"A libertação do capitalismo significa a libertação do domínio da economia. A civilização cria, assim, o domínio humano sobre a natureza; mas, como conseqüência, o homem cai sob o domínio desses meios que haviam lhe dado a possibilidade de dominar a natureza. O capitalismo assinala o ponto culminante desse domínio. [...]
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sexta-feira, 6 de janeiro de 2017
Lukács sobre a cultura e sociedade capitalista
Alguns trechos interessantes do texto Velha e nova cultura, de György Lukács:
"A libertação do capitalismo significa a libertação do domínio da economia. A civilização cria, assim, o domínio humano sobre a natureza; mas, como conseqüência, o homem cai sob o domínio desses meios que haviam lhe dado a possibilidade de dominar a natureza. O capitalismo assinala o ponto culminante desse domínio. [...]
"A libertação do capitalismo significa a libertação do domínio da economia. A civilização cria, assim, o domínio humano sobre a natureza; mas, como conseqüência, o homem cai sob o domínio desses meios que haviam lhe dado a possibilidade de dominar a natureza. O capitalismo assinala o ponto culminante desse domínio. [...]
A característica principal da organização social capitalista deveria ser buscada então no fato de que a vida econômica deixou de ser um instrumento para a função vital da sociedade e se colocou no centro: se converteu em fim em si mesmo, o objetivo de toda a atividade social. A primeira conseqüência, e a mais importante, é a transformação da vida social em uma grande relação de troca; a sociedade em seu conjunto tomou a forma de mercado. Nas distintas funções da vida, tal situação se expressa no fato de que cada produto da época capitalista, como também todas as energias dos produtores e dos criadores, reveste a forma de mercadoria. Cada coisa deixou de valer em virtude de seu valor intrínseco (por exemplo, valor ético, valor artístico): tem valor unicamente como coisa vendável ou adquirível no mercado. Tudo o que este realizou destrutivamente sobre toda a cultura - expressando-se esta seja em atos, em criações de obras de arte, ou em instituições - é algo que não exige análises ulteriores. Da mesma maneira que a independência dos homens das preocupações de sustento e a livre utilização de suas próprias forças como fim em si são a condição humana e social preliminar da cultura, assim também tudo o que a cultura produz só pode ter valor cultural autêntico quando tem valor por si só. No momento em que assume o caráter de mercadoria e entra no sistema de relações que o transforma em mercadoria, cessa ainda sua autonomia, a possibilidade da cultura.
Mas em outro ponto o capitalismo corroeu nas raízes a possibilidade social da cultura. Este ponto está constituído por sua relação com a fabricação dos produtos culturais. Já vimos: do ponto de vista do produto, a cultura é impossível quando os produtos não levam em si seu fim. Do ponto de vista das relações entre produto e produtor, a cultura é possível só onde o surgimento do produto constitui - com relação a seu criador - um processo unitário, em si acabado. Ou seja, um processo cujas condições dependem da possibilidade e das ações humanas do criador. O exemplo característico para um processo de tal caráter é a obra de arte, onde o nascimento da obra é, definitivamente, em sua integridade, resultado da atividade do artista e onde a peculiaridade da obra está determinada pelas qualidades individuais do artista. Nas épocas pré-capitalistas este espírito artístico dominou toda indústria. A impressão do livro era em essência tão pouco distinta de escrevê-lo como a pintura de um quadro o era da fabricação de uma mesa (em relação ao caráter humano do produto). Pelo contrário, a produção capitalista não só tira do trabalhador a propriedade do meio mas também, por conseqüência da divisão do trabalho, mais fortemente especializado, fragmenta o processo de fabricação em partes, nenhuma das quais é tal que origine algo significativo, em si e por si acabado. Não existe trabalho singular que não esteja em ligação imediata e perceptível com o produto terminado; esse processo tem um sentido somente para o cálculo abstrato do capitalista; só enquanto mercadoria está dotado de sentido. Ao se estender a indústria, intensifica-se mais ainda a desumanidade dessa relação. Na divisão do trabalho que existe dentro da manufatura, mesmo sendo o processo de fabricação sumamente fragmentado e despedaçado, a qualidade das partes singulares do produto dependia sem dúvida das atitudes físicas e espirituais do trabalhador; enquanto que na indústria desenvolvida toda relação entre produto e produtor foi suprimida. Nela, então, o processo produtivo depende definitivamente das possibilidades das máquinas; o homem serve a máquina, se adapta a ela; a produção se torna completamente independente das possibilidades e atitudes humanas do trabalhador.
Junto a essas forças que destróem a cultura e que nós consideramos até aqui do ponto de vista do produto e do produtor singular e isolado, no capitalismo atuam ainda outras similares às primeiras. Podemos observar a mais importante quando consideramos o nexo recíproco dos produtos. A cultura das épocas pré-capitalistas era possível graças à relação de continuidade em que se encontravam os produtos culturais singulares: um produto levava adiante o problema colocado por outro, e assim sucessivamente. A cultura em seu conjunto delineava portanto uma determinada continuidade de desenvolvimento lento e orgânico. Assim era possível que em cada campo se afirmasse uma cultura coerente, unívoca e entretanto original; uma cultura cujo nível superava também em muito o nível mais alto alcançável através de atos individuais, isolados. Enquanto revolucionava o processo produtivo, enquanto tornava permanente este caráter revolucionário através do caos da produção, o capitalismo suprimia a continuidade e a organicidade da velha cultura. Por um lado, a revulocionarização da produção significa, para a cultura, que o processo produtivo se origina de contínuos momentos que influem de maneira decisiva a marcha e o modo da produção, sem que isso se ligue logo de maneira alguma com a essência do produto - uma obra como fim em si - (é assim que na indústria, na arquitetura desaparece a autenticidade do material). Por outro lado, como conseqüência do produzir-para-o-mercado (sem o qual a revolução constante da produção seria inimaginável), vem à luz na fabricação do produto tudo o que é mera novidade, o elemento sensacional e caduco, sem consideração alguma pelo problema da contribuição ou perda do autêntico, íntimo valor do produto. O reflexo cultural desse caráter revolucionário é o fenômeno que habitualmente chamamos moda. Moda e cultura configuram por suas essências conceitos que se excluem reciprocamente. O domínio da moda significa que a forma e a qualidade dos produtos postos no mercado mudam a breve prazo, independentemente da relação com a beleza e a finalidade. A essência desse mercado contém o fato de que dentro de determinados períodos devem ser fabricados novos objetos, de modo que possam diferenciar-se radicalmente dos precedentes; de forma que, ao produzi-los, seja impossível se basear sobre experiências recolhidas na produção precedente. Da rapidez do desenvolvimento resulta a impossibilidade de recolhê-las e senti-las; ou ninguém quer mais se basear nelas, pois a essência mesma da moda requer justamente o oposto ao velho. Assim desaparece lentamente todo desenvolvimento orgânico: aparece uma oscilação sem meta e um diletantismo vazio e ruidoso."
