terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Trechos dos Comentários sobre Os Elementos de Economia Política de James Mill, por Karl Marx (1844)

Tradução para o português por Humanaesfera a partir do inglês ( fonte: Comments on James Mill by Karl Marx ) e do espanhol (fonte: o livro Páginas Malditas de Marx). Aparentemente, os comentários sobre James Mill (também conhecidos como Notas sobre James Mill) por Marx nunca foram  publicados em português. 


"Só o que é monopolizável tem um preço." (Comentário de Karl Marx ao Esboço de Economia Política de Friedrich Engels, 1844)

"[...] A característica originária, determinante, da propriedade privada é o monopólio, portanto, quando ela cria uma constituição política, é a do monopólio. O monopólio consumado é a concorrência."

"O movimento mediador do homem que troca não é um movimento social, humano, não é uma relação humana, mas a relação abstrata da propriedade privada com a propriedade privada, e essa relação abstrata é o valor cuja existência em ato como valor constitui o dinheiro. A relação social da propriedade privada com a propriedade privada já é uma relação em que a propriedade privada é alienada de si mesma. A forma de existência para si dessa relação, o dinheiro, é, portanto, a alienação da propriedade privada, a abstração de sua natureza pessoal, específica."

"Em ambos os lados, portanto, a troca é necessariamente mediada pelo objeto que cada lado produz e possui. A relação ideal com os respectivos objetos da nossa produção é, evidentemente, a necessidade mútua. Mas a relação real, verdadeira, que realmente ocorre e produz efeitos, é apenas a posse mutuamente exclusiva de nossos respectivos produtos. O que dá à tua necessidade de meu artigo valor, importância e efetividade para mim é apenas o teu objeto como o equivalente do meu objeto. Nosso produto recíproco, portanto, é o meio, o mediador, o instrumento, o poder reconhecido de nossas necessidades mútuas. Tua demanda e o equivalente de tua posse, portanto, são para mim termos que são iguais em importância e validade, e tua demanda só adquire um significado, devido a ter um efeito, quando ela tem um significado e efeito em relação a mim. Como um mero ser humano, sem este instrumento, tua demanda é uma aspiração frustrada de tua parte e uma ideia que não existe para mim. Como um ser humano, portanto, você não tem nenhuma relação com meu objeto, porque eu mesmo não tenho nenhuma relação humana com ele. Mas o meio é o verdadeiro poder sobre o objeto e, portanto, nós consideramos mutuamente nossos produtos como o poder de cada um sobre o outro e sobre nós mesmos. Ou seja, o nosso próprio produto se levantou contra nós; ele parecia ser nossa propriedade, mas de fato nós somos propriedade dele. Nós mesmos somos excluídos da verdadeira propriedade porque nossa propriedade exclui os outros homens.

A única linguagem inteligível em que conversamos um com o outro consiste nos nossos objetos em suas relações entre si. Nós não entendemos uma linguagem humana, e ela permanece sem efeito. Ela seria considerada e sentida como um pedido, uma súplica, e, portanto, uma humilhação, e, conseqüentemente, pronunciada com um sentimento de vergonha, de degradação. Enquanto que a outra parte a receberia como descaramento ou loucura e rejeitada como tal. Estamos de tal forma mutuamente estranhados do ser humano que a sua linguagem direta nos parece uma violação da dignidade humana, ao passo que a linguagem estranhada dos valores coisificados parece a afirmação justa da dignidade humana, auto-confiante e consciente de si."

"Nosso valor mútuo é para nós o valor de nossos mútuos objetos. Portanto, para nós o próprio homem é reciprocamente sem qualquer valor.

