quarta-feira, 18 de julho de 2018

A internet: uma história de invocação, borbulhamento explosivo e subsunção ao capital


Internet: forma que sifonou inicialmente a proliferação de uma matéria bruta, selvagem, que levou dezenas de anos para ser domada, subsumida realmente ao capital. 

1. FORMA INCAPAZ DE PARAR A IRRUPÇÃO DE CONTEÚDO SOCIAL INDOMESTICÁCEL (MAS CONTENDO-O EM SEUS LIMITES)

O aparecimento público inicial da internet (anos 1990, com a World Wide Web [1]) gerou circunstâncias sociais inéditas que o capital, por dezenas de anos, foi incapaz de subsumir realmente à forma-mercadoria e à forma-capital. Por cerca de 20 anos, a pirataria (de software, conhecimento e arte) foi irreprimível e generalizada, havia milhares de meios (fóruns de debates, sites de assuntos específicos...) onde era possível a qualquer um, geralmente com pseudônimos, se apropriar, desenvolver, criar e compartilhar gratuitamente todo tipo de conhecimento e arte diretamente com qualquer ser humano na face da terra que os buscasse na internet. Um dos aspectos disso foi a poderosa comunidade de software livre que muitas vezes ditava o andamento da internet e dos softwares contra as empresas, contra a mercantilização e contra o Estado.


A infraestrutura física da internet inicial foi uma forma material criada e engordada com o afluxo de capitais de todo o mundo numa busca enlouquecida de oportunidades promissoras de acumulação. O efeito colateral foi criar condições técnicas selvagens, que deram base, ao menos no plano intelectual e artístico, à uma proliferação de conteúdo social livre, em que na prática afirmava-se sem conversa fiada o princípio: "de cada um segundo suas capacidades, para cada um segundo suas necessidades". 


Frente a esse conteúdo social, a propriedade privada (e portanto a extração de mais-valia) era não só inadequada, mas impraticável. Isso significa que havia subsunção formal ao capital (infraestrutura física era propriedade privada e, portando, era preciso pagar pelo acesso) mas ainda não havia subsunção real (o conteúdo social que emergia nessa estrutura física estava fora do alcance do capital) As empresas tentavam o tempo todo, mas sempre fracassando, realizar a subsunção real do conteúdo. Um exemplo clássico dessa época foi a empresa provedora de acesso AOL, com seu "walled garden", primeira tentativa, totalmente derrotada, de aprisionamento de internautas em "bolhas" que os isolam do acesso direto aos conteúdos disponibilizados universalmente na internet.  Incapaz de capturar os internautas em "bolhas" (enclosures ou cercamentos digitais) para extrair lucro, aquele imenso afluxo de capitais de todo mundo tornou a própria internet um imensa bolha financeira que estouraria nos anos 2000 (a famosa "bolha da internet" ou "bolha ponto com").

É claro que toda aquela efervescência "online" era totalmente insuficiente para ultrapassar e abolir a sociedade capitalista, já que isso depende da luta do proletariado, que ainda estava sofrendo todas as consequências da derrota da onda mundial de 1968. A propriedade privada no plano "físico" das condições sociais de vida (inclusive da própria forma da internet, os meios físicos de conexão, telecomunicações...) continuava intacta, "offline". Apesar disso, emergiram cativantes relações sociais que, embora extremamente marginais (já que apenas uma proporção ainda muito pequena da população mundial tinha acesso), não eram subsumidas ao capital em seu conteúdo. 

Independentemente de todas as ilusões ideológicas de então (que não foram poucas), assumia-se como óbvia, evidente, a perspectiva factível e desejante de uma sociedade global inteira que funcionasse com os mesmos princípios da world wide web: que tivesse abolido, não só intelectual e artisticamente, mas "fisicamente" a propriedade privada, a mercadoria, o capital, as fronteiras e o Estado. [2] Muitos supunham que isso ocorreria automaticamente, assim que a separação entre os mundos "online" e "offline" acabasse. [3] 

2. INVOCAÇÃO DE FORÇAS CRIATIVAS INCONTROLÁVEIS 


Toda essa efervescência indomesticada que se desencadeou naquele momento era alvo de muitas críticas. Dizia-se que não passava de fetichismo da tecnologia, ou mera ilusão de libertação "virtual" que nada tem a ver com a luta na verdadeira realidade "offline". Segundo eles, tudo não passaria de fuga da realidade "crua e indigesta", realidade cuja essência seria o sacrifício, a dor e a morte, e em que o "valor real" se mediria pela autonegação, pelo desgosto heroicamente suportado com esperança.

Na realidade, a luta de classes - o movimento de associação direta e universal dos proletários do mundo que afirmam seus desejos, desenvolvem suas capacidades e lutam pela satisfação de suas necessidades contra o capital, contra a propriedade privada e o Estado - historicamente jamais ocorre sobre um pano de fundo vazio e muito menos fúnebre, nem ocorre como mera afirmação voluntarista de pessoas ou coletividades esperançosas frente a uma suposta "realidade brutal". 

Pelo contrário, a luta ocorre sempre pelas forças produtivas da espécie humana, as quais consistem precisamente nas necessidades e faculdades dos seres humanos que se produzem e se desenvolvem como fins em si e não como meios para fins alheios. É isso que coloca periodicamente em risco a produção e reprodução do capital, que, contudo, não pode se expandir sem invocar precisamente essas forças. Mas as invoca apenas para separá-las violentamente com a cunha policial-penal que é a propriedade privada: de um lado, para controlar e formatar essas necessidades (submetendo-as a uma contínua escassez, única maneira de vender continuamente mercadorias) e, de outro, para explorar e extrair mais-valia dessas capacidades (a contínua escassez requer que se consiga dinheiro continuamente para comprar, impondo a cada um a competição por vender também continuamente as capacidades humanas - isto é, a si mesmo - ao capital no mercado de trabalho; a seguir, são submetidas a ameaças de punições e recompensas, para que se trabalhe ao máximo, criando produtos que serão vendidos para realizar a mais-valia e reproduzir ampliadamente o capital). 

Em suma, desde a revolução industrial (século XVIII), a expansão do capital não pode ocorrer sem invocar a irrupção de forças produtivas, isto é, capacidades e necessidades humanas, que fogem periodicamente ao seu controle e ameaçam transbordar os limites, aboli-lo e ultrapassá-lo. O capital então luta contra elas, para contê-las e transformá-las em forças destrutivas, mortíferas, que negam, embotam, diminuem, vampirizam e empobrecem as faculdades e necessidades da espécie humana. No entanto, o capital não é nada mais do que essas mesmas capacidades e necessidades  (as próprias forças produtivas) que se voltam contra si mesmas (acidentalmente) ao comporem um mecanismo (trabalho morto, o capital) que se reproduz cumulativamente como se fosse uma força de fato automovente, automática, uma força espontânea, irresistível como um fenômeno natural. Eis o pano de fundo da luta de classes. [4]

3. CONVERSÃO DAS FORÇAS PRODUTIVAS EM DESTRUTIVAS: A REDE REACIONÁRIA

Tudo indica que, hoje, a internet foi finalmente convertida de força produtiva em força destrutiva. Nos últimos dez anos, tornou-se claro que quase toda criação de conteúdo social que a internet havia dado passagem foi enfim subsumida realmente ao capital. 

A internet livre e universalista (pirataria sem peias, fóruns, websites, comunidades de software livre, etc.) foi brutalmente esvaziada e abandonada, com os antigos participantes sendo sugados em massa pelo moinho de propriedades privadas que, como as "redes sociais" (ou "mídias sociais"), escasseiam o conteúdo coletivamente produzido processando-o com algorítimos e restringindo-o a espaços virtuais privados, familistas ou mesmo neofeudais (isto é, as chamadas "bolhas"). 

Tudo leva a crer que ocorreu uma captura em massa em uma armadilha pavloviana [5], que, em troca de estímulos-respostas viciantes que ocupam todo o tempo, impõe constante exposição à propaganda e a necessidade de pagar dinheiro se se quiser que algum conteúdo criado se torne acessível momentaneamente a domínios feudais um pouco mais largos. Uma hipótese é que a captura nessa armadilha pavloviana teria atingido uma massa crítica em que, a partir de certo ponto, qualquer pessoa que estivesse fora dela se torna incomunicável, excluído da vida social e até do mercado de trabalho, obrigando assim até os mais recalcitrantes a aceitar ser capturados. 