O texto completo pode ser encontrado neste link: Velha e nova cultura, de György Lukács
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domingo, 10 de março de 2013
A escassez artificial em um mundo de superprodução: uma saída impossível
por Sander
Extratos livremente traduzidos pela Humanaesfera de Artificial Scarcity in a World of Overproduction: An Escape that Isn’t, publicado no outono -hemisfério norte- de 2010 )
[...]
O capitalismo nasceu em condições de escassez e é incapaz de funcionar sem
elas. Parece lógico que a crise crie uma tendência para artificialmente
restaurar essas condições. Mas como isso afeta as chances de a economia global
encontrar uma saída da crise atual?
A maioria das análises de como essa crise surgiu focaliza a mecânica de formação de bolhas. [..] As bolhas sempre são um fracasso do capital no cumprimento de suas promessas. O dinheiro que alimentou as bolhas foi investido com vistas aos lucros futuros, como títulos sobre eles. Quando se torna claro que esse lucro não vai se materializar, a bolha implode. Quando isso acontece num setor, a culpa costuma ser atribuída à má gestão, delírios ou corrupção. [...] Mas, hoje, economias inteiras são bolhas em implosão. É certo que há razões específicas para isso acontecer primeiro num lugar e depois em outro, mas a cadeia de implosões de bolhas está ficando tão longa que razões específicas não podem mais dar conta do que está se tornando um fenômeno geral. O problema subjacente é o mesmo tanto na Grécia como na crise imobiliária norte americana: não há lucros suficientes sendo gerados para satisfazer os títulos do capital investido.
[...]
( <sander AT verizon.net> é editor da revista InternationalistPerspective)
Notas
[1] http://gapingvoid.com
Extratos livremente traduzidos pela Humanaesfera de Artificial Scarcity in a World of Overproduction: An Escape that Isn’t, publicado no outono -hemisfério norte- de 2010 )
(imagem: carros encalhados na Espanha)
A maioria das análises de como essa crise surgiu focaliza a mecânica de formação de bolhas. [..] As bolhas sempre são um fracasso do capital no cumprimento de suas promessas. O dinheiro que alimentou as bolhas foi investido com vistas aos lucros futuros, como títulos sobre eles. Quando se torna claro que esse lucro não vai se materializar, a bolha implode. Quando isso acontece num setor, a culpa costuma ser atribuída à má gestão, delírios ou corrupção. [...] Mas, hoje, economias inteiras são bolhas em implosão. É certo que há razões específicas para isso acontecer primeiro num lugar e depois em outro, mas a cadeia de implosões de bolhas está ficando tão longa que razões específicas não podem mais dar conta do que está se tornando um fenômeno geral. O problema subjacente é o mesmo tanto na Grécia como na crise imobiliária norte americana: não há lucros suficientes sendo gerados para satisfazer os títulos do capital investido.
[...]
Um
novo paradigma de crescimento?
[...]
um político ou um economista que trabalha para uma instituição [think tank] ou
governo tem naturalmente de acreditar que [...] os abalos podem ser amortecidos
e que um novo paradigma de crescimento pode surgir deles. A partir desta
esperança, três prioridades estratégicas se seguem. [...]
1.
Aumentar os lucros mediante redução dos salários. [...] Tirar proveito do
excesso de mão de obra no mercado de trabalho global, já intensificado pela
crise, para, sempre que possível,
empurrar os salários para abaixo do valor da força de trabalho, isto é,
abaixo do custo para o assalariado de reprodução de sua vida. Não há nenhum
limite para isso, exceto a resistência da classe trabalhadora. O fato de que
pagar salários abaixo do valor da força de trabalho destrói a força de trabalho
não é um limite quando a força de trabalho é abundante. Como qualquer
mercadoria produzida em excesso, a força de trabalho se desvaloriza. Resistir
a isso não é possível dentro da lógica
do capital. Assim, na prática, resistir
se torna se recusar a ser uma mercadoria, rejeitar a forma-valor.
2.
Aumentar os lucros mediante corte das despesas improdutivas [faux frais], pelo
abandono tanto quanto possível do capital supérfluo constante e variável. Isso
significa se livrar de fábricas, máquinas e trabalhadores desnecessários e
reduzir ao máximo os custos que a administração da população supérflua implica.
Não é uma tarefa fácil, evidentemente. A ajuda dos sindicatos - que, por sua
função como gestores da força de trabalho, entendem que o que eles negociam é
uma mercadoria que, em última análise, deve obedecer à lógica do mercado - será
indispensável.
3.
Aumentar os lucros ao criar artificialmente condições de escassez. Desenvolver
uma economia global paralela, centrada nos países mais avançados, protegida -
por suas posições exclusivas no mercado - das tendências recessivas que
inevitavelmente afundam a maior parte do mundo. Isso implica uma mudança do
centro de gravidade da economia: ao invés de
fazer lucros a partir da produção de bens, fazê-los da produção de
inovação, de novo conhecimento para produzir mercadorias; um deslocamento das
economias de escala (cujo rendimento torna-se negativo com o excesso de
capacidade) para a constante adaptação e recriação de escassez.
Os
limites das duas primeiras metas estratégicas não são objetivos, pois eles
dependem de se conseguir superar a vontade de viver dos seres humanos, de
derrotar a sua capacidade de imaginar a si mesmos como algo diferente de uma mercadoria.