Suponhamos que tivéssemos produzido como seres humanos. Cada um de nós afirmaria duplamente a si mesmo e a outra pessoa:

1) Na minha produção, eu teria tornado objetiva a minha individualidade, o seu caráter específico e, portanto, não só teria desfrutado ao expressar minha vida individual durante a atividade, mas também, ao ver o objeto, eu teria o prazer individual de saber que a minha personalidade é objetiva, perceptível aos sentidos e, portanto, um poder fora de qualquer dúvida.
2) O teu desfrute ou uso de meu produto me proporcionaria diretamente o prazer de me saber satisfazendo com minha atividade uma necessidade humana, isto é, de ter tornado objetivo o ser humano, e de ter, assim, criado um objeto correspondente à necessidade de outro ser humano.
3) Eu teria sido para você o mediador entre você e o gênero humano e, portanto, seria reconhecido e sentido por você como um preenchimento da tua própria natureza essencial e como uma parte necessária de você mesmo e, consequentemente, eu me sentiria confirmado tanto no teu pensamento como no teu amor.
4) Teria tido a alegria de, na expressão individual de minha vida, eu ter criado diretamente a expressão de tua vida, e, portanto, de na minha atividade individual, eu ter diretamente confirmado e realizado o meu verdadeiro ser, o meu ser humano, meu ser multilateral em comum universal [gemeinwesen].

Nossas produções seriam múltiplos espelhos em que veríamos refletida a nossa natureza essencial.

Esta relação além disso seria recíproca; o que ocorre do meu lado ocorreria do teu.

Vamos analisar os vários fatores vistos em nossa hipótese:

Minha atividade seria uma livre manifestação da vida, portanto, um desfrute da vida. Ao contrário, pressupondo a propriedade privada, a minha atividade é uma alienação da vida, pois eu trabalho para viver, para adquirir meios de vida. Meu trabalho não é a minha vida.
Em segundo lugar, a natureza específica da minha individualidade, portanto, iria se afirmar na minha atividade, uma vez que esta seria uma afirmação da minha vida individual. A atividade portanto seria propriedade verdadeira, ativa. Em contraste, pressupondo a propriedade privada, minha individualidade é alienada a tal ponto que essa atividade torna-se, ao contrário, odiosa para mim, um suplício, e mais que atividade, uma aparência dela; daí que é uma atividade forçada, imposta a mim mediante uma necessidade extrínseca e acidental, e não por uma necessidade interior e determinada."


Veja também mais trechos de outros clássicos:







sábado, 15 de fevereiro de 2014

O mito do socialismo cubano (Kaos, 1997)

Texto publicado em KAOS #0 08/97 (boletim aperiódico e experimental do Grupo Autonomia).

"O estado, qualquer que seja sua forma, é apenas uma máquina a serviço do capital, o estado dos capitalistas." Roig de San Martin – El Produtor de La Habana, 1888.

No mundo inteiro, o estado é o instrumento que o capital utiliza para reproduzir sua dominação. Os marxistas-leninistas de variadas genealogias e tinturas insistem em apresentar o regime cubano como uma exceção. 

A política castrista, mera variante do stalinismo, gira em torno do estado. Em Cuba, o estado se apresenta como popular, operário, socialista, defensor dos interesses dos trabalhadores, distribuidor da riqueza e encarregado das mudanças no sentido do comunismo. 

Mas a verdadeira revolução nada tem a ver com um 'governo operário'. O objetivo da luta do proletariado não é tomar o poder político, nem apoderar-se do estado para utilizá-lo em seu interesse. O estado, seja qual for a classe dominante, continuará reforçando o capital. Pretender utilizar o estado para servir ao proletariado é uma manobra reacionária da esquerda do capital. O estado nada mais é do que o capital concentrado, centralizado para reproduzir o sistema universal de escravidão assalariada. 

Além de não ser exceção, Cuba é uma confirmação da regra. O estado cubano também exerce o monopólio da violência para assegurar a exploração e a opressão sobre os proletários, colocando-os à disposição do capital. O desarmamento do proletariado é um exemplo ilustrativo. O fato de que somente ao exército e à polícia seja permitido ter armas faz com que os trabalhadores se sintam permanentemente coagidos. Toda e qualquer tentativa de auto-organização dos trabalhadores é brutalmente reprimida. 

