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domingo, 14 de setembro de 2014

Breve crítica à ideia de economia paralela anticapitalista

Abaixo, uma breve crítica à ideia de economia paralela anticapitalista (economia solidária, parecon, bancos proudhonianos, autogestão das empresas, cooperativismo, dinheiro alternativo, rede de escambos, comunidades hippies, socialismo de impressoras 3D, "Projeto Vênus", além dos estatismos, como a URSS e Cuba):

Uma rede produtiva anticapitalista paralela terá que trocar (matérias primas, por exemplo) com a outra rede, a capitalista, e concorrer com ela. Para não falir, ela terá que impor internamente métodos de coação ao trabalho equivalentes aos da rede capitalista, pois só com essa equivalência 
(valor de troca) a troca é possível. Por outro lado, se não quiser trocar com a rede capitalista, se isolando, terá que coagir os participantes a se conter, se reprimir e se sujeitar à um regramento paranóico (como um novo "feudalismo" nacionalista, ou um novo "despotismo asiático") que certamente reestabelecerá uma sociedade de classes. 

Daí que não apoiamos nenhuma tentativa de economia paralela anticapitalista, porque são fadadas a serem variedades de exploração capitalista, quando não uma reedição descarada do despotismo arcaico. 

Em contraste, defendemos outra perpectiva: que o comunismo surja subterraneamente do seio do capitalismo, rompendo a casca capitalista em escala mundial. E isso só será possível graças à ação rápida e internacional do proletariado autônomo. O proletariado (aqueles que não têm mercadorias para vender, restando-lhes apenas vender si mesmos como coisas para sobreviver) luta, quando se constitui como classe, não por se conter e se reprimir (diferente, por exemplo, da sua redução à  "classe média", ou seja, pseudo-proprietários vendedores de força de trabalho unidos pelo capital e pelo Estado - inerentemente suicida, anticonsumista, miserabilista, nacionalista, reacionária, meritocrática e punitivista) mas luta, por definição, pela expansão das capacidades humanas de pensar, desejar e agir, o que implica o comunismo: uma livre associação que ultrapassa e suprime o Estado, o trabalho, as nações, o capital e as classes.

Basicamente, favorecemos um acúmulo de forças no cotidiano subterrâneo que é interconectado mundialmente através da rede produtiva capitalista. Os proletários mapeiam como a produção onde já estão é interconectada com as outras (como aqui e aqui) e, pela comunicação (pela internet, por exemplo), surge um conhecimento mais amplo dos nexos materiais do trabalho a que estão submetidos. Isso permite a superação da greve por uma tática de continuar a produção, mas como produção livre (gratuita) para e pela população, suprimindo a divisão emprego/desemprego nesse momento (abolição da empresa). Começando primeiro numa cidade, a difusão dessa experiência será tão apaixonante (incontível), que rapidamente, em um ou dois dias, se difundirá pelas principais metrópoles do mundo. O mapeamento da interconexão dos fluxos e estoques da produção mundial, cada vez mais completo, vai permitindo à população descobrir quais produções não servem para ela, desativando-as, e modificando outras. Os governos e as forças repressivas não tiveram tempo para estudar e coordenar um ataque e nem há mais condições para isso, pois a produção que sustenta essa condições está nas mãos da população. Os soldados, fraternizando, dão as armas para a população e se juntam a ela. Os que resistem tem suas condições de existências cortadas até que se rendam. Em menos de uma semana, o mundo inteiro estará sob o modo de produção associado, o comunismo. Senão, quanto mais a difusão global se retarda, chegando a apenas uma parte do mundo, a medida que os estoques vão acabando, mais insustentável (materialmente falando e em termos de repressão) se torna o modo de produção comunista. Pois mais se é privado dos materiais que a outra parte do mundo ainda não transformado possui como propriedade propriedade privada (estatal ou particular), forçado-a a trocar (comprar/vender) com ela para repor os estoques. Ou seja, é forçada, para comprar dela, a trabalhar para ela - e a reproduzir internamente o mesmo modo de produção capitalista, havendo o risco de o comunismo se tornar mera cobertura ideológica de uma nova variedade de exploração capitalista.