Mas isso não está no âmbito deste artigo. É o desenvolvimento da terceira meta estratégica
e o limite que ela encontra que pretendo examinar no resto deste texto.
“O Tao
da Insuficiência” ["The Tao of Undersupply"]
[...]
como lucrar em um mundo saturado de superprodução? Hugh MacLeod formula o
problema desta maneira:
"[...]
talvez a solução seja seguir ´O Tao da Insuficiência´. Se apenas 100 pessoas
querem comprar tuas bugigangas, então basta fazer 90 delas. Se apenas 1000, faça
900. Se apenas 10 milhões, faça 9 milhões. Isso não é difícil, mas é preciso
disciplina [1]".
O
problema com a estratégia de Hugh é que, quando existe um buraco no mercado, o
capital vai preenchê-lo. Alguém vai fazer as bugigangas, a menos que haja uma
maneira de impedi-lo. E há.
Há a
arma tosca do protecionismo, mas seu tiro geralmente sai pela culatra. Há
também o controle do mercado resultante da concentração do capital. [...]. As
atuais condições de crise estimulam a concentração do capital. Empresas mais
fortes compram rivais em apuros a preços de banana e as amarram a outras nas
chamadas "alianças estratégicas", que estabelecem controle sobre o
mercado através de redes, mais do que através de monopólios diretos ou acordos
de cartel explícitos. [...] Não é necessário um conluio explícito para que
esses conglomerados gigantes exerçam a sua capacidade conjunta de fixar preços
acima do valor de seus produtos e, unidos, reduzir a oferta com esse objetivo
[...].
[...]
Há ainda um outro caminho para esses lucros que é ainda mais
impressionante, mais típico dos nossos tempos: a mercadorização do
conhecimento.
Um
mundo de patentes
Uma
empresa que introduz uma nova mercadoria (ou um novo método para a produção de
mercadorias, o que também é uma mercadoria) no mercado, tem, por
definição, monopólio sobre ela e, desse
modo, tem a oportunidade de pôr o seu preço acima do seu valor, tanto quanto o
mercado possa aguentar. A este respeito, não importa se a novidade é real ou
criada artificialmente (através de propaganda pesada).[...]
Sua
produção é protegida por patentes. A busca por escassez artificial é
simultaneamente causa e conseqüência do crescimento vertiginoso da tecnologia
da informação, biotecnologia e outros desenvolvimentos baseados em conhecimento
e sua aplicação generalizada em todos os ramos da indústria. Como resultado, o
aumento das patentes, depois de um crescimento lento mas constante desde o
final do século XIX, foi explosivo na década de 1980. Os direitos de
propriedade intelectual se tornaram uma peça fundamental nos acordos comerciais
internacionais celebrados desde então, e as autoridades americanas e européias
repetidamente têm aumentado a duração das patentes e direitos autorais.
Há
patentes de tudo. No total há mais de 32 milhões delas, e quase dois milhões
são registradas a cada ano, incluindo o direito de impedir o uso,
desenvolvimento e venda de tecnologias, programas, produtos, métodos de
pesquisa e produção, procedimentos, e até odores e cores, por todos exceto o
proprietário da patente e aqueles licenciados por ele [2]. Até mesmo grande
parte de nossos genes já está patenteada e não pode ser estudada sem que se
pague uma licença a seu “proprietário”.
[...]
A Toyota obteve mais de 2.000 patentes apenas
para seu carro Prius. Seu objetivo é tornar impossível que outros desenvolvam
carros híbridos sem que paguem um preço elevado para a Toyota. Esse exemplo
ilustra o motivo por que o ritmo de mudança tecnológica é muito menos
impressionante do que o aumento acentuado de patentes poderia sugerir. Uma vez
que elas cobrem tantas coisas, elas efetivamente impedem o desenvolvimento de
novos produtos por concorrentes não licenciados. Muitas patentes nem mesmo são
aplicadas a novos produtos. Seus proprietários simplesmente esperam até que
outros desenvolvam algo semelhante, a
fim de extorquir uma taxa. Esta estrada para o superlucro requer exércitos de
pesquisadores e, mais ainda, exércitos de advogados para fazer valer a escassez
artificial que está constantemente sob ameaça, uma vez que o conhecimento é,
por sua natureza comunicativo e derivado de outros conhecimentos. [...] E como
toda propriedade privada, ela também requer polícias e exércitos reais, além do poder dos
Estados para manter uma ordem mundial em que a escassez artificial seja
protegida.
Um
beco sem saída
No
centro da tendência para uma economia baseada em escassez artificial está a TI
(tecnologia da informação), que tem levado ao extremo a propensão do
capitalismo para diminuir o valor das mercadorias. Visto que não custa quase
nada reproduzir bens digitais, seu valor, em termos marxistas, também é quase
nada. Com efeito, eles são tão abundantes que só podem ser tornados lucrativos
sabotando a lei do valor, limitando a concorrência para impedir que o mercado
estabeleça seus preços livremente. [...] Seus custos reais de produção são
geralmente muito baixos, mas não os seus lucros. Mas qual é a fonte desses
lucros? Visto que cada vez menos tempo de trabalho é requerido para reproduzir
suas mercadorias (o custo da P&D – pesquisa e desenvolvimento - pode ser
alto, mas não tem relação com os custos de reprodução), a parte do tempo de
trabalho que não é paga, a mais-valia, deve cair muito e, portanto, não pode
explicar o aumento de seus lucros. O lucro é mais-valia, mas ela vem de outro
lugar: é paga pelos clientes.
É por
isso que é uma falácia dizer que uma economia avançada global baseada em
escassez artificial poderia funcionar em um nível paralelo, protegida da crise
geral. Ela suga valor de outro lugar e, assim, efetivamente taxa o resto da
economia. Quanto mais ela recolhe, mais pesada a taxação. Ela, portanto, é
dependente da capacidade do resto da economia de pagar essa taxa e,
consequentemente, da sua capacidade para criar novo valor. [...]
