Com legendas em português. Capítulo O Fetichismo das Mercadorias do livro A Reprodução da Vida Cotidiana, de Fredy Perlman.
domingo, 30 de agosto de 2015
O Fetichismo das Mercadorias
Com legendas em português. Capítulo O Fetichismo das Mercadorias do livro A Reprodução da Vida Cotidiana, de Fredy Perlman.
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quarta-feira, 12 de agosto de 2015
Abolição do trabalho e a questão do circuito produtivo global no comunismo
Traduzimos alguns trechos extraídos da intervenção de Libcom no debate "Parecon or libertarian communism?" ("Economia participativa ou comunismo libertário?"):
A ABOLIÇÃO DO TRABALHO
"Ao invés de generalizar o trabalho para medir ´com justiça´ o esforço feito na sociedade como um todo e pagar proporcionalmente, nós buscamos o movimento oposto: generalizar a atividade humana que vale por si mesma, negando a necessidade de incentivos ou sanções, negando o sistema salarial."
"Essa generalização da atividade além da medida é o que chamamos de abolição do trabalho e da economia como uma esfera separada da vida social. A objetivo é eliminar o trabalho como uma categoria separada de atividade humana, fazendo a atividade produtiva ser satisfatória por si só. Assim, por exemplo, poderemos usar a tecnologia não apenas para aumentar a produtividade, mas também para reduzir o esforço, o tempo de trabalho, etc., porque a produção será um assunto social, e atenderá diretamente e de forma transparente as necessidades sociais. O objetivo é a abolição do trabalho, não a sua democratização."
"Além disso, uma sociedade que [como a economia participativa] faz da recompensa do esforço e do sacrifício um princípio fundacional não oferece nenhum incentivo para reduzir o esforço e o sacrifício. Assim como hoje, os trabalhadores buscariam esconder as inovações que reduzem o trabalho, a fim de maximizar suas recompensas (dado que eles perderiam se revelassem ter descoberto um modo de fazer as mesmas tarefas com menos esforço). Por exemplo, se eu fizesse X tarefas e ela me desse Y créditos para sobreviver, eu não gostaria de ver a queda no meu padrão de vida simplesmente porque eu (ou outra pessoa) inventei uma nova forma de fazer a tarefa mais facilmente. Em contraste, sem salário, veríamos a redução do esforço e do sacrifício, junto com a sustentabilidade ecológica, se tornarem as forças motrizes do desenvolvimento sob o comunismo libertário (ou seja, manifestações concretas de 'necessidade' na máxima ´de cada um conforme as suas capacidades, a cada um segundo suas necessidades')."
"A remuneração pelo esforço e sacrifício incentiva a mentir e enganar, já que os indivíduos podem se beneficiar tanto por meios sujos quanto como honestos. As possíveis soluções para isso (teste mandatório etc) apenas criaria uma outra camada desnecessária de tarefas tecnocráticas, mais preocupada em monitorar os trabalhadores do que em satisfazer as necessidades humanas".
O CIRCUITO PRODUTIVO GLOBAL NO COMUNISMO
"Em contraste [com a ideia de planificação central], propomos a "produção por empuxo" ["pull production", que contrasta com a "push production", "produção por empurro"], que significa produção em resposta ao consumo; a medida que os estoques vão sendo consumidos, isso sinaliza automaticamente a produção para reabastecê-los, 'puxando' bens através da rede logística [supply chain]. Como se percebe, não se trata da mão invisível do mercado, até porque não há dinheiro, preços e nem troca. Nossa crítica ao planejamento central não é apenas que ele exclui a maioria de elaborar o plano (embora essa crítica seja correta, ela é limitada), mas que a própria ideia de planificar centralmente metas (cotas) para algo tão dinâmico como uma sociedade de bilhões é fundamentalmente falho, tanto em termos práticos como epistemologicamente.
Consequentemente, vemos o planejamento social racional ocorrendo pela definição da prioridade de setores e bens/serviços, desde os essenciais até o luxo. Os volumes exatos de produção são, então, determinados localmente em resposta ao consumo, com a alocação de recursos determinada pela prioridade relativa das indústrias, produtos e serviços em questão. Desse modo, a macro-ordem em termos de volumes reais de produção é emergente e não planificada, embora possa surgir de acordo com as prioridades do plano decidido socialmente (ao contrário da ordem emergente dos mercados, que simplesmente reflete o poder de compra e o que é lucrativo produzir, ao invés do que é necessário, ou a ordem emergente da evolução biológica, que reflete nada mais do que aptidão reprodutiva).
Os meios pelos quais nós pensamos que este processo de planejamento social deve acontecer é através de estruturas de conselhos, por delegados com mandatos revogáveis ou rotativos definidos em assembleias para tratar das decisões de alocação de recursos de acordo com as prioridades do plano social. Pode haver outras maneiras de fazer isso incorporando tecnologia (como por exemplo, qualquer pessoa ser capaz de acessar um banco de dados para atualizar suas preferências individuais, atualizando automaticamente o plano social). No entanto, uma tal base de dados em larga escala seria sem precedentes, e em qualquer caso, há provavelmente benefícios em ter discussões cara-a-cara em conselhos, em vez de escolhas individuais atomizadas. Nós estamos de mente aberta para meios melhores, mas uma estrutura de conselhos parece um bom ponto de partida."
Continuação das reflexões deste texto:
- Breve crítica à idéia de economia paralela anticapitalista
- Condições de existência universalmente interconectadas
- Condições de existência universalmente interconectadas
- Serviços: subsunção formal (Endnotes)
Perspectiva prática:
- Greve e produção livre
- Abolição do trabalho e a questão do circuito produtivo global no comunismo
- Contra a metafísica da escassez, copiosidade prática
- Abolição do trabalho e a questão do circuito produtivo global no comunismo
- Contra a metafísica da escassez, copiosidade prática
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sábado, 8 de agosto de 2015
Concorrência e monopólio
Não existe concorrência sem monopólio, porque a concorrência em si já pressupõe privação de propriedade, ou seja, escassez. Escassez é simplesmente uma situação em que a satisfação de um exclui a satisfação do outro. Portanto, concorrência, por definição, é sempre pelo monopólio para si e pela privação para o outro. Concorrência e monopólio são apenas adjetivos da propriedade privada e não existem sem ela.
Graças à propriedade privada, quanto maior a escassez e necessidade, maior o lucro, porque mais caro é possível cobrar em pagamento.
O "empreendedor de sucesso" é aquele que, depois de concorrer, consegue ao fim monopolizar, isto é, privar, reproduzindo numa escala sempre maior a escassez e a necessidade.