Em Cuba, o ódio contra a escassez de gêneros de primeira necessidade e a miséria vigente é canalizada contra o imperialismo yankee e o bloqueio econômico, ou, eventualmente, a corrupção da burocracia. Nada de novo sob o sol: o descalabro da economia russa foi, durante muitos anos, apresentado como efeito da corrupção e da burocracia. Aqueles que faziam tais denúncias não eram apenas os trotskistas – esses infatigáveis 'apoiadores críticos' de todos os estados capitalistas tingidos de vermelho... Periodicamente, os membros do comitê central do partido-estado bolchevique também denunciavam, cumprindo o ritual leninista da crítica & autocrítica. Em resumo, tem-se feito todo o possível para ocultar que o verdadeiro mal é a sociedade capitalista e sua organização política: o estado. 

O proletário cubano se encontra, como qualquer outro, separado de todo meio de vida, de todo o meio de produção necessário para viver. Em Cuba, como em qualquer outro país latino-americano e do resto do mundo, o trabalhador enfrenta duras condições de sobrevivência, concentradas como forças alheias e hostis, inteiramente privado (propriedade privada significa exatamente isto!) de seus meios de vida. No latifúndio de Fidel Castro, a propriedade privada não foi abolida, mas concentrada e metamorfoseada juridicamente em propriedade estatal. 

Ao contrário do que dizem os apoiadores críticos e outros defensores do regime castrista, a revolução social é a destruição completa do mundo burguês e de suas reformas, dirigidas pelo estado e no interesse do capital, temperadas com amenas críticas à burocracia. Efetivamente a revolução social não consiste, antes, em conquistar a direção do estado para, depois, realizar uma série de reformas sócio-econômicas. Ao contrário, desde o início, a revolução social consiste em destruir o poder total (militar, econômico, político) da burguesia; em criar a comunidade humana mundial, baseada nas necessidades humanas e não nas necessidades do capital.





domingo, 2 de fevereiro de 2014

Pequena Ética (A Vida, 1914)

"[...] aqueles pendores chamados altruístas no fundo nada mais são do que puro egoísmo.

Quem dá o último pedaço de pão para matar a fome a um semelhante, quem deixa a última coberta para abrigar a outrem prestes a morrer de frio, pratica esses atos, que o positivismo chama altruístas, porque sentirá maior prazer em matar a fome do faminto e em abrigar o outro do frio, do que se ele mesmo comesse esse pão e se abrigasse com essa coberta. Da mesma forma, quem arrisca a vida para salvar a de outrem, o faz para evitar o sofrimento que lhe resultaria se não praticasse essa ação. Daí resulta que agimos sempre para sentirmos um prazer ou para evitarmos um sofrimento.

Atribua-se esses atos ao egoísmo ou ao altruísmo, isso pouco importa, porque a verdade é que, no fundo, tudo redunda em egoísmo.

[...] É por amor aos nossos semelhantes que somos anarquistas, é por amor à nossa espécie, a nós mesmos e à sociedade, que combatemos a injustiça, que odiamos os exploradores e os opressores dos nossos semelhantes: e, se odiamos é porque o ódio é também uma manifestação de amor. Quem odeia alguém ou alguma coisa é porque esse alguém ou essa coisa prejudica aquilo que amamos. "
A Vida, publicação mensal anarquista, ano I nº2, Rio de Janeiro, 31 de Dezembro de 1914
(grato a Ulisses)

Outros textos sobre ética

Contra as recompensas e punições (contra a meritocracia, contra a coerção) (2014)

Autonomia, espiral de violências e apelo à força (i.e. à classe dominante) (2015)

Autonomia e cotidiano - Espinosa e o imperativo de Kant: "Tratar os outros e a si mesmo como fins, jamais como meios" (2015)

