sábado, 9 de junho de 2018

Cinco anos depois: o que foi junho de 2013?



Nesta sociedade de indivíduos atomizados, o transporte público é, materialisticamente falando, o único lugar comum em que os trabalhadores de uma cidade se encontram imediatamente nas mesmas condições. Quando aumenta a passagem, todos sofrem igualmente. Esta foi a base material para a união nos protestos contra o aumento das passagens que aconteceram em junho de 2013.

Uma questão interessante é que, desde sempre, a cada ano, o aumento causa um sentimento de raiva. Então, por que não acontecem protestos daquela magnitude sempre todos os anos? Certamente, naquele ano, confluíram múltiplas determinações simultâneas que se traduziram naqueles protestos, ao contrários de todos os outros anos em que essas determinações estavam ou ausentes ou não coincidiram.  Mas ainda não sabemos muito bem quais foram elas, e nem como.

A comunidade material inicial (transportes usados pelos explorados nas mesmas condições) dava o fundamento espontâneo para a comunidade de protesto. A medida que os protestos iam crescendo, e a reivindicação de redução das passagens ia sendo atendida, porém, a comunidade de protesto foi se afastando dessa comunidade material inicial.

O movimento, partindo da esfera da circulação de mercadorias, não foi capaz (nem tentou) transformar as condições materiais de modo a criar uma comunidade material expandida que potencializasse a comunidade de luta para ir além dos protestos de rua levando-a para as relações de produção. Ou seja, não surgiu, sequer em germe, uma comunidade material capaz de minar a sociedade capitalista na sua base produtiva criando um novo modo de produção cosmopolita que se generalizasse por todo o mundo ao colocar as forças produtivas como expressão das necessidades e capacidades humanas como fins em si. A ausência disso teve o efeito necessário, inexorável, de fazer aquela comunidade de protestos se degradar em comunidade ideológica, "cidadã", "brasileira". 

Essa comunidade de "querências" atomizadas, imaterial, é incapaz de encontrar sua força de união em si mesma. Isto é, o movimento foi fadado a ser joguete das polarizações inter-capitalistas (esquerda e direita), canalizado para a competição no espetáculo.

A fascistização começou no próprio junho de 2013, [1] quando o movimento não se generalizou materialisticamente desde o início, quando se perpetuou no desfile espetacular em manifestações. 

Manifestações são o terreno por excelência da "livre expressão do cidadão", ou seja, da classe média (de "baixa baixa baixa" até "alta alta alta"). É a única "classe" que a sociedade capitalista pode reconhecer, já que nela só há a liberdade e igualdade de vendedores e compradores de mercadorias, não importando que não se tenha nenhuma mercadoria para vender e que se seja forçado pela necessidade de sobreviver a fazer de si próprio uma mercadoria que se vende voluntariamente no mercado de trabalho. 

Apenas se tivesse se generalizado abalando e transpassando todos os compartimentos da sociedade capitalista (trabalho, escola, família, fronteiras, Estado etc), o movimento poderia seguir numa dimensão emancipatória, libertária, impondo a satisfação das necessidades e o desenvolvimento das faculdades humanas, a emergência do proletariado como classe autônoma contra a classe dominante por toda parte, a irrupção irresistível do comunismo generalizado. 

Como isso não aconteceu, o movimento continuou "cidadão" e, consequentemente, "classe média", daí fascista, porque os vendedores/compradores livres e iguais acima de tudo competem, abraçando tudo que afirme sua exclusividade frente aos competidores para garantir sua sobrevivência, e isso independentemente da ideologia que se declare (esquerda, direita etc).

Resumindo:  em junho de 2013, desde o início, havia uma grande fetichização das manifestações de rua. A perspectiva de generalização do movimento de modo a criar uma associação material incluindo os proletários em todos os lugares para transformar as relações de produção não era expressa, ou pelo menos permaneceu isolada e impossível de ser expressa publicamente. A semente já estava podre. E enquanto as manifestações continuaram meras manifestações, a semente podre germinou no final do mês, no dia 20, [1] arrastada por todo espectro da abrangente "cidadania", fazendo emergir o reacionarismo que dura até hoje de maneira consistente e cada vez mais preocupante. 

humanaesfera, junho de 2018

NOTA
[1] Ver, por exemplo, o relato do Passapalavra feito naquele momento: 20 de junho: a Revolta dos Coxinhas 

terça-feira, 29 de maio de 2018

A rebelião dos caminhoneiros na encruzilhada - grupo Iniciativa Revolução Universal

(english translation)

Recebemos do grupo Iniciativa Revolução Universal estas duas interessantes análises da greve dos caminhoneiros, que nos foram enviadas ontem, dia 28/05:


A REBELIÃO DOS CAMINHONEIROS NA ENCRUZILHADA!
Fechar estradas para abrir caminhos!

Envolvida na maior rebelião desde 2013, a classe trabalhadora brasileira reaparece no cenário histórico. As revoltas e protestos no Carnaval, a onda de manifestações com a morte de Maríelle Franco eram sinais anunciadores da atual rebelião social. Antes foi brecada pela manipulação/polarização eleitoral, pelo golpe de 2016, por demagogias espetaculares de jornalistas e juizes tentando salvar o sistema pelo falso discurso de "moralização da política"- tentativa de usara classe trabalhadora como bucha de canhão na disputa entre burgueses, pelo Estado e pela sede do governo que hoje é o STF - pela deterioração ainda maior das suas condições de sobrevivência, após várias lutas nos últimos anos - contra Copa e Olimpíadas, contra privatizações, contra a repressão, contra a militarização, contra a precarízação no funcionalismo, contra despejos, contra reformas educacionais e após as greves/revoltas de março-junho de 2017- Fragilidades e flagrantes sabotagens a tais lutas, vindas dos dois braços do Estado ("direita" e “esquerda"), voltam a ameaçar a exemplar rebelião dos caminhoneiros, que paralisou a economia do país e que apesar da perseverança e da determinação com que está sendo conduzida, precisa identificar os obstáculos e inimigos para se fazer triunfante. Todo apoio aos trabalhadores em luta! Pela construção da greve geral insurgente!

Possibilidades e ameaças à atual luta social no Brasil: a luta dos caminhoneiros mostra um forte potencial de transformação social, mobiliza o conjunto da classe trabalhadora em seu apoio. Suas possibilidades de triunfo aparecem em várias características:

• Espontaneidade: fora das lendas da imprensa e dos políticos que querem isolar o movimento, a greve começou antes dos sindicatos decretarem “apoio” a partir de 21 de maio. Vários caminhoneiros passaram a não realizar entregas e se ausentaram dos fretes, quando da alta dos combustíveis, até haver o bloqueio das estradas. Tal espontaneidade está impedindo que os sindicatos e partidos eleitorais consigam ter total controle da luta. As decisões tomadas nos piquetes e meios virtuais (Facebook e Whatsapp) passam fora dos canais eleitorais e sindicais e substituem as assembleias gerais presenciais.

Generalização/ação estratégica: o alcance e o impacto do movimento chegam a todo o território nacional, tornando-o a maior rebelião desde 2013. Cortou as rotas comerciais e de combustíveis do país, Estrangulou a economia capitalista, rendendo patrões e governo. O governo pretende mover efetivos militares contra a luta, e são propostas ações como bloquear todos os acessos a Brasília. A inteligência tática da greve, demonstrada por uma categoria de trabalhadores que conhece as veias e artérias logísticas do país faz desse movimento de luta indispensável para a paralisia e derrota do Estado.

Simpatia e solidariedade de classe: como na rebelião de 2013, as lutas ligadas à questão do transporte são e serão decisivas nas lutas sociais de amanhã. Antes a radicalização social ocorreu por causa das tarifas do transporte urbano. Agora, por causa do gasolinaço de Temer. O transporte é o grande vilão da piora do custo de vida, pois impacta diretamente os preços finais e devora os salários. A classe trabalhadora brasileira entrou em imediato processo de apoio ao movimento: em várias cidades e estados foram criados comitês de apoio, cedendo comida e recursos aos grevistas. Várias outras categorias: perueiros, motoristas de vans escolares, motociclistas, petroleiros, estivadores, estão somando apoio. A luta dos caminhoneiros torna-se a luta de todos, causa simpatia imediata e o que decidirá seu sucesso, além dos bloqueios nas estradas, e da firme e inegociável perseverança será a solidariedade da classe trabalhadora em conjunto.

Não são poucas as ameaças ao movimento: empresários do transporte/donos de frota estão tentando usá-lo para arrancar apoio financeiro do governo e ampliar seus lucros, às custas do penoso e ininterrupto trabalho dos caminhoneiros. Os sindicatos que dizem falar em nome dos caminhoneiros tudo fazem para brecar a greve, tentando dois acordos com Temer (25 e 27 de maio), que só não tiveram resultado porque os trabalhadores, desconfiados desses falsos amigos, rejeitaram os acordos.A infiltração da direita militante patriótico-fascista, tentativas de isolamento da greve pela imprensa e pelo setor de “esquerda” do capitalismo são as ameaças mais graves e atacam o movimento por dentro e por fora. Fazem parte de uma única estratégia.