Alcançando o monopólio, o lucro da empresa se multiplica e parece surgir do nada (super-lucros), como se fosse desproporcional ao trabalho feito dentro dela. Na realidade é o resto da sociedade que, pagando caro, trabalha de graça (sobre-trabalho) para aquele proprietário. E também, o novo monopólio pressiona os antigos concorrentes, que, desesperados, impõem que os proletários trabalhem ainda mais para tentar compensar seu crescente fracasso no mercado frente ao vencedor.
Por diversas vias, o sobre-trabalho (trabalho não pago) que os proletários são açoitados para fazer por todos os proprietários concorrentes flui como mais-valia para os proprietários com mais sucesso na concorrência pela monopolização sob a forma de super-lucros - o sonho de todas as empresas concorrentes.
No entanto, a concorrência (que sempre é pelo monopólio) nunca acaba, porque sempre podem surgir novos concorrentes com novas máquinas e mercadorias que buscam suplantar os monopólios, embora estes, por terem já anteriormente acumulado super-lucros, sempre estejam numa posição vantajosa para investir em inovação e desenvolvimento de máquinas e produtos frente aos novos concorrentes.
Essa dinâmica entre monopólio e concorrência explica como funciona todo e qualquer tipo de mercado (troca, inclusive escambo), e todos os tipos de capital que dele decorrem automaticamente:
-capital rentista (que vive de rendas, monopolizando patentes, copyright, royalties, imóveis, terrenos);
-capital comercial (que monopoliza rotas comerciais para poder comprar barato e vender caro)
-capital financeiro (que empresta para receber com juros, porque o banco tem o dinheiro o que outros não tem), e
-capital industrial (que é a propriedade privada das condições de existência da população, que força a classe proletária a se oferecer como objeto de consumo no mercado de trabalho à classe proprietária em troca do salário).
humanaesfera, agosto de 2015
Texto relacionado: Propriedade privada, escassez e democracia
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quinta-feira, 30 de julho de 2015
Condições de existência universalmente interconectadas/interdependentes
(English translation here)
O site The Observatory of Economic Complexity permite ter uma noção de como nossas condições de existência - ou seja, as condições materiais de nossa vida, desde medicamentos, alimentos, até smartphones - são interligadas e interdependentes em escala mundial. O site evidencia que é uma total fantasia a ideia de auto-suficiência doméstica, comunitária, municipal ou nacional, porque as condições de nossa existência, mesmo no nível atual (que é muito melhor do que no passado, apesar da pobreza ainda para a maioria), pressupõem em todo o lugar a combinação de materiais e produtos de várias cidades, países, continentes...
Essa simples constatação torna claro que defender "identidades", "nações", "etnias", "comunidades", "países", "autarquias", "territórios autônomos" e "zonas autogeridas" é o mesmo que reivindicar o estabelecimento de novas propriedades privadas e, consequentemente, de novos capitais e novos Estados. Eis o porquê:
1) para sobreviver, cada uma dessas "autarquias" precisará adquirir os materiais e produtos de que é privada;
2) sendo privada desses materiais e produtos (isto é, é uma propriedade privada), terá necessidade de comprá-los;
3) mas para comprar, é preciso vender - vender alguma coisa (troca, tanto faz se por escambo, dinheiro etc);
4) vender coisas requer encontrar compradores, ou seja, concorrer no mercado por "sucesso" - sucesso que nada mais é do que derrubar os concorrentes para alcançar o máximo de monopólio;
5) para concorrer no mercado é necessário impor, dentro da propriedade privada, que se trabalhe jornadas e intensidades no mínimo tão brutais quanto os concorrentes (geralmente concorrentes com um grau muito maior de automação da produção), para que seus produtos tenham um preço e/ou qualidade "concorríveis";
6) impor tais jornadas e intensidades de trabalho exige uma hierarquia, para aplicar punições e recompensas aos trabalhadores a fim de que essas "metas" sejam alcançadas por eles. Ou seja, serão obrigados a recriar na prática algo que tem a exata função de capitalista, para poder sobreviver e não falir (mesmo que essa função de capitalista seja uma comissão "livremente" escolhida em assembleias e em autogestão);
7) e se a propriedade privada "autárquica" tiver enfim "alcançado sucesso" - monopolizando o mercado - a jornada e intensidade de trabalho até poderão ser relaxadas no interior dessa propriedade, porque a pressão da concorrência acabou. Porém, isso significa meramente que ela é um parasita sustentado pelo trabalho dos demais proletários do mundo, que são forçados a trabalhar para ela (direta ou indiretamente), única maneira de comprar esses produtos, monopolizados por ela.
Conclusão: tudo isso demonstra que é imprescindível uma perspectiva internacionalista (anti-nacionalista e anti-comunitarista). Lutar por nossa liberdade e autonomia é lutar por expandir as capacidades humanas de pensar, desejar e agir - jamais lutar por reduzi-las e limitá-las.
Os produtos, luxos, tecnologias e facilidades que a burguesia costuma atribuir ao "capitalismo", ao "mercado", ao "Estado", à "propriedade" e ao "seu trabalho", são na verdade frutos das capacidades humanas, isto é, de nossas capacidades, da humanidade. Ao abolir a propriedade privada das nossas condições de existência universalmente (planetariamente) interconectadas e interdependentes, superando a troca e a economia, transformaremos essa interconexão em condições práticas (meios de produção) universalmente e livremente acessíveis a qualquer um no mundo que queira satisfazer por si mesmo (ou com quem mais quiser) suas inclinações, desejos, projetos, necessidades, pensamentos, paixões. A verdadeira liberdade e autonomia pressupõem o comunismo, isto é, o fim da propriedade privada e o estabelecimento da verdadeira propriedade, que é a propriedade comum humana, pelos indivíduos livremente associados, sobre as condições materiais universalmente acessíveis de sua livre auto-realização, satisfação, e expressão, a comunidade humana mundial.
Para este fim, é útil estudar essas interdependências e interconexões mundiais: como as coisas são hoje produzidas, armazenadas e transportadas pelo mundo e o fluxo informacional que coordena tudo isso? Por exemplo as "supply chains" (redes logísticas). Também é útil conhecer e atualizar as obras que foram fundo nessa perspectiva: por exemplo, as utopias de Joseph Déjacque (Humanisfera), Alexander Bogdanov (Estrela Vermelha), Constant Nieuwenhuys (Nova Babilônia), as obras de Jean Barrot (Gilles Dauvé), Piotr Kropotkin, da Internacional Situacionista, dos autonomistas (autonomia operária) sobre os fluxos materiais que constituem a composição de classe, etc.
humanaesfera, julho de 2015
O site The Observatory of Economic Complexity permite ter uma noção de como nossas condições de existência - ou seja, as condições materiais de nossa vida, desde medicamentos, alimentos, até smartphones - são interligadas e interdependentes em escala mundial. O site evidencia que é uma total fantasia a ideia de auto-suficiência doméstica, comunitária, municipal ou nacional, porque as condições de nossa existência, mesmo no nível atual (que é muito melhor do que no passado, apesar da pobreza ainda para a maioria), pressupõem em todo o lugar a combinação de materiais e produtos de várias cidades, países, continentes...
