sábado, 31 de outubro de 2015

Composição de classe


Abaixo, estão links para três textos fundamentais sobre composição de classe, ferramenta teórica e prática que visa favorecer o movimento autônomo do proletariado. Partindo das conexões materiais e sociais (geográficas, produtivas, educativas, subjetivas...) colocadas pela classe capitalista, o proletariado cria suas próprias conexões, sua própria autonomia de classe, podendo se tornar capaz de se opor ao capital num nível mais radical:

Definição de composição de classe - Zerowork


Notas sobre composição de classe - Kolinko


A rede de lutas na Itália - Romano Alquati

A logística e a fábrica sem muros - Brian Ashton

Teste de realidade: estamos vivendo em um mundo imaterial? - Steve Wrigh





sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Autonomia e cotidiano - Espinosa e o imperativo de Kant: "Tratar os outros e a si mesmo como fins, jamais como meios"


(English translation: Autonomy and daily life - Spinoza and Kant's imperative: "Treat others and yourself as ends, never as means" - humanaesfera)

Immanuel Kant (1724-1804) dizia [nota 1] que a ética deveria emanar, para cada indivíduo ser autônomo, de uma esfera ideal incondicional, absoluta, que seria independente e superior ao mundo relativo e mutável que é o da existência cotidiana, social e histórica de cada um. Ele chamou essa esfera ideal absoluta de "razão legisladora". Legisladora porque dita "imperativos categóricos", que são fins e deveres incondicionais. O conjunto dos imperativos formaria o que ele chama "reino dos fins", uma espécie de império supra-mundano ideal dentro da cabeça de cada um e de todos. Liberdade, para ele, é apenas se submeter e cumprir os ditames emanados dessa esfera absoluta supra-sensível, que seria o único bastião livre de paixões.

Porém, como a liberdade kantiana poderia não contradizer o mais impressionante dos seus imperativos categóricos que diz "aja de tal modo a tratar a humanidade, tanto em ti mesmo quanto em qualquer outra pessoa, nunca meramente como um meio para um fim, mas sempre simultaneamente como fim"? Pode-se discutir que "humanidade" parece sugerir um ente abstrato separado de ti mesmo e das outras pessoas, redundando em autonomia nenhuma; porém essa discussão não é a que propomos. Pode-se interpretar mais frutiferamente a frase simplesmente como "tratar a si e ao outro como fins e jamais como meios". Por outro lado, questionável é o próprio pressuposto que fundamenta a ética kantiana, porque, se a razão legisladora é incondicional, absoluta, imperativa, todos e cada um de nós não passam de relativos, meios, instrumentos, objetos, servos, dessa esfera absoluta, que é o reino dos fins em si supra-mundano. 

E na complexidade da existência prática cotidiana, social e histórica, a liberdade kantiana, com seus imperativos, pouco tem a oferecer que não admoestações moralistas, formais e ranzinzas. Isso no melhor dos casos, porque no pior, visto que praticamente ninguém leva à sério as reprimendas, surge a tentação de pôr essas "leis da razão" em prática não pelas leis da razão em si (que se revela impotente), mas por outra instância que, fora da lei e da razão, seria supostamente a única capaz de aplicá-las efetivamente - a polícia.

Existe alguma maneira de salvar o princípio de "tratar a si e ao outro como fins e jamais como meios" sem recair na contradição de fazer disso um "imperativo", que, enquanto imperativo, por definição trata os outros e quem o assume como meios para aplicá-lo? Acreditamos que sim, e que a proposta de liberdade de Baruch Espinosa (1632-1677) [nota 2] é a que permite superar essas dificuldades, iluminando perspectivas mais ricas e frutíferas dos problemas da existência prática.

Espinosa já criticava em Descartes justamente a ideia de uma razão (ou liberdade) transcendente, que seria feita de uma substância (in)diferente e superior à substância de todos nós e de nossa existência. Mas, ao criticar Descartes, Espinosa não abandonou a razão universal nem a liberdade. Muito pelo contrário, ele as radicalizou. Comecemos explicando que, para ele, a liberdade (ou razão) não é nem pode ser um decreto.

Segundo ele, cada indivíduo (humano ou não) surge e se desenvolve por uma confluência casual de infinitas determinações simultâneas que atuam a todo instante e que ele chama de "afecções". E, enquanto essa confluência de afecções sustenta sua existência, o indivíduo continua existindo. Essa é a dimensão passiva (do latim, "passio", paixão) da existência. Porém, quando passa a existir, cada indivíduo é uma determinação nova ("conatus"), uma capacidade específica, um desejo, uma potência ativa que cria novas confluências, outras relações e outras capacidades e desejos que, é claro, não existiam antes. 

Mas mesmo quando passa a existir, cada indivíduo humano continua sendo "afetado" continuamente por novas "afecções" e as experimenta como o que Espinosa chama de "afetos". Os afetos que aumentam as suas capacidades denominam-se "alegria". Os que as reduzem, "tristeza".  Mas qual a relação disso com a liberdade?

O aspecto ativo do "afeto de tristeza" é o "ódio", o desejo pela destruição daquilo que o indivíduo imagina causar a redução de suas capacidades (redução de sua existência), seja imaginando essa causa por engano ou não. Assim, a tristeza leva meramente à reação contra o que imaginamos causá-la. Apesar do que pode parecer, a reação é uma servidão diante daquilo contra que reagimos, e por isso não é uma ação livre, não é autodeterminada. O ódio se manifesta geralmente como uma agressão igual ou maior à imaginada violência original, e quando um indivíduo imagina outro indivíduo humano como causa e reage, isso costuma torná-los escravos de um círculo vicioso de represálias recíprocas e crescentes, uma espiral de reações em cadeia que ocupam uma parte cada vez maior de suas lamentáveis existências. Aliás, nada mais adequado do que a palavra "reacionário" para designar esses infelizes.