A estratégia para desmontar o movimento: usando a tática do alicate, com a “direita” e a “esquerda” pressionando a derrota da luta, o Estado e os patrões lançam uma dinâmica bem armada e articulada, com os petistas/pseudo-esquerdistas de um lado em total solidariedade com os bolsonaristas/defensores de ditaduras militares do outro. Os maiores beneficiados com isso são o governo Temer, os patrões e o cartel nacional e internacional do petróleo. Isso acontece porque o movimento não tem um direcionamento claro, seu significado e identidade estão em disputa. O desgaste da “esquerda” sindical-eleitoral impediu sua implantação na greve, parte dela só contribui com apoio retórico. O uso teatral, intimidante, mas limitado do exército que ainda não caracteriza golpe militar contribui à farsa, embora os generais já lancem olhares gulosos ao poder.

• A ação da “direita”: vendo o potencial e a espontaneidade do movimento, os grupos da direita militante se infiltraram, concentrados em 3 objetivos: a) assumir o controle de um movimento da classe trabalhadora (o que a direita raramente conseguiu na história) e assim ter um público fiel às suas ambições políticas: agitação pré- eleitoral e respaldo a um possível golpe militar, b) acima de tudo, fazer campanha eleitoral para Bolsonaro, desviando e tirando o objetivo do movimento das mãos dos trabalhadores, c) sujar o movimento e acelerar seu isolamento, pois Bolsonaro e a direita patriótico-fascista sabem que o conjunto da classe trabalhadora é antipático às suas bandeiras e se tentam aparecer como donos da greve, maior será a rejeição à luta dos caminhoneiros. A direita, no entanto é minoritária no movimento e sua ação tem vindo mais de fora do que de dentro, através de supostos “apoiadores” indo ao encontro dos caminhoneiros ou de “protestos” que imitam as marchas regressistas de 2015-16. Vereadores, políticos municipais e estaduais também tentam fazer palanque com a greve e trazem seu apoio...a eles mesmos!

• A sabotagem “esquerdista”: articulada com a “direita” e em parceria com a mídia a “esquerda” do capitalismo tem se dedicado desde o início a três ações: a) difamar o movimento, dizendo ser uma “greve de patrões” (locaute) ou de uma greve de fascistas em apoio a um golpe militar resultante do “caos” intencionalmente provocado pela greve - para isso contam com a cobertura da mídia que calculadmente só mostra as faixas e bandeiras em favor de Bolsonaro e de um golpe militar (além de explorar as cenas de desabastecimento), reduzindo a greve a essas pautas, b) através das suas centrais sindicais (CUT, UGT, etc.), isolar a greve, forçando outras categorias profissionais a não aderir, tentando impor um cordão sanitário contra a mesma...contudo a estratégia falha: aderem os metalúrgicos da Ford entraram em greve, os estivadores em Santos e alguns setores do funcionalismo (Unesp, prefeituras, etc.), nas periferias do Nordeste e de São Paulo ocorrem expropriações/saques nos supermercados: é a ultrapassagem da ordem burguesa, c) retirar a 27 de maio a palavra de ordem de “greve geral” (que havia sido esboçada por oportunismo no dia 25), em nome da “estabilidade” do regime, o que revela a “esquerda” eleitoral como o maior pilar de defesa do governo Temer, revelando sua submissão ao governo golpista e que o verdadeiro golpeado foi a classe trabalhadora (essa manobra inclusive foi aconselhada por Lula, que dentro da prisão entabulou conversações com interlocutores sindicais e do governo - certamente em troca da sua soltura e candidatura, pois ainda lidera as pesquisas). Para quebrar a ligacão entre petroleiros e caminhoneiros, a “greve” dos petroleiros foi chamada para o dia 30 (véspera de feriado, ou seja: greve sem efeito), na expectativa de que a greve nas estradas morra antes e com tempo definido: somente três dias, para evitar maiores resultados. Enquanto isso, Temer envia as forças armadas às refinarias e ao Porto de Santos, decreta intervenção militar em todo o país e determina que as estradas sejam desbloqueadas, conforme querem os falsos “apoiadores” da greve Bolsonaro e Sérgio Moro, que se opõem a qualquer prejuízo econômico da greve. A “direita” defende diretamente os patrões, a “esquerda” defende Temer, a quem acu sava de golpista, e se levanta contra um golpe militar que interrompa o processo eleitoral de 2018, o mesmo que declarava ilegítimo sem Lula candidato.

A iniciativa da classe trabalhadora decidirá a situação: as ilusões com um golpe militar como solução, esperando inclusive que eles concluam a greve serão desfeitas pelas tropas atacando os piquetes e as barreiras. A segurança pública, bandeira dos fascistas tornou-se obsoleta depois que 3 dias de greve de caminhoneiros interrompeu o fornecimento de drogas, (e a ação dos ladrões de cargas) extinguindo na prática o poder do narcotráfico em várias cidades!! A ação autoorganizada da classe trabalhadora sem outros personagens em cena deverá ser pela greve geral insurrecional, pela sua autodefesa e pelo ataque ao Estado. Formar os comitês independentes de luta, unindo as várias categorias em uma só luta!!!!

PELA REVOLUÇÃO SOCIAL!!!! NEM ELEIÇÕES NEM MILITARES!!! INSUBMISSÃO É A SOLUÇÃO!!!

SABOTARAS LINHAS DE SUPRIIMENTO DAS FORÇAS ARMADAS!!!! GREVE GERAL!!!!

Iniciativa Revolução Universal, maio de 2018
revolucaouniversal@riseup.net // revolucaouniversal@protonmail.com


GUERRA SOCIAL E REAPARIÇÃO DA CLASSE TRABALHADORA NO BRASIL
A LUTA DOS CAMINHONEIROS E A REVOLTA SOCIAL!
A sabotagem da economia como evidência

Quatro anos depois da derrota do movimento de protesto/rebelião iniciado em 2013, derrotado por ataques lançados por um governo supostamente de “esquerda”, e pela infiltração patriótico-fascista, parecia que a derrota da classe trabalhadora era definitiva: medidas de miséria foram lançadas pelo mesmo governo, mas custaram sua popularidade, o que foi aproveitado pelos seus adversários políticos, que em seguida o derrubaram num golpe de Estado organizado pelos seus aliados da véspera vinculados com forças regressistas e setores patriótico-fascistas. Os golpistas não só continuaram as medidas de miséria do governo anterior como tornaram-nas ainda mais agudas.

A perda de inciativa da classe trabalhadora tornou-a refém das chantagens ideológicas e da manipulação eleitoreira de burgueses de “direita” (ansiosos por um governo militar ou pelas candidaturas Alckmin /Bolsonaro) e de “esquerda”(querendo a volta de Dilma ou a eleição de Lula). A classe dominante no Brasil, dividida e em conflito consigo mesma desde 2016 colocou o governo do país nas mãos do poder judiciário como mediador entre as quadrilhas (com o STF comandando de fato o Estado). E a classe trabalhadora, incapaz de maiores reações viu piorar tudo o que o capitalismo petista havia iniciado: fortalecimento dos fascistas, judicialização generalizada, novas privatizações, eliminação de opositores, aumento da carestia e do custo de vida, impostos,desemprego e inflação crescendo astronomicamente...enriquecendo o outro extremo da sociedade, concentrando cada vez mais os recursos acumulados através do roubo e da carestia; além do repasse cada vez maior desse roubo às grandes corporações internacionais Algumas ações de protesto ocorreram: onda de ocupações, tomadas das escolas contra o governo, mobilizações universitárias, greves localizadas no funcionalismo, e as três grandes tentativas de greve geral em abril-junho de 2017, todas infiltradas pelos setores burgueses de “esquerda” e desarmadas por eles em nome da participação nas eleições de 2018. A classe trabalhadora ainda é refém das manipulações entre as quadrilhas capitalistas de “direita” e de “esquerda” disputando o controle do Estado brasileiro (judicialmente, midiaticamente, eleitoralmente e também no submundo: a guerra civil do narcotráfico/facções), com apoio de setores do capital internacional. Mas não deixou de afirmar seus interesses contra o avanço da exploração e do terrorismo de Estado, embora sem projeto definido de transformação e sem consciência clara do objetivo: suas ações na prática enfrentam o Estado e os patrões, afirmam a perspectiva da revolução, mas tudo ocorre dentro da visão de mundo, direcionamento e linguagem de seus inimigos, que os setores em combate ainda não questionam. A greve nacional dos caminhoneiros, pela primeira vez em décadas trava a rede produtiva, logística e comercial do país, sendo a primeira revolta social a ter alcance e efeitos sobre todo o território e a economia nacional desde 2013. A crescente solidariedade com o movimento aterroriza os patrões e os governantes!!!! A solidariedade deve ir além das declarações de apoio e dos comitês locais fornecendo comida e recursos aos grevistas. A greve geral insurrecionária está na ordem do dia, todos os setores da classe trabalhadora só terão futuro na medida que também paralisarem suas atividades e acima de tudo, tomarem as ruas, removendo dos protestos os oportunistas e demagogos de “direita” e de “esquerda”. Nem petismo nem golpe militar-fascista - chamado pelos seus defensores de “intervenção”- acabarão com a miséria da classe trabalhadora. A hora é de ofensiva contra o sistema e o Estado!!!!

