sábado, 17 de fevereiro de 2018

Intervenção federal militar no Rio de Janeiro


A "intervenção federal" no Rio é apenas mais uma variação do tema abaixo (trecho do texto Propriedade privada, substância do Estado):


"[...]LEI E CRIME



Por fim, para fechar o quadro, o Estado, esse amontoado de quadrilhas em incessante guerra entre si, jamais teria conseguido atribuir a si essa aura espetacular superior se ele não excretasse subterrânea e freneticamente uma massa sempre renovada que encarna sua anti-aura absoluta, tão aterrorizante e ameaçadora que justifica sempre a aceitação como legítima, pelos "cidadãos", da máxima violência das milícias privadas que compõem o próprio Estado. Com efeito, a "criminalidade", embora inseparável da propriedade privada, só se forma sistematicamente como força coesa e sustentada - organizada e distinta, em suma, literalmente empresas especializadas, ditas "crime organizado" - no interior de propriedades privadas bem específicas tais como os presídios e a polícia, que são empreendimentos especializados nesse serviço educativo, especializados também  em albergar seus escritórios centrais, de onde saem os comandos e a coordenação do fornecimento de suas mercadorias por toda a sociedade, e cujos clientes são, é claro, aqueles que tem dinheiro de sobra, ou seja, o empresariado, estatal ou particular.



É preciso notar aqui que, ao contrário das teorias conspiratórias, a classe proprietária é tudo menos um grupo onisciente e onipotente que seria capaz de dominar a totalidade da sociedade prevendo os efeitos de tudo o que manda fazer. Pelo contrário, a classe dominante é antes de tudo um amontoado de personificações do capital numa eterna guerra de todos contra todos por mais propriedades (não por mera "ambição" ou "maldade", mas porque, se abandonarem a guerra, arriscam cair no inferno, se tornando proletários), sempre condenada a manter secretos uns aos outros os seus próprios conhecimentos e projetos. Assim, é muito provável que não tenha sido "conscientemente" que a classe proprietária, no momento em que inventou deliberadamente (nos séculos XVIII e XIX) a polícia e a penitenciária, criou com estes a carreira de "criminoso profissional" e seu valioso mercado. Porém, uma vez observando que foi sustentadamente estabelecido esse novo tipo de empreendimento, esse novo tipo de serviço, o "criminoso profissional" figurou como componente subterrâneo orgânico indispensável daquele conglomerado empresarial cujo serviço, como vimos, é constituir os proprietários como classe para si contra o proletariado. 

A razão disso é que, com o negócio da criminalidade profissional consolidado, a classe proprietária, diante da menor irrupção de autonomia do proletariado, tem prontamente a sua disposição um exército mercenário para mobilizar sem ter que se preocupar minimamente em manter qualquer aura de legalidade e racionalidade, destruindo, vandalizando e desmoralizando para criar, nos pontos de irrupção, uma situação de violência cuja solução, segundo ela, é unicamente aceitar se render à polícia e à classe proprietária. Vale notar que, uma vez pego pela polícia e posto numa penitenciária, que é a empresa formadora e mantenedora do crime organizado, um proletário dificilmente conseguirá se livrar de ser recrutado nesse exército mercenário [3]. Isso sem falar de quando a criminalidade profissional fornece o serviço (despachado a partir dos seu escritórios centrais: a polícia e os presídios) de terceirização permanente do policiamento, ameaçando e recrutando qualquer proletário que parecer menos "manso". Tal é a situação que se tornou permanente nas favelas brasileiras desde os anos 1980, único modo encontrado pelo poder para destruir os movimentos autônomos que começavam a se desenvolver nesses lugares desde os 1970. [4]


Aliás, a própria ideia de "lei" (e portanto de "Estado de direito") é enganosa, porque além de pressupor a relação entre crime e sanção, relação que é em si arbitrária - uma pura troca de alhos por bugalhos -, é impossível que a lei (que é uma codificação que dá uma aura de racionalidade, não-excepcionalidade, imparcialidade e não-arbitrariedade para a relação entre crime e sanção) possa por conta própria andar por aí para aplicar sanções. Pois afinal a lei é só uma papelada com um monte de codificações. A lei só pode ser efetiva se aplicada por uma força que não é a lei, que é portanto literalmente fora da lei, acima da lei: a polícia, as forças armadas, o chefe, ou, como é cada vez mais comum hoje, por máquinas, algoritmos e drones. Portanto, a aplicação da lei é inerentemente não-legal, ilegal, arbitrária, implicando por si só aquele subterrâneo criminoso inseparável do empresariado a que nos referimos nos parágrafos anteriores. [5]
[...]"

Notas:

[3] “Relançado sem cessar pela literatura policial, pelos jornais, pelos filmes, atualmente, o apelo ao medo do delinquente, toda a formidável mitologia aparentemente glorificante, mas, de fato, atemorizante, essa enorme mitologia construída em torno do personagem do delinquente, em torno do grande criminoso tornou natural, naturalizou, de algum modo, a presença da polícia no meio da população. A polícia, da qual não se deve esquecer tratar-se de uma invenção igualmente recente, do final do século XVIII e começo do século XIX. Esse grupo de delinquentes assim constituído e profissionalizado é utilizável pelo poder, para muitos fins, utilizável para tarefas de vigilância. É entre esses delinquentes que se recrutarão os delatores, espiões etc. É utilizável também para uma quantidade de ilegalismos vantajosos para a classe no poder. Os tráficos ilegais que a própria burguesia não quer fazer por si, pois bem, ela os fará muito naturalmente por meio de seus delinquentes. Portanto, vocês veem, com efeito, muitos lucros econômicos, políticos, e, sobretudo, a canalização e a codificação estreita da delinquência encontraram seu instrumento na constituição de uma delinquência profissional. Tratava-se, então, de recrutar delinquentes, tratava-se de fixar pessoas à profissão e ao status de delinquente. E qual era o meio para recrutar os delinquentes, mantê-los na delinquência e continuar a vigiá-los indefinidamente em sua atividade de delinquente? Pois bem, esse instrumento era, bem entendido, a prisão.” (Pontos de Vista, conferência proferida em 1976 - Foucault)

“De fato, rapidamente percebemos que, longe de reformá-los, a prisão apenas os constituía [os delinquentes] em um meio: aquele em que a delinquência é o único modo de existência. Percebemos que essa delinquência, fechada sobre si mesma, controlada, infiltrada, poderia se tornar um instrumento econômico e político precioso na sociedade: é uma das grandes características da organização da delinquência em nossa sociedade, por intermédio do sistema penal e da prisão. A delinquência se tornou um corpo social estrangeiro ao corpo social; perfeitamente homogênea, vigiada, fichada pela polícia, penetrada de delatores e de “dedos-duros”, utilizaram-na imediatamente para dois fins. Econômico: retirada do lucro do prazer sexual, organização da prostituição no século XIX e, por fim, transformação da delinquência em agente fiscal da sexualidade. Político: foi com tropas de choque recrutadas entre os malfeitores que Napoleão III organizou, e foi o primeiro, as infiltrações nos movimentos operários.” (Na Berlinda, 1975 - Foucault)