Contrariamente, o "afeto de alegria" tem como aspecto ativo o "amor", o desejo por aumentar a capacidade daquilo (ou de quem) que o indivíduo imagina aumentar suas próprias capacidades, sua própria existência. Mas quando sua imaginação se engana, e atribui como causador de sua alegria algo que não o é, o amor é ainda reação, paixão, joguete das circunstâncias,  já que se transformará em tristeza, daí em ódio, como resultado necessário do engano. Só quando atribui com conhecimento adequado, o amor deixa de ser paixão para se tornar ação, razão, transformação consciente do mundo e de suas relações com os outros. O amor, o desejo nascido da alegria, então, se manifesta como ação livre, autodeterminada, porque o indivíduo age aumentando sua própria liberdade, e isso só ocorre efetivamente aumentando a liberdade do outro e do mundo em que vive. Amar, por definição, é tratar a si e ao outro como fins em si, como seres livres, não como meios, objetos, coisas, instrumentos.

No entanto, na complexidade da existência prática cotidiana, em que predominam afecções aleatórias e cegas (paixões), os afetos de tristeza e alegria, e os correspondentes desejos de ódio e amor, se misturam e se combinam, dando surgimento a uma infinidade de afetos e desejos intermediários (Espinosa analisa detalhandamente um vasto apanhado deles: esperança, medo, contentamento, glória, irrisão, inveja, consideração, remorso, compaixão, orgulho, gratidão, crueldade, bajulação, desprezo, audácia, despeito, modéstia, vergonha, generosidade...) pelos quais os indivíduos humanos, fora alguns poucos sortudos, se engajam num emaranhado de reações em cadeia que só reduz ainda mais as suas próprias capacidades e aumenta sua servidão [nota 3]. 

Gostemos ou não, é nesse emaranhado que se passa nossa existência cotidiana, social e histórica, em que existimos mais como objetos, que reagem tão previsivelmente às afecções quanto robôs, do que como seres autônomos que transformam sua existência. As admoestações, as reprimendas, as raivinhas, as culpabilizações, as ladainhas não só são hipócritas (porque ninguém está fora dessa confusão), mas colocam ainda mais lenha na fogueira, já que só sabem pedir e apoiar uma servidão ainda maior (por exemplo, sonhando com uma grotesca violência invencível e incontrolável que acabe com a própria violência: um capataz, um diretor, um rei, um inquisidor, um super-herói, um deus, o karma, o inferno, o fim do mundo, uma invasão alienígena...).

Onde está então a liberdade e a razão nesse emaranhado escabroso? É claro: liberdade é agir, ser protagonista, tornar-se sujeito e não objeto. E para ser livre, é preciso compreender as causas específicas dos afetos e desejos que temos, conhecer as afecções (as circunstâncias) que nos afetam, porque só conhecendo-as podemos transformá-las efetivamente, aumentando as capacidades, nossas, dos outros e do ambiente em que vivemos. Mas a liberdade não é um decreto. Ela surge com experiências, uma confluência específica de afecções, que nos faz experimentar certa alegria que aumenta tanto nossas capacidades de pensar e agir que nos permitem, por sua vez, agir sobre as próprias afecções transformando-as conscientemente, isto é, modificando as circunstâncias

Assim, o procedimento dos reacionários, que se resume a apontar "culpados", bodes expiatórios, "pessoas com vontade má", além de inútil, causa ainda mais ódio e reação. O erro de outro indivíduo, ou mesmo sua violência, não pode ser combatido por decreto, porque isso não faz senão transferir a violência para outro âmbito ainda mais violento e sem controle, como o poder e a hierarquia (hoje ungidos com a lamentável superstição da meritocracia, da "mão invisível" da guerra de todos contra todos chamada mercado, e da idolatria chamada Estado). O que é efetivo para combater o erro, e especialmente a violência, é apontar a esse indivíduo experiências que o permitam compreender que, se ele reduz os outros indivíduos a objetos, meios, é porque ele próprio se comporta ridiculamente como um robô, porque seus atos, que ele pensava ser livres, são meras reações completamente previsíveis às afecções que lhe ocorrem, o que faz automaticamente o ódio (e a servidão decorrente dele, a reação) ocupar a maior parte de sua existência. Em suma, contribuír para fazê-lo compreender as afecções que o afetam é o único modo de ajudá-lo a deixar de ser objeto, mudá-las e transformar ativamente a sua vida, única condição para que passe a tratar a si e aos outros como fins em si e não como meios.

E a razão? Se a razão for entendida como decreto (como em Kant), ela se resume a uma emissão de imperativos, reprimendas, que, embora muitos (ou mesmo todos) de nós possamos categoricamente concordar, praticamente ninguém pode nem quer seguir de fato na vida cotidiana. Isso porque todo decreto busca burramente passar por cima da confusão concreta que é a nossa existência prática cotidiana, social e histórica, contribuindo, na verdade, como um elemento a mais, até multiplicador, no emaranhado de reações, de servidões. 

A única razão universal que pode ser efetivamente assumida e posta em prática, então, só pode ser um tipo de alegria, um tipo de amor que seja mais apaixonante do que as reações. Um amor pela autonomia, pela liberdade, pelo conhecimento, ou seja, pela virtude como algo desejado por si só, universal, livremente acessível à todos para desfrute e alegria generalizados. Decorre da razão, consequentemente, o projeto de transformar a vida cotidiana, social e histórica no sentido universal de que todos possam desenvolver suas capacidades livremente, como seres autônomos, ou, em outras palavras, a finalidade de suprimir todas as condições que levem seja que indivíduo for a aceitar ser tratado como objeto, como instrumento,  meio para um fim alheio.

Concluindo: O que está em jogo é a nossa capacidade de, nesse mundo que é um emaranhado servil de reações cegas, sermos efetivamente capazes de criar e propagar a razão e a liberdade. Para isso, vimos que um imperativo ou decreto só traz mais servidão, enquanto que provamos que só podemos propagar a razão, a virtude e a liberdade se, na vida cotidiana, provarmos que são válidos por si sós, ou seja, como amor, alegria. 

humanaesfera, outubro de 2015

NOTAS:
[nota 1] No livro Fundamentação da metafísica dos costumes.

[nota 2] Aqui tratamos especificamente da proposta de liberdade naquilo que Espinosa chama de "segundo gênero de conhecimento", exposto em Ética demonstrada à maneira geométrica, partes III, IV, V e VI.