Então,
apesar do desejo dos capitais baseados em escassez artificial de se colocar
fora do barco (ilustrado pela reação da Alemanha diante da crise da dívida na
Grécia), não há nenhuma bóia de salvamento. Pelo contrário, ao desviar capital
para a produção que cria relativamente pouco valor, isso agrava o problema
geral. No entanto, é de se esperar que os capitais voltados para a escassez
artificial continuarão a colher lucros superiores à média, até mesmo enquanto a
taxa de lucros média continua a cair. Assim a produção dessas mercadorias vai
atrair mais investimentos do que sua participação na criação do capital. Isso a
torna uma excelente candidata para a formação de novas bolhas (como tem sido),
anunciando novos abalos num sistema desesperadamente aferrado à escassez.
( <sander AT verizon.net> é editor da revista InternationalistPerspective)
Notas
[1] http://gapingvoid.com
[2] Todas
essas estatísticas sobre patentes vem da base de dados da World Intellectual
Property Organisation http://wipo.int/ipstats/en/statistics/patents/
(imagem: carros encalhados na Inglaterra)
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Trabalho imaterial
Teste de realidade: estamos vivendo em um mundo imaterial?
Por
Steve Wright,

Um padre certa vez encontrou um mestre zen e, para deixá-lo embaraçado, desafiou: "Sem usar som e nem silêncio, você pode me revelar a realidade?" O mestre zen socou-lhe a cara [1].
Negri,
entre outros, tem insistido há muitos anos, e de várias maneiras, que o capital
hoje atingiu esse estágio. Conclui que
nada além da pura dominação mantém o domínio do capital: "a lógica do
capital não mais funciona para o desenvolvimento, ela é simplesmente comando
para sua própria reprodução" [22]. Na verdade, uma série de comentaristas
sociais têm evocado o "Fragmento sobre as Máquinas" nos últimos
tempos - aparte tudo o mais, tem mantido uma certa popularidade entre aqueles
(como o futurólogo reacionário Jeremy Rifkin) que nos dizem que vivemos em uma
sociedade cada vez mais livre do trabalho. É uma pena, então, que, destes
escritores, pouquíssimos seguiram a lógica do argumento de Marx nos Grundrisse até suas conclusões. Pois
enquanto ele indica que o capital, de fato, busca "reduzir o tempo de
trabalho a um mínimo", Marx também nos lembra de que o próprio capital não
é nada mais do que o tempo de trabalho acumulado (trabalho abstrato enquanto
valor) [23]. Em outras palavras, o capital é obrigado pela sua própria
natureza, e durante o tempo que estamos presos a ele, a por o "tempo de
trabalho ... como única medida e fonte de riqueza".
"The boy with the cold hard cash Is always Mister Right, ’cause we are Living in a material world."
Notas
Um padre certa vez encontrou um mestre zen e, para deixá-lo embaraçado, desafiou: "Sem usar som e nem silêncio, você pode me revelar a realidade?" O mestre zen socou-lhe a cara [1].
As
persistentes afirmações de que hoje vivemos numa economia ou sociedade do
conhecimento levantam muitas questões para reflexão. Nas próximas linhas, quero
discutir alguns aspectos dessas afirmações, principalmente no que se refere à
noção de trabalho imaterial. Este termo foi desenvolvido dentro do campo de
pensamento que é em geral denominado "pós-obreirista"
["postworkerist"], cujo expoente mais conhecido é certamente Antonio
Negri. Enquanto suas raízes se situam no ramo do marxismo italiano do
pós-guerra conhecido como operaismo
(obreirismo), esse campo repensou e reelaborou muitos preceitos desenvolvidos
durante o auge de 1968-78 da nova esquerda italiana. Na verdade, foi a própria
derrota dos sujeitos sociais que o operaismo
identificava - primeiro e sobretudo, o assim chamado "operário massa"
engajado na produção de bens de consumo duráveis através do trabalho repetitivo
"semi-qualificado" - que levou Negri e outros a insistir que
embarcamos numa nova era além da modernidade [2].
Para
essa visão de mundo, hoje, um tipo muito diferente de trabalho ou teria se
tornado hegemônico entre aqueles que não tem nada a vender exceto sua
capacidade de trabalhar, ou estaria em
vias de alcançar tal hegemonia. A dependência crescente do capital por esse
trabalho diferente - imaterial -
teria trazido sérias implicações para o processo de auto-expansão do trabalho
abstrato (valor) que define o capital como uma relação social. Enquanto Marx
sustentava que o "tempo de trabalho socialmente necessário" associado
com sua produção fornece os meios pelos quais o capital pode medir o valor das
mercadorias (e assim a massa de mais-valor que ele espera realizar com sua
venda), Negri, pelo contrário, é da opinião de que com um tempo de trabalho
crescentemente complexo e qualificado, e de uma jornada de trabalho que cada
vez menos se separa (e no fim coloniza) do restante de nossas horas acordados,
o valor não pode mais ser calculado. Conforme ele declarou há uma década, em
tais circunstâncias, a exploração do trabalho continua, mas "fora de
qualquer medida econômica: sua realidade econômica é fixada exclusivamente em
termos políticos" [3].
Isso é
algo muito esotérico, particularmente os argumentos sobre a mensurabilidade (ou
não) do valor. Devemos perder tempo com isso? O que espero mostrar é que,
apesar de toda sua aparente obscuridade, esse debate é importante. Porque
levanta questões sobre como entender nosso contexto imediato, inclusive como
interpretar as possibilidades latentes na composição de classe contemporânea.
Será que um setor da composição de classe é capaz de dar a marcação do ritmo e o
tom nas lutas contra o capital, ou, ao invés, devemos olhar para a emergência
de "estranhos loops... curto-circuitos e estranhas conexões entre vários
setores da classe" (como Midnight Notes sugeriu uma vez) como uma condição
necessária para ir além do "atual estado de coisas"?