"Mas é preciso que se entenda o termo delinquência. Não se trata do delinquente, como um tipo de mutante psicológico e social, que seria o objeto da repressão penal. Por delinquência é preciso entender o duplo sistema penalidade-delinquente. A instituição penal, com a prisão no seu centro, fabrica uma categoria de indivíduos que entram num circuito junto com ela: a prisão não corrige; ela chama incessantemente os mesmos; ela constitui, pouco a pouco, uma população marginalizada, utilizada para fazer pressão sobre as "irregularidades" ou os "ilegalismos" que não se pode tolerar. E ela exerce essa pressão sobre os ilegalismos por intermédio da delinquência, de três modos: conduzindo pouco a pouco a irregularidade ou o ilegalismo à infração, graças a um jogo de exclusão e de sanções parapenais (mecanismo que pode ser chamado: "a indisciplina leva à guilhotina"); integrando os delinquentes a seus próprios instrumentos de vigilância do ilegalismo (recrutamento de provocadores, indicadores, policiais; mecanismo que pode ser chamado: "todo ladrão pode se tornar Vidocq"); canalizando as infrações dos delinquentes para as populações que mais importa controlar (princípio: "um pobre é sempre mais fácil de ser roubado do que um rico")." (Resumo do curso A Sociedade Punitiva - Foucault).

[4] Reproduzimos uma nota do texto Contra a estratégia: "Em contraste com encenação da “oposição estratégica”, o único modo de suprimir a força repressiva do status quo é por uma emergência tão rápida e generalizada do proletariado autônomo (portanto, do comunismo) que os poderosos não encontrarão sequer por onde começar a reprimir, de modo que os seus cães de guarda repressores deixarão de ver qualquer sentido em continuar obedecendo, deixando de ser cães de guarda, voltando as armas contra os generais e distribuindo as armas para a população, pela simples razão de passarem a ser irrefreável e irreprimivelmente atraídos, como o restante dos explorados, pela emergência apaixonante do comunismo luxuriante generalizado, a comunidade humana mundial".

[5] "Primeiro, algumas palavras sobre a lei. Apesar do que possamos ter aprendido em sala de aula, a lei não é o marco no qual opera a sociedade. A lei é o resultado de como a sociedade funciona, mas não nos diz como as coisas realmente funcionam. A lei tampouco é o marco em que a sociedade deveria funcionar, embora alguns tenham essa esperança.

A lei é, na verdade, uma ferramenta nas mãos daqueles que têm o poder de usá-la, para alterar o curso dos acontecimentos. As corporações são capazes de usar essa ferramenta porque podem contratar advogados caros. Políticos, promotores e policiais também podem usar a lei.

Agora alguns detalhes sobre a polícia e a lei. A lei tem muito mais recursos do que eles usam na prática, de modo que a sua observância é sempre seletiva. Isto significa que a polícia está sempre selecionando qual parte da população é a sua finalidade e escolhendo que tipo de comportamentos querem modificar. Isto também significa que a polícia tem continuamente a chance de se corromper. Se possuem a capacidade de decidir quem é acusado de um crime, eles também podem pedir uma recompensa para não acusar alguém.

Outra maneira de ver a brecha que existe entre a lei e o que a polícia faz é examinar a ideia comum de que a punição começa com uma sentença depois de um julgamento. A questão é que qualquer um que tenha tido contato com a polícia irá dizer-lhe que a punição começa quando você coloca as mãos para cima. Eles podem nos parar e até mesmo nos colocar na prisão sem acusação. Este é um castigo e eles sabem disso. Para não mencionar o abuso físico que você pode sofrer ou os problemas que eles podem causar ainda que não nos detenham.
Assim, a polícia controla as pessoas todos os dias sem mandado judicial, e castigam as pessoas todos os dias sem uma sentença. Obviamente, algumas das funções sociais fundamentais da polícia não estão escritas na lei. Formam parte da cultura policial que aprendem uns com os outros, com o apoio e a direção de seus comandantes.

Isso nos remete à pergunta com que começamos. A lei trata de crimes, e são indivíduos que são acusados de crimes. Mas na verdade a polícia foi inventada para lidar com o que os trabalhadores e os pobres podem vir a se transformar em suas expressões coletivas: a polícia lida com multidões, bairros, selecionando partes da população – todas entidades coletivas.


Podem usar a lei para fazer isto ou aquilo, mas suas principais diretivas lhes chegam de seus comandantes ou os seus próprios instintos como policiais experientes. As diretrizes policiais muitas vezes têm um caráter coletivo, tais como a forma de assumir o controle de um bairro rebelde. Eles decidem o que fazer e depois escolhem quais leis usar." As origens da polícia,David Whitehouse"

Link para o texto completo: Propriedade privada, substância do Estado.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Labirintos do fascismo de João Bernardo (livro em PDF para baixar)

Terceira versão, revista e aumentada do livro Labirintos do Fascismo, obra imprescindível e sem paralelo no mundo sobre o fascismo, e que pode ajudar entender o reacionarismo de hoje. O livro em PDF foi disponibilizado gratuitamente pelo autor João Bernardo. 

"Para esta terceira e última versão procedi a uma revisão completa, algumas correcções, numerosas remodelações de detalhe, uma reorganização de alguns capítulos e desenvolvimentos substanciais em certas passagens." (João Bernardo)

O PDF pode ser encontrado no site  https://vosstanie.blogspot.com.br/2018/02/labirintos-do-fascismo-3-versao-joao.html

Um link direto para baixar o arquivo PDF (sem precisar passar por sites intermediários) pode ser encontrado aqui ou clicando na imagem abaixo.


sábado, 27 de janeiro de 2018

A armadilha do sindicalismo


Trechos do texto de Libcom "Sindicatos: uma introdução"


"[...]Os sindicatos, seja qual for o tamanho, têm empregados remunerados, e são organizados como uma empresa. Há os diretores que ganham altos salários, os gerentes intermediários que aplicam as decisões do topo e uma progressão de carreira em partidos políticos socialdemocratas, think-tanks e ministérios governamentais.

No cotidiano dos locais de trabalho, os sindicatos são geridos por trabalhadores que se voluntariam como representantes, muitas vezes sofrendo realmente um custo pessoal com isso. Porém, os filiados ao sindicato e seus representantes no local de trabalho também podem entrar em conflito com a burocracia empregada pelo sindicato.