[nota 3] Essa mistura confusa, por exemplo, explica o vício: um indivíduo imagina como causa do aumento de suas capacidades [isto é, de alegria e, portanto, amor] algo que na realidade aumenta uma parte limitada e temporária de suas capacidades [por exempo, a capacidade de ficar super-ativo ou super-relaxado, como os efeitos de certas drogas] mas que reduz suas capacidades como um todo e a longo prazo, causando tristeza e, portanto, ódio e, consequentemente, tornando-o um escravo.


Continuação destas reflexões éticas
Contra as recompensas e punições (contra a meritocracia, contra a coerção) (2014)
Autonomia, espiral de violências e apelo à força (i.e. à classe dominante) (2015)
Dissecando a metafísica da escassez (2017)
Materialismo (2014)
Pequena crítica antimoralista da dominação (crítica à idéia de "servidão voluntária") (2011)
Propriedade privada, escassez e democracia (2014)

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Autonomia, "classe média" e auto-abolição do proletariado

Continuação das reflexões do texto Ação direta VERSUS trabalho de base

Antes de tudo esclareçamos que a ideia de "fazer as pessoas lutarem" é não só presunçosa, mas completamente equivocada.

A existência dos proletários já é ação, já é luta, e eles já estão tão auto-organizados quanto está sob seu poder neste momento combater a classe dominante (composta por burguesia e burocracia, e seus órgãos de poder: Estado, empresas, sindicatos, ongs e partidos). Estamos em ação, em luta, independentemente de termos ou não consciência disso.

A todo momento, conforme o grau da capacidade de agir do proletariado,  ele, por si só, se vale de órgãos auxiliares (órgãos que ele cria ou, se a capacidade de agir é reduzida, órgãos pré-existentes, que são os da classe dominante - sindicatos, partidos, direito - que ele tenta utilizar a seu favor contra a própria classe dominante, que, por medo de uma explosão, pode ceder, como válvulas de alívio). Órgãos que são meios de aumentar sua capacidade prática. Orgãos cujas tarefas devem ser, para eles, específicas e explícitas (por exemplo, os conselhos de trabalhadores e soldados, os sovietes, tem a tarefa de coordenar a execução de tarefas entre bairros, cidades, países, continentes contra os órgãos da classe dominante que também coordenam sua ação contra nós nesses âmbitos) e que devem ser dissolvidos quando a tarefa é finalizada ou derrotada, para que não sejam mantidos como múmias cuja carniça, avidamente disputada por uruburocratas, só serve para alimentar estes inimigos.


No entanto, os proletários, por maior que seja sua autonomia, são contraditórios. Neles se encontram duas tendências em tensão: uma delas é sua afirmação como capital variável, ou seja, vendedores/compradores tanto quanto a classe dominante é vendedora/compradora (daí a aparência de existir apenas "classe média", infinitamente subdivisível desde alta alta alta até baixa baixa baixa, cada grau imaginando-se protegido pela polícia contra os graus inferiores), afirmação de sua posição de assalariados, mantenedores do status quo, do Estado e do capital. Mas como na realidade os proletários não possuem nenhuma mercadoria para vender a não ser a si mesmos (no mercado de trabalho), há a outra tendência, que é a sua afirmação como classe autônoma, como proletariado, a classe daqueles que não possuem mercadorias (que não tem nada a perder a não ser as correntes que o aprisionam) e cuja praxis é o comunismo (auto-abolição do proletariado, pela supressão da sociedade de classes e o Estado).

Por isso, a capacidade de agir dos proletários, sua autonomia, que eles sempre possuem em algum grau, é uma tensão, e toma contraditoriamente partido de duas direções: uma é reacionária e a outra é comunista. A única tendência cujos órgãos podem se tornar "duradouros" e de "longa duração" dentro da sociedade atual é a reacionária (daí a recuperação dos órgãos, como os sovietes, pela classe dominante, e a burocratização), pois sua permanência supõe a adequação à continuidade do proletariado como sustentáculo da sociedade de classes e do Estado (os proletários podem até mesmo afirmar radicalmente sua autonomia como capital variável, autogerindo sua própria exploração e repressão). A outra tendência, a comunista, só pode ter êxito quando numa dinâmica de rápida e crescente expansão, ultrapassando subitamente as fronteiras nacionais e divisões identitárias, estabelecendo desde o princípio o modo de produção comunista, o livre acesso aos meios de produção e de vida. E isto só pode ter êxito se toma os fluxos e estoques do circuito produtivo mundial, abolindo a economia ("ordem emergente" do mercado, que reflete não as necessidades humanas mas o poder de compra e o lucro), para submetê-los às necessidades humanas, ao poder dos indivíduos livremente associados que abolem as classes e o Estado.

Portanto, quando afirmamos a teoria comunista, não é que queiramos levar seja quem for à luta, mas sim afirmar a tendência comunista das lutas que todos os proletários do mundo já estão fazendo pelo simples fato de existirem. A expressão da teoria é espontânea, porque não parte de outro ponto de vista senão da condição problemática, contraditória, que constitui o proletariado em todo o mundo, sendo que nós mesmos, que nos dedicamos à essa teoria, sofremos a contradição como todos os demais proletários em nossa prática cotidiana. Quando a expressamos, sabemos que não somos "mais" do que ninguém, até porque somos plenamente conscientes de que ela jamais vai encontrar ressonância e ampla difusão, e permanecerá parecendo um  delicioso delírio megalomaníaco (delícia que é uma das razões pela qual nos dedicamos a ela),  enquanto os proletários, em sua prática, continuarem sendo forçados predominantemente ao lado reacionário (o de serem capital variável, "classe média") de sua luta. Se o lado comunista predominar, a difusão vai se fazer sem a necessidade de nenhum "trabalho de formiguinha" ("trabalho de base"), porque ela será apropriada espontaneamente, grandemente desenvolvida e difundida por cada proletário empenhado em abolir a venda de si mesmo e que busca entender sua situação para poder agir de forma mais poderosa.