Resumindo: contra o espetáculo trabalhoso e vão do ativismo, da militância, do vanguardismo e do voluntarismo (sem falar do espetáculo da concorrência entre as facções esquerda/direita do Estado), esse acontecimento é uma ocasião raríssima, uma confluência de fatores difíceis de serem reunidos, e para qual só é possível contribuir permanecendo "preguiçoso", "sem esperança", "epicureamente oculto", acumulando forças no subterrâneo contra o trabalho a que somos submetidos. E nada garante que vai dar certo... e nem que vá acontecer. 

humanaesfera, setembro de 2014


P.s.: abaixo os argumentos principais da discussão que se seguiu (para ver a discussão completa, veja os comentários):

"BOB KLAUSEN Deixa eu colocar uma objeção possível, que precisamos desenvolver coletivamente. Será um destino fatal, uma espécie de teleologia imanente à toda forma embrionária contra-capitalista, não poder concorrer contra o mercado e ter de perseguir a sua autoexploração inexorável? Na minha opinião, essa visão pode estar datada historicamente. Primeiro porque os níveis de tecnologia atuais são suficientes para reduzir o tempo de trabalho no setor primário e secundário --- ainda mais se as impressoras 3D se difundirem como o Ulisses Marioto disse --- e continuar a pensar em termos de economia de tempo e dinheiro perde o sentido. Nesse caso, a mediação do valor (do tempo socialmente necessário imposto pelo mercado) deixa de ser um fetiche que se deve adorar e se dobrar, e começa ser possível, pela primeira vez na história talvez, pensar mediações antivalor: baseadas na cooperação livre, na redução do tempo, na redução da produção e do consumo ao suficiente e ao digno, socialmente fundando o novo modo de vida numa ética e numa política anticapitalista e antiestatal - desvinculada do mercado e da concorrência. Imagino um país como o Brasil desvinculado do mercado mundial: não seríamos pior do que Cuba, de forma alguma, com o atual nível de forças produtivas alcançado. E se mais nações se desvinculassem do capitalismo global, coisa que só acredito num momento de colapso global do capitalismo, é claro que teríamos mais chance de não sofrer uma invasão imperialista. O que sustentaria o modo de vida e daria legitimidade a esse modo de vida não é a produtividade ou noções abstratas como PIB, mas a noção de emancipação, libertação do trabalho alienado e da coerção estatal, com consumo suficiente para todos. Embora a luta de classes estaria claramente instalada, a partir disso, dentro desse território "pós-nacional". Ou seja, a utopia não é se livrar da concorrência, mas se livrar da luta de classes. Esta vai nos perseguir até o fim dos tempos pré-históricos.

HUMANAESFERA Será que eu estaria exagerando se eu dissesse que isso que propões é "socialismo num só país"? Ou até mesmo "nacional-socialismo"? Pois vejamos: quanto às tecnologias atuais (microeletrônica em especial), elas só são possíveis pela reunião de materiais trazidos de vários continentes, assim como quase tudo mais. Mesmo que um país automatize completamente a sua produção. O que aliás, acarretaria que o que ele produz não tem valor de troca (exceto se essa tecnologia automatizadora for seu monopólio), porque seus produtos não terão trabalho cristalizado. Consequentemente, os materiais dos outros continentes necessários à sua tecnologia não poderão ser adquiridos. A saída será o mesmo de sempre: lançar outros produtos cuja produção interna absorva o máximo de trabalho (logo,precisará de um proletariado interno), isto é, o máximo valor de troca, para lhe permitir a troca mais vantajosa no mercado mundial, ou senão monopolizar vergonhosamente os seus produtos (por exemplo, minérios ou tecnologia), permitindo-o trocar no mercado mundial as custas do trabalho dos proletários dos outros países. E se, mundialmente, houver um "colapso da modernização", isso apenas abrirá novos campos para outro ciclo de valorização, pois tudo se tornará tão mais difícil e violento que necessariamente tornar-se-ão trabalho aspectos da vida da população que antes eram acessíveis livremente. Por outro lado, se houver um isolamento absoluto do país com relação ao mundo, isso acarretará um retrocesso tão evidente nas condições de vida e (devido à falta de elementos para manter a tecnologia) um aumento da jornada e intensidade do trabalho que a população terá total razão em se opor."