As "redes sociais" são literalmente redes de reações. São profundamente reacionárias na sua estrutura essencial. A tal ponto que qualquer conteúdo que cai ali é imediatamente desprovido de todo aspecto universalista, racional, todo aspecto de tentativa de contribuição para a humanidade, e é obrigatoriamente arrastado e convertido em mais um dos infinitos entulhos descartáveis pessoais que competem por um interminável "agora" que uma massa infantilizada, ou até animalizada, responde pavlovianamente com reações emocionais. Nessas condições, a memória, a razão e a história são impraticáveis e nem existem mais, e tudo passa a ser reduzido à última polarização emocional sobre este ou aquele assunto "urgente" em moda. Nas redes sociais não restou nada da riqueza das expressões humanas; a única expressão permitida é a propaganda ininterrupta, de si mesmo, de produtos ou de empresas.

No período imediatamente anterior a essa catástrofe, a luta pelo conteúdo livre e aberto na internet até parecia inacreditavelmente vitoriosa, aparentemente pautando contra as empresas quase todas as grandes inovações da internet [6]. Como vimos, diferentemente da propriedade privada, a internet era composta por circunstâncias em que a liberdade de cada um não compete e, portanto, não priva a liberdade dos outros, mas, pelo contrário, potencia a liberdade, a autonomia (isto é, as capacidades e necessidades) de todos, na extensão da espécie humana. Assim, por exemplo, cada pessoa que contribuía com conhecimentos, informações, etc. sobre determinado assunto, compunha com o conhecimento de todos os outros interessados do mundo um conhecimento muito mais rico e profundo, acessível universalmente, ou pelo menos a qualquer um no mundo com acesso à internet. Essa era uma característica dela desde o seu início nos anos 1990. 

Porém, por volta de 2006-2010, deram a isso o nome de "economia do compartilhamento", "economia colaborativa". A partir desse momento, estranhamente, esses nomes apareceram por toda parte: empresas, governos, propagandas de qualquer produto, livros de auto-ajuda. Os mais críticos ficaram desconfiados, mas muita gente ingênua foi seduzida pelo pensamento de que o "modelo anarquista comunista" da internet estava se provando tão superior que as empresas e governos estavam aderindo a ele, o que mudaria o mundo num sentido cooperativo, contrário à competição ou até pós-capitalista. 

Subitamente, muitos perceberam, tarde demais, que as "economias colaborativas" que estavam em moda, e que estava-se usando em massa, eram na realidade empresas, propriedades privadas (como o youtube, google, facebook, twitter, etc.). 


O que tinha acontecido foi que inúmeras empresas com áureas visionárias e utópicas (praticamente todas usando sotwares livres e tecnologias open source [7] [8]), e que escondiam ser indústrias capitalistas, conseguiram capturar e induzir cada vez mais internautas a gerarem conteúdo para aumentar as propriedades privadas delas. Eles não se deram conta de que não mais estavam contribuindo para a comunidade livre na internet. Esta comunidade já tinha sido então esvaziada e substituída por essas propriedades privadas, cujo capital fixo são algorítimos que comandam as condições e as relações em que os usuários se encontram e acessam o restante da internet. 

Daí em diante, capturada nessa armadilha pavloviana da propriedade privada, toda contribuição voluntária não mais potencializa a autonomia de si mesmo e dos outros, mas, pelo contrário, apenas contribui para acumular mais propriedade privada, mais dependência, mais escassez, mais sujeição à classe proprietária. 

E foi assim que o capital, após décadas, encontrou enfim a fórmula para converter a internet em força destrutiva. Destrutiva, pois que nega, embota e empobrece as faculdades e necessidades da espécie humana,  vampirizadas pelo trabalho morto, pelo capital. 

A partir desse momento, com a internet tendo sido finalmente domesticada, a barreira antes firmemente mantida entre "offline" e "online" foi suspensa quase que imediatamente, e o "real" e o "virtual" se tornam cada vez mais indistinguíveis. 

4. EMPACOTAMENTO NA FORMA-MERCADORIA E SUBSUNÇÃO REAL DA PRODUÇÃO DO CONTEÚDO AO CAPITAL


Uma das características mais básicas da informática é a cópia exata da informação a custo praticamente zero. [9] Antes mesmo da internet, desde o surgimento dos computadores digitais, especialmente dos PCs (personal computers), já havia redes incrivelmente extensas cujo meio de comunicação se constituía na cópia manual, em fitas magnéticas ou disquetes, de dados (programas, arquivos, de livros, imagens, códigos de programação etc piratas ou gratuitos) entre usuários de computador de todo o mundo. A internet, a world wide web, nada mais é do que essa mesma rede de cópia de dados que se torna automática e praticamente instantânea, mediante estações repetidoras de telecomunicações - isto é, copiadoras de dados automáticas - abrangendo o mundo inteiro com fibras óticas, cabos e rádio. 

A cópia e difusão de informações se torna então uma comunidade universal onde a cópia é disponibilizada de qualquer um para todos e vice-versa. Ela ocorre quase em tempo real, podendo incluir por exemplo uma multiplicidade de relatos dos eventos ou os mais diversos conhecimentos práticos (p.ex, como consertar coisas, ou mesmo construí-las) e teóricos.  A multiplicidade de relatos que era acessível igualitariamente a todos que os buscassem, a variedade de pontos de vista sobre um certo acontecimento e assunto, permitia a cada um formar uma ideia bastante objetiva deles e dos eventos que afetavam sua vida. 

Assim, a transmissão digital de informações ignora o fundamento da propriedade privada, a escassez, porque a transmissão digital em si é cópia, palavra que, não por acaso, se originou do latim copia, "abundância, profusão, fartura, plenitude" (formado de co-, "junto, com, em comum" + ops [genitivo: opis], "poder, riqueza, força, recursos"). 

Mas isso é absolutamente intolerável em uma sociedade que se baseia na compra e na venda constante, e que portanto necessita que todos se esforcem incansavelmente pela imposição contínua da escassez, a propriedade privada, como condição absoluta da sobrevivência na competição generalizada. 

O capital precisava desesperadamente criar então uma interface ou camada artificial sobre a rede física universal de cópias livres que fosse capaz de tornar escassa toda e qualquer informação, fazê-la difícil de acessar. Era necessário injetar artificialmente na internet como um todo um ruído ensurdecedor e constante, um muro de entropia frente ao qual a informação se destaca como algo separado, raro, valorizado, privado, vendável. Afinal, só aquilo que é monopolizável tem um preço, é propriedade privada, mercadoria, isto é, tem o poder de impor o pagamento (e, consequentemente, o trabalho) como condição ao seu acesso, sob proteção e garantia da polícia, dos tribunais, do Estado. 

Por fim, esse escasseamento generalizado da informação aconteceu, principalmente pelo esvaziamento da internet ocasionado pelas "redes sociais", que descrevemos atrás. A internet esvaziada é uma terra de ninguém, um deserto ocupado por milhares de falsos sites criados ininterruptamente em escala industrial (provavelmente por algorítimos, robôs) que apenas apresentam propagandas e mais propagandas, informações fraudulentas ou incompletas, links enganosos, golpes, armadilhas para tomar dinheiro dos internautas, capturar informações para serem vendidas, usar o processador deles para fins ocultos, instalar malwares, virus etc. 

A partir desse momento, cada internauta, imerso nas bolhas algoritmicamente forjadas das redes sociais (crendo-se até mesmo protegido por elas), está perpetuamente submetido a uma escassez abrangente de informações, artificialmente lançado num vasto lamaçal de entropia frenética, numa avalanche entorpecedora de informações de extremamente baixa qualidade, inúteis, manipulativas e falsas. Nas bolhas, cada internauta se torna, ele próprio, injetor, repetidor e difusor robótico de ruído para todos os outros, independentemente de sua vontade. Nessa circunstância, torna-se finalmente possível impor a cobrança por informações (conhecimentos práticos, teóricos, arte, programas etc) que prometem se destacar dessa enxurrada diarreica de ruído artificial que cerca cada internauta.