Humanaesfera, agosto de 2015

Bibliografia:
Crise e Autogestão (Négation, 1973)
Capitalismo e comunismo (Jean Barrot/Gilles Dauvé, 1972)
O «renegado» Kautsky e seu discípulo Lênin  (Jean Barrot, 1969)
Leninismo e Ultra-esquerda (Jean barrot & François Martin, 1972)
Composição de classe (Zerowork, 1975)
Notas sobre Composição de Classe (Kolinko, 2001)
A Impotência do Grupo Revolucionário (Sam Moss, 193?)
Sobre Organização: As Gangues (dentro e fora do Estado) e o Estado como Gangue (Jacques Camatte & Gianni Collu, 1969)
Origem e função da forma partido (Programma Comunista, 1961)
A revolução não é tarefa de partido (Otto Ruhle, 1920)

domingo, 30 de agosto de 2015

O Fetichismo das Mercadorias


Com legendas em português. Capítulo O Fetichismo das Mercadorias do livro A Reprodução da Vida Cotidiana, de Fredy Perlman.




quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Abolição do trabalho e a questão do circuito produtivo global no comunismo



Traduzimos alguns trechos extraídos da intervenção de Libcom no debate "Parecon or libertarian communism?" ("Economia participativa ou comunismo libertário?"):

A ABOLIÇÃO DO TRABALHO

"Ao invés de generalizar o trabalho para medir ´com justiça´ o esforço feito na sociedade como um todo e pagar proporcionalmente, nós buscamos o movimento oposto: generalizar a atividade humana que vale por si mesma, negando a necessidade de incentivos ou sanções, negando o sistema salarial."

"Essa generalização da atividade além da medida é o que chamamos de abolição do trabalho e da economia como uma esfera separada da vida social. A objetivo é eliminar o trabalho como uma categoria separada de atividade humana, fazendo a atividade produtiva ser satisfatória por si só. Assim, por exemplo, poderemos usar a tecnologia não apenas para aumentar a produtividade, mas também para reduzir o esforço, o tempo de trabalho, etc., porque a produção será um assunto  social, e atenderá diretamente e de forma transparente as necessidades sociais. O objetivo é a abolição do trabalho, não a sua democratização."

"Além disso, uma sociedade que [como a economia participativa] faz da recompensa do esforço e do sacrifício um princípio fundacional não oferece nenhum incentivo para reduzir o esforço e o sacrifício. Assim como hoje, os trabalhadores buscariam esconder as inovações que reduzem o trabalho, a fim de maximizar suas recompensas (dado que eles perderiam se revelassem ter descoberto um modo de fazer as mesmas tarefas com menos esforço). Por exemplo, se eu fizesse X tarefas  e ela me desse Y créditos para sobreviver, eu não gostaria de ver a queda no meu padrão de vida simplesmente porque eu (ou outra pessoa) inventei uma nova forma de fazer a tarefa mais facilmente. Em contraste, sem salário, veríamos a redução do esforço e do sacrifício, junto com a sustentabilidade ecológica, se tornarem as forças motrizes do desenvolvimento sob o comunismo libertário (ou seja, manifestações concretas de 'necessidade' na máxima ´de cada um conforme as suas capacidades, a cada um segundo suas necessidades')."

"A remuneração pelo esforço e sacrifício incentiva a mentir e enganar, já que os indivíduos podem se beneficiar tanto por meios sujos quanto como honestos. As possíveis soluções para isso (teste mandatório etc) apenas criaria uma outra camada desnecessária de tarefas tecnocráticas,  mais preocupada em monitorar os trabalhadores do que em satisfazer as necessidades humanas".


O CIRCUITO PRODUTIVO GLOBAL NO COMUNISMO

"Em contraste [com a ideia de planificação central], propomos a "produção por empuxo" ["pull production", que contrasta com a "push production", "produção por empurro"], que significa produção  em resposta ao consumo; a medida que os estoques vão sendo consumidos, isso sinaliza automaticamente a produção para reabastecê-los, 'puxando' bens através da rede logística [supply chain]. Como se percebe, não se trata da mão invisível do mercado, até porque não há dinheiro, preços e nem troca. Nossa crítica ao planejamento central não é apenas que  ele exclui a maioria de elaborar o plano (embora essa crítica seja correta, ela é limitada), mas que a própria ideia de planificar centralmente metas (cotas) para algo tão dinâmico como uma sociedade de bilhões é fundamentalmente falho, tanto em termos práticos como epistemologicamente.

Consequentemente, vemos o planejamento social racional ocorrendo pela definição da prioridade de setores e bens/serviços, desde os essenciais até o luxo. Os volumes exatos de produção  são, então, determinados localmente em resposta ao consumo, com  a alocação de recursos determinada pela prioridade relativa das indústrias, produtos e serviços em questão. Desse modo, a macro-ordem em termos de volumes reais de produção é emergente e não planificada, embora possa surgir de acordo com as prioridades do plano decidido socialmente (ao contrário da ordem emergente dos mercados, que simplesmente reflete o poder de compra e o que é lucrativo produzir, ao invés do que é necessário, ou a ordem emergente da evolução biológica, que reflete nada mais do que aptidão reprodutiva).


Os meios pelos quais nós pensamos que este processo de planejamento social deve acontecer é através de estruturas de conselhos, por delegados com mandatos revogáveis ou rotativos definidos em assembleias para tratar das decisões de alocação de recursos de acordo com as prioridades do plano social. Pode haver outras maneiras de fazer isso incorporando tecnologia (como por exemplo, qualquer pessoa ser capaz de acessar um banco de dados para atualizar suas preferências individuais, atualizando automaticamente o plano social). No entanto, uma tal base de dados em larga escala seria sem precedentes, e em qualquer caso, há provavelmente benefícios em ter discussões cara-a-cara em conselhos, em vez de escolhas individuais atomizadas. Nós estamos de mente aberta para meios melhores, mas uma estrutura de conselhos parece um bom ponto de partida."