Algumas implicações epistemológicas e éticas do materialismo(2011)

Materialismo (2014)

Pequena crítica antimoralista da dominação (crítica à idéia de "servidão voluntária") (2011)

Propriedade privada, escassez e democracia (2014)

segunda-feira, 8 de julho de 2013

El empleo







"Uma mercadoria, portanto, é algo misterioso simplesmente porque nela o caráter social do trabalho dos homens aparece a eles como uma característica objetiva estampada no produto deste trabalho; porque a relação dos produtores com a soma total de seu próprio trabalho é apresentada a eles como uma relação social que existe não entre eles, mas entre os produtos de seu trabalho." (Marx, O Capital I)

domingo, 23 de junho de 2013

Os interesses que estão em jogo nos protestos das últimas semanas (sobre junho de 2013)

Os interesses que estão em jogo:

1) Classe dominante: dividida entre esquerda do capital e direita do capital, busca polarizar os protestos em torno de temas (por ex., "Estado versus mercado", "empreendedorismo" vs "benefícios sociais" pelo estado, frente única antifascista vs fascismo) necessariamente espetaculares, isto é, que escamoteiam, como era de se esperar, o cotidiano da escravidão do salário (inclusive as forças repressivas altamente mortíferas que garantem a continuidade dessa escravidão) da quase totalidade da população.

2) Proletariado: embora os protestos tenham se iniciado com um objetivo que tem imediato interesse para os proletários (preço dos transportes), e embora tenham sido vitoriosos a esse respeito (reversão dos preços), o proletariado continua privado de meios de vida (pelo aparato repressivo,  o Estado), rastejando por empregos, acuado nas empresas, submetido aos patrões, e inconsciente de sua própria força colossal e internacionalista. Sem sua luta (a luta de classes), todo protesto é necessariamente "revolta dos coxinhas", mesmo que desfilem trabalhadores cansados e mal vestidos nas passarelas do espetáculo. Enquanto o proletariado não surgir como classe, os manifestantes serão necessariamente joguetes das polarizações espetaculares dadas pela esquerda do capital e pela direita do capital.

3) Classe média: capitalistas e proletários são todos "classe média" (média alta alta, média alta média, média média média, média média baixa, média baixa baixa....), que é a identidade individual que o capital fornece e que é necessária para o bom andamento do capital, assim como a "nacionalidade". A "classe média" compra e oferece mercadorias "voluntariamente", em "pé de igualdade", mesmo que se submeta à venda da própria carne e pensamento humanos no mercado de trabalho. Ou seja, a classe média não existe exceto na imaginação. Um possível resultado da repressão brutal nas manifestações é a constatação por muitos mauricinhos, almofadinhas, coxinhas, de que a classe média não existe de fato, já que essa repressão pode frustrar a ilusão de que existe o "brasileiro" defendido incondicionalmente pela polícia (e, mais ridículo, pelo idolatrado BOPE). Mas não tenhamos ilusões, pois a classe dominante (esquerda e direita) sabe que não pode se sustentar sem insuflar na população divisões que se apoiam na união da fantasiosa "classe média" ("gente do bem") com a repressão contra algum bode expiatório, tanto à esquerda e à direita.

Humanaesfera 23/06/2013

domingo, 24 de março de 2013

A logística e a fábrica sem muros


por Brian Ashton  (2006)
(Apresentação   do estudo Logistics and The Factory Without Walls.  Tradução por Humanaesfera)

  