Desembrulhando o trabalho imaterial
A
discussão de Maurizio Lazzarato sobre "Trabalho imaterial" foi,
talvez, o primeiro tratamento extenso do assunto a aparecer em inglês. Parte de uma
antologia de importantes textos italianos publicados em meados dos anos 90, o
texto de Lazzarato definia o termo trabalho imaterial como "trabalho que
produz o conteúdo informacional e cultural da mercadoria" [4]. As formas
"clássicas" deste trabalho são representadas em áreas como
"produção audiovisual, publicidade, moda, produção de software,
fotografia, atividades culturais, e assim por diante", e aqueles que
executam tal trabalho geralmente encontram-se em circunstâncias de alta
casualidade, precariedade e exploração, como parte daquilo que, mais
recentemente e em certos círculos radicais da Europa Ocidental, veio a ser
chamado de "precariado" [5].
A
abordagem taylorista da produção que confrontou o operário massa tinha
decretado: "vocês não são pagos para pensar". Lazzarato argumentou
que, com o trabalho imaterial, o projeto gerencial mudou. De fato, ele se
tornou ainda mais totalitário do que a rígida divisão anterior entre trabalho
intelectual e trabalho manual (ideias e execução), porque o capitalismo procura
envolver até mesmo a personalidade do trabalhador no âmbito da produção do
valor [6].
Ao
mesmo tempo, Lazzarato acreditava que essa nova abordagem administrativa traria
riscos reais para o capital, uma vez que a própria existência do capital foi
colocada nas mãos de uma força de trabalho posta a exercer sua criatividade através
de empenhos coletivos. E, diferente de há um século atrás, quando uma camada de
trabalhadores qualificados ficava igualmente no centro de indústrias-chave, mas
em grande parte isolada das "massas" desorganizadas, o "trabalho
imaterial" de hoje não pode ser
entendido como atributo distintivo de um estrato dentro do força de trabalho.
Ao contrário, a mão de obra qualificada está presente (ainda que apenas de
forma latente) em amplos setores do mercado de trabalho, começando pelo jovem.
O
livro Império, de Michael Hardt e
Antonio Negri - um livro considerado (com ou sem razão) como a peça central do
pensamento pós-obreirista - foi construído com a obra de Lazzarato e a
modificou. Aceitando a premissa de que o trabalho imaterial passou a ser
central para a sobrevivência do capital (e, por extensão, para projetos que
visem a sua extinção), Hardt e Negri identificaram três segmentos do trabalho
imaterial:
a) os
exemplos transformados de produção industrial que abraçaram a comunicação como um
fluido vital; b) a realização de "análise simbólica e resolução de
problemas" por trabalhadores do conhecimento; c) o trabalho afetivo
encontrado sobretudo no setor de serviços [7].
Essas
experiências, admitia-se, podiam ser muito díspares: os trabalhadores do conhecimento,
por exemplo, foram divididos entre profissionais "high-end", com
considerável controle sobre suas condições de trabalho, enquanto outros são
envolvidos em "empregos de manipulação rotineira de símbolos, de baixo
valor e baixa qualificação" [8]. Porém, um fio comum ligaria os três
elementos. Como exemplos de trabalho em serviços, nenhum deles produz um
"bem material ou durável". Além disso, dado que o produto é fisicamente
intangível enquanto objeto discreto, então o trabalho que o produziu poderia
ser designado como "imaterial" [9].
Como
podemos cosiderar tais argumentos? Doug Henwood elogiou Império pela verve e otimismo de visão, porém acrescentou:
"Hardt
e Negri são frequentemente acríticos e crédulos em face da propaganda ortodoxa
sobre a globalização e a imaterialidade... Eles afirmam que o trabalho
imaterial - o trabalho nos serviços, basicamente - hoje prevalece sobre o
antiquado trabalho material, mas não cita nenhuma estatística: a acreditar
neles, você nunca esperaria que houvesse mais americanos que são motoristas de
caminhão do que profissionais de
informática. E nem passaria pela cabeça que três bilhões de pessoas, metade da
população da Terra, vive no terceiro mundo rural, onde a ocupação principal
continua sendo cultivar a terra" [10].
Nick
Dyer-Witheford também registrou várias críticas à abordagem de Hardt e Negri
sobre a composição de classe [11]. Para ele,
Império omite as tensões entre
os três fragmentos de classe que ele identifica, enquanto, em última análise,
lê o trabalho imaterial só através das lentes de sua manifestações
"high-end". E tudo isso é realmente tão novo quanto Hardt e Negri
insinuam? É como se o "trabalho afetivo", por exemplo, já não fosse
algo fundamental para a reprodução social no passado, mesmo que ele passasse
despercebido - devido a sua ampla composição de gênero, talvez - em muitas
análises sociais.
Outra
questão diz respeito à insistência de Império
de que "o aspecto cooperativo do trabalho imaterial não é imposto ou
organizado de fora" [12]. Novamente, talvez isso seja verdade para algum
trabalho no "high-end". Mas a obrigação de perguntar: "Você quer
batatas fritas com que?" realmente representa uma ruptura com os regimes
de trabalho fordistas? Ou muitos dos "McJobs" [empregos como os do
McDonalds] que predominam no fundo das profundezas da chamada produção
imaterial não poderiam ser melhor
caracterizados como "os descendentes taylorisados, desqualificados de
antigas formas trabalho de escritório" e outros trabalho nos serviços
[13]?
Mais
recentemente, em 2004, Hardt e Negri tentaram responder a alguns de seus
críticos no livro Multidão, a
sequência de Império. A primeira
coisa a notar aqui é que, enquanto o trabalho imaterial continua a ser o pivô
central para os argumentos do livro, ele é apresentado de uma forma um tanto
mais cautelosa e qualificada do que antes. De fato, Hardt e Negri têm o cuidado
de afirmar que:
a)
"Quando afirmamos que o trabalho imaterial tende para a posição
hegemônica, não estamos dizendo que a maioria dos trabalhadores no mundo de
hoje estão produzindo principalmente bens imateriais", b) "O trabalho
envolvido em toda produção imaterial, devemos enfatizar, permanece material -
ele envolve nossos corpos e cérebros como qualquer trabalho. O que é imaterial
é seu produto"[14].