Isso porque a base sindical tem interesses diferentes dos das pessoas que trabalham para e dirigem o sindicato. Os líderes sindicais precisam colocar as necessidades do sindicato, enquanto entidade legal, acima das necessidades dos trabalhadores que estão lutando por seus próprios interesses. Porque seus empregos e cargos políticos dependem de continuar existindo essa entidade legal. Assim, apoiar qualquer ação que cause problemas para o sindicato – por exemplo, greves sem aviso – jamais será algo defendido pelos dirigentes sindicais.

Mesmo no nível regional e local, os empregados do sindicato não compartilham os mesmos interesses dos trabalhadores filiados ao sindicato.  Isso não tem a ver com suas ideias ou intenções (muitos empregados do sindicato são ex-representantes sindicais nos locais de trabalhos que querem ajudar os trabalhadores a se organizarem além de seus locais de trabalho), mas com seus interesses materiais. Para um trabalhador, ganhar significa conseguir um salário maior, mais tempos de descanso e benefícios melhores.  Já para um empregado do sindicato, ganhar significa conseguir um posto na mesa de negociações com a direção, e que os trabalhadores continuem pagando a taxa de filiação ao sindicato.
[...]

Uma coisa que muitos membros radicais e de esquerda dos sindicatos argumentam com frequência é “retome os sindicatos” ou, às vezes, criar novos sindicatos sem burocratas. A questão é que os sindicatos não funcionam tal como funcionam por causa dos burocratas; pelo contrário, os burocratas é que são produtos do modo como os sindicatos funcionam (ou querem funcionar) no local de trabalho.

O papel do sindicato é paradoxal: no fim, eles precisam se vender duplamente, para dois grupos com interesses opostos (os patrões e os trabalhadores).

Para se venderem a nós, eles precisam mostrar que há benefícios em ser filiado ao sindicato. Isso às vezes significa que eles podem nos ajudar a agir para forçar que a direção mantenha ou melhore nossas condições, sobretudo se eles estão buscando ganhar reconhecimento pela primeira vez em um local de trabalho.

Ao conseguir que nos filiemos, eles mostram para a direção que eles são os principais representantes da força de trabalho. Mas ao mesmo tempo, eles têm que demonstrar que são interlocutores responsáveis nas negociações.

A direção necessita saber que, uma vez alcançado o acordo, o sindicato conseguirá fazer os trabalhadores voltarem ao trabalho. De outro modo, por que a direção faria qualquer acordo com um parceiro de negociação que não pudesse honrar os acordos que negocia?

É devido a esse desejo de ser reconhecido como um parceiro de negociação que os sindicatos acabam agindo contra seus próprios filiados.  O objetivo é provar à direção da empresa que eles controlam seus filiados.  [...]

Assim, quando os sindicatos “nos traem” não é que “não estejam fazendo o seu trabalho corretamente”. Pode ser que eles estejam fazendo um lado de seu trabalho (o nosso, o de defender nossos interesses) muito mal, enquanto fazem o outro lado realmente muito bem! Afinal, eles precisam ser capazes de controlar nossas lutas para representá-las. E é por isso  que os esforços da assim chamada “esquerda revolucionária” nos passados 100 anos para “radicalizar” os sindicatos, elegendo os delegados certos e tomando resoluções “corretas”, terminaram num beco sem saída. De fato, no lugar de terem radicalizado os sindicatos, são as estruturas sindicais que desradicalizaram frequentemente os revolucionários!
[...]
Quando surgem conflitos trabalhistas, os trabalhadores não sindicalizados não se sentem capazes de fazer muito, enquanto que mesmo os que fazem greve podem se sentir como se a greve oficial fosse um ritual: a direção faz uma proposta terrível, o sindicato se diz “ultrajado” e convoca uma greve de um dia (ou de alguns dias), as negociações são reiniciadas e a greve é  suspensa, a direção volta com uma proposta ligeiramente menos terrível e os líderes sindicais declaram vitória e recomendam aos trabalhadores que a aceitem.

Porém, nem sempre as coisas acontecem assim. O que importa – quer sejamos sindicalizados ou não – é irmos além dos limites impostos pelos sindicatos oficiais e pelas restritivas leis trabalhistas. Ao invés de votar em representantes diferentes ou aprovar resoluções em bolorentas reuniões sindicais, precisamos nos organizar com nossos companheiros de trabalho, para quebrar suas regras e respeitar as nossas:

-As reuniões nos locais de trabalho devem ser abertas para todos os trabalhadores, independentemente do tipo de trabalho que façam, de qual seu sindicato (se algum) ou que tipo de contrato de trabalho eles tem.

-Precisamos respeitar os piquetes uns dos outros. Muitas vezes, os trabalhadores entram em greve para logo verem seus companheiros de outros sindicatos indo ao trabalho. Isso faz com que nossas greves se enfraqueçam, e apenas se atuamos juntos poderemos fechar nossos locais de trabalho e derrotar nossos patrões. Por exemplo, os motoristas de caminhão tanque da Shell conseguiram um aumento salarial acima da inflação em 2008 quando os motoristas de outras empresas se recusaram a romper os piquetes. No mesmo ano, os sindicatos NUT e Unison romperam os piquetes uns dos outros no setor educativo e nenhum conseguiu concessões significativas.

-Confiamos na ação direta e na força coletiva para conseguir o que queremos, quer isso seja coberto pelas leis trabalhistas ou não. Em 2008, em Brighton, os lixeiros responderam às ameaças da direção, ganhando depois de apenas dois dias de greve selvagem. Uma outra greve selvagem nesse mesmo ano confirmou sua disposição a fazer greves, com ou sem apoio de sindicatos oficiais. Assim, em 2009, quando a direção tentou reduzir seus salários em até 8000 libras (um corte de cerca de 25.000 reais por ano para cada trabalhador), eles forçaram a direção a retirar sua decisão após apenas dois de uma greve oficial que durou uma semana.

-As greves devem se difundir. Com frequência, os problemas não afetam só um local de trabalho, mas ramos inteiros e inclusive outros ramos. Nós precisamos criar comunicação entre os nossos diversos locais de trabalho para que consigamos nos apoiar mutuamente. Em 2009, quando a companhia petrolífera Total tentou demitir 51 trabalhadores, todo mundo saiu para os apoiar.  A Total respondeu demitindo 600 trabalhadores por essa ação não oficial. Porém, as greves se espalharam por toda indústria energética e, em apenas quinze dias, todo mundo conseguiu seus empregos de volta.

- A solidariedade precisa ser tão internacional como os nossos empregadores. Ao invés de culpar imigrantes de tomarem nossos empregos ou de abaixarem nossos salários, ou culpar trabalhadores estrangeiros quando as fábricas são deslocadas para outros países, nós devemos apoiar os trabalhadores migrantes e os trabalhadores em outros países que estão lutando para melhorar seus salários e suas condições de vida. Isso não apenas vai beneficiá-los diretamente, mas também significa que eles não mais poderão ser usados pelos empregadores para reduzir os salários dos trabalhadores daqui.