Essa simples constatação torna claro que defender "identidades", "nações", "etnias", "comunidades", "países", "autarquias", "territórios autônomos" e "zonas autogeridas" é o mesmo que reivindicar o estabelecimento de novas propriedades privadas e, consequentemente, de novos capitais e novos Estados. Eis o porquê:
1) para sobreviver, cada uma dessas "autarquias" precisará adquirir os materiais e produtos de que é privada;
2) sendo privada desses materiais e produtos (isto é, é uma propriedade privada), terá necessidade de comprá-los;
3) mas para comprar, é preciso vender - vender alguma coisa (troca, tanto faz se por escambo, dinheiro etc);
4) vender coisas requer encontrar compradores, ou seja, concorrer no mercado por "sucesso" - sucesso que nada mais é do que derrubar os concorrentes para alcançar o máximo de monopólio;
5) para concorrer no mercado é necessário impor, dentro da propriedade privada, que se trabalhe jornadas e intensidades no mínimo tão brutais quanto os concorrentes (geralmente concorrentes com um grau muito maior de automação da produção), para que seus produtos tenham um preço e/ou qualidade "concorríveis";
6) impor tais jornadas e intensidades de trabalho exige uma hierarquia, para aplicar punições e recompensas aos trabalhadores a fim de que essas "metas" sejam alcançadas por eles. Ou seja, serão obrigados a recriar na prática algo que tem a exata função de capitalista, para poder sobreviver e não falir (mesmo que essa função de capitalista seja uma comissão "livremente" escolhida em assembleias e em autogestão);
7) e se a propriedade privada "autárquica" tiver enfim "alcançado sucesso" - monopolizando o mercado - a jornada e intensidade de trabalho até poderão ser relaxadas no interior dessa propriedade, porque a pressão da concorrência acabou. Porém, isso significa meramente que ela é um parasita sustentado pelo trabalho dos demais proletários do mundo, que são forçados a trabalhar para ela (direta ou indiretamente), única maneira de comprar esses produtos, monopolizados por ela.
Conclusão: tudo isso demonstra que é imprescindível uma perspectiva internacionalista (anti-nacionalista e anti-comunitarista). Lutar por nossa liberdade e autonomia é lutar por expandir as capacidades humanas de pensar, desejar e agir - jamais lutar por reduzi-las e limitá-las.
Os produtos, luxos, tecnologias e facilidades que a burguesia costuma atribuir ao "capitalismo", ao "mercado", ao "Estado", à "propriedade" e ao "seu trabalho", são na verdade frutos das capacidades humanas, isto é, de nossas capacidades, da humanidade. Ao abolir a propriedade privada das nossas condições de existência universalmente (planetariamente) interconectadas e interdependentes, superando a troca e a economia, transformaremos essa interconexão em condições práticas (meios de produção) universalmente e livremente acessíveis a qualquer um no mundo que queira satisfazer por si mesmo (ou com quem mais quiser) suas inclinações, desejos, projetos, necessidades, pensamentos, paixões. A verdadeira liberdade e autonomia pressupõem o comunismo, isto é, o fim da propriedade privada e o estabelecimento da verdadeira propriedade, que é a propriedade comum humana, pelos indivíduos livremente associados, sobre as condições materiais universalmente acessíveis de sua livre auto-realização, satisfação, e expressão, a comunidade humana mundial.
Para este fim, é útil estudar essas interdependências e interconexões mundiais: como as coisas são hoje produzidas, armazenadas e transportadas pelo mundo e o fluxo informacional que coordena tudo isso? Por exemplo as "supply chains" (redes logísticas). Também é útil conhecer e atualizar as obras que foram fundo nessa perspectiva: por exemplo, as utopias de Joseph Déjacque (Humanisfera), Alexander Bogdanov (Estrela Vermelha), Constant Nieuwenhuys (Nova Babilônia), as obras de Jean Barrot (Gilles Dauvé), Piotr Kropotkin, da Internacional Situacionista, dos autonomistas (autonomia operária) sobre os fluxos materiais que constituem a composição de classe, etc.
humanaesfera, julho de 2015
Textos relacionados:
Continuação das reflexões deste texto:
- Breve crítica à idéia de economia paralela anticapitalista
- A logística e a fábrica sem muros (Brian Ashton)
- A logística e a fábrica sem muros (Brian Ashton)
- Serviços: subsunção formal (Endnotes)
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sexta-feira, 24 de julho de 2015
O capital num rápido histórico
O capital comercial já era poderoso militarmente inclusive na antiguidade. A Grécia, por exemplo era uma talassocracia, em que o comércio, a pirataria e a guerra eram fundamentais (Aristóteles falava em crematística, a arte de multiplicar dinheiro). O comércio marítimo já era capitalista, mas a produção era ainda pré-capitalista. Assim, o capital existia, mas de maneira marginal como pilhagem exterior aos meios de produção, dos quais a população (mesmo os escravos*) não era separada. É claro que, com as armas de fogo (ao fim da Idade Média), o capital comercial ficou cada vez mais poderoso (em sequência, os impérios: Veneza, Gênova, Espanha, Holanda e Inglaterra), porém isso foi apenas uma questão de grau, e o capital comercial permaneceu capital comercial (esse "capitalismo" se resumia a entrepostos comerciais, concentrados em algumas cidades-estados, que controlavam militarmente rotas comerciais através de companhias, i.e, empresas militares, como a VOC).
Completamente diferente é o capital industrial, que é novidade na história (século XVIII). Este tipo de capital é o que tomou a produção a seu cargo (subsunção formal e depois real). Isso só foi possível com a sistemática separação da população de suas condições de produção (primeiramente num lugar preciso, a Inglaterra, depois, no resto do mundo), de modo a haver um exército de infelizes sem nenhum meio de sobreviver senão vendendo a si mesmos (proletariado). Com essa separação, o capital industrial fica livre para revolucionarizar incessantemente a produção (manufatura, grande industria, gestão científica do trabalho, logística, transporte, automação, robótica...), e se expandir tanto extensamente, para o mundo todo (impondo pela concorrência a revolucionarização incessante e proletarização por toda parte), quanto intensamente, ao ir transformando campos cada vez mais radicais da existência humana em capital industrial (por exemplo, novas necessidades, até "educação", "cultura", "amor"...).