Tomar posse do próprio destino e traçar o futuro com as próprias mãos!


IMPORTANTE ALERTA PARA A CLASSE TRABALHADORA EM LUTA:

Sindicatos, partidos e políticos NÃO ACABARÃO COM A CARESTIA: os acordos dos sindicatos com Temer não passam de distração para ganhar tempo. Enquanto os sindicatos armam “trégua de 15 dias” para quebrar a greve e anunciam “congelamento” do preço dos combustíveis por alguns dias...as tropas do Exército e os efetivos policiais estão sendo movimentados em todos os estados. Nesse momento basta lembrar os “20 centavos” de 2013: as passagens de ônibus um ano depois voltaram a subir e em dobro, mas o mais importante o governo conseguiu - destruir as manifestações. Está provado historicamente que esses contratos, esses acordos de Judas, não são seguidos:

• A infiltração de prefeitos municipais, vereadores, pré-candidatos e outros demagogos se promovendo às custas do movimento também é outro fator enfraquecendo a greve: estão afastando outros setores da classe trabalhadora, que acham que a greve é deles e não dos caminhoneiros. Seja lá o que prometam não estão em condições de dar o que os(as) trabalhadores(as) precisam: libertar-se dos patrões e dos governantes. Falam bonito, fazem festa e dão brindes aos caminhoneiros, mas não os libertarão das balas da PM e do Exército quando esses vierem para cima dos grevistas, não se interessam em acabar com a roubalheira, vivem dela e só se aproximam da greve pra azer nome entre os caminhoneiros e depois serem eleitos por eles. Os trabalhadores precisam se organizar de modo independente;

• O objetivo do movimento é o mesmo de todas as lutas da classe trabalhadora: viver sem ser depenado(a) pelos parasitas burgueses, incluindo entre esses parasitas os donos das frotas de caminhões e das transportadoras, que forçam os caminhoneiros a cumprir vários fretes, em prejuízo da saúde e da segurança: obrigam-nos a se drogar para dobrar viagens e cumprir os contratos...e agora esses mesmos ladrões dizem “apoiar” a greve, não porque querem vida melhor para os caminhoneiros, mas porque querem financiamento do governo, ou seja, mais dinheiro no cofre. Se a classe trabalhadora quer greve vitoriosa, terá que voltá-la contra eles também, pois assim que o governo os bancar financeiramente, serão os primeiros a forcar o fim da greve, mesmo sem nada de concreto em favor da categoria!!!


NÃO É LOCAUTE... É NOCAUTE!!!!

Setores ligados ao PT estão espalhando uma campanha de difamação do movimento, dizendo ser “greve de patrões” (Locaute), “greve fascista”, apoiando golpe em favor de uma ditadura militar no país. Para piorar as coisas a imprensa tem feito reportagens longas (algumas com mais de 40 minutos), dizendo que pacientes estão morrendo em hospitais e que o desabastecimento causará fome no país por culpa da greve. De um lado e de outro há a tentativa de jogar a classe trabalhadora contra o movimento e impedir o maior medo deles: uma greve geral fora do controle do Estado, dos patrões, dos sindicatos e partidos. Uma vez gue o pais está parado e a economia literalmente foi derrubada no chão, “direita” e “esquerda” mais uma vez agem em conjunto para destruir a greve. Demagogos como Bolsonaro além da direita fascista estão infiltrando o movimento erguendo faixas em favor de golpe militar-fascista e declaram apoiar a greve...desde que ela não feche as estradas, ou seja, desde que não ameace de verdade os interesses de patrões e governantes. Estão sujando o movimento, pois sabem que a classe trabalhadora no fundo não está com eles. A antipatia dos caminhoneiros com o PT e seus aliados se justifica: estão cansados de ouvir falar de “apoio” a Lula e Dilma que por 14 anos esmagaram a classe trabalhadora, impuseram arrocho salarial e perseguição a grevistas, jogaram manifestantes na cadeia, eliminaram trabalhadores rurais e indígenas, além de colocar o exército nas favelas para dar tiro em morador. O desgaste da versão “esquerdista” do capitalismo faz boicotarem a CUT e outras organizações que a vida toda foram inimigas de greve, de organização da classe trabalhadora, de luta social e da negação do Estado. Entretanto, alguns acham que o fascismo é novidade, e que ser de direita é “avançado”, que defender golpe militar vai defende-los dos demagogos e de serem roubados pelos patrões e governantes, esquecem que os generais e demais chefes das Forças Armadas existem para defender a ordem social que nesse exato momento está sendo enfrentada pela greve. As Forças Militares são o braço armado, os capangas dos patrões e governantes -e quando são o próprio governo, não há grupo mais interessado em manter privilégio e explorar trabalhador que os próprios militares. Além de fazer agitação em favor de uma greve geral, da adesão do restante da classe trabalhadora ao movimento (que aos poucos está acontecendo: motoristas de Uber, de ambulâncias, petroleiros, funcionários públicos em algumas cidades, várias categorias estão aderindo à greve nos últimos dias), os grevistas só vencerão se cortarem todas as ligações com os grupos fascistas e com guem faz propaganda de “intervenção militar”. É o próximo passo a ser dado. O que vale para os petistas, vale para os seguidores de Bolsonaro: a “intervenção militar'’ que tanto pedem, será a ação do Exército atacando os caminhoneiros nas estradas.TODA “INTERVENÇÃO MILITAR” É CONTRA A CLASSE TRABALHADORA.


LUTAR É VIVER!!!! PELA SOLIDARIEDADE REVOLUCIONÁRIA DA CLASSE TRABALHADORA ! ! !

GREVE GERAL!!!! LIBERDADE OU MORTE!!!! O FUTURO PERTENCE AO PROLETARIADO!!!!

revolucaouniversal@riseup.net revolucaouniversal@protonmail.com

segunda-feira, 28 de maio de 2018

O atrativo do bonapartismo entre os caminhoneiros


O pedido de "intervenção militar" que, aparentemente, ocorre com muita frequência nesta greve dos caminhoneiros, é preocupante. Mas é importante observar que esse pedido parece ter se tornado predominante quando o governo federal convocou as forças armadas contra a greve. Então, nesta circunstância específica, parece ter o sentido bastante pragmático de fraternização entre soldados e caminhoneiros. 

A categoria dos caminhoneiros é ambígua, porque, especialmente entre os autônomos, que são donos de seus próprios caminhões (ou até de mais caminhões, explorando outros trabalhadores), o aspecto pequeno-burguês acarreta uma vacilação entre posições burguesas e proletárias, mesmo que predomine entre eles o trabalho precário. Isso significa que essa categoria, enquanto sua luta for isolada, é incapaz de afirmar um projeto social próprio, o que geralmente se traduz no apelo a algum poder externo, extraterrestre, algum tipo de bonapartismo ou caudilhismo que traria a "ordem" pela força. Daí o atrativo da retórica de direita, saudosista da ditadura militar. O mesmo aspecto pequeno-burguês ocorre nos taxistas, motoboys, trabalhadores da Uber...

Isso permanecerá assim enquanto a luta  não se espalhar. Se todo o resto do proletariado começar a lutar de maneira generalizada - e o próprio impacto do desabastecimento e a piora das condições de vida que acarreta pode o impelir a isso -, a burguesia e a burocracia (inclusive a militar) se revelarão claramente como inimigos. Nisso, a fraternização da classe contra a classe dominante tornará sem sentido a defesa corporativista ou pequeno-burguesa das identidades prefabricadas na sociedade capitalista. Nessa situação, é muito provável que haverá uma inflexão geral para afirmar a fraternização pela luta autônoma: constituir, por exemplo, "sovietes de soldados, caminhoneiros e trabalhadores", em que nenhum poder é concedido incondicionalmente a ninguém, e em que os mandatos são revogáveis a qualquer momento pelas assembleias. 