Continuação das reflexões deste texto: 

 Fundamentação teórica: 
Propriedade privada, escassez e democracia 

 Perspectiva prática: 




sábado, 8 de agosto de 2015

Concorrência e monopólio


Não existe concorrência sem monopólio, porque a concorrência em si já pressupõe privação de propriedade, ou seja, escassez. Escassez é simplesmente uma situação em que a satisfação de um exclui a satisfação do outro. Portanto, concorrência, por definição, é sempre pelo monopólio para si e pela privação para o outro. Concorrência e monopólio são apenas adjetivos da propriedade privada e não existem sem ela.

Graças à propriedade privada, quanto maior a escassez e necessidade, maior o lucro, porque mais caro é possível cobrar em pagamento. 

O "empreendedor de sucesso" é aquele que, depois de concorrer, consegue ao fim monopolizar, isto é, privar, reproduzindo numa escala sempre maior a escassez e a necessidade.

Alcançando o monopólio, o lucro da empresa se multiplica e parece surgir do nada  (super-lucros), como se fosse desproporcional ao trabalho feito dentro dela. Na realidade é o resto da sociedade que, pagando caro, trabalha de graça  (sobre-trabalho) para aquele proprietário. E também, o novo monopólio pressiona os antigos concorrentes, que, desesperados, impõem que os proletários trabalhem ainda mais para tentar compensar seu crescente fracasso no mercado frente ao vencedor. 

Por diversas vias, o sobre-trabalho (trabalho não pago) que os proletários são açoitados para fazer por todos os proprietários concorrentes flui como mais-valia para os proprietários com mais sucesso na concorrência pela monopolização sob a forma de super-lucros  - o sonho de todas as empresas concorrentes.

No entanto, a concorrência (que sempre é pelo monopólio) nunca acaba, porque sempre podem surgir novos concorrentes com novas máquinas e mercadorias que buscam suplantar os monopólios, embora estes, por terem já anteriormente acumulado super-lucros, sempre estejam numa posição vantajosa para investir em inovação e desenvolvimento de máquinas e produtos frente aos novos concorrentes. 

Essa dinâmica entre monopólio e concorrência explica como funciona todo e qualquer tipo de mercado (troca, inclusive escambo), e todos os tipos de capital que dele decorrem automaticamente: 

-capital rentista (que vive de rendas, monopolizando patentes, copyright, royalties, imóveis, terrenos); 

-capital comercial (que monopoliza rotas comerciais para poder comprar barato e vender caro)

-capital financeiro (que empresta para receber com juros, porque o banco tem o dinheiro o que outros não tem), e  

-capital industrial (que é a propriedade privada das condições de existência da população, que força a classe proletária a se oferecer como objeto de consumo no mercado de trabalho  à classe proprietária em troca do salário).

humanaesfera, agosto de 2015


quinta-feira, 30 de julho de 2015

Condições de existência universalmente interconectadas/interdependentes

(English translation here)


O site The Observatory of Economic Complexity permite ter uma noção de como nossas condições de existência - ou seja, as condições materiais de nossa vida, desde medicamentos, alimentos, até smartphones -  são interligadas e interdependentes em escala mundial.  O site evidencia que é uma total fantasia a ideia de auto-suficiência doméstica, comunitária, municipal ou nacional, porque as condições de nossa existência, mesmo no nível atual (que é muito melhor do que no passado, apesar da pobreza ainda para a maioria), pressupõem em todo o lugar a combinação de materiais e produtos de várias cidades, países, continentes... 

Essa simples constatação torna claro que defender "identidades", "nações", "etnias", "comunidades", "países", "autarquias", "territórios autônomos" e "zonas autogeridas" é o mesmo que reivindicar o estabelecimento de novas propriedades privadas e, consequentemente, de novos capitais e novos Estados. Eis o porquê:

1) para sobreviver, cada uma dessas "autarquias" precisará adquirir os materiais e produtos de que é privada; 

2) sendo privada desses materiais e produtos (isto é, é uma propriedade privada), terá necessidade de comprá-los;

3) mas para comprar, é preciso vender - vender alguma coisa (troca, tanto faz se por escambo, dinheiro etc);

4) vender coisas requer encontrar compradores, ou seja, concorrer no mercado por "sucesso"  - sucesso que nada mais é do que derrubar os concorrentes para alcançar o máximo de monopólio;

5) para concorrer no mercado é necessário impor, dentro da propriedade privada, que se trabalhe  jornadas e intensidades no mínimo tão brutais quanto os concorrentes (geralmente concorrentes com um grau muito maior de automação da produção), para que seus produtos tenham um preço e/ou qualidade "concorríveis";

6) impor tais  jornadas e intensidades de trabalho exige uma hierarquia, para aplicar punições e recompensas aos trabalhadores a fim de que essas "metas" sejam alcançadas por eles. Ou seja, serão obrigados a recriar na prática algo que tem a exata função de capitalista, para poder sobreviver e não falir (mesmo que essa função de capitalista seja uma comissão "livremente" escolhida em assembleias e em  autogestão);

7) e se a propriedade privada "autárquica" tiver enfim "alcançado sucesso" - monopolizando o mercado - a jornada e intensidade de trabalho até poderão ser relaxadas no interior dessa propriedade, porque a pressão da concorrência acabou. Porém, isso significa meramente que ela é um parasita sustentado pelo trabalho dos demais proletários do mundo, que são forçados a trabalhar para ela (direta ou indiretamente), única maneira de comprar esses produtos, monopolizados por ela.


Conclusão: tudo isso demonstra que é imprescindível uma perspectiva internacionalista (anti-nacionalista e anti-comunitarista). Lutar por nossa liberdade e autonomia é lutar por expandir as capacidades humanas de pensar, desejar e agir - jamais lutar por reduzi-las e limitá-las. 

Os produtos, luxos, tecnologias e facilidades que a burguesia costuma atribuir ao "capitalismo", ao "mercado", ao "Estado", à "propriedade" e ao "seu trabalho", são na verdade frutos das capacidades humanas, isto é, de nossas capacidades, da humanidade. Ao abolir a propriedade privada das nossas condições de existência universalmente (planetariamente) interconectadas e interdependentes, superando a troca e a economia, transformaremos essa interconexão em condições práticas (meios de produção) universalmente e livremente acessíveis a qualquer um no mundo que queira satisfazer por si mesmo (ou com quem mais quiser) suas inclinações, desejos, projetos, necessidades, pensamentos, paixões.  A verdadeira liberdade e autonomia pressupõem o comunismo, isto é, o fim da propriedade privada e o estabelecimento da verdadeira propriedade, que é a propriedade comum humana, pelos indivíduos livremente associados, sobre as condições materiais universalmente acessíveis de sua livre auto-realização, satisfação, e expressão, a comunidade humana mundial. 