Assim, o mercado e a valorização incessante só se tornam sistematicamente "relevantes" com o aparecimento do proletariado, que é obrigado a comprar tudo o que necessita, já que não tem meios de vida, e é obrigado, para poder comprar, a vender a única coisa que possui, ou seja, a si mesmo, oferecendo-se como objeto de consumo (força de trabalho) no mercado de trabalho, que o capitalista só emprega evidentemente se ele produzir mais do que custa (mais-valia). Antes do capital industrial, ou seja, antes do proletariado, o mercado e a valorização só eram "relevantes" em circunstâncias pontuais, acidentais, não-sistemáticas (por ex., a Grécia era uma terra infértil, daí a importância do comércio, ou um ou outro indivíduo era banido pelos senhores de suas terras e ia servir nos navios do capital comercial).
Resumidamente: o capital industrial, ao privar os seres humanos de suas condições de existência (fazendo surgir o proletariado), força a humanidade a se sujeitar e oferecer as capacidades humanas como coisas, objetos de consumo. Pois, privados de suas condições de existência, eles só podem exercer suas capacidades quando alienadas, vendidas, ou seja, apenas quando trocadas por uma dada soma de dinheiro (trabalho assalariado). O dinheiro se torna equivalente à potência humana, enquanto os seres humanos se tornam impotentes como simples seres humanos, impotentes como indivíduos. Portanto, aqueles que mais tiverem dinheiro mais terão sob seu ditame a potência criativa da população, e poderão consumi-la, pô-la para trabalhar, desgastando-a até o osso, para gerar ainda mais dinheiro, lucro, num círculo de acumulação constante e sem limite. Este é o capital - uma relação social que impulsiona a si mesma a se reproduzir numa expansão cega e arrasadora, como se fosse um fato natural, involuntário, coisal, para os indivíduos envolvidos, pois estes pensam estarem apenas se relacionando entre si como pessoas livres e iguais que trocam mercadorias uns com os outros (todos agem como "classe média": vendedores e compradores em concorrência - uns com mais "sucesso" na venda e/ou compra, outros com menos e ainda outros com ainda menos e por aí vai).
Mas a história não acaba aí. Não nos enganemos com o papo furado das "classes médias". Hoje numa escala muito maior do que no passado, a privação das condições de existência dos seres humanos para eles mesmos continua forçando-os, sob a ameaça de não ter como sobreviver, a ter que vender as capacidades criativas humanas como uma coisa e exercê-las transformando o mundo contra si mesmos. A luta por tomarmos nossas condições de existência, a luta por efetuarmos nossas capacidades como nós mesmos, como indivíduos livres em associação através do mundo, ou seja, a luta pelo fim da propriedade privada (pelo fim do capital e do Estado), continua o projeto social mínimo chamado anarquia, comunismo, livre associação dos produtores.
Humanaesfera, julho de 2015
* O escravo produz um excedente - afinal ele sustenta a casta senhoril. A diferença é que este excedente não precisava ser necessariamente vendido (pois só se torna mais-valia quando vendido) e muito menos o senhor necessitava que essa venda fosse lucrativa, uma vez que o objetivo primário dos senhores ao ter escravos era satisfazer suas necessidades, com ênfase em luxo dispendioso, festas luxuosas para dar-lhe status - em suma, despesas improdutivas do ponto de vista capitalista.
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sábado, 11 de julho de 2015
BICHO MAU nº1 (informativo classista libertário - inverno de 1985)
Um clássico que lançou sementes que germinam já há gerações:

BICHO MAU nº1 (informativo classista libertário - inverno de 1985)
Índice:
O QUE É AUTONOMIA OPERÁRIA?
PARA NÃO ESQUECER: A CRIAÇÃO DOS SOVIETES
SINDICALISMO E AÇÃO DIRETA OPERÁRIA
AS LIÇÕES DA GREVE DOS MINEIROS

BICHO MAU nº1 (informativo classista libertário - inverno de 1985)
Índice:
O QUE É AUTONOMIA OPERÁRIA?
PARA NÃO ESQUECER: A CRIAÇÃO DOS SOVIETES
SINDICALISMO E AÇÃO DIRETA OPERÁRIA
AS LIÇÕES DA GREVE DOS MINEIROS
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sexta-feira, 12 de junho de 2015
Autonomia, espiral de violências e apelo à força (i.e, à classe dominante)

Há quem argumente que, para interromper esse ciclo, é preciso "compaixão" ou "empatia": nos compadecer com a dor do agressor porque na verdade ele teria sido antes vítima de outro agressor e assim sucessivamente, ad infinitum. Porém quem diz isso esquece que a empatia é a própria causa da espiral de violência (sob a forma de indignação). O erro do argumento da empatia é que "empatia de amor" e a "empatia de ódio" são igualmente emoções - e emoções são reações espontâneas (se não forem, são falsas emoções), ou seja, não dependem de nenhum argumento.
Sem dúvida, a paixão é o que nos move e não há como escapar disso. O que fazer então? Uma possível resposta é dada pelos filósofos ultra-iluministas Benedito de Espinoza e Jean Meslier: entre as paixões humanas está a paixão pela liberdade - a razão. A razão é ação, e não reação (todas as demais emoções não passam de reações), porque ela busca modificar as causas, não reagir aos efeitos; busca transformar as condições de existência, e não escolher entre caminhos pré-estabelecidos; busca subverter o status quo, o tabuleiro, não mover mais uma vez as peças de um jogo suicida e escravizador. A questão é: a paixão pela liberdade, pela autonomia, é capaz de superar as outras emoções? E como agir, isto é, como criar um ambiente onde as emoções possam se expressar da maneira mais enriquecedora e feliz possível?
Seja como for, quando ocorre uma violência, se queremos evitar o surgimento de uma espiral de violências - que só serve para suprimir a autonomia e legitimar o poder da classe dominante, ou seja, a adesão à falsa garantia dada por alguma violência ainda mais ameaçadora, tal como a gangue, o gerente, a polícia, o direito, as forças armadas e o Estado -, só nos resta abandonar toda e qualquer ideia de punição (e recompensa), porque, como vimos, ela não tem o menor fundamento, é pura irracionalidade. *
É preciso ao menos que saibamos ser concretos:
- Quem agrediu pode agredir outra vez? Em outros termos: a agressão dele é um hábito? E se é um hábito - um vício -, ele poderia (ter liberdade para) não agredir da próxima vez?