A subsunção real da sociedade ao capital alcança profundidades antes inalcançáveis. As "redes sociais" conseguiram subsumir a própria subjetividade humana à forma-capital, no sentido de que a produção pela produção (trabalho abstrato), produção como um fim em si cego, se tornou imperativa na subjetividade (na "dialética do reconhecimento" enquanto tal, para falar em termos hegelianos). As "redes sociais" são condições sociais tecnicamente projetadas em cada detalhe por empresas para que os participantes apenas "existam" uns para os outros (e consequentemente, para si mesmos) se eles produzirem conteúdo por produzir, freneticamente, em um presente perpétuo cada vez mais acelerado. Eles se tornam viciados em contemplar a tela sem parar esperando novas oportunidades de reagir e produzir mais conteúdo, mais ruído. Produção que a propriedade privada enquadra de antemão (já que antes reduz os participantes, que no período anterior da internet usavam em regra pseudônimos, a pessoas identificadas "reais", certificadas pela propriedade privada, isto é, pelo Estado, pela polícia, e classificadas em perfis bio-sócio-psicométricos) para submetê-la a seguir à forma-mercadoria, vendê-la e lucrar.

5. PESSOALIZAÇÃO, TEMPORALIDADE ANIMALIZADA, VIGILÂNCIA, FRUSTRAÇÃO, MEDO, ÓDIO, TROLLIFERAÇÃO EM MASSA

Como dissemos, no período inicial da internet, o uso de pseudônimos era a regra. Isso tinha o efeito de os assuntos serem buscados, debatidos, criados, desenvolvidos e desfrutados nunca primariamente pelo aspecto pessoal, familista, feudal, ao contrário de hoje. Os pseudônimos se contactavam, se comunicavam e se relacionavam em razão dos interesses, curiosidades e paixões humanas e não em função do vazio de uma "identidade" a ser incessantemente afirmada na competição pelo presente perpétuo de uma "linha do tempo", avalanche entrópica esmagadora. 

Essa condição simultaneamente universalista e singular (mas não pessoal) em que cada internauta se encontrava e que constituía a internet inicial também carregava uma percepção do tempo e do espaço que era histórica-mundial: quando algum pseudônimo contribuía publicando na internet, tinha-se a perspectiva de que isso ficará acessível à toda humanidade e que estará disponível para sempre no futuro, para as gerações futuras. Portanto, as paixões pelas quais os pseudônimos se relacionavam eram expressas como paixão por contribuir para a humanidade e ao futuro da espécie, com  elaboradas obras primas que não deveriam ser corroídas pelo tempo e nem por fronteiras no espaço (havia milhares de websites assim, admiráveis, mas hoje abandonados ou, na maioria, desaparecidos). 

É exatamente o contrário de hoje, em que todos se encontram numa condição em que já sabem que o que quer que contribuam só vale para agora, para familiares, "amigos" e "amigos dos amigos" reagirem, ou então para "viralizar" na massa morfa, desaparecendo da visão de qualquer público e rejeitado como algo obsoleto no momento seguinte. Isso acarreta que cada um, quando publica algo, já tem de antemão a percepção de que é inútil, e um cansaço que não vale a pena, tentar elaborar e publicar qualquer coisa que vá além desse tempo do "agora", esse espaço feudal de "amigos e familiares" e da busca emburrecedora de "viralização". 

E também a maioria das atividades livres na internet (principalmente a pirataria) era perseguida pelo Estado na vida "offline", daí que o uso de pseudônimos era uma necessidade vital (os métodos de identificação na internet pelo Estado e pelas empresas ainda eram primitivos, ou senão pouco usados). É claro que havia "trolls" (gente que descarregava suas frustrações causando confusões nos fóruns), mas eles não eram nenhuma ameaça real, porque ninguém era louco de se expor na internet com seu próprio nome, foto e endereço. 

Hoje é o contrário, praticamente todos aceitaram se expor aos trolls, psicopatas, máfias, polícia, patrões e empresas, e se veem forçados a se exporem se não quiserem ser rejeitados da  vida social.  No mínimo, vivem num estado de medo constante de ver sua imagem destruída (na sociedade do espetáculo, isso é tudo que se tem), o que, numa situação personalista, acelerada, sem tempo, que só permite reações emotivas, obriga todos, constantemente frustrados, a se tornarem igualmente trolls.  [10]

6. SUBSUNÇÃO DAS ENGRENAGENS QUE COMPÕEM A MENTE: MEMÓRIA, PENSAMENTO, VOLIÇÃO, APETITE

Não apenas a relação social dos conhecimentos, capacidades e afetos de cada pessoa com os outros, mas também a relação de cada pessoa com as ideias, afetos, conhecimentos e capacidades dentro dela mesma está cada vez mais sendo subsumida realmente ao capital. Ao externalizarem nas redes sociais seus conhecimentos, faculdades e sentimentos, estes se tornam, em poucos instantes, desinteressantes, obsoletos e descartáveis. Não existe mais tempo nem espaço para desenvolver profundamente qualquer ideia, conhecimento ou capacidade para si mesmo, até porque não há mais tempo nem espaço em que elas possam ser expressas para serem desfrutadas e confirmadas (ou não) como potência humana objetiva, social. 

Sócrates criticava a escrita porque ela externaliza a memória humana em objetos, o que faria as pessoas não mais se preocuparem em lembrar, se tornando cada vez mais esquecidas e cada vez menos autônomas. Talvez ele tenha exagerado, mas é uma descrição exata do que estamos vendo hoje: a memória de cada um é cada vez mais externalizada, abandonada, para ser apropriada por empresas, que tornam escasso, opaco e difícil o acesso à forma original em que foi externalizada, de modo que se torna mercadoria ao ser devolvida facilitada, "mastigada" por algorítimos, manipulada e formatada pra criar dependência frente às empresas. Trata-se de um modus operandi diametralmente oposto ao da comunidade livre da internet anterior, cuja riqueza consistia unicamente no aumento da autonomia, das capacidades de quem dela participava, que se tornavam mais potentes com as histórias e a memórias que cada uma trazia.

Essa operacionalização algorítmica da mente para a propriedade privada pode ser vista nas interfaces homem-máquina atuais, que se tornam cada vez mais bestializantes, destituídas de toda a ampla possibilidade de configuração e modificação que elas tinham anteriormente (até os softwares mais simples dos anos 1990 pareciam complexos painéis de naves espaciais). As interfaces atuais (de sistemas operacionais, aplicativos, programas, máquinas e até de indústrias inteiras etc) em geral não passam de grandes botões coloridos no estilo jardim-de-infância, com todas as diversas possibilidades bloqueadas, inacessíveis ou ocultadas. 

Agora, as empresas vendem uma suposta facilitação máxima que supostamente poupa o máximo de tempo (que "é dinheiro", o tempo abstrato do capital), sendo isso possível graças aos algorítimos das empresas que vigiam invisivelmente as ações, a vida de cada pessoa e analisam seu perfil bio-sócio-psicométrico para apresentar a ela, na interface homem-máquina, os objetos de livre escolha que ela supostamente já quer escolher. [11] Como vimos anteriormente no cap. 4, essa "facilitação" só foi possível devido à enxurrada de ruído injetado artificialmente na internet (E assim, o programa torrent, de onde se baixava filmes, programas e músicas gratuitamente, foi esvaziado, e propriedades privadas especializadas em streaming cujos algorítimos "facilitam tudo" - desde que se pague- , como netflix e spotfy, tomaram esmagadoramente seu lugar).

7. TRABALHIZAÇÃO DA EXISTÊNCIA

Uma interface homem-máquina em especial eleva quase ao absoluto o poder das empresas sobre a existência humana. Com a popularização dos smartphones, computadores miniaturizados conectados à internet, com telefone e diversos sensores (câmeras fotográficas, filmadoras, microfones,  geolocalização, acelerômetro, giroscópio, de proximidade, magnetrômetro, luxímetro, termômetro...), onipresentes e tornados compulsórios para quem não quiser se ver excluído do contato social, cada pessoa passou a ser monitorada em praticamente todos os aspectos da sua vida 24 horas por dia pelos algorítimos da propriedade privada. 

Os dados coletados pelas empresas permitem implementar, através dos mesmos smartphones, uma subsunção da sociedade ao capital que abrange os menores detalhes da vida cotidiana, do trabalho e do consumo, que cada vez menos se distinguem, tudo se tornando de uma maneira ou de outra alguma forma de trabalho, "agregação de valor". Até mesmo inconscientemente, pelo desenvolvimento e aplicação de técnicas de gamificação, isto é, projetar as condições de todo e qualquer tipo de atividade para que pareçam um joguinho, manipulando pavlovianamente o usuário para que cumpra de graça tarefas sob o comando da classe capitalista, proprietária dessas condições. 