 A Tecnologia da Informação (TI) permite ao capital coordenar a produção de mercadorias como nunca antes. É uma aparente contradição: a produção está fragmentada por todo o mundo, e as partes, fabricadas aqui e ali, são transportadas por milhares de quilômetros para serem montadas, mas esse processo produz mais mercadorias do que nunca. O capital renovou-se mais uma vez, e, no processo, deixou a esquerda em crise. Enquanto os intelectuais falam em trabalho imaterial e precariedade, o capital se ocupa em dar os últimos retoques a seu novo sistema de produção. Ao mesmo tempo, porém, ele está criando um sistema de comunicação que capacita os trabalhadores  a interagir entre si para além das fronteiras nacionais e continentes. Quase todo trabalhador é hoje um trabalhador de TI, e é a potencialidade que surge disso que coloca o capital sob a maior ameaça. Não se trata de saber se o trabalho é imaterial ou material. Os intelectuais deveriam parar de criar hierarquias de trabalhadores, como operário massa e operário social, trabalhador imaterial e precariado. Seria melhor se buscassem uma compreensão adequada de como a cadeia de suprimentos - que alguns capitalistas chamam de empresa virtual - funciona hoje. Conheça o seu inimigo, aconselha Sun Tzu em A Arte da Guerra.

Uma equipe de pesquisadores da Escola de Negócios de Cardiff [Cardiff Business School] estudou a cadeia de ações necessária para fazer uma lata de coca-cola. Todo o processo, começando na mina de bauxita na Austrália e terminando com a lata na geladeira de alguém, levou nada menos do que 319 dias. Desse tempo, apenas três horas foram gastas na fabricação, e todo o restante no transporte e armazenamento. Um anúncio da companhia de navegação P&O Nedlloyd afirma que a jornada de um único contêiner pode envolver literalmente uma centena de pessoas. Isso abrange desde gente que faz o carregamento dos contêineres até o pessoal de TI, passando pelos planejadores de logística e os estivadores, os motoristas e os trabalhadores do armazém, o funcionário da alfândega e o capitão do navio. Tudo isso põe em destaque tempo e trabalho. O controle desses dois fatores é a principal preocupação dos encarregados do gerenciamento das cadeias de suprimentos (também chamadas cadeia de fornecimento, cadeia de abastecimento, cadeia logística, rede logística,  supply chain).

Conforme explica o referido estudo da Escola de Negócios de Cardiff, a logística é um fator determinante na cadeia de suprimentos. Segundo o Conselho de Gerenciamento Logístico [Council of Logistics Management], a logística é:  o processo de planejar, implementar e controlar o eficiente e eficaz fluxo e estoque de matérias-primas, inventário de processo, produtos finais, desde a extração/produção até o ponto de consumo.

Nos últimos vinte anos, houve uma revolução na área da logística, uma revolução que parece ter passado despercebida pela esquerda autônoma. Essa reviravolta decorre da aplicação de tecnologia à mundialização da produção de mercadorias. Ou, como disse Marx:


"Uma mudança radical no modo de produção em uma esfera da indústria envolve uma mudança correspondente  em outras esferas. Isto ocorre  antes de tudo  naqueles ramos da indústria que, embora isolados pela divisão social do trabalho de modo que cada um deles produz uma mercadoria independente, são, porém, entrelaçados como fases separadas de um mesmos processo global.[...]

Mas sobretudo a revolução nos modos de produção da indústria e da agricultura tornou necessária uma revolução nas condições gerais do processo social de produção, ou seja, nos meios de comunicação e transporte.[...] 

Os meios de comunicação e transporte eram tão intrinsecamente inadequados para os requisitos produtivos do período manufatureiro, com a sua divisão ampliada do trabalho social, sua concentração dos instrumentos de trabalho e operários e seus mercados coloniais, que eles foram de fato revolucionados. [..] E também no período da ´indústria moderna´ os meios de comunicação e transporte herdados do período manufatureiro se tornaram obstáculos." O Capital, vol. 1 (Capítulo: Maquinaria e Grande Industria).