- Mas se ele teve liberdade para escolher agredir, que razão o motivou a fazer isso? A agressão foi motivada por algo transitório, improvável de se repetir? Ou motivada por algo constante ou repetível? Como atacar esse motivo?
- Se a agressão dele é um hábito, o que fazer? Isolá-lo, para que não voltemos a sofrer agressões dele? Mas como ajudá-lo a se libertar do hábito de agredir que o escraviza?
- E o agredido, como tratá-lo?
Em suma, questões materialistas práticas incontornáveis.
humanaesfera, junho de 2015
Nota:
* Falar em "livre arbítrio", "intenção", "vontade", "falta de vontade", não só é perfeitamente inútil e oco mas extremamente nocivo. O apelo à vontade serve apenas para atribuir culpa, causando ainda mais raiva e ressentimento. Quando buscamos parar de fumar, por exemplo, a vontade não é nada "em si", porque o que determina essa vontade é, não ela mesma, mas as paixões de parar de fumar (que pode ser uma paixão pela autonomia que parar de fumar trará) frente às paixões cada vez mais tristes (servis) de continuar fumando (prováveis doenças, interrupção constante das atividades para suprir o vício, mau cheiro nas interações sociais etc.). Se a vontade é algo, ela não passa do hábito - que é uma paixão "animal", pavlovianamente adestrada - de se focalizar para alcançar qualquer fim, seja ele qual for. Enquanto os fins sempre são formados pelas livres interações, combinações ou associações das paixões, nunca pela "bestial" vontade "em si".
Bibliografia:
- Reflexões sobre as causas da liberdade e da opressão Social - Simone Weil
- Ética - Benedito de Espinoza
- Ateismo e revolta: os manuscritos do padre Jean Meslier - Paulo Jonas de Lima Piva
- Le Humanisphère - Joseph Déjacque
Ver também:
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sábado, 2 de maio de 2015
Ação direta VERSUS trabalho de base
"A consciência não é senão o ser consciente, e o ser dos homens é o seu processo real de vida. [...] Não é a consciência que determina a vida, é a vida que determina a consciência. No primeiro modo de consideração, parte-se da consciência como indivíduo vivo; no segundo, que corresponde à vida real, parte-se dos próprios indivíduos vivos reais e considera-se a consciência apenas como a sua consciência." (K. Marx)Um sinônimo para heteronomia do proletariado? Eis: trabalho de base. Pseudo-práxis tão oca, tautológica e vazia que não passa da repetição incessante da exortação a um dolorido, árduo, interminável, confrangente... trabalho de base. *
O ativista, o militante, quer ação. Ao contrário dos não-militantes, ele se vangloria por ele, ele sim, agir. O erro começa aí: imaginar que existe ou possa existir alguém que "não faz nada". Se existimos, agimos. Não é preciso esperar uma panelinha de militantes com seus "trabalhos de base" e "inserções sociais" para agir e se solidarizar com os demais.
A ideia de trabalho de base é indefensável, porque é intrinsecamente heteronômica. Mas o militante autonomista pretende lutar pela autonomia do proletariado. Como alguém que alega agir - isto é, alega que os outros não agem - pode agir se não supor agir sobre os outros (trabalho sobre a base)? Então, o militante autonomista entra em parafuso, e, para se recompor, apresenta-se como meio, instrumento, e não como fim - ele renuncia aos próprios desejos (objetivos, ideias, finalidades, que menoscaba como meras utopias), porque acha que assim respeita os desejos da "base", a autonomia dela. Ora, não é óbvio que o "trabalho de base" implica aceitar acriticamente uma posição heterônima, hierárquica? E não é óbvio que essa renúncia a objetivos e desejos (para imaginariamente respeitar a autonomia da base) significa se omitir frente às tendências suicidas (reacionárias) do proletariado, como se elas fossem autônomas?
No melhor dos casos, a militância é simples fantasia, mera imaginação e delírio. Coisa talvez digna de riso. Já nos outros casos, a medida que a organização militante se perpetua e o trabalho de base tem êxito, vai se consolidando inevitavelmente (independente do formalismo "igualitário", "democrático" ou das "intenções") como gangue, bando, máfia, sacerdócio, quando não numa nova classe dominante (burocracia).
O que devemos fazer então? Nada. Se existimos, agimos. Basta ser o que se é, isto é, agir como igual (um proletário), sem recuos nem renúncias - apresentando opiniões, objetivos e propostas assim como os outros iguais apresentam as opiniões, objetivos e propostas deles. Simplesmente de igual para igual, nos ônibus, no trabalho, no trem, na internet, na rua, se há oportunidade. Abertamente, como tendência comunista libertária do proletariado contra outras tendências dele (tendências essas que em nossa opinião são suicidas para o proletariado, pois o levam a sustentar sua própria sujeição e exploração. Por exemplo: religião, patriotismo, defesa de "seus" empregos contra "intrusos", xenofobia, machismo, primitivismo, racismo, bairrismo, corporativismo, conspiracionismo, o servilismo de brigar pelo reconhecimento de "méritos"...).
As práticas do proletariado (solidariedades, greves, manifestações, trabalhar o mínimo, cagar para a "meritocracia" e, o que propomos, que é superar a greve pela produção livre, rastilho do comunismo universal) são por si mesmas nossa prática. E as práticas da classe, só podemos influenciá-las debatendo-as e apresentando claramente nossas críticas, ideias, e finalidades, que podem ser mais ou menos adotadas ou não, ser difundidas pelos outros ou não, em determinando momentos sim e em outros não, aprimoradas ou não... Não existe nenhum outro tipo de práxis além dessa, se buscamos favorecer a autonomia do proletariado. Trabalho de base é mistificação proto-burocrática ou proto-sacerdotal.