Com toda uma ideologia milenarista e utópica, as empresas da "economia colaborativa", como a Uber, anunciam oferecer o toque de midas que transforma em capital os objetos de consumo dos proletários (casa, carro, ferramentas, móveis, eletrodomésticos, brinquedos, etc., que não passam de custos - se consomem, ou seja, se desgastam a cada dia, a cada uso), assim como o corpo e a mente deles, isto é, anunciam a transubstanciação dos proletários em capitalistas, tornados finalmente livres do trabalho assalariado e donos de seu próprio tempo. [12]

Na realidade, com toda essa retórica futurista pós-industrial, o capital meramente ressuscitou, com altíssima tecnologia, a mais arcaica forma de subsunção do trabalho ao capital industrial: o "putting-out system", inclusive com a tétrica figura do "atravessador". A diferença é que, agora, o atravessador (a classe proprietária), graças a seus algorítimos "frictionless" que pela internet analisam e comparam o desempenho de todos com cada um e cada um com todos, numa extensão que envolve o planeta inteiro, consegue cada vez mais impor aos proletários uma competição global continuamente otimizada por oferecerem o máximo de trabalho em troca do mínimo de salário. A única coisa que separa esse máximo de exploração de ser absoluto é o tempo do sono e de alimentação (embora frequentemente interrompidos pelos patrões, graças aos tais smartphones). Comer e dormir são necessidades ainda incontornáveis dos proletários de todo o mundo. São a última fronteira da exploração, inaceitável, intolerável, inconcebível para o sistema da propriedade privada. [13]

Além disso, a produção, transporte e distribuição de todas as mercadorias se tornou inseparável da internet. Nas supply chains, também chamadas de cadeias de suprimentos ou redes logísticas, o aumento ou diminuição da procura das mercadorias comanda diretamente (sem humanos, com algorítimos), através da transmissão de informações pela internet, o acionamento automático das várias fases da produção, da montagem, do estoque e fluxo (marítimo, rodoviário, ferroviário, aéreo) das mercadorias por todo mundo. Muitas vezes os sinais transmitidos acionam diretamente as máquinas, robôs, esteiras, a movimentação de contêineres de e aos navios, e a contratação e mobilização dos trabalhadores dispersos e fragmentados por todo o planeta, todos os quais são conectados por essas cadeias logísticas, propriedade privada de gigantescos "atravessadores" invisíveis. [14] 

Os proletários de todo o mundo nunca estiveram tão próximos, mas eles são cada vez mais colocados numa situação em que não veem diretamente que estão trabalhando para o capital, para os patrões, para a classe proprietária. Tudo lhes faz parecer que trabalham imediatamente para si mesmos e contra os outros proletários competidores (o renascimento, hoje, do provincianismo, racismo, xenofobia, nacionalismo, identitarismo de esquerda e direita, separatismo, militarismo, fascismo... que para muitos é um mistério insondável, não passa de expressão banal do intensidade extrema da competição pela sobrevivência entre os trabalhadores, a competição pelo "mérito" da submissão exclusiva às "suas" classes proprietárias). Pensam estarem apenas ganhando dinheiro em troca de satisfazer as demandas automáticas do mercado mundial que são sinalizadas nas interfaces homem-máquinas que os rodeiam. [15] [16]

8. TRANSFUSÃO DAS FORÇAS DESTRUTIVAS NOS POROS DO MUNDO FÍSICO - EMBUTIMENTO DA PROPRIEDADE PRIVADA NA "NATUREZA DAS COISAS": A UTOPIA SUPREMA DO CAPITAL (FELIZMENTE AINDA IRREALIZÁVEL)

A dominação do capital, antes de tudo e desde sempre, é o embutimento artificial da escassez na natureza objetiva. É a natureza transformada pelo trabalho alienado dos seres humanos em um poder separado deles, a propriedade privada. A população se torna privada de suas condições de existência materiais, e, consequentemente, todos, democraticamente, se vem forçados a comprar e, para isso, forçados a vender mercadorias voluntariamente, se quiserem sobreviver.

Nas sociedades pré-capitalistas, na servidão e na escravidão, a dominação era pessoal, diretamente de homens sobre outros homens, a vontade pessoal de uns sendo imposta diretamente à dos outros, negando-a. Diferentemente, o aspecto mais básico da sociedade capitalista é que ela transforma a dominação e exploração do homem pelo homem em algo que é voluntário, manifestação do livre arbítrio de cada um. Isso porque ela se dá numa condição coercitiva objetiva, a privação de propriedade, que impõe objetivamente, ou seja, de modo "neutro" ("democrático", "impessoal", "razoável", "justo", "natural") a necessidade de competir pela submissão à propriedade privada, à classe capitalista, para ganhar um salário e sobreviver. 

Visto que cada proletário, porque é privado de meios de produção, não tem nenhuma coisa para vender, ele, se quiser sobreviver (socialmente e fisicamente), só tem a opção de vender voluntariamente a si mesmo, suas capacidades vitais, no mercado de trabalho, aos proprietários dos meios de produção (a classe capitalista). Ele tem livre arbítrio, já que "pode" escolher morrer de fome ou se tornar mendigo ao invés de se vender. Comprada pelos capitalistas, estes consomem essa mercadoria: o proletário é colocado para trabalhar e transformar a natureza aumentando o poder objetivo que o confronta como uma força hostil, a propriedade privada.  Quanto mais ele trabalha, tanto mais privado de propriedade se torna, mais poderosa se torna a propriedade privada, e tanto mais transfere as capacidades humanas para ela (capital fixo: máquinas, automação, conhecimento e know-how tornados propriedade privada intelectual), criando ativamente o que o torna cada vez descartável, privado de propriedade, proletário. 

Em suma, na sociedade capitalista, a dominação se apresenta como um imperativo da realidade objetiva, uma "força da natureza" ("segunda natureza") que foi criada pelo próprio trabalho humano.  A escassez, a privação de propriedade, a propriedade privada, se reproduz como uma força independente que comanda todos os seres (humanos e não-humanos), inclusive a pessoa do capitalista (e também os Estados) que, se falharem na competição por acumular capital, entram em falência, e são automaticamente substituídos por outros mais "eficientes" nisso (é por isso que usamos a palavra "capital", pois é ele, de fato, que comanda a sociedade da mercadoria segundo uma lógica autônoma, automática, mas opaca, enquanto os capitalistas são apenas agentes, personificações do poder do capital, obrigados a aplicar os ditames da acumulação do capital sobre os seres humanos sob pena de caírem no inferno de se tornarem proletários).

Mas, até hoje, a sociedade capitalista foi impossível sem um poder central, que, com polícia e prisões, impõe pela violência o respeito à propriedade privada, valida centralmente a equivalência dos meios de troca e de pagamento (dinheiro, crédito), protege e garante os contratos entre proprietários, e reprime a luta dos proletários contra a privação de suas condições de vida (luta que, por definição, desrespeita a propriedade privada dessas condições). Assim, a sociedade capitalista tem um calcanhar de Aquiles bastante concentrado e visível, que, se for atacado, desarranja instantaneamente todas as engrenagens do sistema da propriedade privada. Evidentemente, a existência desse ponto vulnerável, o Estado, causa grande preocupação à classe proprietária. 

Até hoje, a única maneira da classe proprietária justificar e legitimar o Estado - que é simplesmente uma empresa territorial, que, como todo capital, é uma ditadura para imposição do trabalho assalariado, submetida aos mesmos imperativos da acumulação do capital de qualquer outra empresa - foi apresentá-lo imaginariamente como neutro, acima das classes e do capital. Isto é, "Estado de Direito", representação de sujeitos (o cidadão) cuja "autonomia" coincide com sua sujeição voluntária a ele, em que o cidadão elege seu próprio patrão (que competem para serem escolhidos nas urnas), representação da "vontade geral do povo". Em outras palavras: a ideologia democrática (ou "socialista", como nos países de capital nacionalizado tais como a URSS e Cuba).