Essas ideias não são novas. São coisas que os trabalhadores – com ou sem sindicatos – tem feito por toda história e, quando fazem assim, eles com frequência entram em conflito não apenas com os patrões, mas também com a burocracia sindical.

CONCLUSÃO
Muitas vezes vemos os sindicatos como uma estrutura organizativa que nos dá força. E, certamente, isso é parcialmente verdade. O que nem sempre reconhecemos (ou nem sempre agimos conforme) é que a força que um sindicato nos dá é na verdade a nossa própria força canalizada através da – e portanto limitada pela – estrutura sindical.

É apenas se reconhecermos isso e tomarmos a luta em nossas mãos – ignorando as divisões dos sindicatos e não rompendo os piquetes uns dos outros, e não esperando por nosso sindicato antes de agirmos, tomando ações sem esperar autorização, tais como ocupações, operações tartaruga e sabotagem – é apenas assim que podemos de fato aproveitar nossa força e começar a vencer."

Link para o texto completo: "Sindicatos: uma introdução".


segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Bordiga versus Pannekoek - Antagonism


Traduzimos o texto Bordiga versus Pannekoek , escrito por um coletivo anônimo e publicado por Antagonism Press. O texto completo está neste link

Abaixo, alguns trechos:


"[...] Atualmente, como na maioria dos períodos históricos, somente uma pequena minoria está ativamente envolvida na oposição ao capitalismo de um modo revolucionário. Quer se definam como “movimento”, “organização”, “partido” ou até mesmo rejeitem qualquer organização formal, a questão de como uma minoria radicalizada se relaciona com o resto do proletariado é crucial.

[...] Estas questões permanecem importantes, e controversas. Elas foram abordadas por todas as tendências radicais de uma maneira ou de outra, mesmo que tangencialmente. É o caso inclusive das tendências que rejeitam o conceito de partido revolucionário. Por exemplo, muitos anarquistas de luta de classes tentam resolver o problema designando seu partido “a organização revolucionária”, presumindo que, mudando de nome, exorcizam a besta. Daí em diante, eles podem confundir sua própria organização com a organização da classe. As esquerdas comunistas italiana e alemã tratam dessas questões diretamente, mas cada uma a seu próprio modo.
[...]
A obra de Bordiga e da esquerda italiana pode ser considerada, ao menos em certa medida, como representando um dos polos de um contínuo dialético dentro do movimento comunista. O comunismo teórico e organizado baseia suas ideias e práticas no movimento real do proletariado na sua luta antagônica contra o capital. O comunismo teórico é uma tentativa de destilação das lições aprendidas na luta proletária. No entanto, há uma constante contradição nesse esforço. O estudo das lições das lutas passadas tende a uma teoria cada vez mais coerente que se manifesta como um programa baseado em princípios. Mas a adesão a esse programa necessariamente significa manter uma atitude crítica frente às lutas proletárias. Como resultado, os comunistas que se baseiam em princípios tendem a se tornar cada vez mais distantes das lutas reais dos proletários. O “bordiguismo”, em algumas de suas manifestações, como movimento fundamentado em um programa “invariante”, é um dos exemplos mais puros desse polo.

Pannekoek e a esquerda alemã/holandesa aparecem no polo oposto dessa dialética, assim como movimentos como o “autonomismo”. Essas tendências tentam manter sua teoria em contato com as últimas lutas do proletariado e com as modificações na organização do capital. Infelizmente, isso pode levar a uma constante revisão de posições políticas (ou melhor, a recusar manter qualquer posição), ou então pode levar a um obreirismo imediatista ou espontaneísta.

É necessário ultrapassar qualquer falsa oposição de programa versus espontaneidade. O comunismo é tanto a atividade autônoma [self-activity] do proletariado quanto a crítica teórica rigorosa que a exprime e prefigura."

Link para o texto completo: Bordiga versus Pannekoek - Antagonism


quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Textos sobre a situação na Venezuela

O link abaixo, do grupo Třídní Válka, contém 3 textos que examinam a situação da luta de classes na Venezuela e criticam a ideologia do "poder popular", a destruição da luta do proletariado mediante de sua canalização para a polarização intracapitalista, entre as facções esquerda e direita do capital/Estado, e interimperialista, entre Estados nacionais:

O mito da esquerda cai de maduro

- Venezuela: crise, protestos, conflito político interburguês e ameaça de guerra imperialista

- Poder popular e socialismo do século XXI: os modernos trajes da social-democracia

Já o texto abaixo, do grupo Nuevo Curso analisa como a história da  Venezuela prova quão danosa é a armadilha do nacionalismo:



segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Imprensa autônoma humanaesfera





Reunimos neste post uma série de livretos/brochuras com conteúdos deste site que podem ser impressos autonomamente por quem tiver acesso a uma impressora:


PRIVATE PROPERTY, SCARCITY AND DEMOCRACY
https://subversionpress.wordpress.com/2016/11/24/private-property-scarcity-and-democracy/
O site SUBVERSION PRESS publicou um livreto para imprimir (PDF) que contém dois textos nossos traduzidos para o inglês.

This printable zine contains two texts:



Link para o PDF: https://subversionpress.wordpress.com/2016/11/24/private-property-scarcity-and-democracy/



BROCHURA HUMANAESFERA #5:
O mecanismo atrativo: a teoria da atração apaixonada de Charles Fourier e
Extratos de L'Humanitaire, a primeira publicação comunista libertária


Humanaesfera #5Quinta brochura (livreto) com conteúdos deste site. Este número contém extratos das obras de Charles Fourier e também extratos da primeira publicação comunista libertária, o jornal L'Humanitaire
Neste link, está o PDF com a brochura, que consiste de 6 folhas A4 para serem impressas frente-e-verso (em impressoras que imprimem em frente-e-verso automaticamente, selecione "borda curta" ou "no sentido da borda menor", ou ainda "Frente e verso, orientação vertical"), dobradas e grampeadas no meio. Ela contém os textos:

Trechos de Charles Fourier sobre a teoria da atração apaixonada (1808-1858)

BROCHURA HUMANAESFERA #4:
Transformação da vida cotidiana - ética, autonomia, classe solidariedade e abundância na prática


Humanaesfera #4 (número especial sobre transformação da vida cotidiana). Quarta brochura (livreto) com conteúdos deste site.