O marxismo autonomista vê a luta dos trabalhadores como o motor do desenvolvimento capitalista. Nos anos 70, o capital começou a atacar os núcleos de poder de classe que alguns chamavam de operário-massa. Ele atacou em três frentes. Buscou quebrar a rigidez imposta à produção pela militância de classe usando a tecnologia para desqualificar os trabalhadores e reconfigurar o layout da fábrica. Passou a deslocar parte da capacidade produtiva para fábricas menores, sub-contratando o trabalho de outras empresas (terceirização). E ele usou o Estado para impor a crise sobre a classe trabalhadora. Ele teve tanto êxito em seu projeto que, desde os anos 80, a classe trabalhadora sofre derrota após derrota. A composição política forjada na batalha foi desmantelada e descartada. Parece, para este velho operário da indústria automobilística que vos fala, que não foi só o capital que nos descartou, mas que um grande número de intelectuais comunistas viraram as costas para nós também. A conseqüência é que agora temos uma geração de anti-capitalistas que não sabe como interagir com a classe trabalhadora. Apesar de estarem rodeados pela classe que eles parecem estar mais interessados, eles vão à selva mexicana, ou preferem ir à Gênova e Seattle e dar à máquina do Estado oportunidades para treinar controle de multidão.

Nos anos 60 e 70 havia uma constante interação entre militantes da classe trabalhadora e a esquerda emergindo das universidades. Nem sempre isso foi positivo, mas onde houve uma sinergia, a teoria e a prática tinham alguma conexão. Aprendemos uns com os outros e coisas ótimas foram produzidas. Aqui na Grã-Bretanha, a obra publicada de Big Flame e Solidarity é prova disso. Na Itália, Potere Operaio e Lotta Continua ajudaram a desenvolver uma compreensão dos pontos fortes e fracos da composição do capital. Hoje, podemos falar de um sistema de produção globalizado, mas quantos de nós pode descrever como ele funciona? Como é que a lata de coca vai de A a Z? Nos anos 70 nós sabíamos como a fábrica e os sistemas de transporte funcionavam e era desse conhecimento que vinha nossa capacidade de combater a capital. Hoje, é certamente difícil entender exatamente como as coisas são feitas, mas é imperativo que ganhemos um conhecimento profundo dos processos de produção e logística, das cadeias de suprimento do capital, ou, dito de outra forma, das fábricas sem muros. Alguns capitalistas vêem a cadeia de fornecimento como uma fábrica virtual e querem que os trabalhadores se remetam à cadeia de fornecimento, ao invés de perceberem-se como empregados das empresas que integram essa cadeia.

A composição da classe trabalhadora vem da luta, mas antes requer que os capitalistas reúnam trabalhadores para impor uma disciplina de produção. No presente período, só podemos entender como a disciplina é imposta mediante uma abordagem global. A composição técnica do capital está difusa por todo o mundo, assim como os trabalhadores da cadeia de suprimento de mercadorias. Sob tal sistema, a disciplina é imposta pela aplicação do kaizen (melhoria contínua) e  da entrega just-in-time combinados com a aplicação de tecnologias da informação para policiar a produtividade dos trabalhadores.

Isso é reforçado pela mudança no modo como as mercadorias são movimentadas pelo sistema. O capital passou de uma economia de empurro [push economy] para uma economia de empuxo [pull economy], em outras palavras, está fazendo as coisas enquanto elas são demandadas, ao invés de fazê-las conforme uma demanda prevista. O lema da economia de empuxo é: "Se não foi vendido, não produza." A economia de empuxo dá às grandes cadeias de supermercados um poder enorme, porque elas controlam a informação que “puxa” as mercadorias através da cadeia de fornecimento. Quando você compra uma lata de feijão no supermercado Asda, a informação é transmitida para todos que estão ao longo da cadeia, para que outra lata de feijão seja produzida. Claro, milhões dessas peças de informação voam pelo ciberespaço a cada instante. Um dos efeitos da economia de empuxo é o aumento do trabalho precário: se a demanda diminuir, demita trabalhadores. As empresas têm programas de computador que calculam o número de trabalhadores necessários para satisfazer uma determinada demanda,  e “puxa” trabalhadores de um reservatório de precariedade, muitas vezes disponibilizado por agências de emprego. E cada vez mais elas terceirizam atividades acessórias subcontratando empresas de serviços;  essa é uma das razões para a rápida proliferação da indústria logística nos últimos anos. A indústria automotiva está indo para o modelo “economia de empuxo”, o que é um dos motivos principais de os operários dessa indústria nos EUA estarem sendo atacados neste momento.