Porém, essa legitimação puramente imaginária nunca é plenamente convincente, e muitos capitalistas preferem pregar que o Estado é totalmente separado e alienígena à propriedade privada, enquanto que na realidade, como vimos, ele sempre foi de fato a instituição suprema e indispensável que garante sua existência. É simplesmente impossível que exista propriedade privada sem polícia, tribunais, forças armadas e prisões. Até hoje.

A tecnologia blockchain (o chamado smart contract) está sendo hoje fortemente financiada com o explícito objetivo de, no futuro, tornar a propriedade privada algo que já não dependerá mais de absolutamente nenhum "poder central", se tornando embutida no comportamento automático e descentralizado das coisas e, portanto, nas relações entre humanos mediadas por essas coisas. 

O objetivo é fazer cada coisa espontaneamente verificar, homologar e validar a condição pressuposta de privação de propriedade. Isso significa instantaneamente autenticar a escassez artificial de tudo pela equivalência quantitativa imposta pela propriedade privada: desde a homologação da limitação do uso pelo pagamento, a limitação da cópia por licenças de cópia, da autenticação do comando pela execução do trabalho, o enforcement instantâneo do respeito a patentes e propriedade intelectual em todas as coisas, e até das leis com os casos em que ela se aplica, etc. 

Com isso, cada objeto tenderá a deixar de ser um "produto" - que é comprado de uma vez, e cujo uso, após ter sido comprado, é independente da empresa e do mercado - para se tornar um "serviço" - em que uma assinatura ou uma licença é paga continuamente pelo seu uso, como um aluguel. Isso torna seu uso a curto prazo aparentemente muito mais barato e acessível para os proletários, mas acarretará que a classe proprietária terá o poder de impor diretamente a todo e qualquer uso o ditame da escassez contínua, e a "monetização" até dos gestos mais corriqueiro (especialmente com a popularização da wearable technology, p.ex., "roupas inteligentes", realidade aumentada, próteses "transhumanas",  sensores biomédicos, etc), tais como se vestir, andar, ir ao banheiro, dar descarga, bocejar, ver, ouvir, falar, respirar, até o peristaltismo, a circulação do sangue, as sinapses cerebrais ...  Todos os gestos, e até o funcionamento do organismo humano, a partir de então, encarnarão a coerção ao trabalho. Será preciso, de maneira ainda mais intensa do que hoje, trabalhar desesperadamente para conseguir dinheiro para pagar por existir.

É um cenário em que a "internet das coisas" assumirá por si só, automaticamente, o papel de cunha policial-penal que separa as capacidades das necessidades humanas, impondo a submissão à reprodução da propriedade privada dos meios de vida e de produção em absolutamente todos os aspectos da existência humana. 

A utopia da propriedade privada, como vimos, sempre foi converter a  totalidade das circunstâncias em que os seres humanos se encontram em imperativos "naturais", "objetivos", "automáticos" e "voluntários" de submissão aos ditames da acumulação do capital, ao máximo de trabalho. A diferença agora é que, com essas duas tecnologias, blockchain e internet das coisas, a polícia será automática, ela estará na "natureza das coisas". A prisão poderá ser o sofá da tua casa ou a própria "casa inteligente" (smart home), que subitamente tranca o "colaborador"; ou poderá ser todas as coisas (todos os "serviços" na smart home e na smart city) que, de uma hora para outra, param de funcionar para ele, isolando-o da sociedade que só existe conectada nelas. E o julgamento do "crime", um algorítimo descentralizado que devolve ao "criminoso" - que nada obriga que seja informado de que foi acusado, julgado e condenado (como já são hoje os "banimentos" nas redes sociais e nas empresas de "economia colaborativa") - a execução automática da pena. "Direito" e "fato" se tornam indistinguíveis. A ideologia do "Estado de direito" torna-se totalmente desnecessária para legitimar a cunha policial-penal, que se torna a própria objetividade "neutra" das condições em que cada indivíduo atomizado se encontra forçado a "livre escolher" voluntariamente. [17]

Felizmente, tudo isso ainda é apenas o sonho do capital. E não há dúvida de que a mínima tentativa de realizá-lo, numa sociedade que é um mecanismo cego de cujo funcionamento os capitalistas e seus tecnocratas são inerentemente os menos entendidos (por terem a práxis - e portanto o pensamento - totalmente nublada pelo fetichismo da mercadoria), levará certamente a efeitos incontroláveis que ameaçarão desarranjar e fazer ruir por inteiro o próprio funcionamento global do capital. (Por exemplo, veja o que aconteceu recentemente com a pequenina experiência da criptomoeda Bitcoin - da qual se originou a própria ideia de blockchain -, criada com base na fé fetichista inabalável na mão invisível atuando pela tecnologia automovente, pelo trabalho morto.) 

É muito mais provável que, no fim, a tecnologia blockchain seja utilizada principalmente pelos Estados, para manter seus registros instantaneamente atualizados e tornar esquemas de vigilância, julgamento, punição e policiamento automaticamente unificados e imediatos ao máximo. Ou senão, o que dá no mesmo, por empresas que na divisão do trabalho farão o papel unificador (a "interoperabilidade") necessário para o andamento da sociedade capitalista (que, sem isso, colapsa dilacerada pela competição, pela guerra de todos contra todos que a movimenta), cobrando taxas pelo acesso ao blockchain que é sua propriedade privada - p.ex. as implementações do blockchain, como o Ethereum, são assim -, propriedade privada que ao mesmo tempo será a infraestrutura unificante indispensável para todas as transações e coisas produzidas na sociedade capitalista. Na prática, essa taxa será a mesma coisa que um imposto, assim como essas empresas serão a mesma coisa que um Estado, que apenas deixaria de se adornar com a fachada ideológica democrática ("república", "monarquia constitucional", "socialismo") para se tornar diretamente uma monarquia absolutista corporativa (aliás, como sempre foi de fato, de um modo ou de outro: ditadura do empresariado).

Quanto à inteligência artificial, e as ilusões sobre ela, sobre desemprego e sobre renda básica universal, não vamos falar aqui, porque anteriormente já tratamos disso no texto:  Inteligência artificial, desemprego e renda básica universal: mais uma panaceia da classe proprietária.


9. CONCLUSÃO: ESQUEÇAM A ESPERANÇA

Como vimos anteriormente, a autoconstituição do proletariado em classe autônoma contra o capital, a luta de classes, jamais ocorre sobre um pano de fundo vazio ou fúnebre a que se confrontaria a livre vontade ou livre arbítrio de explorados esperançosos, que romperiam o isolamento mediante uma comunidade de sofrimento, dor e culpa. 

Na realidade concreta, é exatamente o contrário: as capacidades e necessidades humanas, as forças produtivas, são simultaneamente fins em si e os meios da luta do proletariado contra o capital, e apenas delas depende a ruptura do isolamento e da atomização, a fraternização, a sua irrupção como classe histórico-mundial, assim como a sua vitória ou derrota. Enquanto o outro for encontrado na prática como causa de impotência, negação dos desejos e necessidades,  empecilho à sobrevivência na competição de cada um contra todos pela submissão à propriedade privada dos meios de vida, não há a menor possibilidade de romper a atomização e o isolamento. E as tentativas de romper isso mediante "força de vontade", "ideias corretas" ou ativismo apenas reproduzem a mesma circunstância, no máximo criando uma competição moralista ainda mais insuportável, introduzindo em um nível ainda mais extremo na subjetividade humana o "fazer por fazer", a "produção pela produção", a subsunção real ao capital.

À liberdade, que consiste na afirmação prática das forças produtivas da espécie humana, o capital contrapõe a liberdade fictícia do livre arbítrio, livre escolha, livre vontade. Essa liberdade imaginária é o modo pelo qual ele submete e adapta a subjetividade humana à separação entre capacidades e necessidades, violentamente separadas pela privação de seus meios (propriedade privada). Essa pseudo-liberdade serve para voltá-las contra elas mesmas, convertendo-as, de forças produtivas, em forças destrutivas, acumulação do trabalho morto, servas ativas do imperativo de escolher entre as inumeráveis opções de submissão e exploração que o capital apresenta para se reproduzir indefinidamente. 