Neste link, está o PDF com a brochura, que consiste de 6 folhas A4 para serem impressas frente-e-verso (em impressoras que imprimem em frente-e-verso automaticamente, selecione "borda curta" ou "no sentido da borda menor", ou ainda "Frente e verso, orientação vertical"), dobradas e grampeadas no meio. Ela contém os textos:

- Autonomia, espiral de violências e apelo à força (i.e. à classe dominante)
A autonomia é favorecida pelas lutas identitárias?
Contra as recompensas e punições (contra a meritocracia, contra a coerção)
Ação direta VERSUS trabalho de base
Contra a estratégia
Abolição do trabalho e a questão do circuito produtivo global no comunismo


BROCHURA HUMANAESFERA #3

https://goo.gl/FFqNfVHumanaesfera #3. Terceira brochura (livreto) com conteúdos deste site.
Neste link, está o PDF com a brochura, que consiste de 6 folhas A4 para serem impressas frente-e-verso (em impressoras que imprimem em frente-e-verso automaticamente, selecione "borda curta" ou "no sentido da borda menor", ou ainda "Frente e verso, orientação vertical"), dobradas e grampeadas no meio. Ela contém os textos:

BROCHURA HUMANAESFERA #2:
Trechos de A Humanisfera - Utopia Anárquica


https://goo.gl/umWiM6humanaesfera #2, livreto/brochura que contém trechos de "A Humanisfera - Utopia Anárquica" de Joseph Déjacque.

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Por que as greves e manifestações são hoje sistematicamente derrotadas em todo o mundo?


Reformas que atacam brutalmente os trabalhadores estão ocorrendo em todo o mundo. Como comprovado na prática no Brasil, agora na Argentina e antes na França, as greves e manifestações se mostram impotentes, são completamente domesticadas e não causam mais nenhuma surpresa para a classe dominante. As greves, porque a maioria dos trabalhadores estão no setor de serviços, afetam mais os próprios proletários que usam esses serviços do que os patrões, que, por sua vez, praticam "diversificação de investimentos", isto é, cada um investe simultaneamente em muitas outras empresas, ações, bolsa, outros países etc de modo que mal são afetados pela greve. Com isso, os proletários cada vez menos reconhecem a luta dos trabalhadores em greve como a luta deles próprios. As manifestações, por outro lado, são apenas aparência, falsas lutas, sendo totalmente controladas, contidas e neutralizadas pela polícia com sofisticados métodos de controle de multidões, pela esmagadora superioridade em armas e pela aterrorizante mobilização de mercenários (milícias, grupos de extermínio, gangues de traficantes etc). 

Diferentemente, no início do século  XX, uma proporção muito maior dos proletários, geralmente a maioria, estava no setor industrial, e suas greves afetavam diretamente os patrões e não os demais proletários, que por isso reconheciam a luta dos trabalhadores da indústria como a luta deles mesmos. Desse modo, as greves se espalhavam internacionalisticamente, ocorrendo em muitos países ao mesmo tempo, de forma que os patrões não tinham para onde fugir com seus "investimentos" (essa simultaneidade internacional da luta dos trabalhadores era o objetivo da Associação Internacional dos Trabalhadores já na segunda metade do século XIX, que deu origem à música "A Internacional"). Essa situação atingiu um ponto inescapável para os patrões, forçando-os a adotarem, entre os anos 1920 e 1930, a jornada de oito horas de trabalho simultaneamente no mundo inteiro (antes disso, a jornada geralmente era de 14 a 16 horas), assim como o direito a aposentadoria. Precisamente as coisas que estão hoje sob brutal ataque.

Porém, como explicamos no primeiro parágrafo, as condições atuais são completamente diferentes das do início do século XX. Essas condições nos indicam que a perspectiva prática descrita no texto Greve e produção livre é a única que, de fato, parece ter o potencial de permitir que os proletários (trabalhadores e desempregados) possam novamente se associar internacionalisticamente e impor ditatorialmente a satisfação das necessidades humanas contra a ditadura do dinheiro. 


Outros dois textos que são tentativas de investigar as condições que teremos que criar para essa tática dar certo são: 
Breve crítica à ideia de economia paralela anticapitalista  e 
Condições de existência universalmente interconectadas/interdependentes

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Quando as insurreições morrem - Gilles Dauvé

Traduzimos Quando as insurreições morrem, de Gilles Dauvé, texto que é uma contribuição fundamental para entender a história das revoluções e contrarrevoluções que aconteceram na primeira metade do século XX, especialmente o período de 1917 até 1937, abrangendo as insurreições do trabalhadores na Itália, na Alemanha, na Rússia e na Espanha, a relação entre a derrota dessas insurreições e o crescimento da social-democracia, da democracia, do fascismo e do nazismo e a maneira como o Estado se converte em democracia e ditadura conforme as necessidades do capital.

Link para o texto: Quando as insurreições morrem - Gilles Dauvé



sábado, 2 de setembro de 2017

Inteligência artificial, desemprego e renda básica universal: mais uma panaceia da classe proprietária



A classe proprietária - ou pelo menos seus chefados na área de alta tecnologia [1] - parece preocupada com o escoamento de suas mercadorias caso se realize a previsão de a IA (inteligência artificial) desempregar absoluta e definitivamente a humanidade [2]. Afinal, são tão pouco "imaginativos" que não está na sua previsão que as máquinas com IA sejam ao menos tão inteligentes que os capitalistas possam privá-las (como faz a nós há séculos) de suas condições de existências materiais - submentendo-as à privação de propriedade, isto é, à propriedade privada - de modo que elas também se vejam forçadas a se vender "voluntariamente" no mercado de trabalho para comprar deles os meios de sobreviver [3], escoando suas mercadorias. Fraca em imaginação, a classe proprietária busca então incumbir o problema por ela previsto (o da IA atrapalhando o escoamento de mercadorias) ao Estado, a instituição responsável pelas condições infraestruturais necessárias para a acumulação do capital. O Estado daria uma renda básica universal [4] à população para que o escoamento continue, realizando e retornando para as empresas o valor das mercadorias que foram produzidas, o que permitiria a continuidade da acumulação do capital, da produção pela produção. 

Enquanto isso, burocratas, reformistas e socialdemocratas se entusiasmam com a "pauta da renda básica universal", vista como capaz de arrebanhar "o povo", engajar "o cidadão" no espetáculo do pastoreio político (esquerda ou direita), quer dizer, vista como o esperado sonho enfim capaz de fazer a população abandonar de uma vez por todas a luta autônoma - descartando finalmente toda a "velha e obsoleta" luta de classes. 

Porém, vejamos com mais detalhes como a IA pode concretamente modificar a sociedade capitalista e como a renda básica universal pode ser implantada na prática. 

Enquanto só em algumas empresas ocorrer automatização total com IA (ou só em empresas em poucas regiões ou países), i.e., enquanto em todas as outras que concorrem com elas isso ainda não ocorreu, estas empresas concorrentes ver-se-ão inevitavelmente pressionadas, para não falirem diante do concorrente ultra-automatizado, a aumentar a taxa de exploração dos trabalhadores nelas empregados (reduzir salários e aumentar a intensidade e o tempo de trabalho), esperando que assim ainda possam vender suas mercadorias com um preço e qualidade competitivos frente aos concorrente. 