Se as cadeias de suprimento são espalhadas  pelo planeta e os níveis de estoque são reduzidos ao just-in-time, então, para completar o ciclo de acumulação, a aplicação da logística torna-se determinante. Ao mesmo tempo isso aumenta a possibilidade de luta efetiva da classe trabalhadora: quando os caminhoneiros da costa oeste dos EUA, há um ano,  fizeram greve, eles paralisaram as cadeias de fornecimento do Wal-Mart e de outras cadeias gigantes, provocando ondas de pânico em muitas salas de diretoria. A importância da logística não pode ser subestimada - tente imaginar a cadeia de fornecimento de qualquer produto sem o input logístico. A globalização da produção tem deixado muitos trabalhadores acreditando que eles não podem fazer nada sobre isso, e quando as empresas transferem a produção para a China ou a Índia, eles ficam hipnotizados pelas luzes do rolo compressor capitalista que os esmaga, mas esta aparente força do capital multinacional é de fato a sua fraqueza.

Historicamente, os operários da logística eram os mensageiros do pensamento radical e transportadores de notícias das lutas dos trabalhadores. Eles próprios, é claro, se envolveram em muitas batalhas. Nos últimos vinte anos, muitas dessas batalhas foram defensivas, lutas para salvar empregos e manter condições de trabalho. A retirada do Estado na gestão direta do setor de logística foi o catalisador de um ataque global que continua até hoje. O capital privado entrou em peso no ataque aos trabalhadores em toda a indústria. Ao mesmo tempo, estas empresas têm se empenhado num frenesi de fusões e aquisições, que resultaram no surgimento de empresas verdadeiramente mundiais que empregam muitos milhares de trabalhadores.

Pode-se ter uma idéia do tamanho dessas empresas a partir de dois exemplos: a United Parcel Services (UPS) e a Deutsche Post (DP). A UPS é uma empresa de 33,5 bilhões de dólares que opera em 200 países e emprega mais de 340.000 trabalhadores. Ela fornece logística/distribuição de transporte e fretagem, comércio internacional, serviços financeiros, mecanismos de correspondência financeira e serviços de consultoria. Ela cresceu se beneficiando de processos de subcontratação, que são comuns nesse setor, e através da aquisição de outras empresas. Ela faz grandes cartadas: comprou a transportadora Fritz por 450 milhões de dólares. A DP é parcialmente do governo alemão, que detém 41,6 por cento das ações. Estas serão vendidas a investidores institucionais nos próximos anos. A DP opera o serviço postal alemão, é dona da DHL, e no ano passado comprou a Exel, britânica. A própria Exel era uma empresa aquisitiva antes de ser comprada; ela já havia comprado a Tibbett & Britten, a sétima maior empresa de logística do mundo. Isto resultou em uma empresa que emprega mais de 103.000 pessoas. Não sei quantas pessoas trabalham para a DP, mas deve ser da ordem das centenas de milhares.

A fábrica de automóveis Jaguar em Halewood, em Merseyside, talvez possa nos dar uma idéia de como uma cadeia de suprimentos funciona e de como a logística se encaixa na cadeia. Em Halewood, a Ford fabricava o Escort e foi lá que este proletário que vos fala trabalhou por sete longos anos. A fábrica era considerada pela Ford uma pedra no sapato, e a ameaça de fechamento estava sempre pairando sobre ela. A Ford comprou a Jaguar e decidiu fabricar o carro Jaguar em Halewood. Ao mesmo tempo, decidiu alterar radicalmente as práticas de trabalho na fábrica. Ela trouxe uma empresa americana chamada Senn-Delaney para alterar a mentalidade da força de trabalho, e parece ter sido bem sucedida, porque Halewood é agora considerada a melhor fábrica de carros da Europa. Se tentassem isso  nos anos 70, o trabalho dessa empresa teria sido desafiado pela contra-informação da esquerda.