As faculdades e necessidades humanas se criam, se produzem e se desenvolvem nas condições de existência materiais que elas estão transformando, ou seja, na práxis. Nisso, elas produzem a si mesmas, fazendo despontar, nessa transformação, faculdades, potencialidades, desejos e necessidades inéditas, a descoberta de potenciais inimagináveis e impossíveis nas condições anteriores. Não há livre escolha. Escolher, por definição, é escolher dentre as coisas já conhecidas, já existentes: elementos componentes do próprio status quo. Na verdadeira liberdade, ao contrário, nada é escolhido, nenhum possível é selecionado, mas, transformando as condições em sua totalidade, irrompe aquilo que é sempre considerado rigorosamente impossível.

Isso implica que não faz o menor sentido que a teoria comunista seja feita para competir com outras para ser escolhida pelos explorados, popularizada, "viralizada". Dado que, como vimos, não é da livre escolha dos proletários que surge e se desenvolve sua luta, sua liberdade, sua autonomia, mas do aumento materialista de suas capacidades de agir (de afirmar na prática seus desejos, satisfazer suas necessidades, desenvolvê-las etc associando-se como classe sem fronteiras contra a ditadura do capital), que são indistinguíveis do aumento de sua capacidade de pensar autonomamente. É apenas como expressão disso que a teoria comunista pode ser apropriada nos seus próprios termos, ao invés de se rebaixar a uma propaganda a mais na sociedade do espetáculo.  Em outras palavras: é da práxis comunista que surge a necessidade de se apropriar das teorias presentes e passadas que trataram precisamente dessa práxis.  Ao mesmo tempo, eles as criticam, livrando-as dos aspectos equivocados do passado, para desenvolver a teoria de sua práxis concreta, o conhecimento do que é objetivamente necessário fazer para destruir a sociedade capitalista e liberar o caminho para que o processo de irrupção do impossível vá até o fim. 

Isso também implica que, nos longos períodos de incapacidade prática como o de hoje (derrota profunda do proletariado), a minúscula minoria que (graças aos  acasos existenciais) toma partido do comunismo desenvolve teorias cuja única importância é compor uma análise radical da sociedade capitalista, das mutações da dominação e da exploração, e, principalmente, do situação das necessidades e faculdades humanas. São estas últimas que, volta e meia, mais cedo ou mais tarde, irrompem como forças produtivas selvagens, mesmo porque o capital é fadado a periodicamente invocá-las para expandir as condições materiais da intensificação da acumulação, destravando inadvertidamente essas forças. Mas como toda transformação das condições de existência cria a irrupção do impossível, do inesperado e imprevisível, o capital se vê forçado a lutar violentamente por domesticar essas forças, por fazê-las voltarem-se contra si mesmas, visto que elas ameaçam transbordá-lo, aboli-lo, ultrapassá-lo. 

A partir das análises das contradições e potencialidades que se desenvolvem na sociedade capitalista, a teoria atualiza o programa comunista, que nada mais é do que um esboço de síntese (sempre incompleto enquanto o capital e o Estado não forem abolidos) das necessidades práticas objetivamente indispensáveis para superar a sociedade de classes hoje (todas rigorosamente impossíveis, como vimos logo atrás). 

Por exemplo, frente ao fato de que greves, protestos e ocupações terem se tornado domesticadas e canalizadas pelas várias facções da classe dominante que competem entre si por dirigir o trabalho assalariado, o capital e o Estado (desde os burocratas de esquerda e direita até as várias facções legais e ilegais do capital nacional e internacional, capitalistas financeiros, comerciais e industriais), é hoje comprovadamente uma ilusão supor que essas táticas pressionem por reformas capitalistas graduais em favor dos trabalhadores (p.ex., em direção a um "Estado de bem-estar social"). Contra essa ilusão, os comunistas se posicionam afirmando a necessidade objetiva de superar essas velhas táticas, substituindo a greve pela tática de produção livre que abole imediatamente a empresa e o emprego ao se difundir exponencialmente de modo incontível em todo o mundo com rapidez. Essa rapidez na difusão exponencial é necessária para abolir a divisão do trabalho - ou seja, as condições de existência da mercadoria, do Estado e do capital - antes que o capital consiga tempo de estudar e implementar a reação, e antes que os estoques se esgotem obrigando a trocar - comprar/vender - por produtos fabricados na outra parte do mundo da qual ainda está privada, o que forçaria a competir com ela para que os produtos sejam trocados vantajosamente, reproduzindo necessariamente a exploração e a sociedade de classes em seu interior. Trata-se de suprimir a propriedade privada das condições de existência universalmente interconectadas (as supply chains e os meios de produção e distribuição mundiais), com o objetivo de abolir todo e qualquer sistema de recompensas e punições, libertando as forças produtivas como expressões dos desejos, necessidades e capacidades humanas como fins em si, a comunidade humana mundial. 

humanaesfera, julho de 2018


NOTAS

[1] Uma história resumida de como foi criada a internet, e de como, praticamente por acidente, seus protocolos de comunicação fundamentais foram desenvolvidos por hackers que contribuiam voluntariamente na IETF (Internet Engineering Task Force) com um viés universalista, onde todo recurso deve ser livre e igualitariamente acessível por qualquer um na rede, pode ser encontrada nesse texto: http://www.metamute.org/editorial/articles/immaterial-aristocracy-internet

[2] Sobre  algumas potencialidades evidentes da internet para o proletariado abolir a propriedade privada e o Estado, criando o comunismo generalizado, ver o texto: Contra a metafísica da escassez, copiosidade prática.

[3] Nos anos 2000, surgiu inclusive uma tendência tecnocrática que pregava que o desenvolvimento das impressoras 3D faria transbordar o "comunismo" da internet para o mundo "offline", causando uma revolução técnica que aboliria o capitalismo (essas ideias foram defendidas, por exemplo, por Adrian Bowyer, Jeremy Rifkin, Paul Mason, e Alex Williams). Resumindamente, a ideia era a seguinte: a generalização das impressoras 3D permitiria a qualquer um produzir qualquer coisa que quisesse, usando projetos e modelos digitais criados livremente por seus usuários e disponibilizados gratuitamente na internet. As próprias impressoras 3D seriam reproduzidas exponencialmente da mesma maneira, por outras outras impressoras 3D, de modo que todo mundo que quisesse poderia ter uma gratuitamente. Isso levaria ao fim a necessidade de trocar mercadorias, portanto, ao fim do dinheiro, ao fim da propriedade privada dos meios de vida e, consequentemente, ao fim do capital. O ideal perfeito seria desenvolver uma impressora 3D molecular, que formaria qualquer matéria prima e construiria qualquer coisa a partir de átomos de hidrogênio, que são a coisa mais abundante do universo. O equívoco de toda essa visão, como de toda tecnocracia, é que ela atribui à técnica um poder imaginário, que pressupõe na verdade o próprio fetichismo da mercadoria, em que a técnica, as coisas e os meios de produção são vistos como algo que tem uma virtude própria, autônoma, separada das relações sociais e determinando-a. Na realidade, o próprio conceito de "tecnologia", isto é, que uma lógica autônoma que regeria as técnicas independentemente das relações sociais, das necessidades e capacidades humanas e da luta de classes, é nada mais nada menos do que sinônimo de capital, o automovimento do trabalho morto. 

[4] Ver O Anti-Édipo - capitalismo e esquizofrenia de Deleuze & Guattari. Também o conceito de composição de classe, desenvolvido pela autonomia operária italiana nos anos 1960-1970. O livro Signos, Máquinas e Subjetividades, de Maurizio Lazzarato. Os Grundrisse, de Marx, bem como, também de Marx, o Rascunho sobre um livro de Frederic List:



“A indústria pode ser considerada como uma grande oficina em que o homem primeiro toma posse de suas próprias forças e das forças da natureza, se objetiva e cria para si mesmo as condições para uma existência humana. Quando a indústria é considerada desta forma, abstraímos as circunstâncias em que ela opera hoje, e nas quais existe como indústria; nosso ponto de vista não está no interior da época industrial, mas sobre ela; a indústria é considerada não pelo que ela é para o homem de hoje, mas pelo que hoje o homem é para a história humana, o que ele é historicamente; não é a sua existência atual (não a indústria como tal) que é reconhecida, mas sim a potência que a indústria tem sem saber ou querer e que a destrói e cria a base para uma existência humana.[...]