Porém, enquanto o proletariado como um todo apenas assiste passivamente o que está acontecendo, a greve dos caminhoneiros está condenada a servir as facções da classe dominante que competem por explorar o proletariado.

humanaesfera, 28 de maio de 2018

sábado, 26 de maio de 2018

Sobre a greve dos caminhoneiros

(english translation)




O QUE ACONTECEU

A causa imediata, o motivo inicial da greve foram os aumentos causados pela política de preços do óleo diesel, que passou a ser diretamente ligada à volatilidade especulativa do petróleo do mercado internacional (isto é, a variação do preço ficou parecendo uma bitcoin) e também à taxa de câmbio do Dólar frente ao Real. 

Os caminhoneiros (46% são autônomos e 53% são empregados) foram brutalmente afetados, porque o abastecimento dos caminhões é pago do bolso deles. A greve é gigantesca, afeta o país inteiro, literalmente. 

Mas no início, os empresários das transportadoras participaram ou até dirigiram a greve, porque eles também tem interesses na competição inter-capitalista com as petrolíferas. Por isso, havia muita dúvida se era lockout ou greve, até porque, estranhamente, a mídia burguesa e a polícia pareciam até apoiá-la, diferentemente de todo e qualquer outro tipo de greve, que são sempre apresentados na televisão como vandalismo ou mesmo crime. A greve então foi manipulada como objeto de barganha para atender os interesses dos empresários (por exemplo, reduzir o pagamento de direitos trabalhistas, como contra a "reoneração da folha de pagamento") . 

Até que, no dia 24, os sindicatos patronais (ou os sindicatos vendidos dos trabalhadores) fizeram um acordo com o governo para acabar com a greve, ganhando algumas reivindicações (como o reajuste dos preços por mês e não mais a todo o instante, e uma redução de 10%). 

Mas com o acordo, os empresários não conseguiram parar com a greve, porque os trabalhadores resolveram continuar. Embora ainda haja alguns empresários que continuam a participar, agora ela se tornou predominantemente uma luta contra os patrões, luta de classes. Por exemplo, as revindicações são sobre o baixíssimo preço dos fretes pagos aos trabalhadores pelas transportadoras, pelos patrões. E então a mídia burguesa agora apresenta a greve como vandalismo e crime, e o governo está mobilizando as forças armadas contra a greve, etc.

NOSSA POSIÇÃO

Evidentemente que apoiamos qualquer luta autônoma dos trabalhadores por melhorar suas condições. O que podemos contribuir é com uma perspectiva quanto aos prováveis efeitos na sociedade, avaliando-os com o critério de se afirmam ou não a solidariedade entre todos os trabalhadores, oprimidos, proletários contra a classe dominante, não só em um país, mas do mundo. 

Nossa avaliação é a que as greves no setor de serviços e no transporte afetam fortemente os outros proletários que usam esses serviços e não só os patrões e o governo, que as vezes nem sofrem nada porque praticam "diversificação dos investimentos" (por exemplo, muitas vezes os capitalistas são acionistas de diversas empresas de vários setores, até de vários países, etc.). Assim, no caso dessa greve de caminhoneiros, o proletariado em todo lugar sofre com a falta de alimentos, fica com muitas necessidades fundamentais não atendidas, devido ao aumento dos preços, que sobem às alturas nessas situações.  Para sair desse impasse que, no fim das contas, leva a um conflito entre os trabalhadores, a saída lógica é a substituição da greve pela produção livre, que afirma a satisfação das necessidades humanas contra o capital, o dinheiro e o Estado, impulsionando a solidariedade de classe por toda parte. Isso tem o potencial de se generalizar para o mundo a ponto de criar um novo modo de produção em que as forças produtivas são submetidas aos desejos, necessidades e capacidades humanas e não mais ao lucro nem à dominação de classe. Para mais detalhes quanto a essa proposta, ver o texto greve e produção livre.

humanaesfera, 26 de maio de 2018

Vídeo dos caminhoneiros sobre por que continuaram a greve:

http://humanaesfera.blogspot.com.br/2018/05/sobre-greve-dos-caminhoneiros.html

ATUALIZAÇÃO 28 DE MAIO:

O atrativo do bonapartismo entre os caminhoneiros


O pedido de "intervenção militar" que, aparentemente, ocorre com muita frequência nesta greve dos caminhoneiros, é preocupante. Mas é importante observar que esse pedido parece ter se tornado predominante quando o governo federal convocou as forças armadas contra a greve. Então, nesta circunstância específica, parece ter o sentido bastante pragmático de fraternização entre soldados e caminhoneiros.

A categoria dos caminhoneiros é ambígua, porque, especialmente entre os autônomos, que são donos de seus próprios caminhões (ou até de mais caminhões, explorando outros trabalhadores), o aspecto pequeno-burguês acarreta uma vacilação entre posições burguesas e proletárias, mesmo que predomine entre eles o trabalho precário. Isso significa que essa categoria, enquanto sua luta for isolada, é incapaz de afirmar um projeto social próprio, o que geralmente se traduz no apelo a algum poder externo, extraterrestre, algum tipo de bonapartismo ou caudilhismo que traria a "ordem" pela força. Daí o atrativo da retórica de direita, saudosista da ditadura militar. O mesmo aspecto pequeno-burguês ocorre nos taxistas, motoboys, trabalhadores da Uber...

Isso permanecerá assim enquanto a luta deles não se espalhar. Se todo o resto do proletariado começar a lutar de maneira generalizada - e o próprio impacto do desabastecimento e a piora das condições de vida que acarreta pode o impelir a isso -, a burguesia e a burocracia (inclusive a militar) se revelarão claramente como inimigos. Nessa situação, é muito provável que haverá uma inflexão geral para afirmar a fraternização pela luta autônoma: constituir, por exemplo, "sovietes de soldados, caminhoneiros e trabalhadores", em que nenhum poder é concedido incondicionalmente a ninguém, e em que os mandatos são revogáveis a qualquer momento pelas assembleias.

Porém, enquanto o proletariado como um todo apenas assiste passivamente o que está acontecendo, a greve dos caminhoneiros está condenada a servir as facções da classe dominante que competem por explorar o proletariado.

humanaesfera, 28 de maio de 2018


segunda-feira, 14 de maio de 2018

Maio de 68: a "juventude" e a destruição épica do fordismo pelo proletariado


Há 50 anos, Maio de 68 aconteceu simultaneamente no mundo todo, do Japão até o Chile, Itália, México, Espanha, EUA, etc e perdurou até meados dos anos 1970. Enquanto em cada lugar ele teve características e limitações diferentes, o que importa para nós são as potencialidades internacionalistas e comunistas libertárias que surgiram por toda parte  mas que, por não conseguirem se afirmar nem se desdobrar, abriram caminho à derrota do movimento, permitindo à sociedade capitalista, nas décadas seguinte, uma reação que a reconfigurou profundamente. 

Para acontecer maio de 1968, várias dimensões confluíram. Do ponto de vista das relações de produção, o modelo fordista de dominação e exploração se esgotou, graças a poderosos métodos de resistência rapidamente se generalizando: o absenteísmo se tornou rotina, greves de ocupação (grève sur le tassit-down strike, em que simplesmente se cruzava os braços no meio do trabalho, interrompendo algumas linhas de montagem fordistas, o que, pelo encadeamento delas, interrompia fábricas inteiras ou mesmo várias fábricas), desprezo pelos chefes, pelos burocratas, pelo trabalho e pelo empresariado...

Outra dimensão foi a "juventude", criada pela primeira vez como categoria (ou até como o próprio tipo-ideal da sociedade capitalista) pelas necessidades de acumulação do capital (educação universitária se tornando comum e não mais apenas para as elites, assim como os "jovens" se tornando importantes consumidores de mercadorias específicas, cada vez mais produzidas em rápida rotação, devido às "modas"), nos anos 1960. Com esse novo produto, a "juventude", a sociedade capitalista invocou forças que ela não pôde controlar, principalmente quando essa juventude rebelde se juntou com os proletários que estavam destruindo o modelo fordista de exploração. Tudo indica que essas foram as duas dimensões cruciais que convergiram naquele momento para desatar maio de 68.

Essas duas dimensões se combinaram, se potencializando mutuamente, produzindo uma perspectiva apaixonante de transformação total da sociedade em que os indivíduos se libertam de todos os papéis, particularidades e hierarquias, e afirmam seus desejos curto-circuitando o singular e o universal, a vida cotidiana e a história mundial.