[Obs.: aos que acham que superestimamos as "ideias", respondemos que as ideias não são entes imateriais (só seriam imateriais se elas existissem num plano sobrenatural, em que seriam eternas e inalteráveis), mas, pelo contrário, são produções, indispensáveis para compor (em pé de igualdade ) com outras produções a transformação das circunstâncias (praxis revolucionária). Os proletários não são bestas que fazem coisas cegamente ou por instinto. Não há ações sem objetivos, finalidades, desejos... isto é, as ações pressupõem e implicam teorias, que os proletários criam e aprimoram (ou degradam e dogmatizam) conforme percebem que sua capacidade de agir é objetivamente aumentada (ou diminuída). A capacidade de agir dos proletários é aumentada quando confiam em si mesmos (internacionalisticamente), não reconhecem "bodes expiatórios", e impõem suas necessidades (que são comunistas: não trabalhar e que tudo seja livre, "free"), opondo-se radicalmente, por este simples ato, à classe dominante (para a qual, obviamente, isto é "opressivo", verdadeira ditadura do proletariado). Ataca o poder dissolvendo o que o sustenta: as divisões do proletariado em empresas, pátrias, raça, gênero, etc. mediante uma livre associação universal que garanta o livre acesso a qualquer um aos meios de produção e de vida. E é diminuída quando os proletários desconfiam de si mesmos, clamam ao poder contra "bodes expiatórios" (estrangeiros, "judeus", imigrantes, "vagabundos"), e reprimem seus desejos em nome da ficção de um "bem maior" (pátria, empresa, religião...), isto é, quando se unem à classe dominante (seja ela burocrática ou particular, de esquerda ou de direita) contra si mesmos. No primeiro caso (aumento da capacidade de agir), a teoria necessariamente se desenvolve e se aprimora, enquanto que no segundo caso (redução da capacidade de agir), a teoria só pode se degradar e se dogmatizar.]
humanaesfera, maio de 2015
* É bem provável que o "trabalho de base" tenha base no dolorismo missionário católico (caridade, culpa...). Maldito legado das comunidades eclesiais de base...
Continuação destas reflexões: Autonomia, "classe média" e auto-abolição do proletariado
Bibliografia:
Ação direta (Kaos)
O «renegado» Kautsky e seu discípulo Lênin (Jean Barrot)
A Impotência do Grupo Revolucionário (Sam Moss)
A Democracia Direta é Realmente Possível? (Echanges et Mouvement)
Sobre Organização: As Gangues (dentro e fora do Estado) e o Estado como Gangue (Jacques Camatte & Gianni Collu)
Eclipse e Reemergência do Movimento Comunista (Jean Barrot e François Martin)
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quinta-feira, 8 de janeiro de 2015
O proletariado foi integrado?
Será que o proletariado está finalmente "integrado"?
Segundo o discurso ideológico do capital e do Estado, não há classes, todos são "classe média", ou seja, vendedores e compradores livres, iguais, concorrentes, "capitais humanos", com mais ou menos "sucesso" ou "méritos recompensados", e com interesses mais ou menos "corporativos", "colaborativos". Quanto menos resistência a classe dominante enfrenta, mais essa utopia burguesa parece "realidade"... Porém, qualquer patrão conhece perfeitamente a realidade de que, por si mesmos, ou seja, sem ameaças nem recompensas, os trabalhadores não trabalham, e satisfazem suas paixões tomando tudo de graça... isto é, os patrões tem perfeita consciência de que todos os proletários do mundo formam uma classe, a classe dos que querem, saibam ou não, o comunismo pleno, luxuriante e universal.

É certo que o proletariado é "ambíguo". Mas isso não é para se lamentar. Sem ambiguidade não haveria contradição e toda mudança seria impossível.
Então, que uns trabalhadores ganhem 10 mil e outros 1 real, ou que uns tenham uma cultura (ou estilo de vida, ou raça ou gênero...) e outros tenham outra "oposta", esse é o status quo que importa à classe dominante estabelecer e estimular, para que seus escravos se massacrem por "méritos" e se sujeitem por "livre e espontânea vontade". Com isso, o que importa? Não holismos, espiritualidades, caridades, militâncias, auto-sacrifícios, culturas e identidades, sutilezas que só servem para definir estereótipos e culpar bodes expiatórios, mas exatamente o oposto: o materialismo egoísta e prático de resistir a se sacrificar por prêmios e chicoteamentos oferecidos pelos poderosos... egoísmo "chão" que é a única base da solidariedade de classe e único fundamento para uma livre associação universal dos indivíduos (comunismo) que possa superar o capital, a mercadoria, o trabalho e o Estado.
É contra o trabalho que o proletariado, enquanto classe, age, isto é, por uma sociedade em que a atividade humana não assuma mais a forma de "trabalho", mas sim auto-realização material e auto-produção dos desejos, pensamentos e paixões de indivíduos livremente associados, graças ao fim da propriedade privada dos meios de vida. Isso é o que os proletários de todo o mundo e de todos os tempos querem, mesmo que estejam alienados de seus próprios interesses enquanto reproduzem a ideologia e o poder da classe proprietária. A realização desse desejo material é impedida pela má correlação de forças com a classe dominante, situação que os força a aceitar instituições mediadoras (sindicatos, partidos políticos, ongs...), reduzir a luta e "conversar" com a burguesia, para ao menos trabalhar o mínimo possível pelo máximo possível de meios de consumo (reformismo). Mas o menor acidente pode virar essa correlação de forças de uma vez por todas...
Humanaesfera, janeiro de 2015
Segundo o discurso ideológico do capital e do Estado, não há classes, todos são "classe média", ou seja, vendedores e compradores livres, iguais, concorrentes, "capitais humanos", com mais ou menos "sucesso" ou "méritos recompensados", e com interesses mais ou menos "corporativos", "colaborativos". Quanto menos resistência a classe dominante enfrenta, mais essa utopia burguesa parece "realidade"... Porém, qualquer patrão conhece perfeitamente a realidade de que, por si mesmos, ou seja, sem ameaças nem recompensas, os trabalhadores não trabalham, e satisfazem suas paixões tomando tudo de graça... isto é, os patrões tem perfeita consciência de que todos os proletários do mundo formam uma classe, a classe dos que querem, saibam ou não, o comunismo pleno, luxuriante e universal.

É certo que o proletariado é "ambíguo". Mas isso não é para se lamentar. Sem ambiguidade não haveria contradição e toda mudança seria impossível.
Então, que uns trabalhadores ganhem 10 mil e outros 1 real, ou que uns tenham uma cultura (ou estilo de vida, ou raça ou gênero...) e outros tenham outra "oposta", esse é o status quo que importa à classe dominante estabelecer e estimular, para que seus escravos se massacrem por "méritos" e se sujeitem por "livre e espontânea vontade". Com isso, o que importa? Não holismos, espiritualidades, caridades, militâncias, auto-sacrifícios, culturas e identidades, sutilezas que só servem para definir estereótipos e culpar bodes expiatórios, mas exatamente o oposto: o materialismo egoísta e prático de resistir a se sacrificar por prêmios e chicoteamentos oferecidos pelos poderosos... egoísmo "chão" que é a única base da solidariedade de classe e único fundamento para uma livre associação universal dos indivíduos (comunismo) que possa superar o capital, a mercadoria, o trabalho e o Estado.