Esta apreciação da indústria é, ao mesmo tempo, o reconhecimento de que é chegada a hora de acabar com ela, ou da abolição das condições materiais e sociais em que a humanidade tinha que desenvolver suas habilidades como um escravo. Pois desde que a indústria não é mais considerada como um interesse mercantil, mas como o desenvolvimento do homem,  é o homem, no lugar do interesse mercantil, que é tornado princípio, e àquilo que na indústria pode se desenvolver apenas em contradição com a própria indústria é dado a base que está em harmonia com o que está para ser desenvolvido.
[...]

A escola de Saint-Simon deu-nos um exemplo instrutivo do que ocorre quando a força produtiva que a indústria cria inconscientemente e contra a sua vontade é creditada à indústria atual e as duas coisas são confundidas: a indústria e as forças que a indústria traz à existência inconscientemente e sem a sua vontade, mas que só se tornarão forças humanas, a potência do homem, quando a indústria for abolida. [...]  As forças da natureza e as forças sociais que a indústria traz à existência (que ela invoca) tem com ela a mesma relação que o proletariado tem. Hoje eles ainda são os escravos do burguês, que não vê neles nada além de instrumentos (os suportes) de sua cobiça suja (egoísta) pelo lucro; amanhã eles vão quebrar suas cadeias e se revelar como os portadores do desenvolvimento humano que vai lançá-los pelos ares junto com sua indústria, que assume essa casca suja exterior - que ele considera como a sua essência - só até que o núcleo humano ganhe força suficiente para estourar esta carapaça e aparecer em sua forma própria. Amanhã eles arrebentarão as cadeias pelas quais o burguês os separa do homem e assim os distorce (transforma) de um vínculo social real em grilhões da sociedade." Trechos do rascunho de um artigo sobre o livro de Friedrich List: Das Nationale System der Politischen Oekonomie, por Karl Marx (março de 1845) 

[5] Essa manipulação behaviorista deve muito a um campo de estudo acadêmico da dita psicologia cognitiva que existe desde os anos 1980 chamado "gestão da atenção" ou "economia da atenção", cujo objetivo é manipular a percepção e a cognição da população colocando-a a serviço da acumulação do capital. As redes sociais foram projetadas pelas empresas usando essa "ciência", de modo que os usuários fiquem viciados em dirigir sua atenção a elas, deixando tudo mais fora da atenção.

[6] Como o Linux, Apache, PHP, MySQL, Python, wiki, etc.

[7] Este texto, escrito naquele momento, descreve o que estava acontecendo: http://www.metamute.org/editorial/articles/infoenclosure-2.0
e também
Fetishism of digital commodities and hidden exploitation: the cases of Amazon and Apple


[8] A comunidade de software livre e de software de fonte aberta (open-source), que era feita voluntariamente por hackers contra a propriedade privada dos softwares, contra o domínio das empresas e Estados (aliás, foi por hackers com esse propósito que os protocolos de comunicação que são o fundamento da world wide web, a internet, foram criados), foi esvaziada e a função antes preenchida por eles foi substituída de maneira esmagadora por empresas "startups". Nelas, uma massa imensa de jovens ("nerds") são financiados diretamente pelo capital mundial para que criem "inovações", desenvolvendo cada vez mais maneiras de lucrar e  "monetizar" tudo o que até então não tinha sido passível de ser submetido à propriedade privada.

[9] O sinal transmitido nas antigas redes analógica de telecomunicações degradava a cada retransmissão, a cada cópia, somando ao sinal recebido o ruído acumulado ao longo de todo o percurso desde ponto inicial ao final. Ao contrário, o sinal transmitido nas redes digitais é regenerado na sua exata forma original a cada cópia e retransmissão, visto que a transmissão não é mais de um sinal continuamente variável (i.e., analógico), mas sim de um sinal binário (i.e, digital: "zeros e uns"). Assim, é necessário detectar no sinal recebido apenas esses dois níveis discretos para regenerá-lo e copiá-lo, o que permite descartar o ruído entre os dois níveis (ou mensurá-lo, corrigi-lo mediante cálculos ou, se a relação sinal-ruído for muito baixa, descartar o sinal e solicitar um reenvio, tudo isso automaticamente), enquanto que na era analógica, era preciso detectar toda a forma de onda dos níveis em contínua variação, o que tornava impossível distinguir o sinal original do ruído adicionado pelo meio de transmissão (consequentemente, na era analógica, o sinal original sem ruído era necessariamente propriedade privada de quem estava transmitindo frente aos receptores, enquanto que na era digital, esse fundamento físico da propriedade privada da informação foi intrinsecamente ultrapassado, visto que todos podem ter a cópia exata do original). Além disso, diferentemente da antiga transmissão analógica, uma vez estabelecida uma rede de transmissão digital, o consumo de energia necessário para regenerar (recuperar o sinal binário original, corrigir erros, etc.) e retransmitir o sinal digital em todos os enlaces físicos (cabos submarinos, fibras óticas, satélites, cabos elétricos, rádios micro-ondas) é sempre o mesmo, independentemente de se os usuários da rede estão transmitindo ou não informações uns para os outros. Porque os enlaces tem sempre sua banda ocupada por símbolos de "zeros e uns" devido aos protocolos de controle das camadas 1 e 2 (camadas física e de enlace) do modelo OSI  (uma exceção são alguns sistemas de rádio micro-ondas, que usam um esquema de largura dinâmica da banda base, mas também não em função da transmissão maior ou menor de informações pelos usuários, mas em função da relação sinal-ruído no meio de propagação do sinal, a atmosfera terrestre, que varia continuamente). A variação do consumo de energia ocorre apenas no processamento da informação, que é concentrado predominantemente no próprio computador do usuário (camadas 4, 5 e 6 do modelo OSI) e nos equipamentos roteadores (camada 3 do modelo OSI), mas mesmo assim a variação é insignificante.

[10] O livro Teoria do Drone, de  Grégoire Chamayou, explora as implicações de sistemas de vigilância total, sua relação com a repressão e a guerra.

[11] Texto interessante sobre isso: Style Is an Algorithm.

[12] Sobre isso, 
Uberização do trabalho: subsunção real da viração 
Um debate sobre a economia dos bicos no Brasil 
Também esse importante dossiê do site Passapalavra: Dossiê: Luta nos aplicativos 
Além do livro Radical Technologies: The Design of Everyday Life, de Adam Greenfield, que esmiúça as implicações para a vida cotidiana de uma série de tecnologias, como o smarthphone, a internet das coisas, realidade aumentada, fabricação digital, criptomoeda,  blockchain, automação, aprendizado de máquina e inteligência artificial.

[13] Para entender como todas essas "novidades" apenas reiteram e intensificam tendências da sociedade capitalista que apareceram desde a derrota das lutas proletárias de 1968 e a crise mundial de lucratividade que dura dos anos 1970 até hoje, veja este texto de 1988, que permanece incrivelmente atual: Estilhaços do Capital, de Eric Alliez e Michel Feher. 
Sobre o sono, ver o livro Capitalismo tardio e o fins do sono, de Jonathan Crary.

[14] Ver A logística e a fábrica sem muros, de Brian Ashton. 

[15] Essa submissão à classe proprietária que tem a aparência de tornar os trabalhadores pequenos capitalistas, empreendedores, capitais humanos, pequeno-burgueses, leva também a uma luta ilusória por parte dos trabalhadores, um tipo de proudhonismo. Essa ilusão supõe que, para que seus interesses sejam alcançados, bastaria acabar com os monopólios das grandes empresas e estabelecer uma sociedade de pequenos produtores (autogestão) que, com aplicativos, trocam mercadorias "com justiça" entre si, estabelecendo o "valor justo" que remunera cada um. Porém, isso é ilusório porque a troca de mercadorias é uma relação social que, independentemente da vontade e boas intenções, implica em competição (para que comprem suas mercadorias ao invés das de outros, por comprar barato e vender caro, etc.). Por definição, a competição é sempre competição pelo monopólio, pela posse mutuamente excludente: a propriedade privada. Competição e monopólio são meros adjetivos da propriedade privada, que pressupõem a privação de propriedade, i.e., a proletarização, e daí o trabalho assalariado, acumulação do capital, classe capitalista, Estado... Quanto ao valor, também é uma relação social que independe da vontade ou boas intenções: o valor é o comando que uma propriedade privada, pela competição, obtém sobre o trabalho alheio, ao fazer com que os compradores tenham que trabalhar ao máximo para comprar dela (ou seja, que sua mercadoria se torne equivalente ao máximo de trabalho abstrato da sociedade em troca do mínimo de trabalho nela), além de impor que os próprios trabalhadores trabalhem ao máximo pelo mínimo para tentar vencer a competição. Assim, essa ilusão deve ser sempre abertamente combatida nas lutas dos trabalhadores.