DERROTA E REAÇÃO

O movimento foi derrotado porque o proletariado, com a "juventude", não conseguiu atacar as relações de produção de uma maneira suficiente para criar um novo modo de produção capaz de se generalizar rapidamente por todo o mundo e nutrir tanto seu poder contra a classe capitalista e o Estado, quanto potencializar sua capacidade de criar uma nova sociedade. [1] Ao se prolongar no tempo sem alcançar isso, eles terminaram tendo que confiar em sindicatos e na social-democracia, instituições cuja razão de ser é controlar tudo que ameace a exploração, mediando e negociando com o Estado e os capitalistas. Esse prolongamento no tempo foi desmoralizando a luta nas relações de produção, canalizando a energia social para a pseudo-luta na esfera do simbólico, do espetacular, da representação, o que se consumou na completa desintegração do movimento nas categorias reificadas da sociedade capitalista: "juventude", "trabalhadores", "consumidores", "estudantes", "minorias", "cidadãos lutando por direitos civis"... Até que no fim dos anos 1970 e nos anos 1980, no plano das relações de produção, veio o brutal ataque contra os trabalhadores por parte dos capitalistas, que substituíram o modelo fordista pelo modelo em que a terceirização é o principal elemento, dividindo e hierarquizando os trabalhadores ao máximo... enquanto que as outras categorias reificadas citadas acima, imaginariamente separadas das relações de produção, foram fadadas a reivindicar "direitos civis", ou seja, fortalecer o poder alienado da sociedade, o Estado e o capital,  a polícia, como garantidores de "espaços" para suas "identidades" ("representatividade") no inferno da competição pela sobrevivência na sociedade capitalista, a  competição generalizada pela submissão à classe proprietária dos meios de vida. 

Em suma, depois da derrota, os capitalistas recuperaram o descontentamento e os desejos de maio de 1968, canalizando-os para a reprodução da sociedade capitalista: ter dinheiro seria a própria realização da "autonomia" e "afirmação da individualidade e dos desejos". O toiotismo foi adotado (mas transformado, pois no toiotismo original no Japão dos anos 1950 até recentemente, o emprego era vitalício) como afirmação de cada trabalhador como empresário de si mesmo, "capital humano" (suposta realização da "autogestão") e como terceirização desses empresários de si mesmos numa rede de infinitas camadas "meritocráticas" selecionadas, é dito, pela competição impessoal no mercado e não mais pelo comando desse ou daquele patrão... enquanto a "questão social" se degradou em mera luta por "afirmação de identidades", isto é, de estereótipos ("etnia", "gênero", "cultura" etc) buscando "representatividade" no mercado, na empresa e no Estado.

Mas a destruição do modelo fordista de dominação e exploração pelo proletariado merece uma exposição mais detalhada. É o que tentaremos fazer a seguir:

COMO OCORREU A DESTRUIÇÃO DO MODELO FORDISTA DE DOMINAÇÃO E EXPLORAÇÃO

O capital tende sempre à transformar os meios de produção de modo a fazer com que sua operação seja simplificada, abstratizada e homogeneizada ao máximo (e, é claro, feita pelo mínimo de pessoas), com o objetivo de depender cada vez menos de trabalhadores que possuam uma qualificação específica e que, por isso, tem algum poder de impor seus interesses contra os capitalistas. 


O fordismo foi isso: a linha de montagem, junto com a automação, buscava retirar dos trabalhadores o conhecimento e o controle sobre o processo produtivo, e tornou o trabalho homogêneo e simples, intenso e frenético, mas fácil de ser feito por trabalhadores não qualificados, por exemplo, migrantes que vieram de regiões rurais desempregados. Na época em que foi implantado e generalizado, nos anos 1930-1950,  muitos acreditaram no fim absoluto da luta de classes enquanto força capaz de transformar radicalmente a sociedade (era o que pregava Marcuse, por exemplo), principalmente no pós-guerra, quando a Europa e os EUA viviam o maior período de prosperidade da história da sociedade capitalista, em que, graças a acordos de produtividade (entre sindicatos e patrões sob a chancela do Estado, atrelando o aumento dos lucros e o aumento dos salários, conforme a política keynesiana), tudo parecia neutralizar e prevenir qualquer radicalização dos trabalhadores ao integrá-los na "sociedade de consumo". 

Porém, essa simplificação e homogeneização acarretada pelo fordismo teve o efeito colateral de os trabalhadores, pouco a pouco, desde suas lutas iniciais muito tímidas, irem percebendo que suas condições eram as mesmas por toda parte, se solidarizando não mais como capital variável qualificado que tem interesses corporativos frente a outros trabalhadores (como era antes do fordismo e como era a estrutura "trabalhista" que foi herdada das lutas desses antigos trabalhadores qualificados que se orgulhavam de seu trabalho que ainda era bastante artesanal), mas se solidarizando enquanto proletários, ou seja, com qualquer explorado, inclusive desempregados, todos desqualificados que viam e viviam o trabalho como negação da vida e da individualidade, como transformação do ser humano em máquina, em objeto nas linhas de montagem. Essa situação culminou em maio de 1968, com a prática, que se tornou corriqueira, de "recusa do trabalho",o absenteísmo, a sabotagem, e a exigência, nos momentos mais radicalizados, de "abolição do trabalho"  [2] (obs.: nos anos 1990, o grupo Krisis, com seu "Manifesto contra o trabalho", chegou 30 anos atrasado quanto a essa questão, com o agravante de silenciar e não fazer referência ao fato de ela ter surgido graças à luta autônoma dos proletários 30 anos antes, ou seja, de propagar a ignorância). 

Buscando minar as bases desse movimento de recusa e desprezo pelo trabalho que tinha culminado em maio de 68 e que perdurou por alguns anos, em que ocorreu uma crise de lucratividade que marcou o fim dos "anos dourados" do pós-guerra, o capital foi pouco a pouco abandonando o fordismo e adotando e generalizando uma variação de toiotismo, isto é, terceirização dos trabalhadores de modo a isolá-los, dispersá-los e hierarquizá-los, no processo produtivo, em inúmeras camadas subterceirizadas com salários extremamente variados e condições diferentes, o que minou a solidariedade deles.  

Porém, a história certamente ainda não acabou. A tendência de homogeneização e simplificação do trabalho faz parte de uma necessidade inescapável do capital, que não pode existir sem buscar desqualificar ao máximo, tornando facilmente intercambiável a força de trabalho, para cortar o máximo de custos com ela (i.e., para pagar o menor salário possível), de modo que, como efeito colateral, há sempre a tendência correspondente de os trabalhadores, junto com os desempregados, se encontrarem como iguais, constituindo-se como proletariado que busca se auto-abolir, e portanto abolir o capital, afirmando a comunidade humana mundial, o comunismo. 

Talvez essa tendência de homogeneização e simplificação do trabalho (que se vê hoje levada ao extremo em "aplicativos" como o Uber e, agora, a "uberização" de cada vez mais trabalhos, inclusive de profissões que antes se viam como protegidas do ataque capitalista, até as mais esnobes, como os acadêmicos e os engenheiros) seja o verdadeiro pressuposto não só da fraternização global da classe, mas também, no momento em que essa fraternização conseguir se estender, intensificar sua potência e derrotar o capital por toda parte, o pressuposto para simultaneamente  suprimir a divisão do trabalho (já que tende a fazer com que qualquer um consiga operar qualquer maquinismo) e, consequentemente, o pressuposto da abolição do trabalho em si, por uma livre associação dos indivíduos em escala mundial, na qual qualquer um tem livre acesso às forças produtivas mundiais conforme as suas necessidades (e a partir disso, é claro, transformando todos os meios de produção herdados da sociedade capitalista, que foram feitos sob medida pela ditadura do dinheiro e do lucro, para que sejam submetidos às necessidades, desejos e capacidades humanas como fins em si).

humanaesfera, maio de 2018

NOTAS:
[1] Em Paris, o momento chave da derrota e do prolongamento arrastado que se seguiu foi testemunhado in loco por Fredy Perlman enquanto estava acontecendo: 
"[...]Na Sorbonne, no Censier, em Nanterre, e em outros lugares, a universidade foi proclamada uma propriedade social; os prédios ocupados tornaram-se ex-universidades. Os prédios foram abertos para toda a sociedade - estudantes, professores, trabalhadores - para qualquer um que desejasse ir lá. Além do mais, as ex-universidades foram geridas pelos seus ocupantes, fossem eles estudantes ou não, trabalhadores, camponeses. No Censier, de fato, a maioria dos ocupantes não era “estudante”. Essa socialização foi acompanhada por uma ruptura da divisão do trabalho, da divisão entre “trabalhadores” e “intelectuais”. Em outras palavras, a ocupação representou a abolição da universidade como uma instituição especializada restrita a um segmento específico da sociedade (estudantes). A ex-universidade se tornou socializada, pública, aberta a todos.

As assembleias gerais nas universidades foram momentos de auto-organização pelas pessoas dentro de um prédio específico, independente de suas  especializações anteriores. Elas não foram momentos de auto-organização a respeito de “seus próprios” assuntos.

Entretanto, isso foi o mais longe que a “escalada” foi. Quando as pessoas que organizavam as atividades dentro da universidade ocupada foram “aos trabalhadores”, fosse nas barricadas ou nas fábricas, e quando eles disseram para os “trabalhadores”: VOCÊS devem tomar SUAS fábricas”, eles mostravam uma completa falta de entendimento sobre o que eles já estavam fazendo nas ex-universidades.