Esse "trabalho a mais" feito em todas essas empresas para ao menos continuarem existindo e não falirem é a fonte do "valor a mais" que se acumula nas empresas ultra-automatizadas com IA (que podem mesmo não empregar ninguém). Essa é a fonte do super-lucro ou lucro extraordinário que, mesmo hoje (na verdade, desde a revolução industrial no séc. XVIII), se acumula nas empresas de alta tecnologia, super-lucros que parecem magicamente cair do céu "por virtude ou mérito exclusivo de empreendedores geniais". Em suma, as empresas ultra-automatizadas só conseguirão ainda vender mercadorias com valor e ter lucros enquanto suas mercadorias comandam ou impõem a exploração intensificada dos trabalhadores no resto da sociedade (e no resto do mundo), tanto por seus concorrentes quanto a daqueles que, para comprar mercadoria deles, precisam trabalhar intensificadamente para conseguir dinheiro suficiente (p. ex., fazendo "bicos", trabalhos informais ou fazendo mais de um trabalho). 

Por essa razão material que frustra todas as boas intenções, o capital (seja ele particular ou concentrado no Estado sob a direção formal de burocratas de esquerda ou direita) pode estabelecer uma "renda básica universal" unicamente na medida em que ela sirva para manter uma massa de proletários permanentemente disponível e pronta (ou seja, que não se tornem inutilizáveis pela fome e permaneçam "educados") numa condição "ótima" para ser usada, consumida para gerar máximo lucro, e descartada a qualquer instante pelas empresas, e unicamente na medida em que essa renda básica não seja tão alta que os proletários possam se dar ao luxo de se recusar a se vender no mercado de trabalho por um baixo salário. [5]

Por outro lado, na hipótese especulativa mais ousada, a de a automatização total com IA deixar de ser monopólio de algumas empresas e se difundir de modo a ser adotada igualmente em todos os processos de trabalho de todas as empresas que ainda existirem, não só a concorrência entre elas as forçará a vender suas mercadorias a um preço idêntico aos custos, tornando o lucro impossível, como também, e isso é muito mais fundamental, graças à essa automatização total (que prescindiria de todo trabalho humano), esses capitais (e não importa se todos os capitais forem concentrados no Estado) já não terão absolutamente nenhum valor, porque as mercadorias já não poderão impor nem comandar nenhum trabalho alheio, uma vez que ele se tornou inútil para o capital. 

Os preços já não valerão absolutamente nada. Mesmo que o Estado ofereça dinheiro gratuitamente, como a "renda básica universal", ele terá que atribuir arbitrariamente valor aos preços, decretando o valor da equivalência do dinheiro que ele está dando com relação aos produtos. Arbitrariamente porque essa atribuição de valor não terá mais substância - e a substância do valor é a equivalência do trabalho alheio, baseada no tempo de trabalho socialmente necessário para produzir as mercadorias globalmente na sociedade capitalista a cada momento. A quantificação do valor atribuída por decreto a cada coisa será incessantemente frustrada, reduzida a zero, a não ser que a classe proprietária consiga descartar realmente a sociedade capitalista para instaurar uma espécie de despotismo oriental mundial... quando então usará critérios "transcendentes", místicos, religiosos (ainda que numa forma cientificista e tecnocrática, como o "valor-energia", "valor-entropia"), ritualísticos, sacros, única maneira de estabelecer a equivalência de alhos com bugalhos.

É claro que, desde que essa perda de substância do valor começasse a ocorrer devido à difusão exponencial da IA prevista nessa especulação, muito antes que pudesse acontecer a situação hipotética descrita antes (difusão da IA em todas as empresas), na ausência da irrupção do proletariado como classe histórico-mundial, a sociedade capitalista e seus Estados já teriam sofrido um colapso econômico que automática e rapidamente acarretará a reinstauração das condições arcaicas originais que o capital depende para brotar, se destacar e continuar se acumulando. A própria "mão invisível do mercado" ou a entidade denominada "destruição criadora" executaria essa espécie de "reset" histórico automático. 

Essa hipotética crise não é diferente da barbárie que já estamos vendo: uma guerra generalizada de máfias, identitarismos, fundamentalismos, neo-feudalismos, nacionalismos, etnicismos etc, em que os proletários são mantidos esmagados como classe, ocupados no trabalho assalariado da matança uns dos outros pela defesa de "suas" classes dominantes em guerra entre si. Situação que faz os aspectos mais banais da vida cotidiana (p. ex., a simples ida à padaria para comprar pão) extremamente violentos, um verdadeiro trabalho, uma atividade repulsiva e perigosa, cuja execução só será aceita por alguém desesperado e que precisa ganhar algum dinheiro para sobreviver (ou seja, proletários). Com essas novas dimensões da vida tornadas "trabalho" ("trabalhizadas"), automaticamente surgirão competições pela posse de rotas comerciais (uma espécie de nova "era das grandes navegações"), companhias, inumeráveis "empreendedores focados" em uma multidão de "oportunidades" de "novos nichos", e capitais altamente lucrativos, porque voltou a haver muita "substância do valor", para subsunção formal e depois real desse trabalho ao capital. 

Em conclusão, pode-se dizer que, com o papo furado de renda básica e IA, os empresários e burocratas - a classe proprietária  - apenas acrescentam mais um novo elemento contemplativo à sociedade do espetáculo. Partir da análise especulativa sobre o futuro da tecnologia e da sociedade capitalista leva a ver a situação atual de maneira igualmente especulativa, imaginária. A especulação sobre IA leva a enxergar a totalidade da humanidade atual de antemão como lumpens já expulsos do esfera da produção (que já se moveria sozinha, como muitos fetichistas da mercadoria, como os novos críticos críticos, imaginam que já é) e, consequentemente, incapazes de subverter a sociedade por si mesmos de baixo para cima. Dessa imaginação especulativa decorre naturalmente a defesa de que, se eles já são impotentes, reduzidos a nada, eles devem "militar", pedir e agradecer a deus que uma vanguarda de iluminados filantrópicos se proponha a usar o Estado e o capital para implementar de cima para baixo reformas caritativas. 