[16] No livro Platform Capitalism (de Nick Srnicek) essa nova configuração da sociedade capitalista é chamada de "capitalismo de plataforma". Segundo ele, as plataformas se caracterizam pela extração de dados da sociedade como matéria prima para lucrar. Ele classifica cinco tipos diferentes de plataforma:

"[...] o elemento importante é que a classe capitalista é proprietária da plataforma, e não que ela produz necessariamente um produto físico. O primeiro tipo é o das plataformas de propaganda (p. ex., Google, Facebook), que extraem informação dos usuários, faz um trabalho de análise, e então usa os resultados desse processo para vender espaço publicitário. O segundo tipo é o das plataformas de nuvem (p. ex., AWS, Salesforce), proprietárias dos hardwares e dos softwares usados por empresas dependentes da economia digital, que os alugam conforme necessitam. O terceito tipo é o das plataformas industriais (p. ex., GE, Siemens), que fabricam os hardwares e softwares necessários para transformar a fabricação tradicional em processos conectados pela internet que reduzem o custo de produção e transformam produtos em serviços. O quarto tipo é o das plataformas de produtos (p. ex., Rolls Royce, Spotify), que geram renda ao usar outras plataformas para transformar produtos tradicionais em serviços recebendo pagamentos do aluguel ou assinatura deles. Finalmente, o quinto tipo é o das plataformas enxutas (p. ex., Uber, Airbnb), que tentam reduzir sua propriedade patrimonial a um mínimo e lucrar reduzindo ao máximo os custos. Essas divisões analíticas frequentemente funcionam juntas dentro de cada empresa. A Amazon, por exemplo, é vista muitas vezes como uma companhia de comércio eletrônico, embora ela tenha rapidamente se expandido como uma companhia de logística. Hoje ela está se expandindo no on-demand market [trabalho sob demanda] com um programa de Home Services [trabalho em casa] em parceria com a TaskRabbit, enquanto que a infame empresa Mechanical Turk (AMT) foi de muitas maneiras uma pioneira da gig economy [economia de "bicos"] e, talvez mais importante, ela está desenvolvendo a Amazon Web Services como um serviço baseado em nuvem. A Amazon, portanto, abrange quase todas as categorias descritas acima."

[17] Felix Guattari, Eric Alliez e Maurizio Lazzarato usam os conceitos de assujeitamento social (também traduzido como sujeição social) e servidão maquínica (também traduzido como escravização maquínica) para descrever essa modificação da dominação. Segundo essa hipótese, a tendência nas últimas décadas é que a sociedade capitalista deixe de se legitimar apresentando-se como afirmação da liberdade do sujeito que atravessa voluntariamente várias compartimentações da sociedade capitalista para se assujeitar a elas (a sujeição social). Essa liberdade da subjetividade de atravessar compartimentações (como o tempo de trabalho e tempo de descanso, prisão e liberdade, escola e tempo fora da escola) culminava na autonomia como assujeitamento voluntário, cidadão, ao Estado de Direito e, daí, a legitimação da sociedade capitalista pelos direitos e liberdades democráticas, pelo Estado de bem-estar social etc, vistos como livres e externos à dominação maquínica do capital. A partir da década de 1980, a sociedade capitalista tende a se transmutar, derrubando todas essas compartimentações frente às quais a subjetividade que as atravessava era apresentada como livre da dominação, para agora se apresentar imediatamente como servidão maquínica, que é exatamente o que descrevemos neste capítulo sobre a utopia máxima do capital.

sábado, 9 de junho de 2018

O que foi junho de 2013? - da incipiente comunidade material a seu esmagamento reacionário na pseudo-comunidade ideológica

(English translation)



Cinco anos depois, o que aconteceu em junho de 2013?


Nesta sociedade de indivíduos atomizados, o transporte público é, materialisticamente falando, o único lugar comum em que os trabalhadores de uma cidade se encontram imediatamente nas mesmas condições. Quando aumenta a passagem, todos sofrem igualmente. Esta foi a base material para a união nos protestos contra o aumento das passagens que aconteceram em junho de 2013.

Uma questão interessante é que, desde sempre, a cada ano, o aumento causa um sentimento de raiva. Então, por que não acontecem protestos daquela magnitude sempre todos os anos? Certamente, naquele ano, confluíram múltiplas determinações simultâneas que se traduziram naqueles protestos, ao contrários de todos os outros anos em que essas determinações estavam ou ausentes ou não coincidiram.  Mas ainda não sabemos muito bem quais foram elas, e nem como.

A comunidade material inicial (transportes usados pelos explorados nas mesmas condições) dava o fundamento espontâneo para a comunidade de protesto. A medida que os protestos iam crescendo, e a reivindicação de redução das passagens ia sendo atendida, porém, a comunidade de protesto foi se afastando dessa comunidade material inicial.

O movimento, partindo da esfera da circulação de mercadorias, não foi capaz (nem tentou) de transformar as condições de modo a criar uma comunidade material em expansão que potencializasse a comunidade de luta para ir além dos protestos de rua levando-a para as relações de produção. Ou seja, não surgiu, sequer em germe, uma comunidade capaz de minar a sociedade capitalista na sua base produtiva criando um novo modo de produção cosmopolita que se generalizasse por todo o mundo ao colocar as forças produtivas como expressão das necessidades e capacidades humanas como fins em si. A ausência disso teve o efeito necessário, inexorável, de fazer aquela comunidade de protestos se degradar em comunidade ideológica, "cidadã", "brasileira". 

Essa comunidade de "querências" atomizadas, imaterial, é incapaz de encontrar sua força de união em si mesma. Isto é, o movimento foi fadado a ser joguete das polarizações inter-capitalistas (esquerda e direita), fadado a se deixar dirigir pela competição no espetáculo.

A fascistização começou no próprio junho de 2013, [1] quando o movimento não se generalizou materialisticamente desde o início, quando se perpetuou no desfile espetacular em manifestações. 

Manifestações são o terreno por excelência da "livre expressão do cidadão", ou seja, da dita "classe média" (subdivida em "baixa baixa baixa" até "alta alta alta", ou seja, tudo mundo). Na sociedade capitalista só há "classe média", já que, nela, só há a liberdade e igualdade de vendedores e compradores de mercadorias, não importando que não se tenha nenhuma mercadoria para vender e que se seja forçado pela necessidade de sobreviver a fazer de si próprio uma mercadoria que se vende voluntariamente no mercado de trabalho. 

Apenas se tivesse se generalizado abalando e transpassando todos os compartimentos da sociedade capitalista (trabalho, escola, família, fronteiras, Estado etc), o movimento poderia seguir numa dimensão emancipatória, libertária, impondo a satisfação das necessidades e o desenvolvimento das faculdades humanas: a emergência do proletariado como classe autônoma contra a classe dominante por toda parte, a irrupção irresistível do comunismo generalizado. 

Como isso não aconteceu, o movimento continuou "cidadão" e, consequentemente, "classe média", daí fascista, porque os vendedores/compradores livres e iguais acima de tudo competem. Eles precisam se agarrar a tudo que afirme sua exclusividade frente aos competidores para garantir sua sobrevivência, e isso independentemente da ideologia que se declare (esquerda, direita etc).

Resumindo:  em junho de 2013, desde o início, havia uma grande fetichização das manifestações de rua. A perspectiva de generalização do movimento de modo a criar uma associação material incluindo os proletários em todos os lugares para transformar as relações de produção não era expressa, ou pelo menos permaneceu isolada e impossível de ser expressa publicamente. A semente já estava podre. E enquanto as manifestações continuaram meras manifestações, a semente podre germinou no final do mês, no dia 20, [1] arrastada por todo espectro da abrangente "cidadania", fazendo emergir o reacionarismo que dura até hoje de maneira consistente e cada vez mais preocupante. 

humanaesfera, junho de 2018

NOTA
[1] Ver, por exemplo, o relato do Passapalavra feito naquele momento: 20 de junho: a Revolta dos Coxinhas