Portanto,
tal como a ascensão da Multidão, aqui
a hegemonia do trabalho imaterial como ponto de referência, ou mesmo vanguarda,
para "a maioria dos trabalhadores no mundo de hoje" é considerada
como uma tendência, embora inexorável. No final da discussão de Multidão sobre trabalho imaterial, Hardt
e Negri falam no que eles chamam de "teste de realidade" - "que
evidências temos para verificar nossa afirmação de uma hegemonia do trabalho
imaterial" [15]? É o momento que
todos estávamos esperando, e infelizmente a meia página da discussão que eles
oferecem é decepcionante: uma alusão ao US Bureau of Statistics [Secetaria
de Estatísticas Laborais dos EUA] que indica que o trabalho em serviços está em
ascensão; o deslocamento da produção industrial "para partes subordinadas
do mundo", que sinalizaria o privilégio da produção imaterial no coração
do Império; a importância crescente
das "formas imateriais de propriedade"; e, finalmente, a disseminação
de formas de organização em rede específicas ao trabalho imaterial [16].
Chame-me de velho antiquado, mas é necessário algo mais do que isso em um livro
de mais de 400 páginas dedicadas a explicar suas declarações sobre a última
manifestação do proletariado como sujeito revolucionário...
A
referência ao aumento da atividade no setor de serviços é interessante por
várias razões. Huws argumenta que o aumento implacável do trabalho em serviços
no ocidente pode tomar outro significado se o emprego doméstico tão comum há
100 anos fosse levado em conta na equação [17]. Escrevendo uma década antes,
Sergio Bologna sugeriu que certas formas de trabalho só passaram a aparecer
como "serviços" nas estatísticas oficiais após terem sido
terceirizadas; anteriormente, quando eram realizadas "em casa", elas
apareciam como "manufatura" [18]. Nenhum autor está tentando negar
que mudanças importantes ocorreram na economia global, a começar por países
como a Grã-Bretanha, Austrália, Canadá e Estados Unidos. No entanto, eles pedem
cautela na interpretação das mudanças, e cuidado nas categorias usadas para
explicá-las. Bolonha - um antigo colaborador de Negri em vários projetos
políticos nos anos 60 e 70 - é particularmente cáustico sobre a noção de
trabalho imaterial, chamando-a um "mito" que, mais do que qualquer
outra coisa, oculta o aumento da jornada de trabalho [19].
Fim do valor enquanto medida?
Como
mencionado anteriormente, uma das características distintivas do pós-obreirismo
é a rejeição da assim chamada "lei do valor" de Marx. George
Caffentzis nos lembra que o próprio Marx raramente falava de uma tal lei, mas
que também não há dúvida sobre sua opinião de que, sob o domínio do capital, a
quantidade de tempo de trabalho socialmente necessário para produzir
mercadorias em última instância determina seu valor [20]. Rompendo com Marx a
este respeito, os pós-obreiristas se inspiram em uma passagem dos Grundrisse conhecida como
"Fragmento sobre as Máquinas". Este prevê uma situação, alinhada com
a tentativa perene do capital de se livrar da sua dependência do trabalho, onde
o conhecimento se tornou o fluido vital do capital fixo, e o input direto de
trabalho na produção é meramente incidental. Nestas circunstâncias, Marx
argumenta, o capital efetivamente destrói a base que o sustenta, pois "Tão
logo o trabalho na sua forma direta deixou de ser o grande fonte de riqueza, o
tempo de trabalho deixa e deve deixar de ser sua medida e, portanto, o valor de
troca [deve deixar de ser a medida] do valor de uso" [21].
Em seu
esforço para escapar do trabalho, o capital tenta uma série de coisas que, cada
uma à sua maneira, alimenta os argumentos que fazem o tempo de trabalho parecer
como irrelevante como a medida do desenvolvimento do capital. Considerada com
mais cuidado, no entanto, cada uma dessas coisas pode ser vista de um modo um
tanto diferente. Para começar, o capital tenta externalizar ao máximo seus
custos laborais: para dar um exemplo banal (embora não tão banal se você é um
ex-empregado de banco), incentivando o serviço bancário online e máquinas de
autoatendimento e desativando o atendimento de balcão. Quanto ao nosso próprio
cotidiano de trabalho, muitos de nós levam para casa cada vez mais trabalho
(até mesmo para o trem, ou o carro). Parecemos ter que ficar numa prontidão
cada vez maior, acessíveis através da internet ou telefone. Somadas,
estratégias desse tipo (que, para acrescentar confusão a tudo isso, pode muito
bem cruzar com nossas próprias aspirações individuais por mais flexibilidade)
ajudam em grande medida a explicar esse apagamento da separação entre os
componentes "trabalho" e "não trabalho" em nosso cotidiano.
Por outro lado, elas mostram essa separação sob uma perspectiva diferente da do
colapso do tempo de trabalho como medida do valor, uma perspectiva em que -
precisamente porque a quantidade de tempo de trabalho é crucial para a
existência do capital - o máximo de trabalho possível passa a ser executado na
sua forma não paga.
Em segundo
lugar, na tentativa de diminuir os custos laborais dentro de organizações
individuais, o capital também reformula o processo pelo qual os lucros são
distribuídos em uma escala setorial e global. Em uma série de ensaios nos
últimos 15 anos, George Caffentzis delineou a ideia, primeiramente elaborada no
terceiro volume de O Capital de Marx,
de que as taxas médias de lucro sugam a mais-valia dos setores
trabalho-intensivos para aqueles com um investimento maior em capital fixo:
"Para
que haja uma taxa média de lucro em todo o sistema capitalista, os ramos da
indústria que empregam muito pouco trabalho, mas muita maquinaria devem ser
capazes de ter o direito de reivindicar a reserva de valor que os ramos com baixa
tecnologia e muito trabalho criam. Se não houvesse tais ramos ou tal direito,
então a taxa média de lucro seria tão baixa nas industrias de alta tecnologia e
pouco trabalho que todo o investimento pararia e o sistema chegaria ao fim.
Consequentemente, "novos cercamentos" no campo devem acompanhar o
aumento de "processos automáticos" na indústria, o computador requer
o sweat shop, e a existência do ciborgue se sustenta na do escravo" [24].