Continuação das reflexões deste texto: 

 Fundamentação teórica: 


segunda-feira, 2 de julho de 2012

Joseph Déjacque sobre suas influências: Fourier, 1848 e Proudhon


Dias de Junho, Paris, 1848

Joseph Déjacque foi um proletário que participou da revolução de 1848 em Paris, que foi a primeira tentativa do proletariado de transformação da sociedade. Buscava-se instaurar uma "República Social" (em contraposição à "república política"). Foi preso. Se exilou nos Estados Unidos, em Nova Orleans e Nova Yorque, onde publicou o  jornal Le Libertaire - Journal du Mouvement Social, de 1858 a 1861 (nota: este foi o primeiro registro da palavra libertário, palavra hoje pilhada, falsificada e distorcida  pelos anarco-capitalistas, que inventaram o "libertarianismo" para dizer que a empresa, essa tirania, é "a" liberdade).

Neste jornal ele expôs como série o que é considerado o seu magnum opus:  "L´Humanisphère. Utopia Anarchique" (A Humanisfera - Utopia Anarquista) . Nele, defende uma utopia que apresenta pela primeira vez em forma escrita inúmeros temas  (mas que certamente eram temas já comuns na fala daqueles que participaram da efervescência de Paris da década de 1840, da qual certamente Marx sofreu influências quando lá esteve em 1844, e cujas semelhanças de temas podem ser vistas nos Manuscritos de Paris) que foram mais tarde essenciais para diversas correntes revolucionárias anarquistas e comunistas (dos anarco-comunistas até a Internacional Situacionista).

A obra  L´Humanisphère é considerada o primeiro texto a sistematizar uma concepção anarquista comunista, em ruptura com o proudhonismo. A diferença entre o anarco-comunismo e  proudhonismo (que, junto com o bakuninismo, mais tarde foi chamado de anarquismo coletivista) é que este último defende a manutenção de alguma forma de assalariamento (remuneração conforme a quantidade de trabalho, o chamado bônus de trabalho, ou remuneração igual para todos), enquanto que os comunistas criticam isso dizendo que qualquer forma de salário (isto é, de mercado) implicaria necessariamente um Estado ou classe que se coloca numa posição acima da população para medir, comparar e remunerar o trabalho de cada um. Numa sociedade sem Estado e sem classes, não pode haver salário (e, portanto, nem dinheiro e nem mercado), porque ninguém poderá estar numa posição acima das relações sociais que lhe permita medir o trabalho dos outros e nem compará-lo. Toda produção será realizada por seu valor intrínseco (sua necessidade ou sua capacidade de satisfazer os desejos humanos) e não mais pela régua alienante da comparação quantitativa (de dinheiro ou de trabalho incorporado nos produtos)  no mercado. 

O anarco-comunismo, a partir da década de 1880  foi desenvolvido e difundido por, entre outros, Carlo Cafiero, Piotr Kropotkin, Elisée Reclus e Errico Malatesta, se tornando a teoria social predominante no movimento operário de muitos países (Brasil, Argentina, Espanha, por exemplo) até os anos 1920.

No seguinte trecho,  Déjacque expõe as influências que recebeu:


“A astronomia, a física, a química, todas as ciências progrediram. Unicamente a ciência social permaneceu estacionária. Depois de Sócrates, que bebeu a cicuta, e Jesus, que foi crucificado, ela não teve nenhuma luz. Então, das regiões mais imundas da sociedade, em algo muito mais abjeto do que um estábulo, num comércio, nasceu um grande reformador. Fourier acabava de descobrir um novo mundo onde todas as individualidades tinham um valor necessário para a harmonia coletiva. As paixões são os instrumentos desse concerto vivo que tem por arco a fibra das atrações. Dificilmente teria sido possível que Fourier rejeitasse o hábito [froc] por inteiro; pois apesar de tudo, ele conservou de sua educação comercial a tradição burguesa os preconceitos da autoridade e da servidão que o fez desviar da liberdade e da igualdade absolutas, da anarquia.  Porém, é diante desse burguês que descubro a mim mesmo, e eu saúdo nele um inovador, um revolucionário. Enquanto outros burgueses são anões, ele é um gigante. Seu nome permanecerá inscrito na memória da humanidade.