Nas ex-universidades, a divisão entre “estudantes” e “trabalhadores” foi abolida na ação, na prática cotidiana dos ocupantes; não havia mais “tarefas de estudantes” e “tarefas de trabalhadores”. Entretanto, a ação foi mais longe que a consciência. Ao ir aos “trabalhadores” as pessoas viam os trabalhadores como um setor especializado da sociedade, eles aceitaram a divisão de trabalho. 

A escalada foi tão longe a ponto da formação de assembleias gerais de seções da população dentro das universidades ocupadas. Esses ocupantes organizaram suas próprias atividades.

Entretanto, as pessoas que “socializaram” as universidades não viram as fábricas como meios SOCIAIS de produção; elas não perceberam que essas fábricas não foram criadas pelos trabalhadores empregados lá, mas por gerações de trabalhadores.Tudo que eles viram, dado que isso é visível na superfície, é que os capitalistas não fazem a produção mas os trabalhadores fazem. Mas isso é uma ilusão. A Renault, por exemplo, não é em nenhum sentido um “produto” dos trabalhadores empregados na Renault, ele é um produto de gerações de trabalhadores (não apenas na França), incluindo mineiros, produtores de máquinas, produtores de comida, pesquisadores, engenheiros. Pensar que as fábricas automobilísticas da Renault “pertencem” às pessoas que hoje trabalham lá é uma ilusão. Porém, essa ficção foi aceita por pessoas que rejeitaram a especialização e a “propriedade” nas universidades ocupadas.  

Os “revolucionários” que transformaram as universidades em espaços públicos, e consequentemente em propriedade de ninguém, não estavam conscientes do caráter SOCIAL das fábricas. O que eles contestaram foi o “sujeito” que controlava a propriedade, o “proprietário”. A concepção dos “revolucionários” era que “os trabalhadores da Renault devem gerir as fábricas ao invés dos burocratas do estado; os trabalhadores da Citroen devem gerir a Citroen no lugar dos proprietários capitalistas”.  Em outras palavras, as propriedades privada e estatal devem ser transformadas em propriedade do grupo: a Citroen deve se tornar uma propriedade dos trabalhadores empregados na Citroen. E visto que essa “corporação” de trabalhadores não existe no vácuo, ela deve estabelecer maquinarias para se ligar a outras corporações, “externas”, de trabalhadores. Consequentemente, eles devem estabelecer uma administração, uma burocracia, que “representa” os trabalhadores de uma fábrica particular. Um elemento dessa concepção corporativista foi afetado pelo “modelo” das universidades ocupadas.Tão logo o sindicato estudantil foi rejeitado como o “porta-voz” dos estudantes que ocuparam a universidade, o sindicato tradicional (A Confederação Geral do Trabalho) foi rejeitado como o “porta-voz” dos trabalhadores incorporados: ”os trabalhadores devem ser representados não pela CGT; eles devem ser representados por eles mesmos,” quer dizer, por uma nova burocracia eleita democraticamente. 

Assim, mesmo na perspectiva dos ocupantes da universidade, as fábricas não deveriam ser socializadas. Desse modo, as “assembleias Gerais” dentro das fábricas não possuíam o mesmo significado que nas universidades. As fábricas deveriam se tornar uma propriedade de grupo, como as empresas iugoslavas. Tais empresas não são socialmente controladas; elas são geridas por burocracias dentro de cada empresa.
[...]

A ideia de que “os meios de produção pertencem aos trabalhadores” foi traduzida como significando que os trabalhadores são donos da fábrica em particular na qual eles trabalham. Essa é uma vulgarização extrema. Tal interpretação implicaria que a atividade particular à qual a luta pelo salário condenou alguém na sociedade capitalista é a atividade a que esse alguém estaria condenado quando a sociedade é transformada. E se alguém que trabalha nas fábricas de automóveis quisesse pintar, plantar, voar ou fazer pesquisa no lugar de produzir numa linha de montagem de carros? Uma revolução deveria significar que os trabalhadores, a partir desse momento, poderiam ir a toda a sociedade, e é duvidoso que muitos deles retornassem para a fábrica de carro particular que o capitalismo os tinha condenado a trabalhar."(Fredy Pelrman, Comitês de ação dos trabalhadores e estudantes. França, maio de 68 - Parte 2. Avaliação e Crítica. Limites da escalada).

[2] Ver, por exemplo: A recusa do trabalho - Comitato Operaio di Porto Marghera

BIBLIOGRAFIA

Link com várias referências: Referências Bibliográficas - Maio de 68 - Francês

Dossiê com vários textos: MISCELÂNEA: 1968 & depois...

Sobre a Internacional Situacionista, o movimento radical mais avançado naqueles anos, ver:
DOSSIÊ: INTERNACIONAL SITUACIONISTA

Sobre os efeitos de Maio de 1968 e a reação contra ele (cultural, produtiva, social, subjetiva, etc.), reação  que perdura até hoje, ver: 

Os estilhaços do capital – Eric Alliez e Michel Feher

sábado, 21 de abril de 2018

A escravidão dos "aplicativos" prevista em 1988

O capítulo Os estilhaços do capital do livro Contratempo - Ensaios sobre Algumas Metamorfoses do Capital, de Eric Alliez, Michel Feher, Didier Gille, Isabelle Stengers com um pósfácio de Félix Guattari, publicado em 1988, descreve as enormes transformações que a sociedade capitalista estava passando nas décadas de 1960-1980. Nele, antes da internet, dos telefones celulares e muito antes da miséria dos "aplicativos" (UBER, Airbnb, 99taxi, Fiverr, Taskrabbit, Mechnical Turk...), encontramos o seguinte trecho:

"A descentralização produtiva da indústria engloba a sua transnacionalização e também a efusão da jornada de trabalho e a difusão do seu lugar, ou seja, a difusão da fábrica pela cidade. Depois da era das manufaturas, ainda dominadas pelo ofício, e depois da era da grande indústria com suas fábricas-fortalezas que se destacam do tecido urbano e se cercam de cidades-dormitórios onde abrigam seus operários, talvez estejamos assistindo, con­forme a expressão de Jean-Paul Gaudemar, a uma terceira idade da fábrica. Esta, pelo contrário, corresponde a "um gigantesco processo de fabrilização social onde ocorrerá a fusão da dupla experiência da fábrica e da cidade". Concretamente, essa difusão assume muitas caras: multiplicação das filiais e das oficinas de subcontratação, renascimento do putting out system e do trabalho a domicílio que apagam qualquer distinção entre o lugar de trabalho e o lar dos assalariados. Essa invasão do espaço-tempo doméstico pode assumir tanto o aspecto sofisticado da telemática, quando um terminal instalado em sua casa curto-circuita o ato de assujeitamento do trabalhador e permite que a empresa o alcance a qualquer momento, quanto o aspecto mais miserável dos pequenos trabalhos a domicílio, realizados além da jornada de trabalho "normal". (Esses dois tipos de difusão da fábrica remetem, respectivamente, ao segmento primário-interno e ao segmento secundário-externo da população assalariada.) De um modo geral, a disseminação do espaço produtivo corresponde ao desenvolvimento de uma economia subterrânea ou paralela, povoada por microempresas futuristas ou arcaicas e vo­tadas a fazer o tempo supostamente "livre" render." 

O capítulo inteiro pode ser lido neste link: Os estilhaços do capital - Eric Alliez e Michel Feher


sexta-feira, 16 de março de 2018

Pequena história da violência no Rio de Janeiro - a gênese e a reprodução do tráfico de drogas armado até os dentes


O tráfico de drogas existe em todo o mundo, da Noruega até o Japão, do Canadá até o Chile, da Finlândia até a África do Sul. Em quase todos os lugares, o tráfico não anda com fuzis de assalto e muito menos metralhadoras, mas opera escondido, para chamar o mínimo possível de atenção, operando da mesma maneira como todos os demais contrabandos. 

Estudos com amostras retiradas da rede de esgoto em muitas capitais de países ricos provam que, em capitais como Londres, Barcelona, etc., o consumo de cocaína e outras drogas é altíssimo. [1] Então surge a questão: por que nesses lugares não se vê o tráfico fortemente armado que se vê no Brasil e, especialmente, no Rio de Janeiro? 

Muito pensam que o motivo disso é que o Brasil ou o Rio é um lugar amaldiçoado, ou que seus moradores por alguma natureza do lugar ou alguma falha moral incorrigível de nascimento ou cultura são levados por natureza ou ira divina a cometer crimes violentos mais que os de outros lugares. [2] Mas não é nada disso. Até meados dos anos 1970, o tráfico no Rio era como é no resto do mundo. 

