Termidor ao deixarem que “representantes” falassem e agissem em seu nome: apesar da autoridade parlamentar ter sido efetivamente substituída pelos cordones, os trabalhadores não foram além dessas condições de duplo poder , e não aboliram o Estado burguês e os partidos que o mantinham. Se as lutas futuras no Chile devem avançar, os inimigos dentro do movimento dos trabalhadores devem ser superados na prática; as tendências conselhistas nas fábricas, locais de moradia e nos campos deverão ser tudo ou nada. Todos os partidos de vanguarda que continuarem a se passar por “lideranças dos trabalhadores” - sejam eles o MIR, um PC clandestino ou qualquer outro grupo dissidente subterrâneo – só podem repetir as traições do passado. O imperialismo ideológico deve ser confrontado tão radicalmente quanto o imperialismo econômico é expropriado; os trabalhadores e camponeses só podem depender de si mesmos para avançar além do que os cordones indrustriales já tinha realizado. Já estão sendo feitas comparações entre a experiência chilena e a revolução espanhola de 1936, e não só aqui – se encontra estranhas palavras vindo de trotskistas em louvor às milícias operárias que lutaram contra todas as formas de hierarquia. Enquanto é verdade que uma terceira força radical não emergiu no Chile, eles tatearam nesse sentido. Diferentemente do proletariado espanhol, os revolucionários chilenos nunca criaram um tipo inteiramente novo de sociedade com base numa organização de conselhos, e a revolução chilena teria sucesso apenas se essas formas (cordones, comandos) fossem capazes de estabelecer uma hegemonia social. Os obstáculos a seu desenvolvimento são similares aos que foram confrontados na Espanha: os conselhos e milícias espanhóis encararam dois inimigos, sob a forma de fascismo e de governo republicano, enquanto os trabalhadores chilenos confrontaram o capitalismo internacional e os manipuladores da social-democracia e leninismo.

Das favelas no Brasil aos campos de trabalho de Cuba, o proletariado do Caribe, o proletariado da América Latina manteve uma ofensiva contínua contra todos aqueles que buscam manter as condições atuais.

Em sua luta, o proletariado confronta várias caricaturas de revolução que se mascaram de aliados. Esses fantasiados encontraram, por sua vez, um falso movimento de oposição dita de “ultra-esquerda”. Assim, o ex-fascista Perón prepara a construção de um Estado corporativo na Argentina, dessa vez com aparência esquerdista, enquanto os comandos esquerdistas da ERP o denunciam por não ser “revolucionário” o bastante, e o ex-guerrilheiro Fidel Castro reprime todos os que não se adaptam aos padrões da disciplina “comunista”. A história não falhará em dissolver o poder desses idiotas.

Uma complô da tradição – com agentes tanto de esquerda quanto de direita – assegura que a realidade existente seja sempre apresentada em termos de falsas alternativas. As únicas escolhas aceitáveis para o poder são aquelas entre hierarquias em competição: os coronéis do Peru ou os generais do Brasil, os exércitos dos Estados árabes ou os de Israel. Esses antagonismos apenas expressam as divisões dentro do capitalismo global, e qualquer alternativa genuinamente revolucionária terá de ser criada, dado que ela não existe em lugar algum da América Latina nem em qualquer outro lugar, e essa impotência impele constantemente a novas ações. Os trabalhadores chilenos não estão sozinhos em sua oposição às forças da contrarrevolução; o movimento revolucionário que começou no México com os bandos de guerrilha de Villa ainda não veio ao fim. Nas milícias de trabalhadores armados que combateram nas ruas de Santo Domingo em 1965, a insurreição urbana em Córdoba, na Argentina em 1969, e as recentes greves e ocupações na Bolívia e no Uruguai, a revolta espontânea de trabalhadores e estudante em Trinidad em 1970, e a contínua crise revolucionária ocorre, enquanto tal, sobre a ruína desses conflitos espetaculares. A combinação de mentiras dos poderes burguês e burocrático deve ser enfrentada pela verdade revolucionária com armas, em todo mundo assim como no Chile. Não pode existir “socialismo em um país” ou em uma fábrica ou bairro. A revolução é uma tarefa internacional que só pode ser resolvida no nível internacional – ela não reconhece fronteiras continentais. Como toda revolução, a revolução chilena requer o êxito de movimentos similares em outras áreas. Em todo lugar, nas greves selvagens nos Estados Unidos e na Alemanha Ocidental, as ocupações de fábrica na França e nas insurreições civis na URSS, as fundações de um novo mundo estão sendo postas. Aqueles que se reconhecem nesse movimento global devem conquistar a oportunidade para estendê-la com todas as armas subversivas à sua disposição.