Neste
exemplo, se não parece haver correlação imediata entre o valor de uma
mercadoria individual e o lucro que ela retorna do mercado, a resposta pode bem
ser que não há nenhuma: o quebra-cabeça só pode ser resolvido através da
análise do setor como um todo, em uma extensão que vai muito além dos
horizontes do trabalho imaterial. Aqui também, é uma questão de quais parâmetros
escolhemos para emoldurar nossa investigação.
Em
terceiro lugar, e em sequência, a divisão do trabalho em muitas organizações,
indústrias e empresas atingiu um ponto em que é difícil - e provavelmente sem
sentido - determinar a contribuição de um empregado individual para a massa de
mercadorias que ele ajuda a produzir [25]. Novamente, isso pode favorecer a
sensação de que o tempo de trabalho envolvido na produção de tais mercadorias
(tangíveis ou não) é irrelevante para o valor que elas contém. Marx, por sua
vez, argumentou que para tratar tudo isso, a questão central é de perspectiva:
"Se
considerarmos o trabalhador agregado,
ou seja, se tomarmos em conjunto todos os membros que compõem a oficina, então
vemos que a atividade combinada deles
resulta materialmente num produto agregado
que é ao mesmo tempo uma quantidade de
bens. E aqui é totalmente indiferente se o trabalho de um operário em
especial, que é meramente um membro desse trabalhador agregado, está a uma
distância maior ou menor do trabalhador manual real" [26].
Sobre
isso, a crítica de Ursula Huws da noção de "economia sem peso"
["weightless economy"] merece cuidadosa atenção. Como Doug Henwood em
sua desconstrução impetuosa da "nova economia" [27], Huws traz a
nossa atenção de volta não só para a enorme infra-estrutura que sustenta a
"economia do conhecimento", mas também para "o fato de que
pessoas reais, com corpos reais, contribuíram com tempo real para o
desenvolvimento dessas mercadorias 'sem peso'" [28]. Com relação a determinar
a contribuição do trabalho humano no âmbito da produção de mercadorias
imateriais, Huws argumenta que, enquanto pode "ser difícil fazer um
modelo", isso "não torna a tarefa impossível". Ou, nas palavras
de David Harvie, "todos dia, as personificações do capital - privadas ou
estatais - fazem julgamentos sobre o valor e sua medida" em seu esforço
"para reforçar a conexão entre valor e trabalho ", Ele acrescenta:
"Hardt
e Negri podem acreditar na 'impossibilidade de o poder conseguir calcular e
ordenar a produção em nível global', mas 'o poder' nunca parou de tentar, e a
'impossibilidade' de seu projeto deriva diretamente de nossas próprias lutas
contra a redução da vida à medida [29]."
Outros rumos?
Há não
muito tempo atrás, Dr. Woo me indicou uma apresentação de Brian Holmes, intitulada
"Deriva continental ou o outro lado da globalização neoliberal" [30].
Em grande parte, seu discurso é uma reflexão sobre os argumentos de Império de Hardt e Negri , aproveitando
o retrospecto fornecido por cinco anos de eventos desde a publicação do livro.
Para Holmes, muitos dos argumentos apresentados em Império foram importantes para desafiar os lugares comuns sobre
como elaborar a "visada ampla" das relações de poder global, forçando
uma reconsideração de termos tais como globalização e imperialismo. Mas se o
livro ajudou a desfazer alguns equívocos, ele praticamente não teve êxito em
suplantá-los com pontos de vistas mais adequados.
"Deriva
Continental" aborda uma série de questões, mas Holmes levanta três pontos
que têm grande relevância para a nossa discussão atual. Primeiramente, um foco
privilegiado no "trabalho imaterial" é cada vez mais insatisfatório
para os esforços de entender o que está acontecendo na composição de classe
contemporânea. Em segundo lugar, os eventos globais, desde a publicação do Império, lançam dúvidas sobre a
utilidade de ver a dominação do capital como um espaço liso que não tem
centro(s). E em terceiro lugar, é preciso dar mais atenção para as razões pelas
quais o mundo das finanças tornou-se um aspecto crucial do domínio do capital
em nosso tempo. Quanto ao primeiro ponto, Holmes oferece algumas críticas
semelhantes àquelas feitas por Dyer-Witheford. Se o conceito de trabalho
imaterial é importante para analisar certos tipos de trabalho "nos
chamados setores terciários ou de serviço das economias desenvolvidas",
falar de sua hegemonia pode obscurecer não apenas "a divisão global do
trabalho" e, assim, "a precisa condição em que as pessoas trabalham e
se reproduzem ", mas também como "elas concebem sua subordinação e
sua ação possível, ou seus desejos de mudança". Quanto ao segundo ponto,
Holmes argumenta que o capitalismo global é melhor compreendido através da
análise de "blocos regionais", como a União Européia ou o
envolvimento cada vez maior entre a China, o Japão e o Sudeste Asiático.
Finalmente, ele acredita que é necessário uma compreensão muito melhor do papel
do dinheiro - e das finanças, acima de tudo - no esforço do capital para manter
o controle nos níveis internacional e individual (a esse respeito, ver também
os escritos de Loren Goldner sobre capital fictício ) [31].
As
explorações mais ricas dos blocos regionais que encontrei são aquelas
desenvolvidas pelos analistas de "sistemas mundiais, como Immanuel
Wallerstein, Giovanni Arrighi e Silver Beverly. Curiosamente, seus esforços
para explicar o surgimento de um novo ciclo de acumulação global com epicentro
na Ásia estão intimamente ligados com uma tentativa de entender por que a
expansão do capital-dinheiro tomou o primeiro plano ao longo dos últimos 30
anos. Para eles, a predominância da expansão financeira é sintomática de uma
fase necessária no ciclo de acumulação, quando, a medida que incertezas vão se
acumulando sobre a lucratividade da produção, indústrias são realocadas, o
capital fica ocioso e os trabalhadores são pilhados, e "uma acentuada
aceleração da polarização econômica [ocorre] a nível mundial e dentro dos
estados" [32]. Nos últimos tempos, Arrighi (que também escreveu um dos
comentários mais considerados de Império)
dedicou grande parte de seus esforços para compreender as fortunas minguantes
do estado e do capital nos EUA nesse processo [33], enquanto Silver tem se concentrado nas perspectivas
que os trabalhadores contemporâneos enfrentam em uma época de fuga
de capitais [34]. A obra desses autores (muitas estão na internet) vale uma
olhada: em parte pelos desafios que oferecem a várias ortodoxias radicais, mas
também pela profundidade de análise que eles realizam dos conflitos entre e
dentro das forças do trabalho e do capital hoje.