Como é no resto do mundo? A polícia prende alguns (para mostrar que seu poder de prender não é nenhuma bravata) e, a seguir, ameaça prender os demais se não pagarem propina (também conhecida como "arrego"). É assim que as drogas chegam aos usuários de drogas em cidades como Estocolmo, Londres, ou mesmo Tóquio. Há quem se iluda achando que corrupção só existe no Brasil, mas a existência do tráfico em todo o mundo, inclusive nos países mais ricos e tranquilos [3], prova, pelo contrário, que a corrupção é a regra universal.Na maioria do mundo, como apenas são ameaçados de prisão, e não de morte, os traficantes não veem necessidade de se armarem e nem de entrar numa corrida armamentista com a polícia. Para não serem presos, basta pagarem polpudas propinas. A corrupção, que nada mais é do que fazer algo por medo da ameaça de punição e por esperança da promessa de recompensa, é justamente o fundamento de todas as sociedades de classes em todos os tempos e espaços, mas especialmente da capitalista, que se estrutura por inteiro no toma-lá-dá-cá sem maquiagens - a empresa, a mercadoria, o capital.

O tráfico no Rio também era como o resto do mundo. Porém, em meados dos anos 1970, militares de alta patente suspeitaram que seus filhos estavam entrando na moda "hippie" e experimentando drogas. Implicâncias domésticas ridículas com filhos mimados na hora da janta normalmente são coisas insignificantes e dificilmente alteram a história, mas visto que vivíamos sob ditadura militar, os pais militares ditadores, com pompa e lógica militar, ordenaram à polícia também militar (a melindrosa PM): "Exterminem os traficantes para nossos filhos não virarem bunda-moles!!!". [4]

Com os traficantes agora sendo ameaçados de morte e não mais de prisão, a propina extorquida deles se multiplicou. Acharam a galinha dos ovos de ouro. Para mostrarem aos traficantes que a ameaça de morte não era nenhuma bravata, operações policiais com muitas execuções ficaram cada vez mais frequentes e rotineiras nas favelas (onde matavam ao acaso qualquer morador, pois a PM só quer demonstrar aos traficantes seu poder de matar, e na opinião deles e de seus mandantes ditadores, favelado não é gente e pode ser morto à vontade), rendendo à polícia "arregos" cada vez maiores. 

No entanto, na mesma época, os militares e policiais especializados no tráfico de armamentos (na maior parte armas da própria polícia ou das forças armadas "com numeração raspada", outra parte delas era contrabandeada do exterior) perceberam o novo nicho de mercado e certamente festejaram: "Os traficantes não tem outra escolha senão se armarem tanto ou mais que a polícia, pois a única forma de reduzirem o arrego que pagam à polícia é contrapor ameaça de morte com ameaça de morte". 

Então, a cada operação policial, traficantes e policiais foram se armando cada vez mais poderosamente para matarem cada vez mais: os traficantes, para diminuírem o "arrego", e os policiais, para aumentá-lo. Isso durante 40 anos, todos os dias, tiroteios sem fim, na briga por repartir os ovos de ouro. Obviamente, todos sempre tendo a extrema delicadeza de não matar a galinha dos ovos de ouro no meio da refrega. [5]

Na década de 1980, com a explosão do consumo de cocaína, droga muito mais lucrativa que a maconha, essa dinâmica já estabelecida na época da ditadura se consolidou e se ampliou de maneira ainda mais explosiva.

Assim, nos surpreendemos que haja quem se surpreenda que, ao longo de 40 anos, as milhares de operações policiais em favelas, somando milhares de mortos, jamais tenham "resolvido" nem por sequer um instante o "problema da criminalidade", mas pelo contrário, só o tenham aumentado, multiplicando a quantidade de facções, máfias, milícias (em que a própria polícia e militares prescindem dos intermediários traficantes), a violência e a sensação de medo na cidade. 

Essa situação de violência e medo (cuja sensação é multiplicada ensurdecedoramente pelos noticiários) certamente aterroriza não só a população dos subúrbios e das favelas, mas também a classe proprietária oficial, as facções capitalistas e burocratas legais, os poderosos, que no mínimo precisam atravessar a cidade do aeroporto para à zona sul e vice-versa, passando pelo subúrbio e cruzando favelas. Além disso, essa situação provavelmente reduz os negócios e lucros da classe proprietária como um todo na cidade. Isso parece um mistério que nenhuma razão humana pode explicar, mas só uma não-humana. Apenas algum "cálculo econômico racional", como se diz, poderia explicar que a classe dominante tenha deixado intacto, desde 40 anos atrás até hoje e provavelmente no futuro, esse círculo vicioso de "tiroteio-arrego-tiroteio-arrego" que ela própria morre de medo. 

O frio cálculo econômico feito pela classe proprietária é simples mas rigoroso, ouçamo-la: 

"O Rio de Janeiro é uma Comuna de Paris em potencial mais do que qualquer outra cidade, por sua geografia em que uma grande parcela do proletariado mora em verdadeiras fortalezas verticais esculpidas pela natureza, pela proximidade entre essas imponentes fortificações geográticas e o aparato econômico e repressivo que mantém a dominação de nossa classe. Situação que também expõe literalmente à céu aberto, emoldurando o horizonte, lado à lado como que em um desenho que tivéssemos feito para explicar a quem ainda não entendeu, a privação de propriedade fruto da propriedade privada dos meios de vida e produção, a propriedade privada que se acumula graças à privação de propriedade posta para trabalhar para construir um mundo cada vez mais alienado, privado, a miséria que nasce da abundância. Então, calculamos que é melhor que, nessas fortalezas orográficas, haja capitais ilegais empregando proletários para se sacrificarem mortalmente por seus chefes em troca de um salário, capitais que são como cavalos de tróia de nossa classe introduzidos nessas fortalezas. A causa da violência será instantaneamente imaginada pelo resto do proletariado dos subúrbios como se fosse uma causa endógena às favelas, como se resultassem da simples existência de seus irmãos favelados, que já nasceriam com "maldade na alma". Os favelados se tornam os bodes expiatórios ideais, o objeto de ódio como tal. Sob constante látego emotivo de um medo aterrorizante, sempre parecerá perda de tempo e energia entender e combater a verdadeira causa do problema, a privação de propriedade, i.e., a propriedade privada, o capital, o Estado. Então, somando enfim todos os itens prós e contras para calcular o custo-benefício total da violência, é evidente que manter um grau suficiente de barbárie que provoque um medo tal que justifique a constante aceitação pela maior parte da sociedade de todo o aparato de dominação como representando o baluarte da paz e da civilização, é o preço que temos que pagar para que a sociedade de classes não seja nunca posta a perder na cidade que, por qualquer instante de negligência nossa pode irromper como a Comuna de Paris dos Trópicos."

Sem dúvida, em termos de razão humana, ou seja, em termos dos interesses universais dos seres humanos de carne e osso, esse raciocínio não faz o menor sentido e parece uma loucura digna de teorias da conspiração. Mas não é necessária nenhuma conspiração. A lógica desumana do capital não precisa de conspiradores, porque opera pelas regras impessoais, mudas e desumanas do mercado que obriga os capitalistas e burocratas de todos os Estados a sempre servirem à acumulação do capital mesmo contra a sua vontade ou opinião pessoais se não quiserem ver-se substituídos por outros capitalistas e burocratas mais eficientes que os derrubem jogando-os no inferno de se tornarem proletários. O cálculo frio do custo-benefício que guia a decisão de todos os capitalistas e Estados do mundo não decorre da opinião, consciência, vontade, nem muito menos da "bondade" ou "maldade" pessoal desta ou daquela pessoa da classe dominante, mas é exatamente o contrário: sua opinião, consciência, vontade ou perversidade pessoais é que decorre das forças mudas da mão invisível do mercado, da propriedade privada, da acumulação do capital que, se não seguirem, os joga no proletariado.

humanaesfera, março de 2018

[1] Veja, por exemplo, http://www.emcdda.europa.eu/activities/wastewater-analysis
[2] Na realidade, o Rio de Janeiro é uma das capitais menos violentas do Brasil, segundo o 11º Anuário Brasileiro de Segurança Pública. A sensação de violência no Rio decorre principalmente pela peculiaridade ensurdecedora de haver constantes tiroteios entre traficantes, polícia e máfias chamadas de "milícia", e também pelo fato de o que acontece no Rio ser reportado para todo o Brasil, ao contrário de outras capitais.
[4] E mais ainda nos países em que a retórica intransigente de repressão violenta às drogas predomina como na Indonésia e Filipinas.
[4] Em contraste com o Rio de Janeiro, onde a espiral de violência ligada ao tráfico foi disparada por essa inacreditável tragicomédia doméstico-ditatorial, pornochanchada ubuesca de muito mau gosto, na Colômbia e no México, o disparador do tráfico de drogas violento foi mais "sublime": a política de guerra às drogas dos Estados Unidos.
[5] Além do incrível documentário Notícias de uma Guerra Particular, de João Moreira Salles e Kátia Lund, há alguns livros que abordam muitas dessas coisas que tratamos no texto: 
- Fobópole - o medo generalizado e a militarização da questão Urbana. Marcelo Lopes de Souza.
- A república dos meninos - juventude, tráfico e virtude. Diogo Lyra.
- Rio de Janeiro -  histórias de vida e morte. Luiz Eduardo Soares.
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Veja também, sobre o mesmo assunto:





sexta-feira, 2 de março de 2018

Teoria comunista telegráfica


(English translation: Telegraphic communist theory)
Abaixo, uma apresentação telegráfica (i.e., concisa e direta) da teoria comunista a partir de evidências esmagadoras que podem ser verificadas por qualquer um em sua vida cotidiana em qualquer lugar do mundo (ao contrário daquelas teorias idiotas que partem de tradições doutrinárias e escolásticas). Esta é uma teoria que qualquer pessoa desconhecida na rua, no trabalho, nas filas, ônibus, trem ou metrô vai entender e desenvolver melhor do que nós mesmos. 



teoria comunista telegráfica


1
 Temos capacidades e necessidades.


2
Sem separação entre nossas capacidades e nossas necessidades é impossível que ocorra compra e venda.


3
A compra e a venda pressupõem a privação dos meios pelos quais nossas necessidades são satisfeitas por nossas capacidades. Essa privação é a propriedade privada, que nos transforma em proletários.