É contra o trabalho que o proletariado, enquanto classe, age, isto é, por uma sociedade em que a atividade humana não assuma mais a forma de "trabalho", mas sim auto-realização material e auto-produção dos desejos, pensamentos e paixões de indivíduos livremente associados, graças ao fim da propriedade privada dos meios de vida. Isso é o que os proletários de todo o mundo e de todos os tempos querem, mesmo que estejam alienados de seus próprios interesses enquanto reproduzem a ideologia e o poder da classe proprietária. A realização desse desejo material é impedida pela má correlação de forças com a classe dominante, situação que os força a aceitar instituições mediadoras (sindicatos, partidos políticos, ongs...), reduzir a luta e "conversar" com a burguesia, para ao menos trabalhar o mínimo possível pelo máximo possível de meios de consumo (reformismo). Mas o menor acidente pode virar essa correlação de forças de uma vez por todas...
Humanaesfera, janeiro de 2015
quarta-feira, 10 de dezembro de 2014
A autonomia é favorecida pelas lutas identitárias?
Sem dúvida é essencial a solidariedade entre mulheres (ou negros), se acolhendo mutuamente, se reconhecendo e compartilhando os problemas que só elas (ou eles) sofrem e modos de se contrapor a eles. Porém, fechadas em si mesmas, isto é, enquanto lutas identitárias, elas são necessariamente punitivistas e como tais meramente reivindicam o reforço do aparato repressivo do Estado, quando não a repressão direta ganguista ("escrachos"). Por exemplo, na prática o que o feminismo identitário propõe para transformar a sociedade? Mais repressão. A repressão é a única praxis social possível das lutas identitárias. Não estou dizendo que elas poderiam exigir outra coisa fora a repressão, mas sim que não se pode esperar das lutas identitárias, enquanto tais, a menor possibilidade de ir além do status quo, no qual a repressão (recompensas e punições) é a única praxis possível.
As mulheres são a esmagadora maioria dos que ganham um salário mínimo ou menos no Brasil. E são elas que são a maioria dos que continuam ganhando a mesma coisa pelo resto de suas vidas... Como tratar disso? Há duas maneiras. Uma é pela via identitária e consiste simplesmente em protestar por novas leis e por fortalecer ainda mais a repressão para implementá-las, "empoderando" ainda mais a classe dominante. A outra é pela solidariedade que surge pela confiança mútua entre homens e mulheres, negros e brancos, que é o único modo de romper o poder da classe dominante e seu aparato repressivo, confiança mútua fundada justo na dissolução de privilégios (de sexo, raça, etnia...), confiança na solidariedade dos outros se alguém sofrer essas violências identitárias. Obviamente esta é uma perspectiva de classe, de autonomia do proletariado. (Aliás, "privilégio" vem de "privus legis" - lei privada. )
É claro que no contexto "dado" de desconfiança e competição generalizada em que sobrevivemos, nesta guerra de todos contra todos em que o apelo a uma violência ainda mais ameaçadora (gangue, gerente, polícia e/ou Estado) é sempre a única "garantia", os identitaristas sempre argumentarão que é uma "ingenuidade hipócrita" esperar encontrar solidariedade e confiança mútua entre os proletários, ou esperar que eles recusem suas migalhas de privilégios ("meritocracia"). Os identitaristas tem razão, pois diante do sofrimento da violência identitária, não há tempo para esperar a solidariedade ainda hipotética de classe, não restando saída exceto apelar à classe dominante (ao poder) como único recurso disponível para reduzir o sofrimento.
Porém, esse contexto, esse status quo, é insuportável e absurdo. Verdadeira hipocrisia é aceitá-lo. É preciso buscar tornar materialmente sem sentido o apelo à "violência mais ameaçadora" (gangue, gerente, polícia e/ou Estado). E, para isso, não se trata de defender "fatos", mas de afirmar uma posição (que não é uma "militância" ou "trabalho de base", que sempre desembocam em ganguismo, mas, pelo contrário, relações de igual para igual no cotidiano, na rua, no trabalho, no ônibus): favorecer a solidariedade, a confiança mútua, a recusa à privilégios, propor "a cada um conforme suas necessidades" contra a competição (minando a correspondente "meritocracia", método de dominação daqueles que detém a "violência mais ameaçadora", ou seja, a classe dominante), ou seja, favorecer tudo que contribua para a autonomia do proletariado, e o "desapoderameno" da classe dominante...
Humanaesfera, dezembro de 2014
Obs.: As lutas identitárias (mulheres, negros, consumidores, etnias, jovens e inclusive os agrupamentos militantes ...) pretendem existir fora da esfera da produção. Mas qualquer coisa que se dê fora da produção é uma coisa que não veio a ser, isto é, que não se produz, que é como uma forma eterna platônica, uma coisa dada de uma vez para sempre – em suma, é a velha reificação. Logo, toda luta que supõe defender algo fora da produção é, por esta razão, reificante – e este é o caso de todas as lutas identitárias. Considerar tudo em sua produção foi realmente a grande sacada de Marx, em radical contraposição a marxistas e anarquistas, que se agarram a suas identidades “puro-sangue”, suas militâncias e suas doutrinas.
Assim, por exemplo, a opressão das mulheres só pode ser mesmo combatida na esfera da produção, transformando as condições de existência materiais em que as mulheres são praticamente constrangidas a se sujeitar. A opressão das mulheres jamais terminará enquanto a mulher for afirmada como uma identidade contra outra(s) identidade(s) (isso só leva ao punitivismo, ou seja, à pura irracionalidade, à adesão à violência do poder), mas apenas se elas se libertam dessa reificação, ao transformarem (junto com todos nós) suas condições de existência de modo a produzirem a si mesmas livremente, o que evidentemente envolve uma luta geral para produzir as condições de existência de uma livre associação universal na qual a individualidade livre possa se desenvolver, para sempre. (O proletariado é definido como aquele a quem a produção é privada – desse modo, quando ele toma a produção, dissolve todas as identidades, inclusive a dele mesmo).