Para este fim, é útil estudar essas interdependências e interconexões mundiais: como as coisas são hoje produzidas, armazenadas e transportadas pelo mundo e o fluxo informacional que coordena tudo isso? Por exemplo as "supply chains" (redes logísticas). Também é útil conhecer e atualizar as obras que foram fundo nessa perspectiva: por exemplo, as utopias de Joseph Déjacque (Humanisfera), Alexander Bogdanov (Estrela Vermelha), Constant Nieuwenhuys (Nova Babilônia), as obras de Jean Barrot (Gilles Dauvé), Piotr Kropotkin, da Internacional Situacionista, dos autonomistas (autonomia operária) sobre os fluxos materiais que constituem a composição de classe, etc.

humanaesfera, julho de 2015


Textos relacionados:




Continuação das reflexões deste texto: 

 Fundamentação teórica: 
Propriedade privada, escassez e democracia

 Perspectiva prática: 


sexta-feira, 24 de julho de 2015

O capital num rápido histórico


O capital comercial já era poderoso militarmente inclusive na antiguidade. A Grécia, por exemplo era uma talassocracia, em que o comércio, a pirataria e a guerra eram fundamentais (Aristóteles falava em crematística, a arte de multiplicar dinheiro). O comércio marítimo já era capitalista, mas a produção era ainda pré-capitalista. Assim, o capital existia, mas de maneira marginal como pilhagem exterior aos meios de produção, dos quais a população (mesmo os escravos*) não era separada. É claro que, com as armas de fogo (ao fim da Idade Média), o capital comercial ficou cada vez mais poderoso (em sequência, os impérios: Veneza, Gênova, Espanha, Holanda e Inglaterra), porém isso foi apenas uma questão de grau, e o capital comercial permaneceu capital comercial (esse "capitalismo" se resumia a entrepostos comerciais, concentrados em algumas cidades-estados, que controlavam militarmente rotas comerciais através de companhias, i.e, empresas militares, como a VOC). 


Completamente diferente é o capital industrial, que é novidade na história (século XVIII). Este tipo de capital é o que tomou a produção a seu cargo (subsunção formal e depois real). Isso só foi possível com a sistemática separação da população de suas condições de produção (primeiramente num lugar preciso, a Inglaterra, depois, no resto do mundo), de modo a haver um exército de infelizes sem nenhum meio de sobreviver senão vendendo a si mesmos (proletariado). Com essa separação, o capital industrial fica livre para revolucionarizar incessantemente a produção (manufatura, grande industria, gestão científica do trabalho, logística, transporte, automação, robótica...), e se expandir tanto extensamente, para o mundo todo (impondo pela concorrência a revolucionarização incessante e proletarização por toda parte), quanto intensamente, ao ir transformando campos cada vez mais radicais da existência humana em capital industrial (por exemplo, novas necessidades, até "educação", "cultura", "amor"...).


Assim, o mercado e a valorização incessante só se tornam sistematicamente "relevantes" com o aparecimento do proletariado, que é obrigado a comprar tudo o que necessita, já que não tem meios de vida, e é obrigado, para poder comprar, a vender a única coisa que possui, ou seja, a si mesmo, oferecendo-se como objeto de consumo (força de trabalho) no mercado de trabalho, que o capitalista só emprega evidentemente se ele produzir mais do que custa (mais-valia). Antes do capital industrial, ou seja, antes do proletariado, o mercado e a valorização só eram "relevantes" em circunstâncias pontuais, acidentais, não-sistemáticas (por ex., a Grécia era uma terra infértil, daí a importância do comércio, ou um ou outro indivíduo era banido pelos senhores de suas terras e ia servir nos navios do capital comercial).


Resumidamente: o capital industrial, ao privar os seres humanos de suas condições de existência (fazendo surgir o proletariado), força a humanidade a se sujeitar e oferecer as capacidades humanas como coisas, objetos de consumo. Pois, privados de suas condições de existência, eles só podem exercer suas capacidades quando alienadas, vendidas, ou seja, apenas quando trocadas por uma dada soma de dinheiro (trabalho assalariado). O dinheiro se torna equivalente à potência humana, enquanto os seres humanos se tornam impotentes como simples seres humanos, impotentes como indivíduos. Portanto, aqueles que mais tiverem dinheiro mais terão sob seu ditame a potência criativa da população, e poderão consumi-la, pô-la para trabalhar, desgastando-a até o osso, para gerar ainda mais dinheiro, lucro, num círculo de acumulação constante e sem limite. Este é o capital - uma relação social que  impulsiona a si mesma a se reproduzir numa expansão cega e arrasadora, como se fosse um fato natural, involuntário, coisal, para os indivíduos envolvidos, pois estes pensam estarem apenas se relacionando entre si como pessoas livres e iguais que trocam mercadorias uns com os outros (todos agem como "classe média": vendedores e compradores em concorrência - uns com mais "sucesso" na venda e/ou compra, outros com menos e ainda outros com ainda menos e por aí vai). 


Mas a história não acaba aí. Não nos enganemos com o papo furado das "classes médias". Hoje numa escala muito maior do que no passado, a privação das condições de existência dos seres humanos para eles mesmos continua forçando-os, sob a ameaça de não ter como sobreviver, a ter que vender as capacidades criativas humanas como uma coisa e exercê-las transformando o mundo contra si mesmos. A luta por tomarmos nossas condições de existência, a luta por efetuarmos nossas capacidades como nós mesmos, como indivíduos livres em associação através do mundo, ou seja, a luta pelo fim da propriedade privada (pelo fim do capital e do Estado), continua o projeto social mínimo chamado anarquia, comunismo, livre associação dos produtores. 