Em contraposição a todo esse especulativismo, buscamos partir das atuais condições concretas dos proletários [6], das potencialidades da situação atual no que se refere às capacidades e necessidades deles de se associarem e fraternizarem contra a classe proprietária por toda parte, internacionalisticamente, ou seja, de modo cosmopolita, sabotando de baixo todas as competições e guerras empresariais e bélicas em todo o mundo. Ao constituir-se como classe antagônica histórico-mundial, o objetivo da luta do proletariado é invariável: que ao invés de competirem entre si pela sujeição aos proprietários privados - não importa se particulares ou Estados - dos meios de vida e de produção dos quais depende sua sobrevivência, eles suprimam a sociedade de classes tomando as forças produtivas mundiais para colocá-las sob o poder dos indivíduos livremente associados conforme os seus desejos, paixões, pensamentos, projetos, necessidades e capacidades em escala global - abolindo o trabalho, a propriedade privada, a mercadoria, as fronteiras e o Estado. Trata-se precisamente de tornar impossível toda equivalência (valor, remuneração, preço, pagamento, mercadoria, escambo, "mérito"...) mediante a livre disposição universal (isto é, à todos) das condições práticas materiais da livre criação das singularidades, individualidades, multiplicidades livres, que assim não mais podem ser submetidas à briga incessante pela comparação, pela equivalência, que a coerção massificante da competição impunha.

humanaesfera, setembro de 2017

Notas:

[1] Relatórios sobre inteligência artificial, desemprego e UBI (renda básica universal) foram destaque no Forum Econômico Mundial, de 2016 e 2017. É claro que, como sempre, uma piedosa filantropia, dessa vez para com os futuros desempregados, é o que eles dizem preocupá-los.

[2] Como expresso nesse artigo: Deep Learning Is Going to Teach Us All the Lesson of Our Lives: Jobs Are for Machines 

[3] Nessa hipótese especulativa, a única que faz justiça com a "inteligência" na expressão "Inteligência Artificial", a sociedade capitalista continuará condenada a criar os seus próprios coveiros - ou seja, nós, o proletariado. 

[4] Também chamada Renda Básica de Cidadania, Rendimento de Cidadania, Universal Basic Income (UBI).

[5] Sobre o argumento dessa última frase, ver o texto "What is wrong with free money?" dos Gruppen Gegen Kapital und Nation (Grupos contra o capital e a nação) 

[6] Por exemplo: Notas sobre composição de classe, de Kolinko

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Trechos de "Notas sobre composição de classe" (2002), de Kolinko

Abaixo selecionamos alguns trechos de "Notas sobre composição de classe" (do grupo Kolinko). O texto integral pode ser encontrado neste link.

[A INSUFICIÊNCIA DO CONCEITO FORMAL DE LUTA DE CLASSES]

"Em geral, as várias correntes [leninismo, anarco-sindicalismo, comunismo de Conselhos etc.] criticam o "capital" somente como uma relação formal de exploração: o sobretrabalho é apropriado por mãos privadas ou pelo estado. O real processo material de exploração/trabalho é negligenciado. Essa noção formal de capital leva a uma noção formal de classe operária: uma massa de explorados que devem vender sua força de trabalho devido à sua "despossessão" dos meios de produção. Dessa noção de classe operária diferentes conclusões políticas foram extraídas: os leninistas enfatizam a necessidade de um partido político capaz de unir as massas, cuja única coerência é a semelhança formal dos não-proprietários. O partido deve dar uma direção estratégica para as lutas espontâneas dos explorados. Os comunistas de conselhos apenas observam que a massa de explorados cria suas próprias formas de organização na luta. Eles negligenciam a questão da estratégia e vêem como sua principal tarefa difundir as experiências de auto-organização entre os proletários.
[...]
A noção formal de exploração (sobretrabalho expropriado) é incapaz de revelar a potência de auto-emancipação que os proletários podem desenvolver. Enquanto "não-proprietários" dos meios de produção, sua potência não pode ser explicada. O mero fato de que todos são explorados não cria uma coerência real entre os indivíduos. A possibilidade de auto-organização deriva apenas do fato de que os proletários têm uma relação prática entre si e com o capital: eles trabalham juntos no processo de produção e são parte da divisão social do trabalho. Como produtores, além de se oporem ao capital como "trabalhadores assalariados" formais, em sua prática específica eles produzem o capital. Somente emergindo dessa relação, as lutas operárias podem desenvolver seu poder. O isolamento dos proletários, em empresas, categorias etc., não pode ser superado "artificialmente", tomando a semelhança na condição de "explorado" como fundamento para uma organização. Essa tentativa geralmente termina em outra organização sindical (dita "de base"): sempre haverá a necessidade de uma instituição exterior se a coerência dos proletários não está baseada em sua real cooperação social, mas somente na "coerência formal" do trabalho assalariado. O leninismo não compreende essa profunda razão das formas sindicais das lutas operárias. Ele encara o problema como uma mera questão de direção: a coerência externa é construída pelos sindicatos ou pelo partido comunista? A crítica ao leninismo geralmente se limita a questionar a forma dessa coerência externa: ela é "anti-democrática", não é criada pelos próprios operários etc. As críticas esquerdistas muito raramente analisam o processo de produção em termos de fundamento para a coerência da luta operária. Portanto, eles tendem a apenas seguir a espontaneidade das lutas, sem compreender ou contribuir com uma direção estratégica interna. Por que se desenvolvem correntes políticas diferentes, apesar da semelhança de suas noções de classe?"

[CRÍTICA MATERIALISTA AO LENINISMO]

"Os comunistas de conselhos e outros criticam principalmente o caráter autoritário e anti-democrático do Partido leninista. Pensamos que a crítica mais profunda ao leninismo consiste na análise de como a forma bolchevique de partido emergiu das condições materiais específicas na Rússia, no final do séc. XIX e início do séc. XX. Uma sociedade agrária com aldeias dispersas e isoladas, e alta taxa de doenças endêmicas e poucas zonas industrializadas só poderia ser unida politicamente por uma organização de massas externa. Portanto, a crítica mais profunda dos comunistas de conselhos é a de que essa espécie de organização não era útil nem apropriada para sua situação histórica: nas regiões industrializadas do Oeste Europeu durante a década de 1920. Eles perceberam que as fábricas já haviam unido os operários e que a criação dos conselhos operários durante o período revolucionário de 1918-23 foi a resposta política da classe operária. Hoje, poucas críticas ao leninismo refletem esse "núcleo material". A crítica geralmente permanece num nível político, não tocando nas raízes materiais do leninismo e outras correntes. Hoje, devemos recolocar a crítica em seu devido lugar, analisando as mudanças na organização da exploração e da luta operária. Esta é a pré-condição para o desenvolvimento de novas estratégias políticas. A noção de composição de classe pode nos ajudar nisto."

[COMPOSIÇÃO TÉCNICA DE CLASSE & COMPOSIÇÃO POLÍTICA DE CLASSE]

"Na análise da coerência entre modo de produção e luta operária, distinguimos duas noções diferentes de composição de classe:

* a "composição técnica de classe" descreve como o capital reúne a força de trabalho; ou seja, as condições no processo imediato de produção (por exemplo, a divisão do trabalho em diferentes departamentos, separação entre "administração" e produção, uso de maquinário especial) e a forma de reprodução (modo de vida, estrutura familiar etc.)