Há
ainda muito por desemaranhar nas questões abordadas aqui. Ao mesmo tempo,
existem algumas pistas úteis sobre aonde ir. Por exemplo, a centralidade atual
do dinheiro como capital, com todas as peculiaridades que ela implica, pode oferecer
uma outra razão pela qual pode parecer que o tempo de trabalho socialmente
necessário já não tem qualquer influência sobre a existência do capital como
valor em busca de maior valor. Aventuras especulativas – abundantes na última
década - parecem fazer dinheiro do nada. Mas, na verdade, eles não fazem nada
para aumentar a reserva total de valor gerado pelo capital. Na melhor das
hipóteses, eles redistribuem o que já existe. De modo duvidoso, eles procuram
contornar a esfera da produção para, ao invés, fazer dinheiro "da aposta
na futura exploração do trabalho" [35]. Enquanto isso, o débito continua a
inchar, desde a micro escala do indivíduo e do cartão de crédito familiar, até
o macro nível dos orçamentos públicos e dos déficits em conta corrente.
Quaisquer que sejam as formas engenhosas pelas quais o fardo dessa dívida será
redistribuído, os termos da aposta não podem ser antecipados para sempre.
Quando forem finalmente cobradas, as coisas vão se realmente tornar muito
interessantes. No mínimo, podemos então descobrir finalmente se, como Madonna
cantou:
"The boy with the cold hard cash Is always Mister Right, ’cause we are Living in a material world."
Steve
Wright <pmargin@optusnet.com.au> trabalha na Monash University e é o
autor de Storming Heaven: Class Composition and Struggle in Italian Autonomist
Marxism, London: Pluto Press
Veja também:
A logística e a fábrica sem muros (Brian Ashton, 2006)
Serviços: subsunção formal (Endnotes, 2010)
A rede de lutas na Itália (Romano Alquati, anos 1970)
Notas
1
Agradeço a Hobo por me contar esta história. Agradeço também a Angela Mitropoulos
e Nate Holdren pelas úteis sugestões a este texto. Todos os erros são meus,
etc.
2 Para
a melhor introdução sobre o pós-obreirismo, ver Generation Online website
http://www.generation-online.org
3
Negri, A. (1994) ‘Oltre la legge di valore’, DeriveApprodi 5-6, Winter
4
Lazzarato, M. (1996) ‘Immaterial Labour’, in P. Virno & M. Hardt (eds.)
Radical Thought in Italy: A Potential Politics. Minneapolis: University of
Minnesota Press, p.133
5
Ibid, p.137
6
Ibid, p.136
7
Hardt, M. & Negri, A. (2000) Empire. Cambridge: Harvard University Press,
p.30
8
Ibid, p.292
9
Ibid, p.290
10
Henwood, D. (2003) After the New Economy. New York: New Press, pp.184-5
11
Dyer-Witheford, N. (2005) ‘Cyber-Negri: General Intellect and Immaterial
Labour’, in Murphy, T. & Mustapha, A. (eds.) Resistance in Practice: The
Philosophy of Antonio Negri. London: Pluto Press, pp.151-55
12
Hardt & Negri (2000), op. cit., p294
13
Huws, U. (2003) The Making of a Cybertariat. New York: Monthly Review Press,
p.138
14
Hardt, M. & Negri, A. (2004) Multitude: War and Democracy in the Age of
Empire. New York: Penguin, p.109
15
Ibid, p.114
16
Ibid, p.115
17
Huws, op. cit, p.130
18
Bologna, S. (1992) ‘Problematiche del lavoro autonomo in Italia (I)’,
Altreragioni 1, June, pp.20-1
19
Ibid, pp.22-4
20
Caffentzis, G. (2005) ‘Immeasurable Value?: An Essay on Marx’s Legacy’, The
Commoner 10, Spring/Summer
21
Marx, K. (1973) Grundrisse. Hardmondsworth: Penguin, p.705
22
Negri, (1994), op. cit., 28
23
Marx, op. cit., 706
24
Caffentzis, G. (1997) ‘Why Machines Cannot Create Value or, Marx’s Theory of
Machines’, in J. Davis, T. Hirschl & M. Stack (eds.) Cutting Edge:
Technology, Information, Capitalism and Social Revolution. London: Verso
25
Harvie, D. (2005) ‘All Labour is Productive and Unproductive’, The Commoner 10,
Spring/Summer
26
Marx, K. (1976) ‘Results of the Immediate Process of Production’, now in
Capital Vol. I. Hardmondsworth: Penguin, quoted in H. Cleaver, H. Cleaver
(2001) Reading Capital Politically. Second Edition. Antithesis
27
Henwood, op. cit.
28
Huws, op. cit., pp.142-3
29
Harvie, op. cit., pp.151-154
30
Holmes, B. (2005) ‘Continental Drift Or, The Other Side of Neoliberal
Globalization’,
http://info.interactivist.net/article.pl?sid=05/09/27/131214&mode=nocomment&tid=90
31
Goldner, L. (2005) ‘China In the Contemporary World Dynamic of Accumulation and
Class Struggle’, http://home.earthlink.net/~lrgoldner/china.html, and L.
Goldner (2005) ‘Fictitious Capital and the Transition out of Capitalism’,
http://home.earthlink.net/%7Elrgoldner/program.html
32
Wallerstein, I. (2003) The Decline of American Power. New York: The New Press,
p.275
33
Arrighi, G. (2005a) ‘Hegemony Unravelling – 1’ , New Left Review 32, March-April, and,
Arrighi, G. (2005b) ‘Hegemony Unravelling – 2’ , New Left Review 33, May-June
34
Silver, B. (2002) Forces of Labour. Cambridge: Cambridge University Press
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humanaesfera
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