Humanaesfera, julho de 2015


* O escravo produz um excedente - afinal ele sustenta a casta senhoril. A diferença é que este excedente não precisava ser necessariamente vendido (pois só se torna mais-valia quando vendido) e muito menos o senhor necessitava que essa venda fosse lucrativa, uma vez que o objetivo primário dos senhores ao ter escravos era satisfazer suas necessidades, com ênfase em luxo dispendioso, festas luxuosas para dar-lhe status - em suma, despesas improdutivas do ponto de vista capitalista.
Há uma tendência no capitalismo para automatizar o trabalho, transformando coisas que antes eram feitas por humanos em funções automáticas. Isso causa desemprego e nos força a ter que procurar trabalhar ainda mais por ainda menos. Face a isso, a singela exigência do proletariado é: a máxima automatização de tudo e a propriedade comum de tudo o que é automatizado.



sexta-feira, 12 de junho de 2015

Autonomia, espiral de violências e apelo à força (i.e, à classe dominante)


Frente a uma violência, é natural, compreensível, humano, que os agredidos ou vítimas reajam com ódio. Emocionados, o agredido e/ou os que se compadecem com a vítima tendem a reagir recorrendo a uma violência igual ou maior (a deles mesmos, a de uma gangue, de um gerente, da polícia, do direito ou mesmo a de um monarca cósmico absoluto imaginário). Isso pode iniciar uma espiral de represálias recíprocas que multiplica a violência e foge ao controle de todos. Até o ponto de ninguém mais se lembrar do motivo inicial, tornado irrelevante pelas sucessivas violências mútuas que se agravam cada vez mais. Tentar reparar um dano com outro dano multiplica os danos e, em última instância, faz de cada um o causador dos danos feitos a si mesmo mediante os outros, numa corrida armamentista que escraviza a todos.

Há quem argumente que, para interromper esse ciclo, é preciso "compaixão" ou "empatia": nos compadecer com a dor do agressor porque na verdade ele teria sido antes vítima de outro agressor e assim sucessivamente, ad infinitum. Porém quem diz isso esquece que a empatia é a própria causa da espiral de violência (sob a forma de indignação). O erro do argumento da empatia é que "empatia de amor" e a "empatia de ódio" são igualmente emoções -  e emoções são reações espontâneas (se não forem, são falsas emoções), ou seja, não dependem de nenhum argumento.

Sem dúvida, a paixão é o que nos move e não há como escapar disso. O que fazer então? Uma possível resposta é dada pelos filósofos ultra-iluministas Benedito de Espinoza e Jean Meslier: entre as paixões humanas está a paixão pela liberdade - a razão. A razão é ação, e não reação (todas as demais emoções não passam de reações), porque ela busca modificar as causas, não reagir aos efeitos; busca transformar as condições de existência, e não escolher entre caminhos pré-estabelecidos; busca subverter o status quo, o tabuleiro, não mover mais uma vez as peças de um jogo suicida e escravizador. A questão é: a paixão pela liberdade, pela autonomia, é capaz de superar as outras emoções?  E como agir, isto é, como criar um ambiente onde as emoções possam se expressar da maneira mais enriquecedora e feliz possível?

Seja como for, quando ocorre uma violência, se queremos evitar o surgimento de uma espiral de violências - que só serve para suprimir a autonomia e legitimar o poder da classe dominante, ou seja, a adesão à falsa garantia dada por alguma violência ainda mais ameaçadora, tal como a gangue, o gerente, a polícia, o direito, as forças armadas e o Estado -, só nos resta abandonar toda e qualquer ideia de punição (e recompensa), porque, como vimos, ela não tem o menor fundamento, é pura irracionalidade. * 

É preciso ao menos que saibamos ser concretos: 

- Quem agrediu pode agredir outra vez? Em outros termos: a agressão dele é um hábito? E se é um hábito - um vício -, ele poderia (ter liberdade para) não agredir da próxima vez? 

- Mas se ele teve liberdade para escolher agredir, que razão o motivou a fazer isso? A agressão foi motivada por algo transitório, improvável de se repetir? Ou motivada por algo constante ou repetível? Como atacar esse motivo?

- Se a agressão dele é um hábito, o que fazer? Isolá-lo, para que não voltemos a sofrer agressões dele? Mas como ajudá-lo a se libertar do hábito de agredir que o escraviza? 

- E o agredido, como tratá-lo?

Em suma, questões materialistas práticas incontornáveis.


humanaesfera, junho de 2015
Nota:
* Falar em "livre arbítrio", "intenção", "vontade", "falta de vontade",  não só é perfeitamente inútil e oco mas extremamente nocivo. O apelo à vontade serve apenas para atribuir culpa, causando ainda mais raiva e ressentimento. Quando buscamos parar de fumar, por exemplo, a vontade não é nada "em si", porque o que determina essa vontade é, não ela mesma, mas as paixões de parar de fumar (que pode ser uma paixão pela autonomia que parar de fumar trará) frente às paixões cada vez mais tristes (servis) de continuar fumando (prováveis doenças, interrupção constante das atividades para suprir o vício, mau cheiro nas interações sociais etc.). Se a vontade é algo, ela não passa do hábito - que é uma paixão "animal", pavlovianamente adestrada - de se focalizar para alcançar qualquer fim, seja ele qual for. Enquanto os fins sempre são formados pelas livres interações, combinações ou associações das paixões, nunca pela "bestial" vontade "em si".

Bibliografia:
Reflexões sobre as causas da liberdade e da opressão Social - Simone Weil
- Ética - Benedito de Espinoza
- Ateismo e revolta: os manuscritos do padre Jean Meslier - Paulo Jonas de Lima Piva
Le Humanisphère - Joseph Déjacque


Ver também:  

sábado, 2 de maio de 2015

Ação direta VERSUS trabalho de base

"A consciência não é senão o ser consciente, e o ser dos homens é o seu processo real de vida. [...] Não é a consciência que determina a vida, é a vida que determina a consciência. No primeiro modo de consideração, parte-se da consciência como indivíduo vivo; no segundo, que corresponde à vida real, parte-se dos próprios indivíduos vivos reais e considera-se a consciência apenas como a sua consciência." (K. Marx)
Um sinônimo para heteronomia do proletariado? Eis: trabalho de base. Pseudo-práxis tão oca, tautológica e vazia que não passa da repetição incessante da exortação a um dolorido, árduo, interminável, confrangente... trabalho de base. *

O ativista, o militante, quer  ação.  Ao contrário dos  não-militantes,  ele se vangloria por ele, ele sim, agir. O erro começa aí: imaginar que existe ou possa existir alguém que "não faz nada". Se existimos, agimos. Não é preciso esperar uma panelinha de militantes com seus  "trabalhos de base" e "inserções sociais" para agir e se solidarizar com os demais. 