* a "composição política de classe" descreve como os operários voltam a "composição técnica" contra o capital. Eles fazem de sua coesão, como força de trabalho coletiva, o ponto de partida para sua auto-organização e usam os meios de produção como meios de luta. Ainda estamos discutindo qual ponto particular, no processo de luta dos proletários, pode ser descrito em termos de "composição política de classe". 
[...]

Alguns exemplos de como as específicas condições de produção influenciam o conteúdo político da luta operária - e sua relação com o capital como um modo de produção:

Relação com a forma-salário:

No capitalismo, a relação assalariada, aparecendo como "a troca individual de dinheiro por trabalho", oculta o fato de que o capital explora a força de trabalho coletiva dos proletários. Um operário que é assalariado com uma centena de outros, que devem fazer o mesmo trabalho, está mais apto para observar que os "contratos individuais" são uma farsa do que, por exemplo, um artesão que "possui" habilidades especiais e portanto "trabalho para vender" especial.

Relação com o trabalho:

O trabalho no capitalismo é abstrato. As tarefas específicas que realizamos não são importantes, mas o fato de que o trabalho acrescenta mais-valia ao produto é. Um trabalhador que deve fazer um trabalho "não qualificado" junto com outros terá uma relação com o trabalho diferente da do trabalhador especializado. O primeiro realmente experimentará o trabalho como abstrato e será menos propenso a glorificá-lo e a se organizar dentro dos limites de sua profissão.

Relação com outros proletários:

Uma noção formal de classe não vai muito longe. Isso se revela quando vemos a composição da força de trabalho no chão da fábrica. Poderíamos afirmar que o capataz, o chefe de equipe e o gerente são também "trabalhadores assalariados" e portanto explorados, mas quase toda luta deve se impor contra esses "patrõezinhos". A divisão (hierárquica) do trabalho no processo de produção social é o fundamento para as divisões sexistas e racistas dentro da classe operária. Assim, por um lado, o capital divide os proletários, mas por outro, ele une proletários de todas as cores de pele, gênero, nacionalidade etc., no processo de produção. Se as divisões entre os operários são questionadas ou fortalecidas é geralmente decidido na luta. Fábricas, setores específicos etc. com uma composição "colorida" são especialmente decisivos nesse processo.

Relação com os meios de produção:

O capital é o processo e o resultado de um modo de produção no qual o trabalho morto (máquinas, trabalho materializado) domina a força de trabalho viva. Um operário que deve obedecer o rítmo das máquinas e observa que, apesar do progresso tecnológico, sua situação não melhora, está mais propenso a atacar o capital como um modo de produção antagônico. Os que atuam num processo de trabalho artesanal, e que são ainda "senhores" de suas ferramentas, serão mais propensos a ver o "patrão" como o símbolo da exploração.

Relação com o produto

Os proletários nas esferas da produção em massa compreendem que a qualidade dos produtos tem um papel secundário e que o importante é a quantidade. Geralmente, não conhecemos o valor de uso do produto, porque só vemos uma parte do processo de produção e num estágio em que o produto ainda não tem valor de uso. Muitos proletários não trabalham com um produto material, mas sob condições industriais semelhantes para realizar "serviços". Devemos discutir como essa "imaterialidade" dos produtos repercute na luta dos operários.

Fica em aberto para nós a questão de como as lutas dos "artesãos", trabalhadores rurais e outros proletários que não trabalham sob condições "industriais" podem desenvolver um caráter anticapitalista. É uma questão decisiva a de como essas lutas podem se unir com as lutas do "proletariado industrial", apesar das diferentes condições e sem uma mediação externa (como o assim chamado movimento "Anti-Globalização", "Ação Global dos Povos", os "Zapatistas" e outras organizações que pretendem ligar diferentes "movimentos sociais")."

[A QUESTÃO DA DIVISÃO HIERÁRQUICA DOS TRABALHADORES EM CORES DE PELE, GÊNERO, NACIONALIDADE...]

"No processo social de produção, o capitalismo cria e conecta desenvolvimento e subdesenvolvimento como uma reação à contradição de classe, que explica o caráter dinâmico do sistema. Nas fábricas hi-tech existem departamentos de diferentes níveis "tecnológicos". Essas fábricas são conectadas a fornecedores de diferentes padrões de desenvolvimento, até os de trabalho intensivo (sweat-shops) no "terceiro mundo". Os diferentes níveis de desenvolvimento são o fundamento material para as divisões e a desigualdade da luta de classes. As lutas operárias que podem se generalizar ao longo das linhas de "desenvolvimento desigual" levam as condições de produção a se tornarem similares. As lutas dos operários nas fábricas de automóveis nos anos 60-80 tiveram como resultado que as condições nas fábricas principais se tornaram similares em todo mundo, incluindo antigas "zonas de subdesenvolvimento" (México, Brasil etc.): no nível de tecnologia e também para os proletários (relação similar entre salário e produto). O capital reage à "composição política de classe" (generalização da luta de classes) com uma "recomposição técnica", com a reprodução do desenvolvimento desigual em um nível mais alto: as regiões são "desindustrializadas"; em outras, o capital faz um grande avanço tecnológico; velhas fábricas "centrais" são divididas em diferentes unidades de uma cadeia de produção; a produção é "globalizada" etc. O capital cria novos centros de desenvolvimento que podem se tornar novos pontos de generalização dos futuros movimentos da classe operária. Dessa forma, a coerência interna dos movimentos proletários vindouros é antecipada. Sua estratégia não surge separada nas cabeças dos revolucionários, mas reside no processo de desenvolvimento material (de divisão do trabalho, maquinário etc.) enquanto tal."

[A FUNÇÃO ESPECÍFICA DOS REVOLUCIONÁRIOS]

"A função específica dos revolucionários não pode ser explicada por uma "consciência política" que a luta de classes não alcançaria por si mesma. Ela só pode ser derivada de uma visão e interpretação geral das coisas que acontecem. O poder, as possibilidades de auto-organização, de expansão e generalização são colocados pelas condições de produção. A tarefa dos revolucionários é mostrar a coerência entre as condições materiais e práticas e a perspectiva das lutas. O movimento da classe ocorrerá na rede de desenvolvimento e subdesenvolvimento. Portanto, devemos mostrar a conexão das diferentes partes dessa rede e as razões políticas da desigualdade. A análise do fundamento material das lutas operárias também determina onde devemos intervir.[...] "

Link para o texto completo:  Notas sobre composição de classe - Kolinko

Outro texto sobre composição de classe:

Definição de composição de classe - Zerowork

A rede de lutas na Itália - Romano Alquati

A logística e a fábrica sem muros - Brian Ashton