Escrito pelo grupo situacionaista Pointblank! em outubro de 1973 (traduzido do inglês ao português por humanaesfera em novembro de 2019)





Outras traduções que fizemos de textos que também tratam do golpe no Chile de 1973:
Quando as insurreições morrem – Gilles Dauvé
Fascismo & Antifascismo - Jean Barrot/Gilles Dauvé





domingo, 17 de novembro de 2019

humanaesfera básica



Reunimos abaixo os links para nossos textos mais básicos:

Teoria comunista telegráfica (2018)
  (English versionTelegraphic communist theory)
Uma apresentação telegráfica da teoria comunista. Conceitos básicos: propriedade privada, capital, proletariado, luta de classes e comunismo.
Propriedade privada, escassez e democracia (2014)
  (English versionPrivate property, scarcity and democracy)
Descrição básica da sociedade comunista a partir das condições concretas atualmente presentes. Originalmente escrito como uma resposta aos (pseudo)"libertários" que vêem a escassez como uma consagração natural, objetiva e eterna da propriedade privada e do mercado, também descreve uma perspectiva sobre as limitações da democracia em relação à transformação das condições materiais de existência.
Descrição básica da sociedade comunista e de como chegar a ela hoje. Uma resposta à seguinte objeção: "A abundância (superação da escassez) é impossível, uma vez que vivemos em um universo com recursos limitados, não só econômica mas fisicamente; portanto superar a escassez é uma exigência metafísica, absurda, que necessitaria uma automatização total do universo infinito para entregar à cada indivíduo, elevado ao status de um deus, a realização de seus menores caprichos e arbitrariedades."
Condições de existência universalmente interconectadas/interdependentes (2015)
   (English translationUniversally interconnected / interdependent conditions of existencetraduction française: Conditions d’existence universellement interconnectées/interdépendantes)
Este texto procura demonstrar que defender "identidades", "nações", "zonas étnicas", "comunidades", "países", "autarquias", "territórios autônomos" ou "áreas autogeridas" é o mesmo que reivindicar o estabelecimento novas propriedades privadas e, consequentemente, novos capitais e novos estados.O artigo também aborda a questão da irrupção da comunidade humana mundial que suprime a propriedade privada simultaneamente em todo o mundo.
Propriedade privada, substância do Estado (2016)
  (English versionPrivate property, substance of state)
Uma análise detalhada e concisa do que é o estado e como ele funciona. Também apresenta uma história do Estado. 
Contra o patriotismo - abaixo as fronteiras nacionais! (2012)
  (English translationAgainst patriotism - against nationalism - down with the national boundaries!)
"Se a corja vil, cheia de galas, nos quer à força canibais, logo verão que as nossas balas são para os nossos generais." (A Internacional)
Uma crítica à família, bem como às idéias de reformá-la. O artigo também trata das mudanças da família na sociedade capitalista, nas quais há uma crescente subsunção real da reprodução humana ao capital.
PRÁTICA
Greve e produção livre (2014)
  (English versionStrike and free production)
Quando a maioria dos trabalhadores está no setor de serviços, será que a tática de greve ainda faz sentido se o proletariado usa esses serviços em suas vidas cotidianas? Como podemos incentivar a solidariedade de classe neste caso?
  (English versionAgainst the strategy)
Crítica da ideologia da estratégia a partir da perspectiva do conceito de composição de classe.
Por que as greves e manifestações são hoje sistematicamente derrotadas em todo o mundo? (2017) 
Por que? 

ANÁLISES DO CAPITALISMO CONTEMPORÂNEO:

Sobre o capitalismo nacionalizado de Cuba.
Sobre as ilusões quanto à inteligência artificial e renda básica universal.
História social da internet. Também sobre a "internet das coisas", gameficação do comando, UBERização, etc. E as mudanças radicais das condições sociais de vida e de produção que estão acontecendo.

FILOSOFIA

Um breve texto sobre os princípios da ética materialista, nosso poder de mudar as circunstâncias da vida cotidiana e criar e desenvolver nossas capacidades e necessidades.
Artigo filosófico que critica a metafísica da escassez, amplamente utilizada (como "pressuposto inquestionável") para justificar o status quo, a repressão, a troca de mercadorias, o Estado, a exploração, etc. - como uma verdadeira teodicéia, uma justificativa imaginária dos sofrimentos e males do mundo. Mostra como a economia e a ecologia são variações dessa mesma metafísica, radicalizadas pelo fetichismo da mercadoria que permeia a subjetividade na sociedade capitalista moderna. E há um adendo que trata da "dádiva" pré-capitalista.
Contra as recompensas e punições (contra a meritocracia, contra a coerção) (2014)
 (English translationAgainst rewards and punishments (against meritocracy, against coercion))
Texto curto abordando a questão das recompensas e punições, lei, estado de direito, meritocracia e trabalho assalariado.