4
A propriedade privada assegura (graças à força repressiva do Estado) uma situação de contínua escassez, tal que a compra e a venda ocorram continuamente e não tenham fim.


5
A separação entre nossas capacidades e nossas necessidades se torna uma relação na qual só nos resta vender a única coisa que ainda temos - nossas capacidades de pensar e de agir, a força de trabalho - aos donos da propriedade privada se quisermos receber dinheiro para pagar pelas coisas que necessitamos para sobreviver (salário). Mas nem tudo é tão sombrio, pois a propriedade privada oferece também a liberdade de escolher outra opção: se tornar mendigo, morar na rua, morrer de fome, prisão....


6
Quando vendemos nossas capacidades (isto é, quando nos vendemos no mercado de trabalho), o trabalho e tudo o que produzimos com nosso trabalho pertencem à propriedade privada. Quanto mais trabalhamos, mais aumentamos a propriedade privada, ou seja, maior o fosso entre nossas capacidades e nossas necessidades, mais somos privados de meios de vida e mais somos submetidos ao poder dos proprietários.


7
Trabalhando, cada vez mais transformamos todos os aspectos do mundo em propriedade privada. Cada vez mais privados do próprio mundo em que vivemos,  mais somos expulsos deste mundo, usados e lançados na rua, na sarjeta, para depois sermos consumidos novamente, descartados outra vez e assim por diante - somos o proletariado, a esmagadora maioria da população do mundo. A propriedade privada que graças ao nosso próprio trabalho se acumula crescentemente como um poder hostil cada vez mais poderoso e desumano contra nós chama-se capital.


8
Consumidos, usados, esgotados, estressados, irritados, mutilados. ansiosos, deprimidos, vivendo sempre por um fio, estamos continuamente em contraposição existencial e material ao capital, não importando qual a nossa vontade, opinião ou consciência. Ser privado de propriedade, ser proletário, não é uma condição que escolhemos, é uma condição imposta pela existência da propriedade privada, da mercadoria, do capital, do Estado. Essa contínua contraposição existencial ao capital é o conflito que está no cerne da sociedade capitalista em todo mundo: a luta de classes.


9
A classe dominante (o empresariado particular ou estatal, burocratas, gestores...) luta para desviar e canalizar as insatisfações dos proletários direcionando-as contra outros proletários (seja colegas de trabalho, desempregados, vizinhos, proletários de outra empresa, de outro país, outro bairro, outra cor de pele, opinião, formato do nariz, sexo, costumes, gênero, língua, gosto, time de futebol...), para que seja ilusoriamente atribuída a estes, como bodes expiatórios, a causa de seus sofrimentos (estresse, esgotamento, irritação, medo de ser descartado na competição, fome, depressão, violência, escravidão, desamparo), sofrimentos que são na realidade causados pela existência da propriedade privada, do trabalho, do capital. Na competição entre proletários por se submeterem à propriedade privada (isto é, à classe dominante e ao Estado) em troca da sobrevivência, eles encontram os outros proletários como inimigos de fato, competidores reais que estão atrapalhando seu difícil esforço de sobreviver no mundo cão da propriedade privada.


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Como a classe dominante tem sido vitoriosa na luta de classes até hoje (caso contrário, a sociedade capitalista, o trabalho, a propriedade privada e o Estado já teriam sido superados), a situação descrita acima é a situação "normal" que necessariamente predomina com estardalhaço enquanto a sociedade capitalista se perpetua, uma situação em que não há classes, mas apenas "cidadãos" numa competição infernal pela sobrevivência, por propriedades, e por capital. No entanto, isso é só a aparência mais superficial: na realidade, os proletários, independentemente de sua vontade, consciência ou opinião, lutam incessantemente para trabalhar o mínimo e para que tudo o que necessitem seja o mais grátis possível, em oposição direta aos donos da propriedade privada, que lutam (também independentemente de sua vontade ou opinião) para que os proletários trabalhem ao máximo (aumentando a propriedade privada, isto é, a privação de propriedade, o capital, e seu poder de classe dominante) e para que tudo lhes seja o mais caro possível ao lhes pagar o mínimo salário que puder. Esse conflito, a luta de classes, constitui o cerne essencial da sociedade capitalista no mundo todo, um conflito que o capital se esforça de todas as maneiras para acabar (desde o "Estado de bem estar social" até a matança em massa) mas não pode.


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Essa luta que os proletários já travam contra o capital continuamente em todos os lugares na sociedade capitalista só pode ter êxito se eles, na sua práxis concreta, conseguirem destruir o que separa suas capacidades de suas necessidades, ou seja, se abolirem a propriedade privada dos meios de vida e de produção, suprimindo o trabalho, a mercadoria, o Estado e o capital. Para isso, é necessário que se comuniquem e ajam associativamente em escala mundial, fraternizando entre si contra "suas" classes dominantes em todos os lugares, suprimindo rápida e simultaneamente todas as fronteiras, propriedades privadas, empresas, empregos, desempregos, Estados, nações, identidades (que nada mais são que estereótipos), em suma, que destruam todas as condições que os coagem, contra si mesmos, a se unir às propriedades privadas e aos Estados, que estão sempre em competição e guerra entre si para que os explorados se sacrifiquem e sacrifiquem uns aos outros para defender seus próprios exploradores.


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Uma tal fraternização e associação sem fronteiras dos explorados que destrói a sociedade de classes simultaneamente em todo mundo é impossível e sem sentido se não for ao mesmo tempo a apaixonante criação universal (isto é, cosmopolita) das condições materiais em que a afirmação prática das necessidades e capacidades de cada um, isto é, a liberdade de cada um, não mais é coagida a limitar nem privar a liberdade dos outros (e de si mesmo) tal como é sob a propriedade privada (que por isso é sempre sinônimo de Estado, de polícia...), mas, pelo contrário, onde a liberdade de cada um se multiplica quanto maior for a afirmação prática das capacidades e necessidades de todos os outros, quanto maior for a liberdade de todos os outros, a imensa riqueza que é a existência de toda a humanidade, isto é, da comunidade humana mundial. O movimento mundial em que o proletariado afirma livremente as necessidades e capacidades humanas, impondo-as ditatorialmente contra a ditadura do capital, do dinheiro, da propriedade privada e do Estado, é o comunismo.

humanaesfera, março de 2018

Veja também essa série de textos que desenvolvem vários aspectos apresentados acima:

- Propriedade privada, escassez e democracia

- Contra a metafísica da escassez, copiosidade prática

- Condições de existência universalmente interconectadas/interdependentes

- Contra a estratégia

- Propriedade privada, substância do Estado



A seguir, uma bibliografia básica sobre teoria comunista (a teoria comunista verdadeira e não aquelas teorias, como o leninismo, que interpõe reformas capitalistas, isto é, a continuação do trabalho assalariado, da propriedade privada ["nacionalizada], do capital [concentrado no Estado] e do Estado, em suma, teorias que defendem a continuação da exploração em nome de um futuro distante onde supostamente exista o comunismo):

BIBLIOGRAFIA BÁSICA SOBRE A TEORIA COMUNISTA:

A reprodução da vida cotidiana (Fredy Perlman, 1969)

Capitalismo e comunismo (Jean Barrot/Gilles Dauvé, 1972)

Dois textos contra o trabalho (GCI, 1979 e 1982)

A recusa do trabalho (Comitato Operaio di Porto Marghera, 1970)

Abolição do trabalho e a questão do circuito produtivo global no comunismo (Joseph Kay / Libcom, 2008)

O mito do socialismo cubano (Kaos, 1997)


Quando as insurreições morrem (Gilles Dauvé, 1998)