humanaesfera, dezembro de 2014
Sobre como podemos efetivar concretamente a emancipação feminina, Contra o familismo novo e velho - abaixo a família! (2015)
Sobre como podemos efetivar concretamente a emancipação feminina, Contra o familismo novo e velho - abaixo a família! (2015)
Continuação dessas reflexões:
Contra as recompensas e punições (contra a meritocracia, contra a coerção) (2014)
Autonomia, espiral de violências e apelo à força (i.e. à classe dominante) (2015)
Autonomia e cotidiano - Espinosa e o imperativo de Kant: "Tratar os outros e a si mesmo
como fins, jamais como meios"(2015)
Propriedade privada, escassez e democracia (2014)
Contra as recompensas e punições (contra a meritocracia, contra a coerção) (2014)
Autonomia, espiral de violências e apelo à força (i.e. à classe dominante) (2015)
Autonomia e cotidiano - Espinosa e o imperativo de Kant: "Tratar os outros e a si mesmo
como fins, jamais como meios"(2015)
Propriedade privada, escassez e democracia (2014)
sábado, 29 de novembro de 2014
Greve e produção livre
Dado que:
a) as greves nos serviços deixam mais em apuros o resto do proletariado do que os próprios patrões. Por exemplo, na saúde, nos transportes (de cargas e passageiros), supermercados, etc.
b) isso acarreta que o resto do proletariado tende a considerar estas greves não como afirmações de sua classe, mas de interesses corporativos, pequeno-burgueses, mesquinhos. (Apenas muito indiretamente, por uma longa e tortuosa cadeia de raciocínios, alguns proletários chegam à conclusão de que os apuros são efeito colateral de uma luta que pode beneficiar a todos.)
c) a greve, além disso, é, há cem anos, um método de luta mais do que domesticado pelos patrões e pelo Estado, através dos sindicatos. E mesmo contra os sindicatos (greves selvagens), as reivindicações das greves, se atendidas, são logo ultrapassadas, por exemplo pela inflação, e por incessantes e permanentes represálias patronais, etc. (Além disso, hoje, praticamente todos os patrões praticam "diversificação de investimentos", isto é, cada um investe simultaneamente em muitas outras empresas, ações, bolsa, outros países etc de modo que mal são afetados pela greve.)
Frente a tudo isso, defendemos:
1) a superação da greve pela tática da produção livre, gratuita;
2) a abertura dos meios de produção para a população da cidade, chamando-a para decidir o que fazer e participar da produção (tornando sem significado as palavras "emprego", "desemprego" e "empresa"). Isso, num único ato, reduz a jornada de trabalho e alivia o resto do proletariado dos apuros impostos pelos proprietários (desemprego, necessidades insatisfeitas e o terrorismo empreendedorista);
3) produções que se revelarem escassas serão submetidas à decisão democrática da população. Porque a escassez causa conflitos (escasso é o que não é suficiente para todos os que desejam, o que causa mesquinhez e propriedade privada) que precisam ser resolvidos - por exemplo, é preciso decidir se é justo que uma produção deva atender primeiro os necessitados, ou se ela deve atender a população mediante outros critérios considerado justos (por ex., sorteio, repartição igualitária, jogos, distribuição conforme os mais necessitados, ou conforme a participação em alguma atividade específica vista como necessária por todos, ou mesmo armazenar para suportar algum período de dificuldade... ou ainda simplesmente quem chegar primeiro... as possibilidades de critérios são inúmeras);
4) produções que se revelarem abundantes, serão desfrutadas à maneira comunista: "Ninguém vota; nunca a maioria e nem a minoria fazem a lei. Se esta ou aquela proposta reúne um número suficiente para executá-la, quer seja a maioria ou a minoria, então a proposta será executada, se for esta a vontade daqueles que aderem a ela." (A Humanisfera, 1857). Com isso, supera-se, juntamente com o consumo espetacular, o próprio trabalho enquanto tal.
Dinâmica:
Estes pontos podem ser compreendidos como etapas condicionadas à difusão exponencial da luta. Se, ao efetuar o ponto 1, se perceber uma adesão crescente do resto proletariado à mesma tática de produção livre contra os patrões, passa-se ao 2º, 3º e 4º pontos. Simultaneamente, há a necessidade de espalhar (quebrando o "segredo industrial") o conhecimento do modo como a produção e os fluxos materiais são interligados e interdependentes mundialmente. Com base nisso, mostra-se a necessidade de que o resto do proletariado de outras cidades e outros continentes passe a adotar a mesma tática. O proletariado se constitui como classe quando ultrapassa todas as fronteiras (nacionais, empresariais e identitárias) inventadas como "fatos naturais" pelos patrões e privilegiados, numa luta internacionalista contra eles (luta capaz de acabar com todas as guerras).
Objetivo:
A finalidade da produção livre é a solidariedade imediata do resto do proletariado, favorecendo que se adote a mesma tática por toda parte. O proletariado, ao constituir-se como classe autônoma, força, por si só, que a classe dominante e os políticos (de esquerda ou direita, é indiferente) concedam muito mais do que se pode imaginar agora. Além disso, se se tornar uma situação sem retorno, permanente e generalizada, é, por si mesmo, um novo modo de produção no qual os desejos, as necessidades e as capacidades humanas determinam, em livre associação, a produção. Um modo de produção que consiste na auto-realização e auto-satisfação dos indivíduos livremente associados sem fronteiras torna completamente obsoleto o mercado de trabalho (e, consequentemente, torna obsoleto o capitalismo, seja particular, como dos EUA, ou estatal, como Cuba). Ou seja, desaparecem as condições materiais que forçavam a população a aceitar se arrastar por salários em troca da alienação de suas capacidades - de pensar, sentir e agir - ao comando e arbítrio dos donos do dinheiro (os capitalistas: burocratas, empresários, políticos...).
Humanaesfera, novembro de 2014
[Para uma maneira como a concretização desta proposta pode funcionar indefinidamente até que os poderosos se rendam, veja: Contra a metafísica da escassez, copiosidade prática ]

Bibliografia (com links):
-A reprodução da vida quotidiana, por Fredy Perlman
-Abolição do trabalho e a questão do circuito produtivo global no comunismo
-Eclipse e Reemergência do Movimento Comunista (1972), por Jean Barrot e François Martin
- Dois textos contra o trabalho (1979 e 1982)
-Le Humanisphère (1857), por Joseph Déjacque
-Anarquia e Comunismo (1880), por Carlo Cafiero
-Marx comunista individualista! (trechos sobre o indivíduo em Marx) (Karl Marx, 1843-1858) e Comentários sobre James Mill, por Karl Marx
-What is Dadaism and what does it want in Germany? (1919)
Continuação das reflexões deste texto:
- Breve crítica à idéia de economia paralela anticapitalista
- Condições de existência universalmente interconectadas
- A logística e a fábrica sem muros (Brian Ashton)
- Condições de existência universalmente interconectadas
- A logística e a fábrica sem muros (Brian Ashton)
- Serviços: subsunção formal (Endnotes)
Perspectiva prática:
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