Veio então 1848, e a Europa revolucionária pegou fogo como uma trilha de pólvora. Junho, essa rebelião do século XIX, protestou contra os modernos abusos do novo senhor. A violação do direito ao trabalho e do direito ao amor, a exploração do homem e da mulher pelo ouro sublevou o proletariado e o deixou com armas na mão. A feudalidade do capital treme nas bases. Os altos barões da usura e os baronetes do pequeno comércio se debateram em seus balcões, e do alto de sua plataforma lançaram sobre a insurreição enormes destacamentos militares, enchentes escaldantes de guardas móveis. Numa tática  jesuítica, eles conseguiram esmagar a revolta. Mais de trinta mil rebeldes, homens, mulheres e crianças foram jogados nas masmorras dos quartéis e das casamatas. Inumeráveis prisioneiros foram fuzilados, graças ao engodo de um aviso colocado em todos os ângulos das ruas, aviso que convidava os insurgentes a depor as armas e declarava que não haveria nem vencedores nem vencidos, mas irmãos – irmãos inimigos, queriam dizer! As ruas ficaram repletas de pedaços de cérebros. Os proletários desarmados foram empilhados nas catacumbas de Tuileries, do Hôtel de Ville, da Ecole Militaire, nos estábulos das casernas, nas pedreiras de Ivry, nas fossas do Champ-de-Mars, em todos os esgotos da capital do mundo civilizado, e lá foram massacrados com todos os refinamentos da crueldade!  Os tiros choveram em todas as janelas das ruas, o chumbo caiu nos valões onde – entre os gemidos dos moribundos, os estilhaços de riso da loucura – os proletários eram atolados em urina e sangue, asfixiados pela falta de ar e torturados pela sede e a fome. Os subúrbios foram tratados como na idade média, um lugar tomado de assalto. Os arqueiros da civilização se posicionaram sobre as casas, desceram nos porões, vasculharam todos os cantos e recantos, passando pelo fio da baioneta todos que lhe pareciam suspeitos. Entre as barricadas desmanteladas e no lugar de cada paralelepípedo das ruas era possível colocar uma cabeça de cadáver... Jamais, desde que o mundo é mundo, viu-se semelhante carnificina. (...)

Eles pensaram que afogaram o Socialismo em sangue. Muito pelo contrário! O que lhe deram foi o batismo de fogo! Esmagado em praça pública, ele se refugia nos clubes, nas fábricas, como o cristianismo nas catacumbas, recrutando por toda parte prosélitos.(...)

1848 também teve Proudhon, um outro espírito rebelde, que em seu livro cuspiu a conclusão mortal no rosto da burguesia: “A propriedade é um roubo!” Sem 1848, esta verdade teria permanecido por muito tempo ignorada no fundo de alguma biblioteca privilegiada. 1848 iluminou-a, e lhe deu por quadro a publicidade da imprensa cotidiana, a multiplicidade de clubes a todo o vapor: ela foi gravada no pensamento de cada trabalhador. O grande mérito de Proudhon não é ser sempre lógico, longe disso, mas ter provocado os outros a buscar a lógica. Porém, o homem que disse também: “Deus é o mal, a escravidão é assassinato, a caridade é uma mistificação” e assim por diante; o homem que reivindicou com tanta força a liberdade do homem; esse mesmo homem, ai!, também atacou a liberdade da mulher: ele a baniu da sociedade, ele a decretou fora da humanidade. Proudhon é apenas uma fração do gênio revolucionário;  metade de seu ser está paralisada e, infelizmente, é o lado do coração. Proudhon tem tendências anárquicas, mas não é um anarquista; ele não é humanidade, é masculinidade. Apesar disso, se como reformador há falhas no seu diamante, como agitador ele tem ofuscantes centelhas. De fato, é alguma coisa. E o Mirabeau do Proletariado não tem nada a invejar ao Mirabeau da Burguesia. Ele o ultrapassa de toda a altura de sua inteligência inovadora. Enquanto um só teve um impulso de rebelião, um lampejo, uma chispa que se extingue rapidamente nas trevas da corrupção. O outro fez ressoar golpes de trovão sobre golpes de trovão. Ele não somente ameaçou, ele explodiu a velha ordem social. Nunca homem algum jamais  pulverizou, a sua passagem, tantos séculos de abuso, tantas superstições supostas legítimas.” LE LIBERTAIRE n°5: 31 de agosto de 1858


Tradução por Humana Esfera, a partir de http://joseph.dejacque.free.fr/libertaire/n01/n01.htm e https://we.riseup.net/jessecohn/experimental-translation-wiki-2. Julho de 2012.







Outros clássicos que traduzimos:

Sobre a troca (1858) - Joseph Déjacque





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