Quando eu trabalhava em Halewood na década de 70, havia 14 mil de nós empregados no local. Hoje a Jaguar emprega cerca de 2.800 pessoas, mas este número é enganoso, porque uma fatia considerável do trabalho foi transferida aos fornecedores que, por sua vez, repassam parte do trabalho para fornecedores menores. Numa cadeia de  suprimento, as empresas são classificados assim: Original Equipment Manufacturer (OEM), ou seja, a Jaguar; fornecedor de primeiro nível [First Tier Supplier], ou seja, a Bosch, os pequenos fornecedores são chamados de segundo nível, terceiro nível, etc. Quem conecta tudo são as empresas de logística. Em Halewood, a UCI Logística, subsidiária da empresa japonesa Nippon Yusen Kaisha (NYK), opera o conjunto logístico. Como fornecedora logística principal, a UCI é responsável pela logística de entrada [inbound logistics] em Halewood, e também pela logística interna da fábrica em si. Nos dias da Ford, a logística interna era realizada pelos próprios trabalhadores da Ford. O serviço de logística de entrada envolve uma operação da cadeia de suprimento,  na coleta de peças, partes e submontagens por toda a Europa,  usando em parte sua própria frota (da UCI Logística) e em parte a de sócias da UCI. O serviço de logística interna envolve descarregamento de peças, o movimento dos componentes para as áreas de armazenamento e sua disponibilização nas linhas de produção sem incorrer em estoques laterais. Também é tarefa da UCI garantir que, nas linhas, nunca um estoque lateral exceda o volume de duas horas estipulado pela Jaguar. São os trabalhadores da UCI que dirigem as empilhadeiras que transferem material por dentro da fábrica de Halewood.

Vejamos a logística de um determinado produto que chega em Halewood, da montagem de rodas e pneus. A UCI movimenta 500.000 montagens por ano em Halewood. O contrato inclui a logística externa para o suprimento de rodas de liga, da Itália para instalações da Pirelli no Reino Unido, e a entrega de montagens completas para Halewood, três vezes por dia, juntamente com a logística interna na fábrica da Jaguar. A UCI seleciona entre 12 tipos diferentes de montagens a partir de instruções automatizadas transmitidas pela Jaguar e entrega o produto no ponto de encaixe na fábrica. O operário massa não foi destruído,  mas reconfigurado.

O capital adquire poder a partir da extração de mais-valia, e a cadeia de suprimentos é a fábrica sem muros onde esse processo ocorre. No passado, os socialistas se organizavam e agitavam em torno dos centros de produção de mercadorias - pensemos na atividade realizada em torno da fábrica da Fiat Mirafiori, em Turim e os esforços de Big Flame em Dagenham e Halewood - mas esse tipo de atividade pode ser feita hoje? Se uma tal agitação ocorrer hoje,  terá de ser em uma escala global, mas há tecnologia para isso. O capital, ao se tornar planetário com suas cadeias de suprimento, está criando a oportunidade para uma luta mundial dos trabalhadores. Para que tenhamos êxito, é preciso conhecer como a composição atual do capital funciona. O artesão e o operário massa sabiam como o sistema produzia mercadorias; precisamos desenvolver esse conhecimento hoje.


(Brian Ashton <t.ashton EM merseymail.com> é ex-operário da indústria automobilista na Inglaterra que desenvolveu um interesse pela indústria logística quando apoiou os estivadores de Liverpool saqueados durante meados dos anos noventa.)

Ver também: 
A rede de lutas na Itália (Romano Alquati, anos 1970)

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