A ideia de trabalho de base é indefensável, porque é intrinsecamente heteronômica. Mas o militante autonomista pretende lutar pela autonomia do proletariado. Como alguém que alega agir - isto é, alega que os outros não agem - pode  agir se não supor agir sobre os outros (trabalho sobre a base)? Então, o militante autonomista entra em parafuso, e, para se recompor, apresenta-se como meio, instrumento, e não como fim - ele renuncia aos próprios desejos (objetivos, ideias, finalidades, que menoscaba como meras utopias), porque acha que assim respeita os desejos da "base", a autonomia dela. Ora, não é óbvio que o "trabalho de base" implica aceitar acriticamente uma posição heterônima, hierárquica? E não é óbvio que essa renúncia a objetivos e desejos (para imaginariamente respeitar a autonomia da base) significa se omitir frente às tendências suicidas (reacionárias) do proletariado, como se elas fossem autônomas?

No melhor dos casos, a militância é simples fantasia, mera imaginação e delírio. Coisa talvez digna de riso. Já nos outros casos, a medida que a organização militante se perpetua e o trabalho de base tem êxito, vai se consolidando inevitavelmente (independente do formalismo "igualitário", "democrático" ou das "intenções") como gangue, bando,  máfia, sacerdócio, quando não numa nova classe dominante (burocracia).

O que devemos fazer então? Nada. Se existimos, agimos. Basta ser o que se é, isto é, agir como igual (um proletário), sem recuos nem renúncias - apresentando opiniões, objetivos e propostas assim como os outros iguais apresentam as opiniões, objetivos e propostas deles. Simplesmente de igual para igual, nos ônibus, no trabalho, no trem, na internet, na rua, se há oportunidade. Abertamente, como tendência comunista libertária do proletariado contra outras tendências dele (tendências essas que em nossa opinião são suicidas para o proletariado, pois o levam a sustentar sua própria sujeição e exploração. Por exemplo: religião, patriotismo, defesa de "seus" empregos contra "intrusos", xenofobia, machismo, primitivismo, racismo, bairrismo, corporativismo, conspiracionismo, o servilismo de brigar pelo reconhecimento de "méritos"...). 

As práticas do proletariado (solidariedades, greves, manifestações, trabalhar o mínimo, cagar para a "meritocracia" e, o que propomos, que é superar a greve pela produção livre, rastilho do comunismo universal) são por si mesmas nossa prática. E as práticas da classe, só podemos influenciá-las debatendo-as e apresentando claramente nossas críticas, ideias, e finalidades, que podem ser mais ou menos adotadas ou não, ser difundidas pelos outros ou não, em determinando momentos sim e em outros não, aprimoradas ou não... Não existe nenhum outro tipo de práxis além dessa, se buscamos favorecer a autonomia do proletariado. Trabalho de base é mistificação proto-burocrática ou proto-sacerdotal. 

[Obs.: aos que acham que superestimamos as "ideias", respondemos que as ideias não são entes imateriais (só seriam imateriais se elas existissem num plano sobrenatural, em que seriam eternas e inalteráveis), mas, pelo contrário, são produções, indispensáveis para compor (em pé de igualdade ) com outras produções a transformação das circunstâncias (praxis revolucionária). Os proletários não são bestas que fazem coisas cegamente ou por instinto. Não há ações sem objetivos, finalidades, desejos... isto é, as ações pressupõem e implicam teorias, que os proletários criam e aprimoram (ou degradam e dogmatizam) conforme percebem que sua capacidade de agir é objetivamente aumentada (ou diminuída). A capacidade de agir dos proletários é aumentada quando confiam em si mesmos (internacionalisticamente), não reconhecem "bodes expiatórios", e impõem suas necessidades (que são comunistas: não trabalhar e que tudo seja livre, "free"), opondo-se radicalmente, por este simples ato, à classe dominante (para a qual, obviamente, isto é "opressivo", verdadeira ditadura do proletariado). Ataca o poder dissolvendo o que o sustenta: as divisões do proletariado em empresas, pátrias, raça, gênero, etc. mediante uma livre associação universal que garanta o livre acesso a qualquer um aos meios de produção e de vida. E é diminuída quando os proletários desconfiam de si mesmos, clamam ao poder contra "bodes expiatórios" (estrangeiros, "judeus", imigrantes, "vagabundos"), e reprimem seus desejos em nome da ficção de um "bem maior" (pátria, empresa, religião...), isto é, quando se unem à classe dominante (seja ela burocrática ou particular, de esquerda ou de direita) contra si mesmos. No primeiro caso (aumento da capacidade de agir), a teoria necessariamente se desenvolve e se aprimora, enquanto que no segundo caso (redução da capacidade de agir), a teoria só pode se degradar e se dogmatizar.]

humanaesfera, maio de 2015

* É bem provável que o "trabalho de base" tenha base no dolorismo missionário católico (caridade, culpa...). Maldito legado das comunidades eclesiais de base...


Continuação destas reflexões: Autonomia, "classe média" e auto-abolição do proletariado


Bibliografia:

Ação direta (Kaos)
O «renegado» Kautsky e seu discípulo Lênin   (Jean Barrot)
A Impotência do Grupo Revolucionário (Sam Moss)
A Democracia Direta é Realmente Possível? (Echanges et Mouvement)
Sobre Organização: As Gangues (dentro e fora do Estado) e o Estado como Gangue (Jacques Camatte & Gianni Collu)
Eclipse e Reemergência do Movimento Comunista (Jean Barrot e François Martin)

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